Plano de adaptação às mudanças climáticas: Brasil já fez lição de casa; é preciso implementá-la com urgência. Entrevista especial com Paulo Artaxo

Plano de adaptação às mudanças climáticas: Brasil já fez lição de casa; é preciso implementá-la com urgência. Entrevista especial com Paulo Artaxo “Os eleitores têm que pressionar os candidatos a se comprometerem a transformar a política de adaptação climática numa política de longo prazo, numa política de Estado com medidas emergenciais, que são, às vezes, necessárias, mas também com medidas de longo prazo”, insiste o cientista

Foto: Prefeitura de Matias Barbosa | Divulgação

Por: Luana de Oliveira e Patricia Fachin | 17 Agosto 2026

“A situação na qual nos encontramos mostra a absoluta necessidade de o Brasil se preparar melhor para o aumento dos eventos climáticos extremos.” A declaração de Paulo Artaxo, físico brasileiro que trabalhou nos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU resume o sentimento de inúmeros brasileiros que, por mais de uma vez, perderam todos os seus pertences em decorrência dos efeitos climáticos extremos que estão se tornando mais frequentes no país, com destaque para a região Sul.

Nesta entrevista, concedida por telefone, o cientista afirma que é preciso implementar o AdaptaBrasil, plano de adaptação climática do governo federal. “Esse plano foi construído por vários ministérios ao mesmo tempo e mostra as vulnerabilidades de cada um dos 5.760 municípios do país. Portanto, a lição de casa de construir um plano já foi feita. Entretanto, o plano ainda está no papel e precisa ser implementado com a máxima urgência”, diz.

Para que o plano de adaptação climática seja bem-sucedido, sublinha, um trabalho conjunto entre as diferentes esferas do poder público é fundamental. Entretanto, destaca o entrevistado, “as estratégias de adaptação têm que ser locais” e dependem fortemente da atuação dos municípios.

Neste ano eleitoral, frisa, “transformar uma política pública em política de Estado depende muito da pressão que a população faz sobre seus governantes nos níveis municipal, estadual e federal. Em particular, em um ano de eleição como este, esta questão se torna crítica”. 

A seguir, Artaxo reflete sobre a situação da Amazônia, defende o reflorestamento como estratégia de enfrentamento às mudanças climáticas e destaca a necessidade de mudar a cultura do país em relação à valorização dos serviços ecossistêmicos. “Precisamos mudar toda uma cultura no país para entender que nós dependemos criticamente dos serviços ecossistêmicos mantidos pelos ecossistemas naturais: a chuva depende dos rios voadores; os mananciais têm um efeito sobre a disponibilidade de água nas grandes cidades e por aí vai. Nós dependemos criticamente da manutenção dos serviços ecossistêmicos como um todo”, pontua. 

Paulo Artaxo (Foto: Arquivo Pessoal)

Paulo Artaxo é graduado em Física, mestre em Física Nuclear e doutor em Física Atmosférica pela Universidade de São Paulo (USP). Trabalhou na Nasa e no Instituto Max Plank, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), da World Academy of Sciences (TWAS), da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (ACIESP) e do IPCC, pelo qual integrou a equipe agraciada com o Prêmio Nobel da Paz em 2007. Leciona no Departamento de Física Aplicada da USP.

Confira a entrevista. 

IHU – Nos últimos meses o Brasil presenciou a ocorrência de inúmeros fenômenos climáticos extremos e o El Niño está se intensificando. Como o senhor avalia a forma como essa situação tem sido enfrentada? O país está preparado para lidar com os efeitos das mudanças climáticas? 

Paulo Artaxo – Em primeiro lugar é importante perceber que a questão do El Niño é separada do desenvolvimento dos demais eventos climáticos extremos. Os El Niños sempre ocorreram e vão continuar ocorrendo. Eles decorrem de um oceano muito mais quente. Trata-se de um fenômeno que se intensificou, apesar de sempre ocorrer. Outros eventos climáticos extremos, como a ocorrência de tornados, como estamos vendo recentemente na região Sul do Brasil, são um produto do aquecimento global, que injeta mais energia na atmosfera – esses eventos climáticos extremos são uma manifestação dessa energia. A situação na qual nos encontramos mostra a absoluta necessidade de o Brasil se preparar melhor para o aumento dos eventos climáticos extremos. 

IHU – Qual deve ser o primeiro passo para construir uma cultura de adaptação climática no país? 

Paulo Artaxo – O primeiro passo é implementar os planos de adaptação climática que o Brasil tem. O governo federal tem um programa chamado AdaptaBrasil. Esse plano foi construído por vários ministérios ao mesmo tempo e mostra as vulnerabilidades de cada um dos 5.760 municípios do país. Portanto, a lição de casa de construir um plano já foi feita. Entretanto, o plano ainda está no papel e precisa ser implementado com a máxima urgência. Esse plano tem que ser um plano de Estado. Ou seja, do Estado brasileiro e não de um governo ou de um setor particular do governo. Ou o país trabalha efetivamente com todos os setores, isto é, com estados, municípios e o governo federal, trabalhando todos juntos, ou a chance de sucesso do AdaptaBrasil pode diminuir significativamente.

