22 Novembro 2024
"Só o fato de 1% possuir a riqueza de mais da metade da humanidade demonstra quão perverso, profundamente desigual e injusto é o cenário social mundial. Acresce ainda a emergência ecológica com a insustentabilidade do planeta Terra, velho e com recursos limitados que, em si, não suporta um projeto de crescimento ilimitado, obsessão das políticas sociais dos países. Esse processo extenuou, pela superexploração, os biomas terrestres e está pondo em risco as bases naturais que sustentam nossa vida e a vida da natureza (Earth Overshoot)", escreve Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor.
Eis o artigo.
É lugar comum afirmar que estamos no coração de uma grande crise de civilização. Ela não é regional, mas global. Na verdade, esta crise global encerra uma infinidade de outras crises, no econômico, no político, no ideológico, no educacional, no religioso e até no espiritual. Não sabemos o que nos espera. Temos mais e mais a consciência coletiva de que assim como o mundo está, não pode continuar. O caminho atual nos está levando à beira de um precipício. Temos que mudar. É atribuída a Einstein a frase: o pensamento que criou a crise atual não pode ser o mesmo que nos vai tirar dela. Temos que definir um novo caminho. Como construí-lo para que seja realmente outro tipo de mundo?
O fato irrecusável é que há demasiado caos destrutivo sem previsão de ser generativo. Há formas de desumanidade que ultrapassam tudo o que temos vivido e sofrido na história até o presente momento. Basta assistir ao genocídio que ocorre a céu aberto na Faixa de Gaza perpetrado por um Primeiro Ministro israelense, cruel e sem piedade, Benjamin Netanyahu, apoiado por um Presidente católico norte-americano e pela Comunidade Europeia que trai seus ideais históricos de direitos humanos, de liberdade e de democracia. Todos estes se fazem cúmplices do crime hediondo contra a humanidade. Vigora uma enorme onda de ódio, de desprezo da solidariedade, da ciência, da negação da verdade e do domínio da ignorância. Esse antifenômeno se dá mormente no Ocidente.
Só o fato de 1% possuir a riqueza de mais da metade da humanidade demonstra quão perverso, profundamente desigual e injusto é o cenário social mundial. Acresce ainda a emergência ecológica com a insustentabilidade do planeta Terra, velho e com recursos limitados que, em si, não suporta um projeto de crescimento ilimitado, obsessão das políticas sociais dos países. Esse processo extenuou, pela superexploração, os biomas terrestres e está pondo em risco as bases naturais que sustentam nossa vida e a vida da natureza (Earth Overshoot). A continuidade da aventura humana neste planeta não está assegurada. Bem escreveu o Papa Francisco em sua encíclica Fratelli tutti (2020): “Estamos todos no mesmo barco; ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”. Tudo vem resumido pelo aquecimento global crescente, inaugurando, o que parece, uma nova fase mais aquecida e perigosa da história da Terra e da humanidade.
Por que chegamos à atual situação ameaçadora que pode pôr em risco o futuro da vida humana e da natureza?
Há várias leituras da situação crítica da atualidade. Não tenho a pretensão de ter uma resposta suficiente. Mas lanço uma hipótese, fruto de toda uma vida de estudo e reflexão. Estimo que nossa situação remonta lá atrás, há mais de dois milhões de anos, quando surgiu o homo habilis, o ser humano que inventou instrumentos de intervenção nos ciclos da natureza. Até aí sua relação era de interação, sintonizando-se com os ritmos naturais e tomando o que sua mão alcançava. Agora, com o homo habilis ou faber começa a intervenção na natureza: a caça de animais e a derrubada sistemática de árvores. Depois de milhares de anos, levou avante a intervenção até chegar há 10-12 mil anos, no neolítico, com a agressão da natureza. Interferiu no curso dos rios, inaugurando a agricultura de irrigação e o manejo de inteiras regiões que implicava mudanças nas relações com a natureza e já depredando-a. Por fim, a partir da era do industrialismo e do modo moderno e contemporâneo de produção pela técnica, pela automoção e pela inteligência artificial, desembocou na destruição da natureza. Projetamos uma nova era geológica, a do antropoceno, do necroceno e do piroceno, pela qual o ser humano comparece como o Satã da Terra. Transformou o jardim do Éden num matadouro, como denunciou o biólogo E. Wilson. Não se comportou como o anjo cuidador de seu habitat, a Mãe Terra.
