O silêncio discreto dos Estados Unidos em relação ao ataque a um barco em águas cubanas

Foto: Juan Luis Ozaez/Unsplash

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27 Fevereiro 2026

O incidente ocorreu num momento particularmente delicado nas relações entre Washington e Havana.

A reportagem é de Carla Glória Colomé e Macarena Vidal Liy, publicada por El País, 27-02-2026.

O governo em Washington demorou a reagir. O secretário de Estado Marco Rubio estava no Caribe quando, nessas mesmas águas, a Guarda Costeira cubana abriu fogo contra uma embarcação civil com dez pessoas a bordo, vinda da Flórida. O cubano-americano, que havia viajado às ilhas caribenhas de São Cristóvão e Névis para defender a agenda de Washington na cúpula de líderes da Comunidade do Caribe (CARICOM), teve que fazer uma pausa diante dos repórteres ansiosos por ouvir sua reação ao incidente em águas cubanas, que deixou quatro mortos, incluindo um cidadão americano. "Não vou especular", disse ele. "Não vou comentar o que ainda não sei. Mas vamos descobrir exatamente o que aconteceu aqui e responder de acordo."

Foi uma resposta discreta, bem diferente das explosões viscerais com que outros membros do governo americano reagiram a crises repentinas. Essa moderação contrastou fortemente com suas posturas tipicamente intransigentes contra Havana, mas se espalhou entre os dois governos. Até mesmo o presidente americano Donald Trump, que frequentemente atacou o regime em Havana desde a prisão de Nicolás Maduro na Venezuela, se absteve de tuítes inflamados. Cuba também buscou enfatizar a cooperação de Washington no esclarecimento do incidente, em vez de recorrer à sua habitual retórica agressiva.

A cautela demonstrada pelos Estados Unidos foi ainda mais surpreendente, visto que um dos quatro mortos e um dos feridos eram cidadãos americanos. Isso poderia ter sido um casus belli em outras circunstâncias. Agora, em um momento particularmente delicado da relação bilateral, não parece provável que seja o caso.

Em São Cristóvão e Névis, jornalistas queriam saber mais e o pressionaram para saber se ele estava em contato com o lado cubano, se era um plano do governo de Donald Trump ou se, caso algum cidadão americano estivesse envolvido, seu governo tomaria alguma medida retaliatória. Rubio respondeu às perguntas com prudência, em um tom notavelmente comedido para um político que sonha em tirar proveito do regime de Castro.

Em cada uma de suas respostas, ele falou do governo cubano com um respeito incomum para ele, filho de imigrantes da ilha e criado no clima conservador e anticastrista de Miami. Disse que sabia do incidente exatamente como o Ministério do Interior do regime de Castro havia relatado: que a patrulha da fronteira estava em "contato constante" com a Guarda Costeira. Negou que se tratasse de um ataque de sua administração e afirmou, apesar dos precedentes históricos, que parecia "extremamente incomum ver tiroteios em alto-mar como aquele". O Secretário de Estado optou por dizer que isso "não é algo que acontece todos os dias".

O ataque ao barco civil nesta quarta-feira chocou os cubanos em todo o país. A tentativa de desembarque despertou memórias nos exilados de eventos como a queda de dois aviões da organização humanitária Irmãos ao Resgate, há 30 anos, ou o naufrágio, em 2022, de uma embarcação em Bahía Honda, onde morreram quatro adultos e uma menina de dois anos.

Mas esse choque não se refletiu nas instituições de poder. A congressista democrata Debbie Wasserman Schultz, da Flórida, foi uma das primeiras a notar o “silêncio do governo Trump sobre esse incidente fatal”.

O lado cubano também lidou com este último incidente com muita cautela, visto que ocorre em meio ao estado de emergência nacional declarado pelos Estados Unidos para a ilha neste mês. Assim como os americanos, eles se comunicaram com muito mais tato desta vez. Uma declaração do Ministério das Relações Exteriores de Cuba, apresentada à imprensa pelo vice-ministro Carlos Fernández de Cossío, enfatizou que as autoridades cubanas “mantiveram comunicação” com seus homólogos americanos, incluindo o Departamento de Estado e a Guarda Costeira. A declaração insiste não apenas que “o governo cubano está disposto a discutir este assunto com o governo americano”, mas também que “as autoridades do governo americano demonstraram disposição para cooperar no esclarecimento desses lamentáveis ​​eventos”.

A prudência demonstrada ressalta a natureza delicada das relações atuais entre os dois inimigos históricos. Quase dois meses após a intervenção na Venezuela, as repetidas declarações de Trump de que os dias de Castro estão contados e o bloqueio contínuo ao fornecimento de petróleo para a ilha, os planos do governo para Havana permanecem um enigma.

Houve muita especulação: primeiro, que estariam conversando com Alejandro Castro Espín, filho do nonagenário Raúl Castro; depois, que estariam conversando com Raúl Guillermo Rodríguez Castro, vulgo “El Cangrejo” (O Caranguejo), guarda-costas e neto predileto do ex-presidente cubano. Mas não houve confirmação explícita até agora, além da declaração de Trump de que existem contatos e que Marco Rubio é quem os facilita.

A resposta discreta de Washington ao incidente com o barco é mais um indício de diálogo entre os dois governos, embora Havana continue negando qualquer conversa. O Miami Herald noticiou que autoridades americanas se reuniram com Raúl Rodríguez Castro durante a cúpula em São Cristóvão e Névis.

A atmosfera generalizada da Guerra Fria parece ter se dissipado, e o motivo pode ser que ambos os lados estejam sentados à mesa de negociações. Até mesmo Washington flexibilizou seu recente embargo econômico, abrindo a possibilidade de venda de petróleo para o setor privado.

De Havana, Rafael Hernández, analista do Centro Juan Marinello de Pesquisa Cultural Cubana, oferece sua opinião sobre o incidente em águas cubanas, onde a versão do regime afirma que a tripulação do barco foi a primeira a abrir fogo. Ele questiona se a viagem do barco teve como objetivo "tentar forçar o governo Trump a uma posição muito difícil, no que diz respeito ao uso da força e à resposta com força ao que foi uma clara provocação".

Ninguém ainda consegue imaginar o que poderá acontecer a seguir com um incidente que abre muitas possibilidades no contexto das negociações — e da pressão — com Cuba. Aqueles que têm defendido uma postura firme e imediata são os congressistas cubano-americanos, republicanos da Flórida, que, mais uma vez, parecem desconectados da política que Washington está seguindo em relação a Cuba. Enquanto os congressistas continuam com sua retórica linha-dura contra o regime, seu governo aposta que a mudança em Cuba será primeiro econômica, depois política. Não é o que eles esperavam, mas parece ser o caminho a seguir. “Cuba precisa mudar”, disse Rubio em São Cristóvão e Névis. “E não precisa mudar tudo de uma vez. Não precisa mudar da noite para o dia. Todos aqui são maduros e realistas.”

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