IHU – Como transformar a adaptação climática em uma política de Estado permanente e não uma resposta emergencial após cada desastre? De que forma as mudanças climáticas deveriam mudar o modo como os estados, municípios e a União planejam seus territórios, tendo em vista o AdaptaBrasil, que o senhor menciona? 

Paulo Artaxo – Transformar uma política pública em política de Estado depende muito da pressão que a população faz sobre seus governantes os níveis municipal, estadual e federal. Em particular, em um ano de eleição como este, esta questão se torna crítica. Os eleitores têm que pressionar os candidatos a se comprometerem a transformar a política de adaptação climática numa política de longo prazo, numa política de Estado com medidas emergenciais, que são, às vezes, necessárias, mas, também, com medidas de longo prazo. Isto é possível e, na verdade, é a única maneira de termos políticas consistentes.

IHU – Quais medidas seriam mais eficazes para enfrentar cheias e enchentes, como aquelas ocorridas no Rio Grande do Sul?

Paulo Artaxo – Não é possível fazer recomendações como estratégias de adaptação em geral para o Brasil porque as estratégias de adaptação têm que ser locais. Cada municipalidade e cada região sabe quais são as melhores estratégias. Isso depende da estrutura geológica e social de cada região em particular. 

No caso do Rio Grande do Sul, a proteção de mananciais na cabeceira das principais bacias hidrográficas é fundamental, além de uma análise detalhada, com modelos hidrológicos e informações sobre o escoamento de água possível para cada uma das bacias hidrográficas. Algumas obras de contenção também são importantes para que se possa controlar o fluxo da água de alguma maneira. Essas são recomendações feitas localidade por localidade. É impossível dar uma diretriz para dimensões como as do Brasil, com a enorme diversidade que temos, incluindo a diversidade socioeconômica. Essa é uma ação a ser feita por cada prefeitura e localidade em particular.

IHU – Alguns pesquisadores destacam a importância da resiliência frente às mudanças climáticas, no sentido de que precisamos ser resilientes frente aos desafios que se apresentam. Como vê essa proposta? O que isso significa na prática?

Paulo Artaxo – Temos que aumentar a resiliência da sociedade brasileira, da economia, do sistema de geração de eletricidade que depende da chuva, porque majoritariamente temos geração de energia hidroelétrica. Também temos que adaptar toda a nossa economia, porque uma economia que depende tanto do agronegócio, como o Brasil dependeu nas últimas décadas, não terá alta produtividade, justamente por causa das mudanças climáticas, que diminuem a precipitação no Brasil Central, onde está concentrada a maior parte da produção agropecuária.

IHU – A agropecuária também avançou para a região amazônica nos últimos anos, mas, entre agosto de 2025 e julho de 2026, houve uma queda no desmatamento. Apesar disso, especialistas dizem ser necessário aumentar as políticas de reflorestamento. Qual o primeiro passo para avançar no reflorestamento e como isso ajuda no enfrentamento às mudanças climáticas? 

Paulo Artaxo – Evidentemente, o Brasil precisa recuperar as áreas degradadas, que são muito extensas, para que possamos aumentar a nossa resiliência à mudança do clima. Isso é fundamental e vai desde o bioma amazônico até o Cerrado, Semiárido e Mata Atlântica. Recuperar áreas degradadas, hoje, é a melhor maneira de aumentar a resiliência para eventos climáticos e garantir os serviços ecossistemas dos quais todos nós dependemos criticamente. 

IHU – Ainda sobre a Amazônia, nos últimos anos ocorreu um aumento dos incêndios florestais na região, inclusive em áreas alagadas da floresta que antes não eram tão atingidas. O que explica o avanço do fogo nessas áreas úmidas que dificilmente queimavam?

Paulo Artaxo – Um fato é a seca muito intensa que ocorreu em 2023, 2024 e 2025. Essas secas intensas favorecem a flamabilidade da floresta. Entretanto, é importante observarmos que todos os incêndios florestais da Amazônia são criminosos; não ocorrem naturalmente. Uma floresta tropical chuvosa como a Amazônia não pega fogo com relâmpagos como pegam as florestas mais secas das regiões mais temperadas do Canadá, da Rússia e da Europa. O que precisamos fazer é combater o crime organizado na região amazônica através do roubo de terras indígenas, que ocorre livremente na Amazônia, com pouco combate. Essa é uma tarefa fundamental da sociedade brasileira. 

IHU – O combate às desigualdades sociais deveria estar no centro de uma política nacional de adaptação climática? Como coadunar esses dois problemas?

Paulo Artaxo – Não há dúvida nenhuma. A política de adaptação climática tem que ser ampla o suficiente para abarcar todas as atividades que possam aumentar a resiliência da sociedade brasileira aos eventos climáticos extremos. Isso inclui uma série de atividades e é importante sempre pensar que as ações locais dependem muito mais de ações a nível de município ou, no máximo, a nível regional, como vimos no Rio Grande do Sul. Então, é cada município que sabe onde estão suas áreas mais vulneráveis, quais são as potenciais soluções para a sua realidade econômica, para a sua problemática ambiental como um todo. Nesse sentido, é fundamental que essas políticas sejam implementadas em nível municipal.

