Da fé comunitária à fé individualista atual: uma análise crítica da vivência cristã. Artigo de Izidorio Batista de Alencar

Foto: Erika Giraud/Unsplash

25 Fevereiro 2026

"A transição da fé comunitária para a  individualista revela não apenas uma mudança de costumes, mas uma crise profunda na identidade cristã. A fé, que nasceu como experiência de comunhão e solidariedade, corre o risco de se reduzir a ritual privado ou a símbolo de status social".

O artigo é de Pe. Izidorio Batista de Alencar, presbítero da Diocese de Salgueiro-PE, licenciado em Filosofia; graduado em Gestão Pública pelo Centro Universitário; mestre em Teologia Dogmática, pelo Pontifício Atheneo Regina Apostolorum, em Roma; pós-graduado em Governança Eclesial pela FACASC, Florianópolis, e pós-graduando em Dimensão Social da Fé pela UNICAPE, Recife. É pároco da Paróquia Santa Cruz, em Salgueiro-PE, e coordenador diocesano de Pastoral. 

Eis o artigo.

Introdução

A fé cristã, desde suas origens, foi concebida como experiência comunitária e solidária. As primeiras comunidades, descritas nos Atos dos Apóstolos (At 2,42-47), reuniam-se para ouvir a Palavra de Deus, partilhar o pão e enfrentar juntas os desafios sociais e espirituais. Essa vivência era marcada pela comunhão fraterna e pela partilha dos bens, tornando-se sinal visível da presença de Cristo.

Entretanto, observa-se na contemporaneidade uma mudança significativa: a fé, antes vivida em comunidade, vem sendo progressivamente privatizada. Igrejas e templos são construídos não como espaços de encontro comunitário, mas como cenários de celebrações familiares e particulares, voltadas para sacramentos que se transformam em eventos sociais. O Papa Francisco alerta que “o individualismo enfraquece os vínculos comunitários e a dimensão social da fé” (Evangelii Gaudium, n. 67). Essa tendência revela uma crise na identidade cristã, em que a religião corre o risco de ser instrumentalizada como símbolo de status e vaidade, em vez de convicção espiritual.

A crise da vida comunitária que hoje se observa nas paróquias e grupos eclesiais é, em grande medida, fruto de uma crise de fé comunitária. O individualismo, o intimismo espiritual e a fé devocionista, centrada em práticas isoladas e desvinculadas da vida comunitária, têm enfraquecido os vínculos fraternos e comprometido a missão da Igreja.

A justificativa para este estudo reside na necessidade de compreender os impactos dessa transição sobre a missão da Igreja e sobre a sociedade. Se a fé cristã nasceu como força agregadora e transformadora, capaz de iluminar os problemas coletivos, o que significa sua redução a práticas individualistas? Que consequências surgem quando a religião deixa de ser testemunho público de comunhão e se torna apenas ritual privado?

Este artigo propõe uma análise crítica dessa mudança, provocando o leitor a refletir: será que a fé vivida como experiência individualista ainda pode ser considerada autêntica? Até que ponto a privatização da fé compromete a missão evangelizadora da Igreja e sua função social? E, sobretudo, como recuperar a dimensão comunitária da fé em um mundo marcado pelo consumismo e pelo isolamento? Essas questões orientam a reflexão que se segue, fundamentada nos documentos da Igreja e na tradição cristã.

1. A fé comunitária no passado

As primeiras comunidades cristãs, no texto já citado anteriormente (At 2,42-47), viviam intensamente a comunhão fraterna. Perseveravam “na doutrina dos apóstolos, na comunhão, na fração do pão e nas orações”, o que demonstra que a fé não era apenas uma experiência individual, mas um caminho coletivo de discipulado. Essa vivência era marcada pela partilha dos bens, pela solidariedade e pela busca de soluções para os problemas coletivos, tornando-se sinal visível da presença de Cristo no meio deles.

O Concílio Vaticano II reafirma essa dimensão comunitária ao declarar que “aprouve a Deus santificar e salvar os homens não individualmente e sem qualquer ligação entre si, mas constituí-los em povo” (Lumen Gentium, n. 9). A Igreja, portanto, é chamada a ser “povo de Deus”, onde cada fiel encontra sua identidade na comunhão e não no isolamento. Essa perspectiva mostra que a fé cristã só se realiza plenamente quando vivida em comunidade.

