Neste episódio dos Destaques da Semana do IHUCast, analisamos a resistência radical dos povos indígenas da Amazônia contra a gigante do agronegócio. A ocupação do porto da Cargill em Santarém foi uma lição de defesa dos bens comuns.
Durante 33 dias, cerca de 700 pessoas de 14 povos indígenas da Amazônia se mobilizaram em frente ao porto da Cargill contra o Decreto do governo federal que previa a dragagem do rio e a transformação das águas do Tapajós em uma hidrovia privatizada para favorecer o agronegócio transnacional. Em uma clara demonstração que, enquanto o capital enxerga o rio como mercadoria, os povos originários o defendem como um território de vida. Este levante não é apenas uma disputa por terras, mas um ato de resiliência radical que demonstra como a ação direta e a união comunitária podem frear a lógica extrativista, protegendo os bens comuns da sanha privatista do sistema capitalista.
Raúl Zibechi defende que "essa resistência na adversidade deveria ser uma fonte de aprendizado para todos e todas. Uma vez que sabemos que nem a direita e nem a esquerda farão algo para salvar a humanidade da catástrofe, é a vez dos povos que estão colocando o corpo, e o sangue, para defender a vida e a natureza. São esses povos estão na “linha de frente da resistência ao agrocapitalismo global”. Embora sejam poucos, estão decididos e firmes e não retrocederão. Uma mulher munduruku disse: “Os brancos veem o rio como uma mercadoria; para nós, é vida”. É exatamente o que os povos indígenas em todo o mundo vêm dizendo, do Wallmapu à Mesoamérica.
Em entrevista à Agência Pública, a indígena Auricelia Fonseca Arapiun, uma das principais lideranças do movimento dos povos indígenas do Baixo Tapajós, enfatizou que a mobilização é uma lição para a sociedade: "somente o povo, somente a luta popular, somente a nossa resistência e o nosso enfrentamento é capaz de fazer mudar a realidade que temos vivido hoje no nosso país. São muitas ameaças. Acho que nós, os povos indígenas da região do Tapajós, mostramos para a sociedade que os nossos direitos são inegociáveis, o nosso território é inegociável. É uma vitória histórica, não só para os povos indígenas. E é uma vitória para o próprio governo”, salientou.
O teólogo Leonardo Boff lembrou essa semana da Cúpula dos povos indígenas. Recordando as palavras de um xamã, em um dos encontros: o teólogo afirmou que a profecia do indígena "está se realizando entre os povos originários." E salientou que "se quase a totalidade da civilização globalizada está à deriva, o mesmo não se pode dizer dos povos originários de Abya Yala".
Ao lembrar Renée Good, vítima da violência institucional do ICE, o Padre Flávio Lazzarin utiliza a tragédia para mostrar que a lógica do capital não aceita corpos ou ações que escapem ao seu controle e à privatização dos direitos humanos. Em sua análise, o sacerdote italiano afirma que só há “verdade e luz nas ancestralidades indígenas destruídas e esquecidas. Aqui - diz ele -, há salvações frágeis e ameaçadas, mas me sinto cada vez mais convidado a abandonar o Ocidente. E tenho certeza de que Jesus de Nazaré, apesar das aparências institucionais, pertence a essas ancestralidades". No texto, o teólogo pontua que os “intelectuais, assim como os povos originários, deveriam optar pelo canibalismo criativo e construir, a partir de vilarejos e quilombos, na companhia dos ancestrais, sábias estratégias anticoloniais.”.
Juiz de Fora se tornou o epicentro de uma luta pela sobrevivência que expõe as vísceras da desigualdade urbana e aquilo que já estava posto no cartaz do antropoceno: o colapso do clima. Enquanto os indígenas da Amazônia lutam por um futuro de justiça socioambiental, a Zona da Mata mineira escancara o as consequências de décadas de capitalismo predatório. O volume de chuva no município ultrapassou os 740 milímetros apenas no mês de fevereiro, batendo recordes históricos desde a década de 1960. O solo saturado transformou encostas em avalanches de lama, destruindo prédios inteiros e soterrando famílias. As ruas viraram rios e a correnteza arrastou o que estava o caminho. O balanço mais recente aponta para 62 mortes confirmadas na região. Ainda há pessoas desaparecidas sob os escombros e milhares de desabrigados.