IHU – As comunidades indígenas têm um papel fundamental na preservação das florestas. Pensando nisso, o que podemos aprender com os povos originários e qual é a importância da proteção das comunidades que ainda vivem isoladas na Amazônia?

Paulo Artaxo – Não tenho a menor dúvida de que as áreas menos desmatadas da região amazônica correspondem às áreas indígenas demarcadas e protegidas pelo Estado. Isso é muito claro nos mapas do MapBiomas e nos dados do sistema de desmatamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Entretanto, o número de áreas indígenas demarcadas e protegidas hoje é muito pequeno e reduzido. Além disso, há uma quantidade de áreas não destinadas. Ou seja, áreas de floresta que não são nem áreas ecológicas nem áreas indígenas, que precisam ser urgentemente demarcadas. É preciso que se dê uma destinação para elas porque do contrário permanecem mais vulneráveis aos crimes ambientais que ocorrem na Amazônia. Então, é importante que, efetivamente, se demarquem as terras indígenas que ainda não foram demarcadas bem como as áreas de florestas não destinadas.

IHU – Como avalia a possibilidade de discutir as mudanças climáticas neste momento da política brasileira, em que há grupos negacionistas, mas também há outros que parecem não ter uma visão clara de como enfrentar os desafios postos? 

Paulo Artaxo – Infelizmente, há grupos de empresários que enxergam só o lucro a curtíssimo prazo e não se importam com os danos que eles podem causar à sociedade brasileira, ao meio ambiente e à emergência climática que estamos enfrentando. Esses empresários, muito frequentemente, cometem crimes ambientais como os que observamos na Amazônia, mas isso também ocorre em outras áreas do país. Isso tem que ser coibido pelo Judiciário como um todo. Entretanto, também observamos uma ação muito fraca do Judiciário na ação contra crimes ambientais. 

Nesse sentido, precisamos mudar toda uma cultura no país para entender que nós dependemos criticamente dos serviços ecossistêmicos mantidos pelos ecossistemas naturais: a chuva depende dos rios voadores; os mananciais têm um efeito sobre a disponibilidade de água nas grandes cidades e por aí vai. Nós dependemos criticamente da manutenção dos serviços ecossistêmicos como um todo. 

IHU – Alguns cientistas e lideranças indígenas estão se candidatando e pautando o debate climático. Qual a importância de candidaturas que defendem as questões socioambientais?

Paulo Artaxo – É claro que temos que mudar o legislativo elegendo pessoas que têm uma visão econômica diferente dos nossos recursos naturais e que lutem pelos interesses da população. 

IHU – De que forma ciência, política e sociedade podem dialogar para encontrar soluções conjuntas para o enfrentamento das mudanças climáticas? Alguns sociólogos dizem que é preciso repensar um modelo de ciência positivista e neutra neste momento. Concorda com essa proposição?

Paulo Artaxo – Não sei o que vem a ser uma ciência positivista e uma ciência neutra. Não posso nem concordar nem discordar porque não é efetivamente claro para mim o que significa isso.

IHU – Como a sociedade em geral pode contribuir para favorecer mudanças efetivas em relação ao enfrentamento dos efeitos gerados pelos eventos climáticos extremos?

Paulo Artaxo – Através da organização social, particularmente, votando, nessas eleições, em candidatos que defendam o interesse da população e não o interesse de empresas, e trabalhando em organizações sociais para defender os interesses da população como um todo. Agora, ninguém tem uma receita no bolso para dizer como isso deve ser feito em cada comunidade. Isso também depende das circunstâncias locais, dos níveis socioeconômicos, do próprio poder público e do poder Judiciário local. Portanto, essa é uma atitude que tem que ser tomada localidade por localidade.

Nota:

Acrescentamos a seguir o post compartilhado por Paulo Artaxo no Facebook em 18-08-2026, fazendo referência à matéria do jornal Valor.

Não é incrível? Um ano e oito meses após o governo federal ter disponibilizado R$ 6,5 bilhões para as áreas atingidas pela tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul, nada foi utilizado até agora. 

No Orçamento federal de 2025, foram disponibilizados R$ 532 milhões para obras de drenagem urbana e de contenção de encostas em todo o país. Desses, apenas R$ 136 milhões foram pagos pela entrega de serviços, pela conclusão de obras ou de suas etapas.

Os números mostram que, apesar de haver dinheiro, as obras seguem em ritmo lento – mesmo diante da constatação, por especialistas e pelo próprio governo, de que os eventos climáticos extremos vieram para ficar. Este ano, está prevista a ocorrência do fenômeno El Niño de grande intensidade, o que significa secas severas no Norte, Nordeste e Centro-Oeste e chuvas abundantes no Sul e Sudeste.

Dados sobre orçamento federal e recursos utilizados para obras de drenagem urbana e contenção de encostas (Foto: Reprodução Facebook)

 

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