O que Paulo Freire diria sobre escrever com IA? Artigo de Aristóteles Berino

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19 Mai 2026

Educador defendia a beleza da linguagem, vendo-a como um momento estético e de experimentação. É uma busca por autenticidade e a própria experiência, o que pode exigir “lutar contra a gramática para ter a liberdade de escrever” – e, inclusive, contra os chatbots.

O artigo é de Aristóteles Berino, doutor em Educação, professor titular do Departamento de Educação e Sociedade do Instituto Multidisciplinar da UFRRJ e docente do PPGEduc/UFRRJ, publicado por Outras Palavras, 15-05-2026.

Eis o artigo. 

Em tempos de IA generativa, quando a autoria é posta em questão, o retorno ao jovem Paulo Freire em seus primeiros anos de magistério como professor de língua portuguesa pode proporcionar uma perspectiva fecunda para o debate.

Nas instituições de ensino, da educação básica à universidade, mas também no jornalismo ou em qualquer outro espaço em que a escrita está presente de modo destacável, a autoria passa por um mal-estar. Aplicativos de IA, capazes de criar textos, fazem hoje parte dos nossos cotidianos de trabalho. Basta um celular e um prompt na cabeça e pronto, é possível obter uma redação qualquer. E agora, o que poderia definir legitimamente a autoria, especialmente nos casos em que ela importa para certificar como autêntico um texto que foi entregue como resultado de um trabalho pessoal?

Diante da densa névoa de problemas que cobre essa discussão, o que gostaria é apenas vislumbrar um caminho possível recorrendo a um conceito que fez parte do ensino de Paulo Freire, exatamente frente ao desafio da orientação de escrever textos, o que ele chamou de "momento estético da linguagem".

Entre os anos de 1937 e 1942, Paulo Freire estudou no Colégio Oswaldo Cruz, um dos mais importantes de Recife. Nele, com dezesseis anos, ingressou no segundo ano do nível secundário, que compreendia o ciclo fundamental e o pré-jurídico [1]. Bolsista e estudioso, foi ali também que começaram os seus anos no magistério, aproveitado como professor de língua portuguesa. Em Cartas a Cristina [2], livro publicado em 1994, Paulo Freire apresenta uma narrativa sobre a sua vida e conta de modo revelador aspectos da sua formação e da sua prática docente. De modo particularmente delicado, ele diz: "Minha paixão se moveu sempre na direção dos mistérios da linguagem, na busca, se bem não angustiada, inquieta, do momento da sua boniteza" [3].

Uma das razões do uso da IA hoje para produzir textos é a insegurança em relação à própria escrita. Recentemente, em uma conferência a que assisti sobre o impacto da IA na pós-graduação, uma discente relatou que tinha limitações para escrever de acordo com o vocabulário acadêmico. Ela se sentia cobrada. Compartilhava sua aflição, declarando sua dificuldade para escrever textos que pudessem corresponder à competência acadêmica desejada na pós-graduação. A questão que aparecia, então: Até que ponto seria legítimo usar a IA para alcançar os resultados requeridos pelo curso?

No que consiste o momento da boniteza da linguagem em Paulo Freire? Para responder a tal pergunta, primeiro é preciso observar que Paulo Freire, à época de estudante no ginásio e já exercendo o magistério, deparava-se com uma condição no ensino da língua portuguesa que chamou de gramatiquice em suas memórias do período. O emprego do termo significa uma rejeição à gramática vista como um apego excessivo às suas regras. Paulo Freire propõe uma concepção divergente, que se dirige a um estado de maior riqueza da linguagem, capaz de proporcionar uma boniteza, que ele vai chamar também de "momento estético da linguagem" [4]. Mas é muito importante entender que aqui não se trata também de buscar a boniteza pela boniteza, o que constituiria outra fórmula sem vida de utilização da linguagem. Sua concepção é a de que a escrita precisa expressar a autenticidade do seu autor ou da sua autora, que deve se "esforçar para ser ela ou ele mesmo" [5].

Há uma oportuna correspondência com o contexto acadêmico hoje quando notamos que Paulo Freire cita nesta passagem das suas memórias, exatamente "quem trabalha dissertação ou tese doutoral" como destinatários da sua preocupação. Dedica ainda uma sugestão agora também fundamental: "[…] que se obrigue, como tarefa a ser rigorosamente cumprida, a leitura de autores de bom gosto. Leitura tão necessária quanto as que tratam diretamente seu tema específico" [6]. Naturalmente, não há como escrever com uma certa competência sem ter se transformado em um leitor também experimentado. Trata-se de um princípio que deve ser obedecido, mesmo por quem hoje faz uso da IA na elaboração dos seus textos. Caso contrário, a IA deixa de ser um assistente no trabalho da escrita para se transformar supostamente em um dispositivo capaz de substituir a falta de formação adequada.

Não faz sentido esperar escrever bem sem ter realizado também leituras que desenvolvam um saber relevante à experimentação da escrita. Em uma outra passagem de Cartas a Cristina, Paulo Freire cita Gilberto Freyre, Machado de Assis, Eça de QueirozGraciliano RamosManoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e José Lins do Rego como referências literárias que lhe foram transmitidas ainda durante o ciclo escolar [7]. A capacidade de Paulo Freire nos surpreender, contudo, não se esgota assim tão facilmente.

