"Penso que existe no Brasil um conspiracionismo atitudinal difuso, um modo de habitar o mundo que pressupõe a existência de um segredo, de um conhecimento oculto que os poderes estabelecidos escondem e que apenas os iniciados acessam", afirma a pesquisadora
A democracia propriamente dita é uma forma ampla de construção coletiva, onde cada esfera política funciona para todos, sem que sua essência esteja simplificada ou 'nichada' para poucos em uma sociedade de muitos. O Brasil não tem alcançado essa máxima, algo que tem matado suas raízes e dividido povos.
Consequentemente, a corrente de descontentamento político cria um muro entre pessoas com visões de mundo opostas, trazendo discursos apartados, muitas vezes esvaziados de sentido, sendo construídos de forma autoritária e banal.
Enquanto movimentos de direita utilizam diversas estratégias de aproximação com a sociedade civil, muitas frentes de esquerda continuam a dialogar apenas com setores mais intelectuais, algo que acaba impedindo a ampliação de contatos e até mesmo a escuta de diferentes vozes no contexto urbano.
A política em geral tem se mostrado pouco representativa e eficiente de todos os lados. Há aqueles que se decepcionaram com a esquerda e vão contra movimentos lulistas. Em contrapartida, temos grandes descontentamentos com políticas de extrema-direita. O recente escândalo ligado à família Bolsonaro, no qual vazou um áudio de Flávio Bolsonaro pedindo milhões a Daniel Vorcaro para financiar o filme que conta a história de Jair Bolsonaro, é um dos inúmeros exemplos que alimentam essa indignação.
Partindo dessa discussão, a dramaturga Helena Vieira, em entrevista concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, reflete sobre “o Brasil nunca teve uma democracia plena no sentido formulado por Robert A. Dahl, um regime que vai além do voto e exige garantias efetivas de participação, liberdades civis operantes e acesso real à informação”.
Vieira cita a filósofa Hannah Arendt para refletir sobre “o julgamento político como a capacidade de pensar do ponto de vista dos outros sem abdicar do próprio. Trata-se menos de empatia no sentido terapêutico e mais de uma habilidade que se desenvolve pela exposição à pluralidade, pelo contato com experiências que perturbam as certezas e pela prática de habitar o dissenso sem precisar resolvê-lo em vitória ou derrota”.
Helena Vieira (Foto: arquivo pessoal)
Helena Vieira é dramaturga, curadora e colunista da Revista Cult. Líder de projetos e parcerias da More In Common Brasil, atua na interface entre cultura, democracia, diversidade e pesquisa social. Deu aula na pós-graduação em Educação e Inovação da PUCRS Online e é autora de textos em coletâneas como Explosão Feminista e História do Movimento LGBT no Brasil. Também integra o Conselho Consultivo do Teatro de Arena/Funarte e desenvolve trabalhos nas áreas de dramaturgia, crítica cultural e pensamento político contemporâneo.
IHU – Como reabilitar a política junto à população e conscientizar as pessoas politicamente em um contexto de avanço da extrema-direita neste ano eleitoral?
Helena Vieira – Quando ouço falar em reabilitar a política, a primeira coisa que me ocorre é que o problema não está onde costuma ser posto. O desencanto político não é irracional nem produto de manipulação pura. Tem causas estruturais que precisam ser nomeadas com honestidade. Adam Przeworski ajuda a pensar esse problema em Crises of Democracy, quando as eleições deixam de ser percebidas como capazes de alterar concretamente a vida das pessoas, a democracia perde parte de seu sentido como forma de organização coletiva. Chamaria isso menos de uma crise institucional imediata e mais de uma crise de sentido da democracia, talvez mais perigosa porque opera lentamente, por acumulação, até o momento em que o terreno já está preparado para o autoritarismo sem que se tenha percebido o processo.
A extrema-direita não precisou oferecer um programa. Precisou oferecer um diagnóstico que as pessoas já sentiam como verdadeiro. O sistema estava corrompido, as elites o haviam traído e existiam inimigos identificáveis. Isso tem força afetiva que nenhuma plataforma bem-elaborada neutraliza em curto prazo. E a esquerda, de forma geral, ainda não aprendeu a responder nessa frequência, em parte porque confunde seriedade analítica com incapacidade de falar para quem não compartilha seu vocabulário.