Mais uma tragédia que tem cor e classe social: a maioria das vítimas vivia em áreas de risco já mapeadas há anos. O levante da comunidade em Juiz de Fora, organizando marmitas e barcos particulares para resgates no bairro Industrial, mostra a resiliência dos "comuns" onde o poder público e o capital falharam em oferecer infraestrutura segura. A natureza "feroz" das chuvas é apontada por especialistas como um efeito direto das mudanças climáticas, que afetam severamente as populações mais vulneráveis. O geólogo Heraldo Campos recordou o “Diagnóstico da população em áreas de risco geológico”, elaborado pelo Serviço Geológico do Brasil e publicado no ano de 2021, que estimava, à época, cerca de 16 mil 436 domicílios particulares e coletivos localizados em áreas de risco geológico alto ou muito alto. Fazendo o munícipio ocupar o top 10 em alertas de risco.
Do Brasil vamos à Europa e ao aniversário que não é uma festa, mas uma humilhação para a humanidade. Essa semana marcou o quarto ano da inavsão russa à Ucrânia. Para Sviatoslav Shevchuk, líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, trata-se de "um aniversário trágico. O prelado afirma: 'Ninguém jamais teria imaginado uma guerra na Europa que durasse quatro anos. E quando dizemos quatro anos, referimo-nos apenas à invasão russa em larga escala. De fato, a guerra começou em 2014 com a ocupação da Crimeia e de parte do leste de Donbas. Enfrentamos uma verdadeira tragédia que se agravou nos últimos meses. O número de civis mortos e feridos continua a aumentar. Posso afirmar que nem mesmo no início da invasão, em 2022, a situação era tão dramática quanto é hoje, especialmente durante este inverno, sobretudo na capital ucraniana". Em entrevista ao Religión Digital, o religioso pontuou que este quarto aniversário é uma vergonha para a humanidade. "É vergonhoso que, em quatro anos, a comunidade internacional não tenha conseguido colocar fim a essa tragédia. É algo que nunca deveria ter começado e que agora precisa terminar. Portanto, neste triste aniversário, convoco a todos a se comprometerem com Deus e com a construção da paz", salientou.
E o inverno rigoroso tem elevado o conflito a outro patamar. Kiev agora enfrenta o "Jolodomor", um genocídio pelo frio extremo de menos de 20 graus provocado pela destruição russa da infraestrutura de energia e água. Sem eletricidade para aquecimento ou saneamento, a capital resiste através de "Centros de Resiliência" em abrigos e catedrais, onde geradores garantem a sobrevivência básica, salientou também o religioso ucraniano.
Voltando ao continente americano, Cuba vive uma situação sem precedentes. Em entrevista ao site Il Manifesto, Frei Betto analisou a dramática situação de Cuba e destacou como o endurecimento do embargo econômico pelos Estados Unidos — incluindo sanções a quem vende petróleo à ilha — visa provocar o colapso do Estado e o fim da soberania cubana. O escritor apontou que a escassez energética paralisa a economia e afeta a segurança alimentar, gerando desigualdades crescentes com o influxo de dólares externos. Apesar do cansaço social e do êxodo de jovens, o teólogo enfatiza a "heroica resiliência" do povo, que valoriza a independência e prefere o socialismo ao retorno de Cuba à condição de "bordel do Caribe" e foco de criminalidade.
Iramis Cárdenas argumenta que Cuba enfrenta sua pior crise econômica devido ao sufocamento energético. No entanto, ele afirma que o governo cubano não cairá, pois possui estrutura e coesão para resistir. A "linha vermelha" para o regime é clara: a ilha está disposta a negociar reformas econômicas e atrair investimentos, mas jamais aceitará mudanças políticas ou constitucionais sob pressão estrangeira. Cárdenas destaca que a verdadeira batalha é pela sobrevivência física do povo, e defende a necessidade urgente de solidariedade dos BRICS para quebrar o embargo energético. Para o pesquisador, se Cuba cair, os próximos alvos serão os países governados por partidos mais à esquerda. Por essa razão, argumenta que partidos como o PSOE na Espanha ou o Partido dos Trabalhadores no Brasil não deveriam ser tão dóceis nem ignorar o bloqueio energético contra Cuba.
