A Copa do Mundo sequestrada por Donald Trump. Destaques da Semana no IHUCast

Arte: IHU

Por: Lucas Schardong e Mônica Lima | 13 Junho 2026

Começa a Copa do Mundo de 2026 e o que deveria ser uma festa promovendo a diversidade dos povos, virou a cara do trumpismo: imperialista, segregadora e voltada para os interesses dos poderosos. Em um planeta cada vez mais aquecido e com os eventos extremos mais frequentes, a Copa é patrocinada pela maior empresa petrolífera do mundo

A violência de gênero encontra ecos na Copa, com ataques à jornalistas e ajudam a perpetuar uma sociedade que normaliza o machismo e os feminicídios. As bets tomaram conta de vez dos eventos esportivos e as propagandas exageradas durante a copa levam as populações mais vulneráveis ao endividamento. A classe trabalhadora é mais uma vez precarizada e vulnerabilizada em uma Copa do Mundo. No Brasil, a luta pelo fim da Escala 6x1 ganha novos capítulos.

Continuamos repercutindo as análises da Encíclica Magnífica Humanitas. Quais os seus limites e como uma teologia pública pode contribuir no debate sobre o uso da Inteligência Artificial?

Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.

A Copa do Mundo sequestrada por Donald Trump

Começou a Copa do Mundo de 2026 nos Estados Unidos, México e Canadá, envolta de polêmicas, autoritarismos e contradições. Uma Copa do Mundo feita sob medida para o trumpismo. O que era para ser uma festa, celebrando o esporte, a cultura e o encontro de diversos povos de todo o lugar do mundo, se tornou um palco revelador do imperialismo de Donald Trump.

Antes mesmo da bola rolar, as políticas estadunidenses de imigração causaram diversos conflitos com jogadores, árbitros, turistas e profissionais que foram trabalhar na cobertura do evento. O endurecimento das regras de visto fizeram com que muitas pessoas não conseguissem entrar no país, mesmo comprando um ingresso ou à trabalho.

Uma Copa recordista em emissões de CO2

Não é apenas o contexto geopolítico que impacta a Copa de 2026. As mudanças climáticas também chegaram aos campos. O torneio está sendo disputado num país governado por um presidente que nega as mudanças climáticas, que retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris e que, ao longo do seu mandato, desmontou sistematicamente as políticas ambientais. Donald Trump não apenas ignora a crise climática, ele a financia.

Os Estados Unidos registraram neste ano a segunda primavera mais quente em 132 anos. Além do calor acima da média, os primeiros meses de 2026 foram os mais secos desde 1988 em parte do território norte americano. A Copa começa, portanto, num cenário de estresse climático que os próprios organizadores tiveram de reconhecer.

Enquanto pesquisadores falam sobre as mudanças climáticas, um dos sete principais patrocinadores desta Copa é a Saudi Aramco, a maior empresa petrolífera do mundo, de propriedade da Arábia Saudita. Um estudo do grupo de cientistas da World Weather Attribution alertou que cerca de 25% das partidas desta Copa, 26 dos 104 jogos programados, provavelmente ocorrerão em condições que representam riscos à saúde dos jogadores e torcedores.

A crise dos feminicídios e os órfãos invisibilizados

Na última segunda- feira, o Rio Grande do Sul registrou o trigésimo oitavo feminicídio do ano. Uma mulher de 39 anos foi assassinada no município de Alecrim, na região noroeste do Estado. Ela já havia registrado ocorrência de violência doméstica.

A socióloga Silvana Aparecida Mariano, coordenadora do Relatório Anual de Feminicídios de 2025, afirma que esse é o padrão dominante do país. A sociedade brasileira ainda trata a violência contra as mulheres de forma muito reativa. "Em geral, o Estado chega depois: depois da ameaça, depois da agressão, depois da tentativa, depois do assassinato", disse ela ao IHU.

O relatório registrou 6.904 casos de feminicídios consumados e tentados no Brasil em um único ano. Nas palavras dela: "Quando o Monitor de Feminicídios no Brasil registra esse número, não estamos falando apenas de crimes individuais. Estamos falando de um padrão de violência que permeia relações afetivas, familiares, comunitárias e institucionais”.

Copa do Mundo e a influência das bets

No cenário socioeconômico, o mundo das apostas tomou conta de vez do das transmissões de futebol, que hoje patrocinam clubes, jogadores, eventos e emissoras de TV e da Internet. Em entrevista concedida ao IHU, o sociólogo Marcelo Pereira de Mello afirma que durante a Copa do Mundo, mediante a fomentação de jogadores e influenciadores, os efeitos das bets serão ainda piores.

"Serão os piores em termos dos exemplos que esses meios disseminam entre os jovens. Influencers são mobilizados para a publicidade porque se conectam com eles na linguagem das redes sociais. Não são movidos por ideais de educação ou urbanidade. Querem ganhar dinheiro, assumem isso explicitamente, e vendem a ilusão de que todos poderão ganhar também se seguirem seus conselhos", explica Marcelo.

Escala 6x1

Duas semanas após a vitória da classe trabalhadora na Câmara dos Deputados, aprovando o fim da escala 6x1, os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras seguem ameaçados. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, mantém indefinição sobre analisar a PEC pelo fim da escala, contrariando a pauta exigida pela população e permanecendo em uma queda de braço com o governo federal.

Com esse cenário em vista, o centrão e a extrema-direita aproveitaram para tentar pressionar a PEC do Trabalho Flexível, uma jornada flexível baseada em horas trabalhadas. Entidades sindicais ligadas à classe trabalhadora apontam os problemas desse modelo de trabalho, que é de interesse apenas dos empresários: “O regime de remuneração por horas trabalhadas ao invés de reduzir a jornada, reduzirá salários e prejudicará a previsibilidade de renda. A proposta da oposição apoiada pelos empresários, na prática, interditaria o debate sobre o fim da escala 6×1, ao permitir a ampliação da flexibilidade de jornada que pode levar a uma “escala 7×0”, deixando os trabalhadores à disposição das empresas sem que recebam a mais por isso".

Encíclica Magnifica Humanitas

A encíclica papal Magnífica Humanitas ainda está gerando debates sobre a inteligência artificial. A teóloga Ilia Delio, professora da Universidade Villanova e membro das Irmãs Franciscanas de Washington, publicou um artigo que coloca o dedo numa ferida profunda do documento. Ela parte de um único verbo: permanecer. "Nosso dever na era da IA", escreve Leão XIV, "é permanecer profundamente humanos". Para Delio, esse verbo revela muito sobre a limitação teológica da encíclica. Permanecer pressupõe que o ser humano já foi determinado, que a imagem de Deus é um estado a ser defendido, e não um processo a ser vivenciado.

A teóloga ainda aponta uma contradição que a encíclica observa, mas não consegue explicar. Leão XIV percebe que as pessoas estão recorrendo a IA em busca de conselho, companhia e até amor. Para ela, o Papa está observando uma projeção no sentido de Carl Jung, por uma tradição que localizou Deus inteiramente fora de nós, busca um receptáculo e encontra-o na máquina: "A IA se torna fonte de significado religioso precisamente porque a própria tradição ensinou as pessoas a buscar Deus fora de si mesmas. E então, quando o interior ficou vazio, a máquina preencheu".

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IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível no canal do IHU no YouTube e no Spotify.