Hannah Arendt, em A condição humana, pensa a política como o espaço da pluralidade, aquele em que os seres humanos agem em conjunto a partir de sua irredutível diferença. Quando esse espaço se degrada ou é capturado pelo medo e pelo ressentimento, perde-se a capacidade de ação coletiva, que Arendt distingue do simples comportamento e do labor. O autoritarismo não é uma anomalia histórica nesse sentido, mas sim uma consequência previsível do esvaziamento político.
As redes sociais aceleraram esse processo de uma forma específica. Não criaram a polarização, mas construíram uma infraestrutura em que o ressentimento circula sem fricção e sem a mediação que a política, no sentido arendtiano, pressupõe. O que circula não é o argumento, é o afeto organizado como identidade. Como diria Foucault, o poder opera por produção de sujeitos, por moldagem de desejos. A extrema-direita brasileira entendeu essa gramática antes e melhor que a esquerda, e usou as plataformas digitais para produzir pertencimento onde havia isolamento.
Reabilitar a política exige algo mais lento e exigente do que estratégia eleitoral. Exige presença contínua nos territórios, formas de organização que produzam experiência política real entre um pleito e outro, e uma aposta na linguagem capaz de nomear o que as pessoas já vivem sem academicizar o que deveria ser politizado. A esquerda brasileira sabe disso há muito tempo. O que ainda falta é tratar essas questões como centrais, não como complemento de uma estratégia eleitoral que sempre parece mais urgente.
IHU – O que explica a adesão de uma parcela da população à extrema-direita no Brasil?
Helena Vieira – A adesão à extrema-direita no Brasil não se explica por um único fator, e qualquer resposta que aponte para uma causa só revela mais sobre quem responde do que sobre o fenômeno. A desinformação existe, a manipulação existe, mas tratá-las como explicação central é politicamente cômodo e analiticamente insuficiente. As pessoas que aderiram ao bolsonarismo, em muitos casos, sabiam o que estavam fazendo. Estavam expressando uma rejeição que tem conteúdo.
Parte desse conteúdo é material. Quando décadas de alternância democrática não alteram as condições de vida de forma perceptível, a promessa de ruptura ganha apelo genuíno, especialmente para quem nunca teve muito a perder nas alternâncias anteriores. A dimensão econômica, porém, não dá conta sozinha. Alexis de Tocqueville já havia identificado que a igualdade formal produz um tipo específico de ressentimento, o de quem se sente igual em direito mas continua desigual em dignidade e reconhecimento. Esse ressentimento passa menos pela renda do que pela posição simbólica, pelo desejo de ser visto e de ter a própria vida considerada legítima.
O neoliberalismo aprofundou isso de uma forma que Wendy Brown analisa com precisão em Nas ruínas do neoliberalismo. Mais do que uma reorganização econômica, o neoliberalismo produziu uma transformação da subjetividade que gerou indivíduos que interpretam suas dificuldades como falhas pessoais e não como efeitos de estrutura. Foucault havia mapeado essa lógica ao pensar a governamentalidade. O poder não opera apenas por repressão, opera por produção de sujeitos. Quando esse sujeito encontra um discurso que devolve a responsabilidade para inimigos externos, sejam o comunismo, o globalismo ou a ideologia de gênero, há um alívio que não é irracional.
É uma racionalidade formada dentro de condições muito específicas. A dimensão religiosa também precisa ser levada a sério sem ser reduzida a instrumento de classe. Em determinados segmentos do eleitorado evangélico, a adesão ao conservadorismo político é coerente com uma cosmologia inteira, com uma leitura de mundo em que família, sexualidade e autoridade têm sentidos que o projeto progressista frequentemente ameaça de frente, sem negociar, sem escutar. Tratar isso apenas como manipulação de pastores sobre fiéis ingênuos é repetir o erro da falsa consciência com outros personagens.
IHU – Sabemos que não se pode afirmar que há uma democracia propriamente dita em um país onde existem inúmeras desigualdades sociais. Por onde podemos começar um processo de reestruturação e transformação social?