Esse processo histórico-social ganhou sua justificação teórica pelos pais fundadores da modernidade com Galileo Galilei, Descartes, Newton, Francis Bacon e outros. Para eles, o ser humano é “mestre e dono” da natureza. Não se sente parte dela, mas está fora e acima dela. A Terra até então tida como Magna Mater que tudo nos dá, passou a ser considerada como uma coisa inerte (res extensa), sem propósito, no máximo, um baú de recursos entregues ao uso e a bel prazer do ser humano. O eixo orientador deste modo de ver o mundo é a vontade de poder, como dominação do outro, dos povos, de suas terras (colonização a partir da Europa), da classe trabalhadora, da natureza, da vida até o último gene, da matéria até o mínimo topquark. A serviço da dominação foi projetada a ciência, não apenas como conhecimento teórico de como as coisas funcionam, mas foi logo apropriada pela vontade de poder, convertendo-a numa operação técnica para a transformação da realidade. Com ela se moveu uma verdadeira guerra contra a Terra, sem chance de vencê-la, arrancando tudo dela em função do sonho de um crescimento ilimitado de bens materiais. Atacou-se a Terra no solo, no ar, nas águas, nas florestas em todos os níveis, tendo como consequência a devastação de praticamente os principais biomas, sem medir os efeitos colaterais. É o império da razão instrumental-analítica e tecnocrática. Não podemos deixar de apreciar os imensos benefícios que trouxe para a vida humana. Mas ao mesmo tempo criou o princípio de autodestruição com armas letais que podem liquidar toda a vida. A razão ficou irracional e enlouquecida.
Hoje chegamos ao ponto-limite de a Terra se mostrar gravemente enferma. Como é um Superorganismo vivo, reage mandando-nos eventos extremos: secas severas e nevascas rigorosas, uma vasta gama de vírus e bactérias, algumas letais, além de tufões, tornados, enchentes e terremotos. Não estamos indo ao encontro do aquecimento global. Estamos já dentro dele. A ciência chegou atrasada, apenas pode alertar para sua chegada e minorar seus efeitos danosos. Efetivamente esta mudança climática ameaça a biodiversidade e põe sob grave risco o futuro do sistema-vida.
Acresce um dado não desprezível. O despotismo da razão – o racionalismo – recalcou o que há de mais humano em nós: nossa capacidade de sentir, de amar, de cuidar, de viver a dimensão dos valores como a amizade, a empatia, a compaixão e capacidade de renúncia e de perdão, enfim, o mundo das excelências. Tudo isso era visto como empecilho ao olhar objetivo das ciências. Separamos mente e coração, a razão intelectual e a razão sensível. Tal ruptura ocasionou profunda distorção dos comportamentos, ocasionando insensibilidade face ao drama dos milhões e milhões de pobres e miseráveis e a falta de cuidado para com a natureza e seus bens e serviços.
Se quiséssemos resumir numa pequena fórmula a crise civilizacional, diria: ela perdeu a justa medida, valor, presente em todas as tradições éticas da humanidade. Tudo é desmedido, o assalto à natureza, o uso da violência nas relações pessoais e sociais, as guerras sem qualquer medida de contenção, o predomínio desmedido da competição ao preço da cooperação, o consumo desmedido ao lado da fome canina de milhões, sem qualquer senso de solidariedade e de humanidade.
A seguir este projeto de civilização, calcado sobre o poder-dominação, hoje mundializado, iremos fatalmente ao encontro de uma tragédia ecológico-social a ponto de fazer o planeta Terra inabitável para nós e para os organismos vivos. Seria o nosso fim depois de milhões de anos sobre esse belo e ridente planeta. Não soubemos cuidá-lo para ser a Casa Comum de todos os humanos, a natureza incluída.
Mas como o processo cosmogênico e terrenal não é linear, capaz de dar saltos para cima e para frente, pode ocorrer o inesperado, tornando-o provável através de um grande impacto. Isso transformaria a consciência coletiva da humanidade. Como disse o poeta alemão Hölderlin (+1843): “Ai onde mora o perigo, cresce também o que o salva”. Esse salvamento significaria a mudança necessária de paradigma e assim garantindo o nosso futuro. Isso representaria a utopia possível e viável para a atual situação da Terra e da humanidade.
