O presbítero entre o mistério e a humanidade: Por uma teologia do ministério que não desumanize o ministro! Artigo de Izidorio Batista de Alencar

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07 Agosto 2026

"A dimensão humana não constitui, portanto, um elemento secundário da formação; ela é o seu fundamento. Um ministro incapaz de reconhecer a própria humanidade dificilmente conseguirá acolher, com autenticidade, a humanidade dos outros".

O artigo é de Izidorio Batista de Alencar, presbítero da Diocese de Salgueiro-PE, licenciado em Filosofia; graduado em Gestão Pública pelo Centro Universitário; mestre em Teologia Dogmática, pelo Pontifício Atheneo Regina Apostolorum, em Roma; pós-graduado em Governança Eclesial pela FACASC, Florianópolis, e pós-graduando em Dimensão Social da Fé pela UNICAPE, Recife. É pároco da Paróquia Santa Cruz, em Salgueiro-PE, e coordenador diocesano de Pastoral. 

Eis o artigo.

A reflexão sobre a humanidade do presbítero torna-se particularmente urgente no atual contexto eclesial, marcado por um fenômeno que já não pode ser ignorado: muitos sacerdotes têm deixado o exercício do ministério, enquanto numerosos jovens, ao longo do processo de formação e discernimento vocacional, optam por deixar as casas de formação, interrompendo, assim, o caminho em direção ao presbiterato. Por trás dessas decisões existem histórias pessoais, processos de discernimento, crises, amadurecimentos, conflitos, descobertas, sofrimentos e, muitas vezes, a busca sincera por compreender, diante de Deus, qual é o caminho vocacional possível.

Entretanto, nem sempre a instituição eclesial, os presbitérios e as próprias comunidades conseguem acolher essas situações com a maturidade humana, espiritual e pastoral que elas exigem. Ainda persistem, em alguns contextos, atitudes marcadas pelo julgamento, pela suspeita, pelo silêncio, pela exclusão e até pelo desprezo, como se a pessoa perdesse sua dignidade ao deixar a formação ou interromper o exercício do ministério. Há comunidades que sabem acolher o sacerdote enquanto ele exerce sua missão, mas encontram dificuldade para acolher o homem quando ele atravessa uma crise, muda de caminho ou deixa de ocupar o lugar que anteriormente ocupava. Essa realidade expressa uma profunda contradição com o coração do Evangelho. Uma Igreja chamada a anunciar a misericórdia, a acompanhar processos e a reconhecer a dignidade inalienável de cada pessoa, paradoxalmente, por vezes reproduz mecanismos de exclusão justamente em relação àqueles que um dia fizeram parte de seus processos vocacionais e ministeriais. Por isso, talvez seja necessário perguntar, com coragem e humildade: que tipo de Igreja estamos construindo quando somos capazes de valorizar o sacerdote pelo ministério que exerce, mas temos dificuldade de reconhecer, acolher e amar a pessoa quando esse ministério deixa de ser exercido? A questão não diz respeito apenas aos que deixam o ministério ou a formação; ela interpela a própria maneira como compreendemos o sacerdócio, a vocação, a pessoa humana, o discernimento e a misericórdia no interior da comunidade eclesial.

É nesse contexto que se torna oportuno revisitar uma expressão tradicionalmente atribuída a São João Maria Vianney: "O sacerdote é o amor do coração de Jesus”. Durante séculos, essa frase foi utilizada para expressar a grandeza do sacerdócio, particularmente em ocasiões de homenagem e, de modo especial, no dia 4 de agosto, memória litúrgica do Santo Cura d'Ars e tradicionalmente celebrado como Dia do Padre. A expressão encerra uma profunda intuição espiritual: o ministério presbiteral nasce do amor de Cristo e existe para tornar presente, no meio do povo, sua ação salvadora. Contudo, justamente por sua força simbólica, ela suscita uma necessária pergunta teológica: como falar da grandeza do sacerdócio sem transformar o sacerdote em alguém situado acima ou à margem de sua própria humanidade? Longe de diminuir a dignidade do sacerdócio, essa pergunta pode ajudar a compreendê-lo em sua verdade mais profunda. A primeira distinção necessária consiste em não confundir a grandeza do ministério com a grandeza pessoal do ministro. O sacerdote não é Cristo; é sacramentalmente configurado a Cristo para agir em seu nome, servindo ao povo de Deus.

