Os Estados Unidos estão às cegas. Artigo de Paulo Ghiraldelli

Foto: Molly Riley/Flickr

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13 Janeiro 2026

Trump não é um novo imperialista, mas o sintoma de uma potência às cegas: onde o capital financeiro desterrou as elites e a política virou um espetáculo vazio de projeto.

A opinião é de Paulo Ghiraldelli, filósofo, youtuber e escritor, é pós-doutor em Medicina Social pela UERJ. Autor, entre outros livros, de Capitalismo 4.0: sociedades e subjetividades (CEFA Editorial). O artigo é publicado por A Terra é Redonda, 12-01-2026.

Eis o artigo.

1.

Quando não sabemos direito o que dizer de um evento, nossa tendência é assimilá-lo ao que já ocorreu. Andamos para frente, mas olhando demais para o retrovisor. Isso provoca acidentes. A história só é mestra dos que não teimam em ser asnos com cenouras amarradas em si mesmos e que pendem em frente de suas caras.

A história nunca se repete, nem mesmo como farsa. A repetição dela, aos olhos de alguém, se dá por conta da cenoura pendurada. Sob a égide da cenoura estão querendo manter de toda maneira o termo “imperialismo” para as ações de Donald Trump. Alguns já perceberam que essa é uma operação intelectual que não dá certo. Então criam um remendo. Como não possuem tempo ou desejo de estudar o caso, saem pela porta costumeira: “neo-imperialismo”. “Neo” é um pequeno termo que ajeita tudo quando não se sabe nada.

Por essa saída, tudo que Donald Trump fala é tomado como o que vai acontecer segundo um plano americano. Assim, segundo esse modo de interpretar, que faz do mundo o berço do tédio e dos sabichões em história, a tarefa é repor frases: “volta da Doutrina Monroe”, “busca pelo Petróleo”, “nova onda colonialista” etc. É uma maneira fácil de não querer olhar para aos menos duas mudanças no mundo, e que se manifestam nos Estados Unidos de modo agudo, dado o tamanho e a importância do país.

Primeira mudança: hegemonia da lógica do capitalismo financeiro sobre todo o capitalismo, com o dinheiro magnético arrastando as elites para longe das empresas que, agora, nem mais são suas; essas elites tornam-se desinteressadas a respeito de seus países de origem. Cria-se a burguesia sem burgo. Burguesia sem burgo nem burguesia é!

Segunda mudança, decorrente da primeira: na falta de um projeto das elites para seu países, a política nacional se torna algo que se pode empurrar com a barriga, e que então, não raro, cai nas mãos de pessoas que funcionam a partir de interesses pessoais muito particulares, completamente mesquinhos. Nasce o espaço para midiáticos sem vocação política, que compram partidos com dinheiro de suas famílias.

Essas mudanças se deram na esteira do pós-fordismo, na mudança da política para a biopolítica, na hegemonia do neoliberalismo e seus contrastes e profundas alterações no campo das subjetividades.

2.

Uma boa parte dos países está vivendo essa situação de amorfização. Todavia, temos de notar que tudo que ocorre no mundo acontece nos Estados Unidos de modo espalhafatoso. Karl Marx sabia desse protagonismo americano, embora não pensasse que isso se daria pelo vazio de lideranças e pela falcatrua de ideais.

Donald Trump é o espalhafato dessa condição de deterioração da atividade política. É a consagração dos Estados Unidos como potência que, a partir do fim do mandato de Bush I, já não tinha nenhuma pretensão imperialista. Não pode ter. Não tinha mais como se manter no registro que põe o Estado-nação na frente do dinheiro produzido pelo dinheiro.

Bush II não percebeu essas mudanças. Conduziu uma guerra desastrosa contra o Iraque na base de uma mentira. Diferentemente, Barack Obama sabia disso tudo. Sabia muito a respeito dos limites americanos! E conhecia muito bem o neoliberalismo como força hegemônica, que faz necessário o multilateralismo, este termo adotado por Lula, mas que no passado recente chamávamos de globalização, e que fazia o PT e todos nós torcer o nariz.

Fez alianças e soltou bombas costumeiras no exterior, dentro do esperado na tradição americana e segundo o necessário gasto militar anual. Capturou Bin Laden e arrecadou gritos, diante da Casa Branca: “USA”, USA!”. Não eram gritos imperialistas, como foram os que saldaram Bush I quando este mandou tropas para o Kwait. Eram saudações para um réquiem das Torres Gêmeas, como foi prometido.

Mas Barack Obama não conseguiu deixar boa herança para Joe Biden no Afeganistão. E não se saiu melhor cortando créditos de Putin em bancos. Conseguiu bom acordo com Irã. Mas, em relação a Israel, Barack Obama tinha asco – perdoável – de conversar com Benjamin Netanyahu.