Leia mais
- Israel, nova acusação de genocídio em Gaza. 15 mortos em Damasco
- Podemos perecer por não ouvirmos as mensagens da Terra. Artigo de Leonardo Boff
- A virada do Papa sobre Israel: “Verificar se em Gaza está um curso um genocídio”
- Israel nega transferência médica de 8 crianças feridas em Gaza para o hospital de Médicos Sem Fronteiras na Jordânia
- "No Líbano como em Gaza, assistimos à destruição do sistema de saúde". Entrevista com Ghassan Abou Sitta
- Norte de Gaza ficou sem hospitais operacionais devido a ataques israelenses
- A estratégia tanatopolítica de guerra: Hamas & Israel. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz e Márcia Rosane Junges
- Médicos Sem Fronteiras: intensificação da ofensiva israelense em Rafah, Gaza, força mais um hospital a fechar
- Mais de 200 corpos recuperados da vala de um hospital em Khan Yunis
- Unicef: “Mais de 13.800 crianças mortas em Gaza”
- Os fantasmas do hospital dos horrores. Artigo de Angelo Stefanini
- Médico relata horror vivido em hospital de Gaza: “desastre humano”
- O pesadelo de Gaza, aos olhos de uma pediatra. Entrevista com Seema Jilani
- Sob bombardeio, médicos de Gaza lutam para salvar pacientes sem energia, água ou comida
- Médicos de MSF são mortos em ataque ao hospital Al Awda, no norte de Gaza
- Por que Israel dispara contra a Saúde em Gaza
- O anestesista do hospital europeu de Gaza: “Perdi três médicos, cinco enfermeiros e duas enfermeiras”
- O hotel, o falafel e as pizzas do Italiano: junto com o hospital Al Shifa, Israel destruiu nossas mais belas lembranças na Cidade de Gaza
- “Al-Shifa não é apenas um hospital, é um dos símbolos da nação”. Entrevista com Vincenzo Luigi
- Israel comemora ao armar seus cidadãos, ao mesmo tempo que realiza o quarto ataque ao hospital de Al Shifa
- O anestesista do hospital europeu de Gaza: “Perdi três médicos, cinco enfermeiros e duas enfermeiras”
- OMS descreve o hospital Al-Shifa, no norte de Gaza, como um “banho de sangue”
- A OMS afirma que melhorar a situação da saúde em Gaza é “praticamente impossível”
- A infância em Gaza enfrenta um futuro marcado pelo trauma do genocídio
- Barcos com ajuda humanitária para população de Gaza acusam Israel de impedir saída
- Gaza, em 6 meses de conflito, uma criança morreu a cada 15 minutos
- As crianças de Gaza “perceberam que os seus pais já não podem protegê-las das bombas e da fome”
- “Temos alimentos às portas de Gaza e as crianças estão morrendo de fome”
- Unicef estima que uma criança morre a cada 10 minutos em Gaza devido aos bombardeamentos israelenses
- Unicef: “Gaza se tornou um cemitério de crianças”
- "Teerã perdeu uma batalha no Líbano: subestimou Israel. Mas ele está se preparando para uma longa guerra". Entrevista com Vali Nasr
- Ofensiva de Israel sacode o Oriente Médio e causa mais de um milhão de deslocados no Líbano
- A invasão israelense do Líbano acelera o descrédito do Ocidente no Sul Global
- O que Israel quer dizer com "incursão terrestre limitada" e como evoluíram as invasões anteriores no Líbano? Artigo de Javier Biosca Azcoiti
- Israel invade o sul do Líbano enquanto continua a bombardear o país
- 'Não temos para onde ir': libaneses dormem nas ruas depois de terem casas destruídas por bombardeios israelenses
- A nova guerra que germina no Líbano. Artigo de Ezequiel Kopel
- Terror no Líbano. Artigo de Loubda El Amine
- A estratégia de Israel no Líbano: poder de fogo sem precedente para tornar possível a operação terrestre
- "Risco de guerra total": países condenam ataque israelense
- Pagers: o terror de Israel cria um precedente dramático. Artigo de Antonio Martins
- Para a HALO Trust, pagers explosivos são como minas antipessoais
- Tudo o que explode no Líbano. Artigo de Merin Abbass
- Explosões de aparelhos no Líbano: cresce temor de retaliação
- População libanesa vive sob o medo em meio a ‘guerra eletrônica’, após explosões de aparelhos
- Caos no Líbano: como a sabotagem de pagers deixou 11 mortos e 4.000 feridos
- O que acontece no Líbano? Artigo de Riccardo Cristiano
- Irã, Hezbollah e a ‘guerra de apoio’ a Gaza. Artigo de Riccardo Cristiano
- Hezbollah entre luto, vingança e mediação. Artigo de Riccardo Cristiano
- Morte de líderes do Hamas e Hezbollah gera temor de escalada
- Israel bombardeia o Líbano na maior troca de tiros com o Hezbollah desde 2006, provocando temores de escalada
- Israel em caos. Artigo de Riccardo Cristiano
- Nasrallah: eu sou o Líbano. Artigo de Riccardo Cristiano
- Morte de líderes do Hamas e Hezbollah gera temor de escalada
- Hezbollah entre luto, vingança e mediação. Artigo de Riccardo Cristiano
- Israel à beira de guerra total contra o Hezbollah
- Beirute, o patriarca dos maronitas: “O Hezbollah apoia Gaza, mas o faz às custas do Líbano”. Entrevista com Béchara Butros Raï
- Os temores do Papa sobre a guerra no Líbano
- “O Líbano será o novo front e corre o risco de pagar o preço mais alto”. Entrevista com Mohanad Hage Ali
- Líbano: entre a catástrofe e a esperança. Artigo de Riccardo Cristiano
- O exército israelense vê como inviável acabar com o Hamas e aumenta o clima de tensão com Netanyahu
- Israel matou mais de 207 funcionários da ONU e destruiu 80% de Gaza, desde outubro