“As guerras hoje destroem todo pensamento da política”. Entrevista com Catherine Hass

Foto: Levi Meir Clancy | Unsplash

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26 Março 2024

Catherine Hass é antropóloga, escritora e pesquisadora da Ehess, a École des Hautes études en sciences sociales e especialista em pensamento político sobre a guerra. Em 2019 publicou Aujourd’hui la guerre. Penser la guerre: Clausewitz, Mao, Schmitt, Adm. Bush. (Fayard), em que investiga a teoria da "guerra ao terrorismo" do governo Bush após os atentados de 11 de setembro e que tornou obsoletas as noções de "paz" e a distinção entre civis e militares e os “objetivos de guerra”.

A entrevista é de Joseph Confavreux, publicada por Il Fatto Quotidiano, 25-03-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Os eventos na Ucrânia e em Gaza mudaram a sua forma de “pensar a guerra”?

Não, porque do meu ponto de vista não existe apenas uma forma de pensar a guerra, mas múltiplas maneiras. Ou seja, a política pensa a guerra em termos diferentes dependendo do período, seja na Prússia do século XIX, na China em 1932 ou nos Estados Unidos em 2002.

A minha hipótese é que as guerras hoje estão destruindo todo pensamento político, a própria possibilidade de desenvolver um pensamento político. Isso explica os impasses atuais. Mais de 30 mil pessoas morreram desde 7 de outubro em Gaza, Rafah está ameaçada, a Faixa de Gaza está em ruínas. Mas Netanyahu recusa-se a pensar qualquer política que não seja a guerra. E se a guerra não tem um objetivo, é interminável. Em outras palavras, é sem paz. É a própria antítese do que Carl von Clausewitz escreveu em seu tratado Da guerra, por volta de 1830: que o objetivo da guerra deve ser sempre “a conquista de paz, porque é só pela paz que o conflito é resolvido e termina com um resultado comum".

Cinco meses após o massacre dos kibutzim, dado o andamento da guerra, o Hamas, na minha opinião, é apenas um pretexto. Estamos diante da guerra de um Estado contra um povo e o seu país, a Palestina. O objetivo é aniquilar o seu passado – os sítios históricos, os arquivos, os cemitérios, os museus – mas também o seu presente e o seu futuro: os portos, as infraestruturas, as universidades. O objetivo é criar algo de irreparável, nos corpos e nas mentes e produzir uma geração de analfabetos, numa sociedade onde se sabe que a educação e a cultura são muito importantes.

O que pensa da utilização do termo “terrorismo” para definir o ataque do Hamas em 7 de outubro?

É uma palavra que na França é utilizada de forma cada vez mais ampla e vaga para descrever tanto um crime de massa quanto um tuite ou um protesto ecológico. Tornou-se impossível utilizá-lo de maneira rigorosa. Quanto ao 7 de outubro, considero que o termo é fraco porque não leva em conta o fato de o Hamas, ao levar a cabo um massacre-manifesto, ter declarado a guerra. Uma declaração de guerra sem guerra, uma ofensiva suicida, já que os 2.000 homens não combatem, mas essencialmente matam antes de serem mortos. A ala militar do Hamas não desencadeou nenhuma relação de força, apesar das aparências. Esse simulacro de uma ofensiva militar permitiu ao Hamas afirmar o seu status de inimigo político e, logicamente, desencadeou a resposta israelense. O Hamas pareceu então como a ameaça existencial que não é e entregou numa bandeja as vidas de mais de 2 milhões de pessoas ao exército israelense, que não esperava outra coisa.

A reação de Netanyahu ao 7 de outubro representa o triunfo definitivo do paradigma da “guerra contra o terrorismo”, que você analisou no seu livro? Ou a guerra na Ucrânia lembra que formas mais tradicionais de guerra possam coexistir?

As modalidades como a guerra foi decidida pela Rússia lembram muito o governo Bush em 2003, quando foi decidida a invasão do Iraque. Os Estados Unidos nunca disseram que estavam em guerra com o Iraque, mas estavam. A sua guerra era, em muitos aspectos, uma guerra clássica de conquista, destruição e ocupação. A guerra em Gaza continua a lógica da “guerra contra o terrorismo”.