O Catecismo da Igreja Católica reforça essa ideia ao afirmar que “a fé é um ato pessoal: a resposta livre do homem à iniciativa de Deus que se revela. Ela não é, porém, um ato isolado. Ninguém pode crer sozinho, assim como ninguém pode viver sozinho. Ninguém deu a fé a si mesmo, como ninguém deu a vida a si mesmo. O crente recebeu a fé de outrem, deve transmiti-la a outros. (...). Cada crente é assim como um elo na grande corrente dos crentes. Não posso crer sem ser carregado pela fé dos outros, e pela minha fé contribuo para carregar a fé dos outros” (CIC, n. 166). A fé, portanto, é sempre inserida em uma comunidade de crentes, que se apoia mutuamente e testemunha o Evangelho diante do mundo. Essa dimensão comunitária é essencial para que a fé seja autêntica e transformadora.

Assim, a fé comunitária no passado conferia à Igreja uma força social e espiritual capaz de iluminar os problemas da sociedade e de promover a justiça e a fraternidade. Era uma fé que não se limitava ao âmbito privado, mas que se manifestava em ações concretas de solidariedade e compromisso com os mais necessitados, tornando-se testemunho vivo da presença de Cristo.

2. A transição para a fé individualista

Com o passar dos séculos, observa-se uma mudança cultural e religiosa significativa. A fé, antes vivida em comunidade, passou a ser cada vez mais privatizada. Muitos templos e igrejas são construídos como espaços de celebrações familiares, voltadas para sacramentos como batismos, casamentos e primeiras comunhões, que se tornam eventos sociais mais do que experiências de fé. Essa mudança revela uma tendência de reduzir a religião a ritos privados, desvinculados da vida comunitária.

Esse processo de privatização da fé não se limita à construção de templos para celebrações familiares. Ele se manifesta também em uma espiritualidade intimista, voltada apenas para a experiência interior, e em uma fé devocionista, que se reduz a práticas piedosas individuais sem compromisso comunitário. O Papa Francisco, alerta que ‘há sempre o risco de se viver uma espiritualidade sem comunidade’, o que gera isolamento e enfraquece a dimensão missionária da fé (Cf. Evangelli Gaudium, n. 89-91).

Os passos apresentados por Francisco são pedagógicos, alertando sobre os perigos de uma vida e de uma espiritualidade fechadas (n. 89), denunciando a tentação de uma espiritualidade individualista e egocêntrica que esquece os pobres e a missão (n. 90) e convida ou propõe uma Igreja aberta (n. 91), ou se queiramos, usando uma expressão muita querida por ele, ‘Igreja em saída às periferias geográficas e existenciais’.

No primeiro caso, o Papa Francisco adverte contra uma espiritualidade fechada em si mesma, afirmando que quando a vida interior “se concentra nos próprios interesses, não há espaço para os outros, não entram os pobres, não se ouve a voz de Deus”. Essa atitude gera isolamento e tristeza, porque a fé perde sua essência relacional. A verdadeira vida espiritual é abertura: ao Deus que fala e ao próximo que interpela. Uma fé que se fecha em si mesma torna se estéril, incapaz de gerar alegria e comunhão. Assim afirma Francisco:

O isolamento, que é uma concretização do imanentismo, pode exprimir-se numa falsa autonomia que exclui Deus, mas pode também encontrar na religião uma forma de consumismo espiritual à medida do próprio individualismo doentio. O regresso ao sagrado e a busca espiritual, que caracterizam a nossa época, são fenômenos ambíguos. Mais do que o ateísmo, o desafio que hoje se nos apresenta é responder adequadamente à sede de Deus de muitas pessoas, para que não tenham de ir apagá-la com propostas alienantes ou com um Jesus Cristo sem carne e sem compromisso com o outro. Se não encontram na Igreja uma espiritualidade que os cure, liberte, encha de vida e de paz, ao mesmo tempo que os chame à comunhão solidária e à fecundidade missionária, acabarão enganados por propostas que não humanizam nem dão glória a Deus (Evangelli Gaudium, n. 89).

Seguindo sua linha de raciocínio, Francisco denuncia o individualismo espiritual, que transforma a fé em um bem privado e sem dinamismo missionário. Ele observa que uma fé sem abertura ao próximo “torna-se incapaz de comunicar alegria”. Aqui está a crítica ao consumismo religioso, que busca apenas experiências pessoais sem compromisso com a transformação da realidade. A fé autêntica é sempre comunitária e solidária, porque o Evangelho é anúncio de salvação para todos, especialmente para os pobres e marginalizados. O cristão não pode se contentar em “guardar” a fé, mas deve vivê-la como dom que se expande. Assegura-nos Francisco:

As formas próprias da religiosidade popular são encarnadas, porque brotaram da encarnação da fé cristã numa cultura popular. Por isso mesmo, incluem uma relação pessoal, não com energias harmonizadoras, mas com Deus, Jesus Cristo, Maria, um Santo. Têm carne, têm rostos. Estão aptas para alimentar potencialidades relacionais e não tanto fugas individualistas. Noutros sectores da nossa sociedade, cresce o apreço por várias formas de ‘espiritualidade do bem-estar’ sem comunidade, por uma ‘teologia da prosperidade’ sem compromissos fraternos ou por experiências subjetivas sem rostos, que se reduzem a uma busca interior imanentista (Evangelli Gaudium, n. 90).