Donald Trump não sabe nada disso. É um completo analfabeto político, um homem aquém da inteligência média do americano. Donald Trump nunca foi político, e não tem uma classe social interessada no país para lhe dar apoio efetivo, a partir de um projeto nacional. Está relativamente sozinho em seu desejo de ser Nero. Persegue os cristãos nas ruas. E estes não estão gostando nada disso e começam a influenciar o que resta de opinião pública na América.

Donald Trump age como uma criança mal-criada que ele de fato é. O moleque que se acostumou a comprar programas de TV para aparecer. A cada minuto tem nova ideia. Ou abandona logo a ideia ou a segue e, então, provoca um desastre. O erro atinge o povo, mas não tira o sono das elites, que já estão dormindo em bunkers secretos ou simplesmente posam de inteligentes por breves cinco minutos, permanecendo o resto do tempo atordoadas pelo consumo pessoal de drogas. Quando acordam para a política é para ver se saíram bem na foto, de modo literal, as que estão no Epstein Files.

3.

Para tentar driblar seus eleitores com nova mentira, Donald Trump disse que estava perseguindo não os latinos, mas os traficantes. Então, enganou a si mesmo fazendo de Nicolás Maduro um chefe de tráfico. Donald Trump pegou Nicolás Maduro. Não poderia pegar alguém forte. Pegou o fracote da dancinha. Nem mesmo conseguiu derrubar o governo da Venezuela. Trouxe Nicolás Maduro para julgá-lo por narcotráfico. O tiro saiu pela culatra.

Nicolás Maduro não pertence ao Cartel do Sol. Na verdade, este Cartel nem existe. Aí Donald Trump recorreu ao lucro com o petróleo. Vociferou como se estivesse pilhando a Venezuela. Mas as companhias de petróleo disseram que não querem ir para a Venezuela, pois não possuem o interesse em fazer investimentos. O petróleo está na beira de não ser mais um bom negócio.

Donald Trump passou para nova falação: vai caçar narcotraficantes no México, vai responder à Colômbia, quer a Groenlândia etc. Tudo do mesmo modo que iria ajudar Jair Bolsonaro, antes de ser seduzido pelo Lula. A gritaria de Donald Trump na imprensa indica que ele faria um pix gordo para quem, vendo tudo isso, o chamasse de imperialista. Poderia tentar Cuba, mas a Baia do Porcos é um fantasma que faz até mesmo Donald Trump saber história. Mas, que ele vai começar a falar de Cuba, ele vai. Terá a ajuda de Marco Rúbio, que nada é senão um ressentido cubano.

Como o mundo não gritou para Donald Trump que ele é um imperialista, do modo que ele desejava, ou seja, em alto e bom som, então ele mesmo disse: os meus limites não são a lei internacional, mas sim “a minha moralidade”. No passado poderíamos dizer que é cinismo. Não é. Nenhum presidente americano com real poder imperialista falou isso, não falaria.

Donald Trump fala, porque não há qualquer plano classista com projeto imperialista. Há só ele, Donald Trump, gesticulando na Casa Branca, enquanto Melania gesticula os quadris e mais coisas em outros lugares. Seu governo não tem staff preparado. É um governo de amadores. E o que faz na rua é matar cidadão americano. Todas as cidades grandes americanas estão fervendo de protestos contra ele. O mundo assiste com esperança e ceticismo os protestos americanos nas ruas.

Não é difícil ver que Donald Trump caminha sem projetos. Ele mesmo nunca teve algum projeto para os Estados Unidos. Fez um acordo com Steve Bannon para chegar ao poder, mas os anarcocapitalistas sabem gemer e soltar flatos, não governar. Mas, o fato é que ele não tem como ter projeto. Os Estados Unidos estão caminhando às cegas internamente.

A burguesia sem burgo, volto a dizer, nem burguesia é. E a população do mundo todo, por sua vez, após quarenta anos de neoliberalismo, não se vê como “classe trabalhadora”. A luta de classes ganhou outros contornos. Os que vão às ruas nos Estados Unidos imaginam que poderão, pelo voto, achar alguém que volte a trazer um Barack Obama, algum governante que realmente governe. Mas não havendo projeto classista, é difícil achar líderes.

Barack Obama foi uma sorte americana, como Lula é uma sorte brasileira. Quase sorte, pois, na verdade, trata-se de uma construção do passado, mas que vieram não mais por programas positivos, e sim a partir de crises: Obama veio na crise do subprime, Lula veio na crise da sindemia. Agora, há uma crise interna, mas o que se teme é que os americanos não encontrem um Barack Obama, uma vez que não há elites para ajudar a procurar.

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