Helena Vieira – A premissa da pergunta pode levar a duas conclusões muito distintas. Uma é que a democracia liberal é uma fraude que deve ser descartada. A outra é que a democracia realmente existente é sempre incompleta, sempre um horizonte em disputa, e que essa incompletude é o campo da política. Fico com a segunda leitura, e não por ingenuidade institucional.
O Brasil nunca teve uma democracia plena no sentido formulado por Robert A. Dahl, um regime que vai além do voto e exige garantias efetivas de participação, liberdades civis operantes e acesso real à informação. Nossa história política é a de uma república que nasceu sem abolir a escravidão de fato, que atravessou o século XX entre ditaduras e democracias tuteladas, e cuja redemocratização em 1988, por mais que tenha sido uma conquista real, não desarmou as estruturas de poder que as antecederam. Os mesmos grupos que controlavam a terra, a mídia e o sistema judiciário antes da ditadura continuaram controlando depois.
A Constituição cidadã foi um avanço imenso e insuficiente ao mesmo tempo. O Brasil de hoje é um país em que o voto universal coexiste com o extermínio sistemático de populações negras e periféricas, com uma violência policial que o Estado financia e raramente pune, com condições de moradia, saúde e mobilidade que determinam quanto de cidade, de direito e de futuro cada pessoa pode acessar. Essas condições não podem ser tratadas como distorções externas a uma democracia que, sem elas, funcionaria bem. Elas integram o próprio modo de funcionamento da democracia brasileira.
A desigualdade tampouco pode ser entendida como um resíduo a ser dissolvido pelo crescimento econômico; ela se reproduz ativamente, inclusive através das instituições democráticas, e qualquer processo de transformação social que não parta desse diagnóstico vai continuar produzindo reformas que beneficiam quem já tem condições de se beneficiar delas.
A disputa pelo Estado é incontornável, mas carrega um paradoxo que raramente é enunciado com clareza. O Estado é simultaneamente o problema e o terreno onde direitos se consolidam ou se perdem. Ocupá-lo não transforma automaticamente suas lógicas internas, como os governos do PT mostraram ao mesmo tempo que provaram o quanto o desmonte bolsonarista foi real e veloz. Disputar o Estado é inevitável. A dificuldade está em fazê-lo sem ser capturado por ele.
A participação política pressupõe condições materiais de existência que a desigualdade nega sistematicamente. Fazer política no sentido mais básico, comparecer a uma reunião, dedicar tempo à organização coletiva, sustentar um engajamento ao longo do tempo, demanda que as necessidades fundamentais estejam minimamente resolvidas. Judith Butler, em Corpos em aliança e a política das ruas, pensa a precariedade como condição política, não apenas como sofrimento individual. Quem está preocupado em sobreviver não tem as mesmas condições de aparecer no espaço público. A desigualdade exclui da política antes mesmo que qualquer lei o faça, e uma transformação social que não enfrente isso produz democracia para quem já pode participar dela.
A dimensão cultural e educacional é parte constitutiva desse processo, não suplemento que vem quando as condições materiais estiverem resolvidas. Uma sociedade que não desenvolve a capacidade de nomear o que existe como problema político delega a outros a tarefa de definir o que ela é e o que pode querer. Isso me preocupa tanto quanto a violência policial e a ausência de saneamento. São formas diferentes de retirar das pessoas o controle sobre a própria vida.
IHU – Há um ressentimento da sociedade com relação às políticas de esquerda. Qual é a origem desse ressentimento?
Helena Vieira – O ressentimento com a esquerda no Brasil tem camadas que precisam ser distinguidas, porque tratá-lo como bloco único leva a diagnósticos errados e respostas políticas inadequadas.
Uma dessas camadas vem de fora da esquerda, fabricada e amplificada por décadas de mídia concentrada, financiamento de movimentos conservadores, uma operação sistemática de deslegitimação que o lawfare contra Lula tornou mais visível, mas que antecede em muito o PT. Seria ingênuo ignorar isso.