A graça do sacramento da Ordem não produz uma espécie de "divinização" da pessoa do presbítero. A ordenação não elimina sua condição humana; ao contrário, assume essa humanidade e a incorpora a uma missão eclesial específica. O sacerdote continua sendo um homem, com sua história, seus afetos, limites, feridas, necessidades, desejos, medos, virtudes e fragilidades. O sacramento não o retira da condição humana; insere-o nela de modo ainda mais profundo, colocando toda a sua humanidade a serviço do Evangelho. É precisamente nessa direção que a teologia do ministério ordenado precisa avançar: não para uma sacralização da pessoa do padre, mas para uma compreensão verdadeiramente sacramental de sua existência. O sacerdote é sinal de Cristo não porque deixe de ser homem, mas porque, permanecendo plenamente humano, é chamado a configurar toda a sua vida ao serviço do Reino de Deus.

A Carta aos Hebreus oferece uma chave decisiva para essa compreensão: "Todo sumo sacerdote, escolhido dentre os homens, é constituído em favor dos homens nas coisas que dizem respeito a Deus" (Hb 5,1). Nessa afirmação encontra-se uma das mais importantes intuições antropológicas da teologia do ministério ordenado. O sacerdote é escolhido dentre os homens e permanece um deles. Antes de ser sacerdote, ele é pessoa; e continuará sendo pessoa durante toda a sua vida ministerial. Seu ministério não cancela sua humanidade, mas a coloca inteiramente a serviço de outras pessoas concretas. Por essa razão, a formação sacerdotal não pode tratar a dimensão humana como um estágio preliminar, destinado simplesmente a ser superado. São João Paulo II, na Pastores dabo vobis, afirma categoricamente: "Sem uma adequada formação humana, toda a formação sacerdotal ficaria privada do seu fundamento necessário" (PDV, n. 43). Não se trata de um aspecto acessório da preparação para o ministério ordenado, mas do alicerce sobre o qual se edificam as dimensões espiritual, intelectual e pastoral da formação. O presbítero deve possuir uma humanidade capaz de ser, nas palavras da própria Pastores dabo vobis, "ponte e não obstáculo" para o encontro das pessoas com Cristo.

A dimensão humana não constitui, portanto, um elemento secundário da formação; ela é o seu fundamento. Um ministro incapaz de reconhecer a própria humanidade dificilmente conseguirá acolher, com autenticidade, a humanidade dos outros. Nesse horizonte, talvez uma das tarefas mais urgentes da formação sacerdotal contemporânea seja libertar o presbítero da necessidade de aparentar permanentemente ser forte, irrepreensível, incansável e espiritualmente superior. O padre também se cansa. Também chora. Também experimenta a solidão. Também necessita de escuta, amizade e acompanhamento.

Também erra. Também precisa pedir e receber perdão. Reconhecer tudo isso não diminui a dignidade do ministério; pelo contrário, manifesta que a graça de Deus não depende de uma humanidade artificialmente perfeita para realizar sua obra. Existe, portanto, um risco quando a linguagem religiosa utilizada para homenagear o sacerdote acaba transformando o ministro numa espécie de personagem sagrado, quase que negando a sua condição humana comum. Quando isso acontece, o padre é colocado sobre um pedestal do qual já não lhe é permitido descer para ser simplesmente pessoa. A comunidade passa a esperar dele uma perfeição que não exige de si mesma, e o próprio presbítero pode interiorizar essa expectativa, aprendendo a esconder suas fragilidades para preservar uma imagem idealizada de sacerdote. A consequência pode ser dramática: um padre aparentemente forte por fora, mas profundamente fragilizado por dentro. É necessário, portanto, recuperar uma teologia do presbítero capaz de unir mistério e humanidade. Ao redescobrir a Igreja como Povo de Deus, o Concílio Vaticano II contribuiu decisivamente para superar uma compreensão excessivamente clerical da vida eclesial.