O Papa apresenta a imagem da Igreja como casa aberta, afirmando que “a Igreja é a casa paterna onde há lugar para todos”. Essa frase é decisiva: a Igreja não pode ser uma fortaleza que exclui, mas um espaço de misericórdia e acolhimento. Contudo, Francisco insiste que essa Igreja em saída não se move sem direção, ou seja, ela é enviada às periferias humanas e existenciais, onde estão os pobres, os feridos, os descartados e os que se sentem longe de Deus. Não se trata de uma saída qualquer, mas de uma missão que tem destino claro: ir ao encontro dos que mais necessitam da luz do Evangelho.

Um desafio importante é mostrar que a solução nunca consistirá em escapar de uma relação pessoal e comprometida com Deus, que ao mesmo tempo nos comprometa com os outros. Isto é o que se verifica hoje quando os crentes procuram esconder-se e livrar-se dos outros, e quando sutilmente escapam de um lugar para outro ou de uma tarefa para outra, sem criar vínculos profundos e estáveis. (...). Faz falta ajudar a reconhecer que o único caminho é aprender a encontrar os demais com a atitude adequada, que é valorizá-los e aceitá-los como companheiros de estrada, sem resistências interiores, ou seja, trata-se de aprender a descobrir Jesus no rosto dos outros, na sua voz, nas suas reivindicações; e aprender também a sofrer, num abraço com Jesus crucificado, quando recebemos agressões injustas ou ingratidões, sem nos cansarmos jamais de optar pela fraternidade (Evangelli Gaudium, n. 91).

Neste sentido, faz-se importante recordar e encontrar nestes argumentos apresentados por Francisco um convite à conversão pastoral, isto é, superar o fechamento, o individualismo e o medo de ir ao encontro dos irmãos e irmãs, para experimentar e viver uma espiritualidade aberta, acolhedora e misericordiosa. A Igreja em saída, de uma fé comprometida é, portanto, uma comunidade que caminha com os homens e mulheres de nosso tempo e, que tem, igualmente, um rumo certo, ou seja, caminha e dirige-se às periferias geográficas e existenciais [1]. Onde o Evangelho se torna Boa Notícia para os pobres, esperança para os feridos e misericórdia para os excluídos.

O Papa Francisco alerta contra esse risco ao afirmar que “o individualismo enfraquece os vínculos comunitários e a dimensão social da fé [2]” (Evangelii Gaudium, n. 67). A fé, quando vivida apenas como experiência íntima e privada, perde sua força de comunhão e se transforma em prática superficial. Essa transição reflete uma tendência mais ampla da sociedade contemporânea, marcada pelo consumismo e pela busca de status.

Nesse contexto, a religião corre o risco de ser instrumentalizada como símbolo de prestígio social. Igrejas e templos deixam de ser espaços de encontro comunitário e se tornam cenários de celebrações particulares, voltadas para a afirmação social das famílias. A fé, assim, é reduzida a mera formalidade, esvaziada de sua dimensão espiritual e comunitária.

O perigo dessa transição é que a cristã, ao ser vivida de forma individualista, perde sua essência de comunhão e solidariedade. A Igreja corre o risco de se tornar irrelevante para a sociedade, incapaz de responder aos desafios coletivos e de testemunhar o Evangelho de forma autêntica. A fé individualista, portanto, compromete não apenas a vida espiritual dos fiéis, mas também a missão social da Igreja.

3. Consequências da fé individualista para a Igreja e a sociedade

O esvaziamento da dimensão comunitária da fé traz sérias consequências para a vida cristã e para a sociedade. Em primeiro lugar, a Igreja perde sua função social de espaço de solidariedade e comunhão. Quando a fé é vivida apenas como experiência privada, a comunidade cristã deixa de ser sinal de esperança e de transformação social. Em segundo lugar, a prática religiosa é reduzida a mera formalidade ou símbolo de status. O Papa Bento XVI, em, lembra que ‘a Igreja não pode ser considerada como simples organização, mas como comunidade viva de fé e amor’, dizendo:

A natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração dos sacramentos (leiturgia) e serviço da caridade (diakonia). Estes deveres implicam-se mutuamente e não podem ser separados. A caridade não é para a Igreja uma espécie de atividade de assistência social que se poderia deixar a outros, mas pertence à sua natureza e é expressão irrenunciável da sua própria essência” (Deus Caritas Est, n. 25).

