29 Agosto 2025
“Desde que Israel invadiu Gaza com toda a sua força, não fizemos nada além de expandir nosso campo lexical. As palavras sem ação correm o risco de se tornarem apenas verborragia. Ninguém se lembrará de nossos governantes por tudo o que não disseram, mas, sim, por tudo o que não se atreveram a fazer”, escreve Jonathan Martínez, jornalista, em artigo publicado por Público, 27-08-2025. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
No dia 17 de novembro de 2023, quando a Faixa de Gaza estava há 41 dias sob assédio, o líder da OMS dirigiu-se à Assembleia Geral das Nações Unidas para denunciar o colapso do sistema de saúde palestino. “Não há palavras para descrever o horror”, disse Tedros Adhanom. Àquela altura, mais da metade dos hospitais de Gaza tinham deixado de prestar serviços. Os bebês morriam nas incubadoras. Faltava água potável. Camas e suprimentos estavam se esgotando. O colapso do sistema de esgoto havia deixado um cenário insalubre, enquanto a equipe médica fugia dos ataques aéreos. Esses eram os primeiros estágios da ofensiva, e o pior ainda estava por vir.
“Não há palavras para expressar os horrores que ocorrem diante de nossos olhos”, diria, meses depois, o Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos. “Não existem palavras que possam fazer justiça ao povo de Gaza”, tuitou mais tarde o Comissário-Geral da UNRWA. “Não há palavras para descrever o que vimos”, diria a embaixadora dos Estados Unidos na ONU. “Não há palavras para descrever o nível de sofrimento”, acrescentaria a presidenta do Comitê Internacional da Cruz Vermelha - CICV. A ausência de vocabulário se tornou um clichê estéril que não fala tanto dos limites da linguagem quanto dos limites da intervenção política.
Há palavras de sobra para definir as matanças em Gaza, entre outras coisas, porque a história é abundante em episódios abomináveis e nunca faltaram crônicas, discursos e literaturas. Se não houvesse palavras, os defensores do sionismo não se envolveriam em discussões bizantinas sobre a conveniência do termo “genocídio”. As frases que em algum momento alguém pronunciou em Halabja, Srebrenica ou Darfur são repetidas em Gaza com toda a extensa gama dos dicionários. Se o idioma é insuficiente, temos imagens em alta resolução e sons de espanto que demoraremos séculos para esquecer. Não faltam as palavras. Faltam as ações.
Outro dia, em Edimburgo, dois policiais detiveram o roteirista Paul Laverty. Eles o abordaram sob pretextos antiterroristas por usar uma camiseta com um slogan tão simples quanto perigoso: “Genocídio na Palestina, é hora de agir”. Enquanto os agentes o empurravam para dentro do furgão, Laverty buscava em vão descobrir os motivos da prisão. “O que eu queria saber era com qual parte das sete palavras não concordavam”. A explicação mais simples é que a organização Palestine Action foi proscrita no Reino Unido, e a camiseta de Laverty escondia uma piscadela cúmplice. No entanto, tudo nos leva a pensar que há algo especialmente indigesto na palavra “ação”.
O desafio de Laverty surge após Sally Rooney expressar seu apoio à Palestine Action. Além do pronunciamento, a escritora irlandesa doará parte de seus ingressos por direitos autorais. “Se isto me torna partidária do terrorismo, que assim seja”. A polêmica sobre o compromisso artístico se inflamou com o Festival de Glastonbury. Enquanto Bob Vylan e Kneecap arriscavam consequências penais por seu apoio ao povo palestino, Noel Gallagher manchava o retorno do Oasis com seus lamentos no jornal The Sun: “Este lugar está se tornando um pouco ‘woke’ e eu não gosto disto na música: pequenos idiotas de merda agitando bandeiras e fazendo declarações políticas”.
Por um paradoxo distorcido, a manifestação de Gallagher é a mais nitidamente política do cenário musical britânico, a ideologia em sua forma mais pura, o consentimento por omissão, a aceitação da realidade à força de querer ignorá-la. Os massacres têm colaboradores mudos. Há uma coalizão de ativistas operando com negligência tácita em esferas internacionais. Poderíamos chamá-la de Palestine Inaction e está favorecida pelos súditos geopolíticos dos Estados Unidos. Os mandatários europeus, que há mais de dez anos impõem sanções à Rússia, agora, recorrem a eufemismos para que os interesses israelenses permaneçam intactos.
No dia 17 de março de 2023, o Tribunal Penal Internacional emitiu uma ordem de prisão contra Vladimir Putin por supostos crimes de guerra. Joe Biden aplaudiu a decisão e a considerou “justificada”. No dia 21 de novembro de 2024, o Tribunal Penal Internacional emitiu uma ordem de prisão contra Benjamin Netanyahu por supostos crimes de guerra. Joe Biden condenou a decisão e a considerou “escandalosa”. Trump recebeu o primeiro-ministro israelense em Washington e anunciou sanções contra o TPI. Viktor Orbán o recebeu em Budapeste e ordenou a retirada da Hungria do TPI. Alemanha, França, Itália, Polônia, Países Baixos e Argentina avaliaram conceder imunidade a Netanyahu.
Passemos às competições esportivas. Após a invasão da Ucrânia, as federações russas foram imediatamente censuradas por organismos internacionais como o COI, a FIFA e a UEFA. A exclusão foi estendida ao atletismo, tênis, rúgbi e hóquei sobre o gelo. Após a invasão de Gaza, ao contrário, as organizações internacionais não só não impuseram sanções, como também buscaram subterfúgios para que os atletas israelenses pudessem seguir suas carreiras em condições de máxima proteção. Javier Guillén invocou essa doutrina de falsa neutralidade para autorizar a participação da equipe Israel-Premier Tech em La Vuelta.
Na semana passada, durante uma visita a Osaka, António Guterres denunciou a emergência humanitária sofrida pelo povo palestino. “Quando parece não haver mais palavras para descrever o inferno vivido em Gaza, acrescenta-se uma nova: ‘fome’”. O Secretário-Geral da ONU demonstra que existe, sim, um vocabulário. De fato, desde que Israel invadiu Gaza com toda a sua força, não fizemos nada além de expandir nosso campo lexical. As palavras sem ação correm o risco de se tornarem apenas verborragia. Ninguém se lembrará de nossos governantes por tudo o que não disseram, mas, sim, por tudo o que não se atreveram a fazer.
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