Igreja Ortodoxa Russa em plena tempestade

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30 Março 2022

 

A guerra de Vladimir Putin, à qual o Patriarca Kirill ofereceu apoio religioso, provoca divisões no clero em um contexto de concorrência com a Igreja Ortodoxa da Ucrânia, que se emancipou da tutela russa em 2019.

 

A reportagem é de Cécile Chambraud, publicada em Le Monde, 29-03-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Não podia ser mais elíptico: “Devido à situação internacional, o Metropolita Onofre de Kiev e de toda a Ucrânia (...) não pôde comparecer à sessão”. Com essa simples alusão a uma “situação internacional” não especificada, o site das Relações Exteriores do Patriarcado de Moscou explicou, na quinta-feira, 24 de março, a ausência do chefe da Igreja Ortodoxa da Ucrânia em uma reunião naquele mesmo dia na capital russa do Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa Russa, o colégio executivo do qual são membros os metropolitas das Igrejas autônomas que dependem do Patriarcado de Moscou.

Essa formulação, com as suas omissões, é significativa das repercussões profundas que a invasão da Ucrânia, por ordem de Vladimir Putin, acarreta para a Igreja russa.

Em alguns sermões inflamados proferidos no fim de fevereiro e início de março, o Patriarca Kirill, chefe da Igreja russa, ofereceu apoio religioso à ofensiva militar, dotada, segundo ele, de uma dimensão “metafísica” e conduzida contra “as forças do mal” que se opõem à unidade do povo e da Igreja russos.

No início da guerra, alguns protestos foram expressados pelo seu clero contra esse recrutamento. Durante 15 dias, por outro lado, uma certa espera passiva acompanhava as perceptíveis flutuações do avanço russo in loco.

Mas as repercussões são inevitáveis para essa Igreja que, “notavelmente sob o impulso do patriarca, conquistou cada vez mais influência no mundo ortodoxo, agora já bem implantado na Europa ocidental, no seio na diáspora russa, e que corre o risco de perder essa influência ao apoiar a guerra”, explica Kathy Jeanne Rousselet, diretora de pesquisa do Sciences Po e especialista em Rússia.

A guerra ocorre em um momento em que a posição de Kirill, intimamente ligada ao poder de Vladimir Putin, havia perdido o seu brilho junto ao presidente russo. Ele sofreu com a grave perda de influência após a anexação da Crimeia e a guerra no Donbass em 2014.

Em 2019, a Igreja Ortodoxa da Ucrânia, concorrente desde os anos 1990 da Igreja ucraniana do Patriarcado de Moscou, obteve do Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu, o primus inter pares dos 14 chefes das Igrejas ortodoxas canônicas, a concessão da autocefalia (ou seja, a independência em relação a Moscou).

Esse foi um golpe muito duro para Kirill, ainda mais porque a Ucrânia é historicamente o berço do cristianismo eslavo, tem cerca de um terço das paróquias do Patriarcado de Moscou, e “o número dos praticantes é muito mais importante do que na Rússia”, afirma Kathy Jeanne Rousselet. “Kirill era profundamente contrário à anexação da Crimeia. Afinal, esteve ausente da cerimônia oficial de assinatura do ato de anexação.” Isso não foi suficiente.

O seu apoio à guerra atual é um novo desafio para ele. Por enquanto, observa Antoine Nivière, professor na Universidade de Lorraine, especialista em história cultural e religiosa russa, “dentro de sua Igreja, na Rússia, apenas ele se expressa oficialmente há um mês”. No início de março, quase 300 padres redigiram uma carta aberta pedindo o fim dos combates, mas não houve mais nada desde então. Além disso, muitos bispos são de origem ucraniana e, portanto, estão bem informados sobre a realidade dos acontecimentos.

No dia 18 de março, Kirill se reuniu com o alto conselho da sua igreja sobre “o que está acontecendo na Ucrânia”. Ele insistiu na necessidade de preservar “a unidade espiritual do povo – dos russos e dos ucranianos – porque se trata justamente de um único povo”. Ele também se gabou da utilidade dos seus “contatos pessoais” com outros chefes religiosos cristãos, como o Papa Francisco e Justin Welby, o arcebispo de Canterbury com quem havia falado por videoconferência dois dias antes.

