O padre argentino Brochero já é santo

Mais Lidos

  • Governo Trump retira US$ 11 mi de doações de instituições de caridade católicas após ataque a Leão XIV. Artigo de Christopher Hale

    LER MAIS
  • Procurador da República do MPF em Manaus explica irregularidades e disputas envolvidas no projeto da empresa canadense de fertilizantes, Brazil Potash, em terras indígenas na Amazônia

    Projeto Autazes: “Os Mura não aprovaram nada”. Entrevista especial com Fernando Merloto Soave

    LER MAIS
  • Para o sociólogo, o cenário eleitoral é moldado por um eleitorado exausto, onde o medo e o afeto superam os projetos de nação, enquanto a religiosidade redesenha o mapa do poder

    Brasil, um país suspenso entre a memória do caos e a paralisia das escolhas cansadas. Entrevista especial com Paulo Baía

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

Por: Jonas | 26 Janeiro 2016

Deus é como os piolhos: está em todas as partes, mas prefere os pobres”. A frase pertence ao “padre Brochero”, oriundo de Córdoba, que teve a sua canonização aprovada pelo papa Francisco, após o Vaticano ter confirmado seu segundo milagre. Deste modo, será o primeiro santo nascido e morto na Argentina. Já havia sido declarado “venerável” por João Paulo II e, depois, beatificado por Bento XVI, em fins de 2012. O início de seu caminho aos altares remonta a 1967. Provavelmente sua oficialização como santo seja concretizada em outubro. Houve diversas repercussões em Córdoba pelo padre ‘gaúcho’ que educou, construiu caminhos e igrejas, e terminou seus dias leproso e cego.

 
Fonte: http://goo.gl/J1nCsK  

A reportagem é publicada por Página/12, 23-01-2015. A tradução é do Cepat.

O quarto de dez irmãos, José Gabriel del Rosario, mais conhecido como o ‘Padre Brochero’, nasceu em Córdoba, em um local chamado ‘Carreta Quemada’, próximo a Santa Rosa de Río Primeiro, no dia 16 de março de 1840. Quatorze anos depois, entrou no Seminário de Nossa Senhora de Loreto e em 1858 frequentou a Universidade Nacional Maior de San Carlos, onde conheceu o futuro presidente Miguel Juárez Celman, com quem iniciou uma perdurável amizade. Vestiu o hábito aos 26 anos e se caracterizou por pregar o Evangelho com uma linguagem simples, para torná-lo compreensível.

Ontem, o Papa autorizou que a Congregação das Causas dos Santos publicasse o decreto que aprova o segundo milagre atribuído a ‘Brochero’, o caso de uma criança que se recuperou de lesões que a haviam deixado à beira da morte. Em setembro do ano passado, uma junta de sete médicos determinou que “não há explicação científica” no caso de Camila Brusotti, uma menina de San Juan recuperada de múltiplas feridas que derivaram em um infarto massivo no hemisfério cerebral direito. Desta forma, deu-se por cumprido o primeiro dos quatro passos que são necessários para que, segundo a Santa Sé, o ‘Padre Brochero’ seja declarado santo. O primeiro milagre que lhe é atribuído foi o de Nicolás Flores, que reverteu um quadro inicial de possível “vida vegetativa”, após um acidente.

Em novembro, o processo de canonização do beato argentino foi analisado por uma junta de teólogos que certificou a “intercessão” do religioso no acontecimento, ou seja, que o milagre alegado efetivamente aconteceu mediante orações “a ele” e não mediante orações simultâneas dirigidas a outro santo já estabelecido, o que foi avaliado por uma junta de bispos e cardeais em meados de janeiro. Antes da Semana Santa, o Pontífice comunicará ao mundo a data e lugar onde será canonizado.

“Este ano, o ‘Padre Brochero’ completa 150 anos de sacerdote, uma testemunha da misericórdia. Que no Ano da Misericórdia seja canonizado por um argentino e jesuíta, enche-me de alegria”, expressou Santiago Olivera, bispo de Cruz del Eje e vice-postulador da causa de canonização.

Carlos Núñez, arcebispo de Córdoba, disse que o fato “nos orgulha como argentinos, como cordobeses e como sacerdotes”. O religioso recordou que em certa oportunidade o papa João Paulo II comparou o ‘Padre Brochero’ com o Santo Cura de Ars, nascido como João Batista Maria Vianney, um presbítero francês proclamado patrono dos sacerdotes católicos. Em relação ao nome que o novo santo argentino receberá, Núñez afirmou que “certamente será chamado de São José Gabriel del Rosário e talvez de uma maneira muito mais popular o Santo Padre Brochero”.

De sua parte, o governador de Córdoba, Juan Schiaretti, expressou “grande alegria e emoção”, e acrescentou que está previsto reformar a casa natal do futuro santo, em Vila Santa Rosa, departamento Río Primero.

O ‘Padre Brochero’ desempenhou seu ministério sacerdotal durante a epidemia de cólera que no século XIX devastou a província. Como prefeito de estudos do Seminário Maior, obteve o título de Mestre em Filosofia pela Universidade de Córdoba. Sempre ao lado de seus fiéis, construiu mais de 200 quilômetros de caminhos e várias igrejas, fundou povoados e se preocupou com a educação. Além disso, projetou a ligação ferroviária que atravessaria o Vale de Traslasierra, unindo Vila Dolores e Soto, para retirar as pessoas da pobreza em que estavam, “completamente abandonadas, mas não por Deus”, como costumava repetir.

“Já o diabo vai me roubar uma alma”, dizia. Entregou-se por inteiro, especialmente aos pobres e afastados. Contraiu lepra por abraçar os que sofriam a enfermidade e renunciou ao Curato de San Alberto para viver junto com suas irmãs, em seu povoado natal.

“O Senhor me deu a saúde, ele me a retira. Devemos estar sempre de acordo com os desígnios de Deus”, afirmava ‘Brochero’, que morreu leproso e cego, no dia 26 de janeiro de 1914.