O artigo de Edith Romero denuncia como bilionários da tecnologia, como Peter Thiel, estão implantando um projeto neocolonial em Honduras através das Zonas Especiais de Desenvolvimento Econômico. Esses enclaves funcionam como cidades-estado privadas, operando fora das leis hondurenhas, com governança própria, tribunais e polêmicas práticas trabalhistas, desapropriando comunidades indígenas e tradicionais, como o povo Garifuna, de suas terras e meios de subsistência. Essas zonas derivam da ideia de “cidades-modelo”, propostas pelo ex-executivo do Banco Mundial e economista Paul Romer. Esses enclaves dentro de países de baixa renda “promoveriam o crescimento econômico” por meio da privatização e da eliminação de regulamentações nacionais, oferecendo, ao mesmo tempo, incentivos fiscais significativos para que países estrangeiros invistam em negócios.
Essa lógica encontra eco teórico nas ideias de Nick Land, que se tornou uma espécie de mentor de Steve Bannon, conforme explicado pelo pesquisador Fabrício Silveira. Em síntese, o que Land propõe é a substituição da democracia representativa por uma plataforma de governança automática, independente das demandas de sujeitos situados”, explica Silveira. Para o professor, "Land imagina um mundo onde teríamos milhares de Cidades-Nação governadas por empresas privadas. Tais empresas seriam conduzidas, por sua vez, por CEOs formados nas melhores universidades do mundo e armados até os dentes de todos os artefatos hipertecnológicos disponíveis e dos sistemas de inteligência artificial mais avançados que existem", sinaliza. Por isso, "as ideias de Nick Land despertam tanto interesse junto ao alto empresariado do Vale do Silício e nos neorreacionários".
O artigo de Gian Antonio Stella relata a trágica onda de naufrágios no Mediterrâneo e a violenta reação nas redes sociais contra Corrado Lorefice por defender os migrantes. A fala profética de Lorefice revela que os corpos náufragos são uma "denúncia contra aqueles que reivindicam a redução dos desembarques", lembrando que são seres humanos com histórias e sonhos negados. Segundo o Arcebispo de Palermo: "o que acontece hoje – na sequência dos naufrágios ocorridos no Estreito da Sicília durante e após o ciclone Harry, que deixou cerca de mil desaparecidos – é um sinal forte e precioso, um apelo claro para romper o silêncio e despertar o sono nos olhos de todos nós, narcotizados por escolhas políticas que planejam o esquecimento daqueles que continuam a atravessar o mar em busca de vida, liberdade e paz, firmes no direito de cada homem e cada mulher à mobilidade".
O congresso mexicano aprovou fim da escala de trabalho 6x1. A jornada passa para 40 horas semanais seguida de dois dias de descanso. Com isso, o México se junta a Chile, Equador e Venezuela, países da América Latina que também preveem, em suas leis, uma jornada de 40 horas semanais. Na contramão da redução da precarização do trabalho, está a Argentina. A reforma trabalhista proposta por Javier Milei e já aprovada na Câmara dos deputados é quase um retorno à escravidão, pois a reforma prevê o aumento de jornada para 12 horas por dia, banco de horas, salários móveis, descontos por adoecimento, entre outros ataques aos direitos dos trabalhadores. Uma investida que retrocede as relações trabalhistas na Argentina para o século XIX. No Brasil, a extrema-direita também é contra os direitos dos trabalhadores. O Pastor Marcos Feliciano, do Republicanos, deixou o recado ao recusar colocar o tema da redução da jornada de trabalho na pauta. Regalia, só para os magistrados e os parlamentares. Para os trabalhadores, exaustão, precarização e todas as formas de exploração possíveis.
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O IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível nas plataformas de áudio e no canal do IHU no YouTube.
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