“Os nossos interlocutores não se afastaram de nós”, disse ele ao seu alto conselho, “não se tornaram nossos inimigos, o que significa que o contexto político, graças a Deus, não destrói as relações que criamos com os nossos coirmãos (...) apesar das críticas violentas de uma certa ala da nossa comunidade eclesial. (...) A nossa Igreja ficaria completamente isolada sem esses contatos”.

Essa insistência era uma resposta às correntes ultraconservadoras do clero russo, que se mostram muito hostis às relações com outras confissões cristãs, consideradas heréticas e que haviam censurado o seu encontro com o Papa Francisco em 2016.

“Ele tinha muito medo de ser deixado de lado pelo cristianismo mundial”, é a análise de Antoine Nivière. “Ele mostra satisfação por não estar isolado internacionalmente, ao contrário de Vladimir Putin. O ecumenismo lhe permite demonstrar a este último que ele tem um papel a desempenhar em relação aos líderes religiosos estrangeiros para obter o consenso sobre as teses do Kremlin sobre este conflito.”

Na Ucrânia, as relações inicialmente boas do Metropolita Onofre com Kirill estão cada vez mais tensas. Em 28 de fevereiro, o sínodo dos bispos da Ucrânia deplorou “a guerra”, lembrou o seu apoio “à soberania do Estado e à integridade territorial da Ucrânia” e pediu a Kirill “que convide os líderes da Federação Russa a suspenderem imediatamente as hostilidades”.

Segundo Antoine Nivière, 16 dos 53 bispos, especialmente nas dioceses do oeste do país e do sul de Kiev, anunciaram que não mencionariam mais o nome do patriarca nas celebrações, uma citação importante, porque mostra o vínculo canônico de subordinação.

“O primeiro a protestar foi o bispo de Soumy”, observa o professor. “Mas Kirill imediatamente mandou avisar que tal decisão era uma porta aberta para o cisma e que ele teria que responder no juízo final e também antes, aqui embaixo.”

O Mosteiro Laure das Grutas de Kiev, sede oficial do Metropolita Onofre, “também parece muito dividido”.

“Em Odessa, a diocese financiou uma campanha de manifestos nas principais artérias da cidade, com cartazes representando um ícone da Virgem, a bandeira ucraniana ao fundo e o slogan ‘A Virgem protege a Ucrânia’”, acrescenta o pesquisador. O bispo local, o Metropolita Agathange, já no cargo na era soviética, ele mesmo de origem russa e fortemente ligado à manutenção da Ucrânia na esfera de influência do Patriarcado de Moscou, deu o seu consentimento.

Ele soube recentemente que os membros do clero de três dioceses ucranianas (Kiev, Soumy e Volhynie) haviam escrito aos seus respectivos bispos (para Kiev é o Metropolita Onofre), pedindo-lhes para convocar um concílio geral da Igreja da Ucrânia do Patriarcado de Moscou para proclamar a sua autocefalia e assim cortar todos os laços de dependência canônica com o Patriarca Kirill e a Igreja da Rússia.

A jurisdição canônica do Patriarcado de Moscou não se limita à Rússia e à Ucrânia. Nos países ex-soviéticos, predomina a espera passiva. Note-se, no entanto, que o metropolita de Vilnius, Inocêncio, foi mais ousado. No dia 17 de março, ele condenou “firmemente” a “guerra da Rússia na Ucrânia”. A sua declaração, disponível no site Orthodoxie.com, acrescenta: “O Patriarca Kirill e eu temos concepções políticas e percepções diferentes dos eventos atuais. As suas declarações políticas sobre a guerra na Ucrânia expressam a sua opinião pessoal. Nós, na Lituânia, não concordamos com tais opiniões”. Inocêncio também estava ausente no Santo Sínodo do dia 24 de março.

Nos outros países onde as paróquias inicialmente fundadas por exilados que fugiam da Revolução Russa voltaram quase todas sob a influência do Patriarcado de Moscou, a prudência é a opção escolhida para tentar preservar a unidade. Mas isso não exclui as tensões.

Em Amsterdam, a paróquia de São Nicolau decidiu no sábado, 26 de março, em assembleia geral, deixar o Patriarcado de Moscou e se unir à Diocese da Bélgica e dos Países Baixos do Patriarcado de Constantinopla. “Todo o clero votou a favor dessa decisão e também uma maioria dos fiéis, e isso apesar de dois bispos do Patriarcado de Moscou terem vindo à assembleia, o dos Países Baixos e o da Bélgica, que tentaram em vão impedir que essa escolha fosse feita”, explica Antoine Nivière.

 

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