Ódio e violência: os EUA à beira da catástrofe

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12 Janeiro 2026

"É uma clara guinada autoritária, que já está em curso há quase um ano. Contra a qual se ativaram até o momento duas formas de resistência: dois contrapoderes". 

O artigo é de Mario del Pero, professor italiano de História Internacional, publicado por Domani, 09-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Tinha 37 e um filho de seis Renee Good, a mulher de Minneapolis morta com três tiros no rosto por um agente do ICE, a agência do Departamento de Segurança Interna responsável pela imigração, que se transformou nos últimos meses em uma espécie de força policial privada do Poder Executivo. Ela atuava como observadora legal: pessoas que monitoram o trabalho das forças policiais locais e federais e seu respeito às normas. E, como outros, havia ido até um bairro de Minneapolis onde o ICE realizava uma de suas batidas periódicas: no caso, contra aquela comunidade somali que o presidente repetidamente chamou de "escória".

Os vídeos, chocantes, parecem inequívocos, embora agora seja necessário aguardar o andamento da investigação. A impressão é de que Good pode ter agido de forma desajeitada, meio em pânico, mas não que sua intenção fosse jogar o carro contra o agente, justificando assim sua reação, como alegam as autoridades federais. É provável que a resposta do agente tenha sido movida por uma combinação de amadorismo e sentimento de impunidade que parece caracterizar as ações de indivíduos claramente despreparados, como muitos daqueles que trabalham para o ICE.

A agência está recrutando em ritmo acelerado, sem os critérios de seleção necessários e, aparentemente, privilegiando lógicas de orientação ideológica: o número de funcionários mais que dobrou em menos de um ano e a expectativa é de que quadruplique durante o mandato de Trump. Por razões de segurança pessoal, alegam, operam usando máscara e sem identificação, o que facilita sua ação arbitrária e discricionária, aumentando o risco de que membros de grupos paramilitares do supremacismo branco se infiltrem eventualmente nas operações.

O presidente Trump e a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, de imediato defenderam o agente, chegando a apresentar sua ação como uma forma de autodefesa ou até mesmo de resposta a um "ato de terrorismo doméstico". Reações até certo ponto esperadas, mas que ilustram a falta de responsabilidade e de sentido das instituições entre aqueles que atualmente governam o país, quando não uma deliberada intenção de aumentar a tensão.

Porque esse é claramente o objetivo de Donald Trump: exacerbar o conflito, provocar reações violentas e justificar medidas ainda mais repressivas e autoritárias. Em outras palavras, está se trilhando uma linha extremamente tênue e perigosa, especialmente em um ano eleitoral como este, com projeções e pesquisas indicando uma quase certa reconquista da Câmara pelos Democratas.

A escalada do conflito serve a vários propósitos. Em primeiro lugar, legitima o aumento das operações do ICE, das prisões arbitrárias e das deportações. Em segundo lugar, permite intensificar o conflito com as autoridades estaduais e municipais governadas por Democratas, com o objetivo final de dobrar ainda mais a dialética do federalismo em favor do poder federal.

Por fim, permite alimentar aquela narrativa emergencial na qual o governo Republicano se apoia sistematicamente para justificar a adoção de medidas extraordinárias, quando não a criação de um verdadeiro estado de exceção.

Isso também poderia ser invocado para implementar medidas restritivas no acesso ao voto em novembro próximo.

É uma clara guinada autoritária, que já está em curso há quase um ano. Contra a qual se ativaram até o momento duas formas de resistência: dois contrapoderes. Aquele institucional, dos tribunais, que bloquearam inúmeras medidas do executivo, e em 2026, envolverá bastante também a Suprema Corte, que justamente nos últimos tempos se pronunciou contra o governo na questão do abuso presidencial na federalização e no destacamento da Guarda Nacional em Chicago. E aquele da mobilização popular, feita de protestos, manifestações, resistência não violenta e, quando possível, votação, como no ciclo eleitoral de novembro passado.

É essencial para o seu sucesso que essa mobilização permaneça a mais pacífica possível. Fundamental e, como vimos em Minneapolis, a cada dia mais tremendamente difícil.

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