Uma de suas características é identificar o inimigo com a figura do mal, para privá-lo, portanto, de qualquer status político. Não há alternativa à sua eliminação. Embora a lógica permaneça mais ou menos a mesma, estamos assistindo à sua radicalização: às guerras para destruir os Estados - Iraque, Afeganistão – se acrescentaram as guerras para destruir os povos. Mas começaram antes de 8 de outubro de 2023. É o caso da guerra travada por Assad na Síria desde 2011, com mais de 600 mil mortos. Os civis são transformados em inimigos e tornam-se alvos explícitos. No ano passado, o cerco de Nagorno-Karabakh, pelo Azerbaijão, forçou mais de 100 mil pessoas famintas a deixar o território para a Armênia.

Por que considera que, desde 7 de outubro, exista um “bloqueio” do pensamento político?

Digamos que o desafio de pensar lançado pelos acontecimentos de 7 de outubro não foi aceito. Eu entendo que existe emoção, mas é tarefa dos intelectuais tomar as distâncias. Pelo contrário, em outubro de 2001, Jacques Derrida concedeu uma entrevista em Nova York, quase um documento, na qual desenvolvia uma análise política e filosofia visionárias da era pós-11 de setembro e abordava diretamente as emoções. Depois de 7 de outubro, na França, alguns, inclusive eu, se viram em um estado entre a raiva e atordoamento político. A pressão do governo e das mídias desempenharam um papel fundamental, pois qualquer um que se afastasse do rótulo de “terrorismo” corria o risco de ser suspeito de antissemitismo ou de apologia ao terrorismo. Como se o próprio pensamento tivesse caído na armadilha no Hamas.

Em novembro, num texto sobre o 7 de outubro, você escreveu: “É político arrancar ao ódio a sua eternidade". Em que condições é possível?

É uma frase de Plutarco citada por Barbara Cassin num livro sobre a Comissão Sul-Africana pela verdade e a reconciliação e que assume grande força no atual contexto de ódio. É uma frase viável, não utópica, porque diz que é possível tirar do ódio não o seu presente nem o seu futuro, mas a sua eternidade, desde que se torne uma questão política. Nada parecia pôr um fim à ordem biológico-racial do apartheid. No momento em que o emissário do Presidente Botha foi pela primeira vez se encontrar com Mandela na prisão foi o momento em que o poder branco demonstrou ter começado a tomar consciência do impasse. Era janeiro de 1985. Como na África do Sul, também em Israel-Palestina são dois povos para um só país, ninguém tem um país alternativo. Como sabemos, só a reformulação da questão nacional permitiria sair da lógica da guerra.

O processo sul-africano não teve consequências políticas reais. Isso deveu-se talvez à escolha de uma transição em vez de uma luta de libertação cujo objetivo último teria sido o afastamento dos africanos brancos, de um processo intranacional em vez que internacional, necessariamente imperfeito, que poupou à África do Sul a guerra civil.

Com dois amigos antropólogos, Hamza Esmili e Montassir Sakhi, depois do 7 de outubro, realizamos algumas entrevistas na Palestina e em Israel para saber o que as pessoas pensavam sobre a situação. Nós aprendemos muitas coisas, algumas inaudíveis na França, como, por exemplo, que “judeu” não é uma palavra, exceto para os palestinos, para designar os amigos de Telavive ou de Berlim. Que o inimigo é o Estado, a colonização, os colonos. Que a questão da legitimidade de Israel não existe, porque a luta é em outro lugar: a natureza arbitrária da ocupação, o seu controle sobre os corpos, sobre os cultivos, sobre os abastecimentos de água e sobre os deslocamentos. Compreendemos que nessa sociedade extremamente política, muitas pessoas estão pensando em como arrancar ao ódio a sua eternidade. Então podemos continuar a rodear a questão de uma forma estéril, mas também podemos decidir escutar.

Há vinte anos, Michel Warschawski escrevia sobre a política israelense: “É um ato de responsabilidade - alguns diriam de amor - tirar dos trilhos essa sociedade que corre para a sua própria destruição”.

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