Mas a camada mais importante de enfrentar é aquela que a esquerda produziu por si só. Os governos progressistas brasileiros, especialmente os do PT, operaram durante anos numa tensão não resolvida entre a transformação que prometiam e a governabilidade que priorizaram. O lulismo, como Jessé Souza e André Singer analisaram de formas distintas, foi um fenômeno real de melhora das condições de vida de milhões de pessoas. Mas operou predominantemente pela via do consumo e da mobilidade individual, sem enfrentar as estruturas que produzem a desigualdade. Quando o ciclo econômico virou, o que sobrou para muitas pessoas foi a sensação de que tinham subido sem que o chão tivesse mudado.
Uma parte significativa da população sentiu que suas crenças, seus valores e seus modos de vida eram tratados com condescendência por um campo que se arrogava o monopólio do progresso e da razão histórica. Parte da esquerda hoje atribui isso principalmente às chamadas políticas de identidade, e não é uma leitura sem fundamento. Mas tomá-la como explicação central reduz um fenômeno complexo a um único fator, além de arriscar abandonar pautas que dizem respeito à sobrevivência de grupos inteiros. O que está em jogo é algo mais amplo: a percepção de que a esquerda se tornou um projeto de elites ilustradas falando para si mesmas, distante da vida concreta de quem mais precisaria de uma política transformadora.
Quando trabalho com grupos em periferias, seja em teatro, seja em espaços de formação, percebo que as pessoas têm análises sofisticadas sobre sua própria situação. O que falta não é consciência, falta sentir que o campo político que diz falar por elas de fato as escuta.
Vale também não tratar o ressentimento como problema exclusivo da relação com a esquerda. Maria Rita Kehl mostrou, em Ressentimento, que essa constelação afetiva se tornou uma gramática política do presente que atravessa espectros ideológicos e grupos sociais. Vivemos num tempo em que a política é cada vez mais conduzida pelo que se rejeita do que pelo que se deseja construir, e isso vale tanto para a direita quanto para setores da esquerda.
Há ainda uma dimensão que Tocqueville iluminou ao analisar a Revolução Francesa em O Antigo Regime e a Revolução. As grandes convulsões políticas não tendem a ocorrer nos momentos de maior opressão, mas quando as condições começam a melhorar e as expectativas que essa melhora desperta superam o que o regime consegue entregar. O Brasil dos anos Lula produziu algo parecido. Milhões de pessoas ascenderam materialmente, desenvolveram expectativas legítimas de continuidade, e quando o ciclo virou, a queda foi sentida com uma intensidade proporcional à esperança que havia sido criada. Esse tipo de frustração não se dissolve com argumentos sobre conquistas reais. Ela se transforma em ressentimento, e o ressentimento foi capturado por um projeto político que não tem nenhum interesse em resolver as condições que o produziram.
IHU – Referente à igualdade de gênero, atualmente temos representantes importantes na política lutando pelos direitos das mulheres e comunidade LGBTQIAP+. Nesse sentido, o quanto esses movimentos devem ser intensificados no âmbito social, principalmente para o combate a misoginia, a homofobia e a transfobia?
Helena Vieira – Vale começar reconhecendo o que já aconteceu, porque é muito e porque há uma tendência, sobretudo em momentos de crise, de apagar o que foi conquistado. Em poucas décadas, o Brasil assistiu a uma transformação cultural profunda. Pautas que eram tabu tornaram-se parte do debate público, da televisão, do cinema, das redes sociais. Travestis e mulheres trans elegeram-se vereadoras e deputadas. O feminismo deixou de ser palavra assustadora para se tornar identidade assumida por milhões de mulheres jovens. Essa transformação não veio de uma benevolência institucional; foi produzida por movimentos organizados que pressionaram, ocuparam espaços, produziram cultura e construíram narrativas que mudaram a vida de muita gente.
É importante ser honesta, no entanto, sobre os limites do caminho percorrido. Uma parte significativa dos avanços concretos se deu pela via judicial, não pela via legislativa. A criminalização da homofobia foi uma decisão do STF, não do Congresso. Isso diz algo sobre o estado da nossa democracia representativa, sobre quão hostil o parlamento segue sendo em relação a essas pautas, e sobre a fragilidade de conquistas que dependem da composição de um tribunal para se sustentar. Direitos que não passam pelo legislativo podem não passar pelo tempo.