Em outro livro, Medo e ousadia, publicado com o educador estadunidense Ira Shor, em 1987, Paulo Freire também recorda seus tempos de estudante no ginásio e começo no magistério. Ira Shor indagava: "Como é que a correção gramatical poderia se inserir em suas vidas da forma que eu a cultivei?" [8]

Um pouco mais adiante, diz Paulo Freire: "Em certo momento, você tem que lutar contra a gramática, para ter a liberdade de escrever." Cita também suas leituras com a seguinte observação: "[…] esses autores não estavam preocupados em seguir a gramática! O que procuravam em suas obras era um momento estético" [9]. Explicando um pouco mais a sua prática docente, diz: "Eu lhes ensinava gramática a partir do que escreviam, e não de um compêndio. E utilizava também textos de bons autores brasileiros" [10]. Para Paulo Freire, a beleza da linguagem encontra-se na original autoria, aquela que somos capazes de expressar de acordo com as nossas referências e não por meio de uma mera imitação gramatical.

Em outro registro, o artigo "Ninguém nasce feito, é experimentando-se no mundo que nós nos fazemos" [11], escrito em 1992 e publicado na coletânea Política e educação, Paulo Freire acrescenta mais alguns detalhes à natureza do trabalho que realizava com seus alunos. É muito significativa a seguinte nota: "Foram desses tempos as primeiras tentativas no sentido de desafiar ou de estimular, de instigar os alunos, adolescentes dos primeiros anos do então chamado curso ginasial, a que se dessem à prática do desenvolvimento de sua linguagem – a oral e a escrita. Prática impossível, quase, de ser vivida plenamente se a ela falta a busca do momento estético da linguagem, a boniteza da expressão, coincidente com a regra gramatical ou não" [12].

No artigo há um destaque também para as práticas pedagógicas elaboradas com seus alunos. Paulo Freire conta que frases extraídas dos trabalhos eram discutidas coletivamente. Algumas vezes, essas frases eram comparadas com aquelas produzidas por autores que considerava grandes escritores. Sempre com o propósito de que seus alunos progredissem na escrita. Não com o propósito da aquisição pura e simples da gramática normativa, mas para que pudessem, sobretudo, atingir uma capacidade expressiva envolvida pelo gosto da leitura e da escrita. É assim que o estudo da gramática muda: "Em lugar de termos nela a prisão da criatividade, do risco, o espantalho à aventura intelectual, passamos a ter nela uma ferramenta a serviço de nossa expressão" [13]. Portanto, quando Paulo Freire remete ao momento estético da linguagem, não se trata de algo que se alcança através de uma escrita automática. É resultado de um trabalho em que a partilha da experiência é o que preserva a original capacidade de criação.

Paulo Freire cita, junto ao repertório literário que sublinhava suas influências, o linguista alemão Karl Vossler (1872-1949), como quem primeiro lhe chamou a atenção para o problema do momento estético da linguagem [14], cuja obra Gesammelte Aufsätze zur Sprachphilosophie, publicada em 1923, Paulo Freire leu em espanhol em uma tradução editada na Argentina com o título Filosofía del lenguaje. Embora referencie a quarta edição de 1963, a cronologia correta indica que consultou a primeira edição, publicada em 1943 [15]. Karl Vossler foi um dos pensadores germânicos influentes na forma como a gramática começou a ser sistematizada no Brasil sob uma perspectiva moderna [16].

Agora que a IA generativa nos desafia a discutir a autoria, o que o docente em formação Paulo Freire, dos tempos de seu início no magistério, nos provoca a pensar? Concluímos com ele que essa condição não se alcança através de códigos de linguagem. Trata-se de uma capacidade de expressão que só existe propriamente quando nos fazemos plenamente presentes na escrita, ou seja, criando. É aí que acontece o momento estético da linguagem, diante do querer expressar de modo sensível, pessoal e intransferível. Para que essa dimensão estética aparecesse na escrita dos seus alunos, Paulo Freire precisou enfrentar a gramática rigidamente prescrita nas escolas e se orientar por outros caminhos. A IA generativa também tem um caráter impositvo. São as Big Techs decidindo sobre o seu uso em uma escala massiva. É um novo contexto em relação ao qual precisamos nos posicionar para que o ato criativo não se desvaneça também. Um debate vivo para o legado de Paulo Freire.

Notas

[1] FREIRE, Ana Maria Araújo. Paulo Freire: uma história de vida. 2ª ed. rev. e atualizada. São Paulo/Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2017.

[2] FREIRE, Paulo. Cartas a Cristina: reflexões sobre minha vida e minhas práxis. 2ª ed. ver. São Paulo: Ed. UNESP, 2003.

[3] Ibidem, p. 112.

[4] Ibidem.

[5] Ibidem, p. 113.

[6] Ibidem, p. 112.

[7] Ibidem, p. 80.

[8] FREIRE, Paulo; SHOR, Ira. Medo e ousadia: o cotidiano do professor. 12ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2008, p. 30.

[9] Ibidem, p. 31.

[10] Ibidem, p. 39.

[11] FREIRE, Paulo. Ninguém nasce feito, é experimentando-se no mundo que nós nos fazemos. In: Política e educação. 2ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2015, p. 93-103.

[12] Ibidem, p. 96.

[13] Ibidem, p. 97.

[14] Ibidem, p. 95.

[15] VOSSLER, Karl. Filosofía del lenguaje. Buenos Aires: Editorial Losada, 1943.

[16] CAVALIERE, Ricardo. A gramática no Brasil: ideias, percursos e parâmetros. Rio de Janeiro: Lexikon, 2014, p. 116.

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