O levante indígena contra a privatização de rios no Brasil. Artigo de Raúl Zibechi

Foto: Lucia Barreiro da Silva

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23 Fevereiro 2026

“Uma vez que sabemos que nem a direita e nem a esquerda farão algo para salvar a humanidade da catástrofe, é a vez dos povos que estão colocando o corpo, e o sangue, para defender a vida e a natureza”, escreve Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por La Jornada, 20-02-2026. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Hoje, completam-se 30 dias do acampamento de cerca de 600 pessoas de 14 povos indígenas da Amazônia em frente ao porto da Cargill, em Santarém. Elas exigem que o governo Lula revogue o Decreto 12.600, que prevê a dragagem do rio e a transformação das águas do Rio Tapajós em uma hidrovia privatizada para o transporte de soja e outros grãos [1].

Embora o governo tenha recuado, dias atrás, no tocante à dragagem, mantém a privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins como parte do Programa Nacional de Desestatização, o que significa que a gestão e a manutenção dessas hidrovias, que totalizam 280 km somente no Tapajós, serão transferidas para grandes empresas multinacionais vinculadas ao agronegócio. Isto implica a construção de novos portos privados, transformando o rio em um corredor fluvial, sem a consulta aos povos que vivem no e com o rio.

As monoculturas de soja e milho estão destruindo a Amazônia, desmatando a floresta e envenenando as águas e o meio ambiente com o uso excessivo de agrotóxicos. É simplesmente estarrecedor o que está acontecendo com um dos principais afluentes da Amazônia, o Tapajós: trens com até 35 barcaças transportam grãos para a China e a Europa. Foram construídos ou estão em projetos 41 portos sobre o rio por onde, no ano passado, circularam mais de 15 milhões de toneladas.

A poluição por mercúrio, proveniente da mineração legal e ilegal, e a remoção do leito do rio são os maiores desafios para os povos. Segundo Rafael Zilio, ao conceber um rio como uma mera “hidrovia”, “o Estado e as grandes corporações dos setores de mineração e agronegócio perpetuam a devastação ambiental na Amazônia”.

No último mês, a estrada para o aeroporto e o próprio aeroporto de Santarém foram bloqueados por algumas horas. Silvia Adoue recorda que “os munduruku não esperaram a demarcação de seu território pelo Estado”; como povo, procederam com a “autodemarcação em aliança com as comunidades de pescadores”, o que demonstra a capacidade de “articulação entre povos com perspectivas de mundo diferentes”.

Esta é uma breve e incompleta síntese de uma resistência pela vida que há muitos anos está de pé. Penso que podemos tirar algumas conclusões desta luta notável.

A primeira é que ocorre sob um governo progressista, sendo Guilherme Boulos o secretário da Presidência e Sonia Guajajara a ministra dos Povos Indígenas, ambos do “radical” Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Quem acredita que eles podem fazer algo diferente do que o grande capital deseja está muito enganado. São os melhores representantes das ambições das multinacionais, diante do vergonhoso silêncio do movimento sindical e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), cujo principal objetivo é a reeleição de Lula.

A segunda é que o capitalismo pretende, e está implementando, a privatização completa da natureza para acumular cada vez mais capital. Transformar os grandes rios amazônicos em hidrovias repletas de infraestruturas é a garantia de sua destruição e do aniquilamento dos povos que habitam suas margens.

A acumulação de capital não tem limites, exceto pelo que os povos e movimentos podem fazer para detê-la. Enquanto os de cima, da esquerda ou da direita, e até mesmo os “radicais” abonam o agronegócio, levantam um discurso “correto” em que se permitem mentir e até alegar que apoiam as reivindicações dos povos indígenas. O próprio Boulos havia se comprometido a realizar consultas antes do início das obras, questão que nunca cumpriu.

A luta é muito desigual. A Cargill fatura 154 bilhões de dólares por ano e conta com o apoio do Estado e do governo brasileiro, enquanto os povos são relativamente pequenos (os munduruku são 13.000 pessoas) e só contam com o apoio de outros povos semelhantes, como ficou evidente nesses dias.

A terceira se relaciona com a decisão de defender a vida e a dignidade dos povos. O relatório da Sumaúma destaca que esses povos estão na “linha de frente da resistência ao agrocapitalismo global”. Embora sejam poucos, estão decididos e firmes e não retrocederão. Uma mulher munduruku disse: “Os brancos veem o rio como uma mercadoria; para nós, é vida”. É exatamente o que os povos indígenas em todo o mundo vêm dizendo, do Wallmapu à Mesoamérica.

Essa resistência na adversidade deveria ser uma fonte de aprendizado para todos e todas. Uma vez que sabemos que nem a direita e nem a esquerda farão algo para salvar a humanidade da catástrofe, é a vez dos povos que estão colocando o corpo, e o sangue, para defender a vida e a natureza.

Nota

[1] Informações coletadas de Silvia Adoue, Desinformémonos 05/02/2026; Rafael Zilio, Desinformémonos 11/02/2026; Guilherme Guerreiro Neto, Sumaúma, 02/12/2026, e do coletivo Aldeia Urbana.

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