O sacerdote não existe à margem do povo, mas no interior dele; não é proprietário da comunidade, mas seu servidor. Seu ministério constitui uma forma específica de participação na missão de Cristo, inteiramente orientada para o serviço da comunhão eclesial. Nesse horizonte, também merece ser repensada a maneira como as comunidades eclesiais compreendem aqueles que, após um sério e honesto processo de discernimento, decidem deixar o exercício do ministério presbiteral. Trata-se de uma realidade que exige delicadeza, responsabilidade e fidelidade à disciplina da Igreja, mas também uma sólida antropologia cristã, capaz de reconhecer que a dignidade da pessoa jamais se reduz à função que ela exerce. Um homem não deixa de ser pessoa porque deixa de exercer um ministério. Essa afirmação, aparentemente simples, possui profunda densidade teológica. Quando alguém deixa o exercício do ministério, não desaparecem sua história, sua dignidade, seus vínculos, seus dons, sua trajetória de fé, suas amizades, suas dores nem tudo aquilo que constituiu sua existência. A pessoa jamais pode ser reduzida à categoria de "ex-padre", como se toda a sua identidade estivesse determinada por uma função que exerceu em determinado momento de sua vida. A crítica do Papa Francisco, na Evangelii Gaudium, à “cultura do descarte” (EG, n. 53) ultrapassa o âmbito econômico e social. Ela interpela igualmente a própria Igreja sempre que o valor de uma pessoa passa a ser medido pela função que desempenha. Quando um presbítero é reconhecido apenas enquanto exerce o ministério, produz resultados pastorais ou ocupa determinado ofício eclesial, corre-se o risco de reproduzir, no interior da comunidade cristã, a mesma lógica utilitarista denunciada pelo Evangelho.

A fraternidade cristã exige algo muito mais profundo: que cada pessoa seja acolhida e amada não pelo que faz, mas pelo que é, filho ou filha de Deus, irmão ou irmã em Cristo e membro do seu Corpo pelo Batismo. Aqui se encontra uma questão pastoral que merece maior atenção. A Igreja precisa aprender a acompanhar não apenas aqueles que ingressam no seminário, mas também aqueles que, depois de um autêntico processo de discernimento, compreendem que não devem prosseguir no caminho da formação sacerdotal, bem como aqueles que, mais tarde, discernem a necessidade de deixar o exercício do ministério presbiteral. Essa perspectiva exige uma compreensão mais profunda do próprio discernimento vocacional. O discernimento não pode ser concebido exclusivamente como um itinerário orientado para a ordenação. Antes de tudo, ele é um caminho espiritual de escuta da vontade de Deus, vivido na liberdade, na oração e no acompanhamento eclesial.

Seu verdadeiro êxito não consiste simplesmente em conduzir alguém ao presbiterato, mas em ajudar a pessoa a reconhecer, com sinceridade e maturidade, o chamado que Deus lhe dirige. Assim compreendido, um discernimento autêntico poderá confirmar o chamado ao ministério ordenado. Em outras situações, porém, poderá conduzir à percepção de que Deus chama aquela pessoa a outra forma de viver sua vocação cristã e de servir à Igreja. Em ambos os casos, o discernimento alcançou sua finalidade, porque conduziu à verdade da vocação. O fracasso não está em deixar o seminário ou o ministério; o verdadeiro fracasso seria permanecer em um caminho que já não corresponde à vontade de Deus, apenas para atender expectativas institucionais ou sociais. Essa compreensão permite olhar com novos olhos para aqueles que deixam as casas de formação. O tempo vivido no seminário não deve ser interpretado como um percurso perdido ou uma experiência fracassada. Ao contrário, constitui parte de um processo de amadurecimento humano, espiritual e vocacional. O seminário não existe apenas para formar futuros presbíteros; existe, antes de tudo, como espaço privilegiado de discernimento, onde a Igreja, por meio da formação e do acompanhamento, ajuda cada pessoa a reconhecer com liberdade o projeto de Deus para sua vida. O mesmo princípio vale para aqueles que, após anos de ministério, discernem a necessidade de interromper seu exercício.

Evidentemente, cada situação possui sua complexidade e deve ser considerada com responsabilidade, fidelidade à disciplina da Igreja e respeito pelas circunstâncias concretas. Entretanto, mesmo nesses casos, a dignidade da pessoa permanece intacta. Um homem não deixa de ser filho de Deus, nem perde sua história, seus dons ou sua pertença ao Corpo de Cristo porque deixou de exercer o ministério presbiteral. Essa compreensão não banaliza os compromissos assumidos nem relativiza o caráter sacramental do ministério ordenado. Ao contrário, manifesta a seriedade com que a Igreja compreende o discernimento vocacional. Uma Igreja verdadeiramente sinodal é também uma Igreja que acompanha, discerne, respeita os processos pessoais, cuida das pessoas e testemunha, em todas as etapas da vida, a misericórdia de Deus. Por isso, torna-se urgente superar uma cultura eclesial na qual o sacerdote é valorizado enquanto exerce o ministério e, em determinados contextos, quase descartado quando deixa de exercê-lo. Da mesma forma, é preciso abandonar qualquer compreensão segundo a qual o seminarista que interrompe sua formação tenha "fracassado" em sua vocação. Essa lógica é incompatível com o Evangelho, porque reduz a pessoa à função ou ao resultado de um processo formativo. A vocação cristã jamais se identifica simplesmente com um cargo, um estado de vida ou um ministério. O sacerdote não é chamado a ser um homem sem fragilidades, mas um homem que aprende a colocar suas fragilidades diante da graça.