Num contexto de avanço conservador, esses movimentos têm sido convocados a pagar um ônus que não lhes pertence. Parte da esquerda passou a tratar as pautas de gênero e sexualidade como variáveis a serem administradas eleitoralmente, como se recuar nelas fosse um gesto de inteligência política. Não é. É uma capitulação que não conquista o eleitorado conservador e abandona quem mais depende dessas pautas para sobreviver. A misoginia, a homofobia e a transfobia não são preconceitos que se dissolvem com paciência estratégica. São estruturas que o Estado reproduz, que o mercado de trabalho institucionaliza e que parte da cultura religiosa legitima ativamente.
Em Problemas de gênero, Judith Butler faz uma crítica que vai além do debate sobre representação. Ela questiona a própria estabilidade das categorias que fundamentam a política identitária, a ideia de que existe um sujeito "mulher" ou "LGBT" homogêneo cujos interesses se deduzem automaticamente de uma identidade partilhada. Gênero, para Butler, é performativo, produzido na repetição de normas, e não uma essência que a política viria simplesmente reconhecer. Isso não dissolve a necessidade de lutar por direitos. Mas coloca uma questão que os movimentos precisam enfrentar: quando a política se organiza em torno de identidades fixas, tende a representar, na prática, a fração do grupo com mais recursos para ocupar o espaço público, deixando de fora exatamente quem mais precisaria de proteção.
Há a necessidade de uma política de gênero que parta das vulnerabilidades concretas, das mulheres negras periféricas, das travestis que o Estado deixa morrer, das pessoas LGBT expulsas de casa na adolescência, sem reduzir essas experiências a uma identidade abstrata que nivela o que não pode ser nivelado.
IHU – Como as fake news e os discursos de ódio nas redes sociais enfraquecem a democracia?
Helena Vieira – A pergunta tende a ser respondida como se fake news fossem um problema de um lado específico do espectro político. Não são. A desinformação atravessa campos ideológicos, ainda que suas formas e seus alvos variem. Tratá-la como patologia exclusiva da direita é empiricamente discutível e politicamente contraproducente, porque impede que o campo progressista enxergue suas próprias vulnerabilidades a esse fenômeno. As fake news não são apenas instrumentos de disputa eleitoral. São boatos sobre vacinas que matam crianças. São difamações que destroem reputações e rumores que se transformam em violência física.
As fake news não são apenas instrumentos de disputa eleitoral. São boatos sobre vacinas que matam crianças. São difamações que destroem reputações e rumores que se transformam em violência física. Em maio de 2014, Fabiane Maria de Jesus, dona de casa de 33 anos, mãe de duas filhas, foi linchada por cerca de cem pessoas no Guarujá, no litoral paulista. A causa foi um boato que circulava nas redes sociais afirmando que uma mulher estava sequestrando crianças para rituais de magia negra. Fabiane não tinha qualquer relação com o boato. A polícia confirmou que o crime descrito nunca havia ocorrido. Mas a desinformação já havia produzido seu efeito, e esse efeito foi irreversível. O caso é de 2014. As dinâmicas que o produziram só se aprofundaram desde então.
O que as redes sociais fizeram foi criar uma infraestrutura em que determinadas formas de linguagem circulam com muito mais eficiência do que outras. O ódio viraliza mais que o argumento sóbrio. A indignação gera mais engajamento que a análise. Isso não é um acidente técnico que se resolve com moderação de conteúdo. É o modelo de negócio. As plataformas foram desenhadas para maximizar tempo de tela, e tempo de tela se maximiza com afeto intenso, preferencialmente negativo.
Penso que existe no Brasil um conspiracionismo atitudinal difuso, um modo de habitar o mundo que pressupõe a existência de um segredo, de um conhecimento oculto que os poderes estabelecidos escondem e que apenas os iniciados acessam. Essa disposição não nasce com as redes sociais. Tem raízes históricas numa relação de desconfiança com as instituições que, dada a nossa história, não é de todo irracional. As redes a potencializaram de forma extraordinária porque transformaram o ato de descobrir e compartilhar uma verdade oculta numa experiência social gratificante.
Há prazer nisso, senso de comunidade e identidade. Quem compartilha uma teoria conspiratória não está apenas transmitindo informação. Está se afiliando a um grupo, demonstrando perspicácia, rompendo com a ingenuidade dos que acreditam na mídia oficial. Combater esse fenômeno apenas com fact-checking é não entender o que está em jogo.
Foucault ajuda a pensar uma dimensão que o debate sobre fake news frequentemente ignora. O problema vai além da crença em informações falsas: as redes produziram regimes de verdade alternativos, sistemas de autoridade e credibilidade que funcionam com sua própria lógica interna. Quando alguém confia num médico do YouTube em vez de buscar um epidemiologista da Fiocruz, não está sendo irracional dentro do seu regime de verdade. Está sendo perfeitamente coerente com ele.
Uma questão que raramente é formulada com clareza é a distinção entre o mundo virtual e o mundo real, algo que já era frágil e tornou-se inoperante. O que acontece nas redes sociais é parte da vida. Os afetos que circulam nas redes são afetos reais. As comunidades que se formam nas redes são comunidades reais. As violências que se iniciam nas redes, como o caso de Fabiane demonstrou de forma brutal, terminam em corpos reais. A resposta democrática a isso não pode ser apenas regulação, embora o Brasil precise de um marco legal para as plataformas que esteja à altura do problema. É preciso também apostar na reconstrução de espaços de linguagem compartilhada. Escola, sindicato, coletivo cultural, associação de bairro, formação partidária. Qualquer espaço onde o argumento precise sobreviver ao confronto com quem pensa diferente. Isso é mais lento que uma lei e mais difícil que uma campanha.
IHU – O que fazer para impedir que a extrema-direita continue dominando o Senado e a Câmara, e o quanto as próximas eleições são importantes para mudar este cenário?
Helena Vieira – As eleições importam, e seria irresponsável sugerir o contrário. Mas reduzir a questão ao plano eleitoral é insuficiente. A extrema-direita não domina o Congresso apenas porque ganhou eleições. Domina porque construiu, ao longo de décadas, uma presença capilar em territórios, igrejas, associações, redes de comunicação alternativas e estruturas de financiamento sem equivalente no campo progressista. Ganhar eleições sem enfrentar essa assimetria estrutural produz maiorias frágeis que se desfazem na primeira crise.
As eleições de 2026 têm uma dimensão que vai além da disputa ordinária de cargos. O Brasil saiu de um período em que as instituições democráticas foram testadas de formas que não se viam desde a redemocratização. O sistema eleitoral foi questionado sem evidências, houve uma tentativa de golpe documentada. Nesse contexto, uma eleição carrega um peso que extrapola a alternância de poder. É uma afirmação ou uma negação da própria legitimidade do regime democrático, e as forças democráticas precisam ter clareza sobre isso sem transformar essa clareza em paralisia ou em vitimismo.
Novamente Adam Przeworski, em Crises of Democracy pode nos ajudar a compreender que, quando as pessoas deixam de acreditar que os resultados eleitorais alteram suas vidas, a democracia perde sentido como projeto. Vencer em 2026 com um programa que não entregue resultados concretos para quem vive da economia real é preparar o terreno para uma derrota ainda maior em 2030. A pergunta mais difícil talvez seja menos como ganhar e mais se o campo progressista tem hoje clareza sobre o que faria diferente com a vitória. Construir uma maioria parlamentar progressista exige também alianças que a esquerda não está acostumada a fazer sem constranger sua identidade. Há setores do centro político e de comunidades religiosas com tradição de compromisso social que não são naturalmente aliados da extrema-direita, mas que esse campo frequentemente afasta por uma combinação de arrogância simbólica e incapacidade de falar sobre suas vidas. O problema é que ampliar a base sem diluir o programa não é uma equação que se resolve com boa vontade. Trata-se de uma tensão constitutiva da política democrática, e a esquerda brasileira ainda não desenvolveu uma cultura política madura o suficiente para habitá-la sem se despedaçar.
IHU – Sabemos que a democracia liberal, em seu desenho institucional, prevê que haja uma "quebra" nos pleitos, com votos brancos, nulos e abstenções. Como agir frente a esse cenário e retomar o protagonismo e a importância da participação política efetiva? Qual seria o papel do campo progressista nesse contexto?