O verdadeiro perigo não está em reconhecer a grandeza do sacerdócio, mas em separá-la da cruz, da humanidade e da vulnerabilidade. O próprio Cristo, fundamento de todo ministério, não se revelou como um poder distante, mas como aquele que "esvaziou-se a si mesmo" (Fl 2,7), assumindo plenamente a condição humana e fazendo-se servo. A autoridade cristã encontra sua forma mais autêntica não na superioridade, mas no serviço; não no privilégio, mas na entrega; não na exaltação de si, mas no dom da própria vida. Celebrar o padre no dia de São João Maria Vianney deveria significar muito mais do que repetir elogios ao sacerdócio. Deveria ser ocasião privilegiada para renovar nossa compreensão do ministério ordenado à luz da Encarnação. Humanizar o ministério não significa secularizá-lo nem reduzir sua dimensão espiritual; significa reconhecer que a Encarnação é o próprio método de Deus. A graça não atua à margem da humanidade, mas na carne, na história, nas relações, nos afetos e até mesmo nas fragilidades humanas. Talvez esta seja uma das grandes provocações para os presbitérios de nosso tempo: a Igreja não precisa de heróis religiosos, mas de homens profundamente humanos, espiritualmente maduros, afetivamente integrados, capazes de viver a fraternidade, a humildade, a escuta, a compaixão e o serviço. Quanto mais humana for a humanidade do presbítero, mais transparente poderá tornar-se a ação da graça que nele opera. O padre não precisa ser colocado em um pedestal; precisa caminhar no meio do povo. Não precisa ser tratado como alguém incapaz de cair; precisa encontrar uma comunidade que o ajude a levantar-se. Não precisa ser amado apenas pelo que faz; precisa ser reconhecido pelo que é: um homem, um irmão na fé, um discípulo de Cristo, chamado, consagrado e enviado para servir. Talvez seja esta a interpretação mais profunda da conhecida expressão atribuída a São João Maria Vianney: o sacerdote é o amor do coração de Cristo não porque tenha deixado de ser humano, mas precisamente porque, assumindo plenamente sua humanidade e entregando-a generosamente ao serviço do Reino, torna visível algo do coração daquele que veio "não para ser servido, mas para servir" (Mc 10,45). Celebrar o sacerdote, portanto, é celebrar o ministério que lhe foi confiado.

Mas é também cuidar do homem que vive esse ministério. É permitir que o padre seja pessoa antes de ser personagem; irmão antes de ser autoridade; discípulo antes de ser mestre; peregrino antes de ser guia. Porque também o sacerdote precisa ser evangelizado. Também ele necessita de uma comunidade que o sustente, de irmãos que caminhem ao seu lado, de misericórdia quando experimenta sua fragilidade e de esperança quando o peso da missão parece superar suas forças. E o mesmo vale para aqueles que, em algum momento do caminho, discerniram que Deus os chamava por outra estrada. A Igreja continua sendo sua casa. Sua dignidade permanece intacta. Sua história continua fazendo parte da história do povo de Deus. A resposta sincera à vontade do Senhor jamais representa um fracasso; constitui, antes, uma expressão de fidelidade ao Deus que continua chamando cada pessoa pelo nome e conduzindo-a pelos caminhos de sua graça. Talvez somente quando a Igreja conseguir olhar assim para seus presbíteros, para seus seminaristas e também para aqueles que seguiram outros caminhos depois de um honesto discernimento vocacional, compreenderá plenamente que a santidade do ministério não exige a negação da humanidade do ministro. Ao contrário, exige que essa humanidade seja continuamente assumida, purificada, ‘curada’ e transfigurada pela graça.

Humanizar o ministério, portanto, não significa diminuir o sacerdócio. Significa protegê-lo de toda forma de idealização que, ao pretender exaltar o ministro, acaba por desumanizá-lo. Somente uma Igreja que ama o sacerdote como pessoa, antes mesmo de reconhecê-lo por sua função, será capaz de formar presbíteros mais livres, mais maduros, mais fraternos e, justamente por isso, mais configurados a Cristo, o Bom Pastor.

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