Helena Vieira – Muito do que explica o desengajamento eleitoral já foi discutido ao longo dessa entrevista. O que quero acrescentar aqui é uma distinção que o debate costuma achatar.
O voto branco, o nulo e a abstenção não são a mesma coisa, e tratá-los como bloco homogêneo de desengajamento é um equívoco analítico e político. Uma parte do não voto no Brasil não expressa escolha política deliberada, mas a impossibilidade prática de comparecer, seja por trabalho, doença ou distância dos locais de votação. Num país com voto obrigatório, populações periféricas e trabalhadores informais são desproporcionalmente afetados por esses impedimentos. A obrigatoriedade do voto, pensada como mecanismo de inclusão, produz uma forma de exclusão que os dados eleitorais raramente tornam visível.
Robert Dahl observou que a participação efetiva é uma das condições centrais de uma democracia que funcione de fato, mas participação não se decreta. A ação se produz quando as pessoas têm razões concretas para acreditar que sua presença faz diferença. Quando isso não existe, a abstenção é uma conclusão, não um desvio. E o campo progressista que governa sem enfrentar as estruturas que produzem a desigualdade não tem autoridade moral para reclamar do desengajamento que produz.
Hannah Arendt, em A promessa da política, via no desengajamento moderno algo mais profundo que apatia. Via um sintoma do encolhimento do espaço público e da perda da capacidade de agir em conjunto. A recuperação da participação política, nesse sentido, não começa no período eleitoral. Começa nos espaços onde a política volta a ser reconhecível como algo que diz respeito à vida de cada um, o que exige presença, continuidade e a disposição de construir algo que não caiba numa campanha.
IHU – Que tipo de educação e formação política seria necessário hoje?
Helena Vieira – Formação política virou um tema com cara de solução fácil, bastaria informar, conscientizar, explicar melhor etc. Tenho desconfiança profunda dessa lógica. Ela reproduz uma relação pedagógica vertical que se torna parte do problema. Uma educação política que se entende como transmissão de conteúdo correto para quem ainda não chegou à consciência adequada não é formação política. É catequese.
O que me parece necessário hoje é algo mais próximo do que Paulo Freire chamava de conscientização. Não como slogan, mas como método, um processo em que as pessoas partem da leitura da própria experiência para identificar as estruturas que a produzem e desenvolver capacidade de agir sobre elas. Freire insistia que não há neutralidade pedagógica, que toda educação ou domestica ou liberta, e essa tensão continua sendo atual num momento em que boa parte da chamada formação política se resume a disputar narrativas nas redes sem produzir qualquer acúmulo coletivo.
Arendt, retomando Immanuel Kant, pensava o julgamento político como a capacidade de pensar do ponto de vista dos outros sem abdicar do próprio. Trata-se menos de empatia no sentido terapêutico e mais de uma habilidade que se desenvolve pela exposição à pluralidade, pelo contato com experiências que perturbam as certezas e pela prática de habitar o dissenso sem precisar resolvê-lo em vitória ou derrota. Num tempo em que as plataformas digitais funcionam como máquinas de confirmação de crenças, desenvolver essa capacidade é um ato político antes de ser pedagógico.
A arte, o teatro, a literatura, o cinema não são ornamentos da vida política. São espaços onde se experimenta a perspectiva do outro, onde se elaboram experiências que a linguagem política ordinária não consegue nomear. Digo isso não como concessão cultural, mas como convicção de quem trabalha com dramaturgia e vê cotidianamente o que uma peça de teatro pode produzir numa plateia que nenhum panfleto produziria. Um país que desinveste em cultura está desinvestindo na sua capacidade de formar sujeitos políticos, e essa relação raramente aparece nos debates sobre política cultural com a seriedade que merece.
Por último, formação política não é algo que o campo progressista faz para outras pessoas. A substituição da formação pelo ativismo de redes, pela disputa de narrativas em tempo real, produziu uma esquerda que reage muito e pensa pouco. Reconstruir espaços de estudo, de debate interno, de elaboração coletiva fora do ciclo eleitoral é uma condição de sobrevivência política que a esquerda brasileira ainda trata como luxo.