Quando a fé se torna individualista, fragmenta-se a identidade cristã e compromete se a missão da Igreja, que é ser “luz das nações” (Lumen Gentium, n. 1). Além disso, a privatização da fé gera indiferença diante dos problemas sociais. Uma fé vivida apenas no âmbito privado não se traduz em compromisso com os pobres e marginalizados. São João Paulo II advertiu na que ‘não se pode separar a fé da vida, nem a vida da comunidade’, diz-nos, portanto:

Chegou a hora de empreender uma nova evangelização. Países e nações inteiras, onde outrora a religião e a vida cristã eram florescentes e capazes de gerar comunidades de fé viva e ativa, estão agora duramente provados e, por vezes, radicalmente transformados pela difusão incessante da indiferença religiosa, da secularização e do ateísmo. Trata-se em particular dos países e das nações do chamado Primeiro Mundo, onde o bem-estar econômico e a corrida ao consumo, mesmo coexistindo com situações assustadoras de pobreza e miséria, inspiram e alimentam uma vida vivida ‘como se Deus não existisse’. Não se pode separar a fé da vida, nem a vida da comunidade (Christifideles Laici, n. 34).

A fé individualista, portanto, enfraquece a dimensão social da religião e compromete sua capacidade de transformar a realidade.

O risco de uma espiritualidade individualista e fechada à vida em comunidade compromete a essência do Evangelho e a própria missão da Igreja. Quando a fé se reduz a devoções particulares ou a um tradicionalismo rígido, sem abertura ao encontro e à solidariedade, ela perde sua força transformadora e se torna incapaz de gerar comunhão. O Papa Francisco alerta que esse fechamento espiritual gera tristeza e ressentimento, porque não há espaço para os pobres, para os marginalizados e nem para a escuta da voz de Deus. Uma fé que se concentra apenas nos próprios interesses acaba por se tornar estéril e contraditória em relação ao chamado de Cristo

Na realidade contemporânea, vemos exemplos concretos dessa distorção. Povos indígenas e comunidades tradicionais são perseguidos e deslegitimados em seus direitos, muitas vezes por discursos que se dizem cristãos, mas que os tratam como obstáculos ao progresso. Migrantes e refugiados, em diferentes partes do mundo, enfrentam políticas de exclusão e xenofobia, sendo criminalizados por buscarem sobrevivência e dignidade. Em alguns contextos, líderes religiosos ou grupos que se apresentam como defensores da fé apoiam medidas que fecham fronteiras e negam acolhida, esquecendo o mandamento evangélico de “acolher o estrangeiro”.

Outro exemplo claro é a perseguição e discriminação contra pessoas LGBTQIA+ e outras minorias sociais. Em nome de uma suposta defesa da tradição cristã, muitos promovem discursos de ódio e exclusão, ignorando a dignidade de cada pessoa criada à imagem de Deus. Da mesma forma, movimentos sociais que defendem os pobres, os sem-terra e os sem-teto são frequentemente criminalizados e acusados de subversão, quando na verdade lutam pela justiça e pela inclusão. Essa postura revela como uma espiritualidade fechada pode se transformar em perseguição concreta contra aqueles que atuam na defesa dos marginalizados.

Em conclusão, a espiritualidade individualista e devocionista, quando desconectada da vida comunitária e da missão, gera exclusão e contradição com o Evangelho. A Igreja em saída, como insiste o Papa Francisco, não se move sem rumo, mas é enviada às periferias humanas e existenciais, onde estão os pobres, os feridos e os invisibilizados. É nesses lugares que a fé se torna autêntica, porque se traduz em proximidade, misericórdia e anúncio da Boa Nova. Ir às periferias não é uma opção secundária, mas a própria essência da missão cristã: encontrar Cristo nos descartados e tornar a comunidade sinal vivo de esperança e de amor.

Por fim, os riscos de uma fé individualista são graves tanto para a Igreja quanto para a sociedade. Para a Igreja, significa perder sua identidade como comunidade de fé e sua missão evangelizadora. Para a sociedade, significa perder um espaço de solidariedade e de promoção da justiça. Uma fé individualista gera isolamento, indiferença e superficialidade, tornando-se incapaz de responder aos desafios coletivos e de promover a transformação social.

4. Um olhar crítico do fenômeno

A transição da fé comunitária para a fé individualista não pode ser compreendida apenas como um fenômeno religioso isolado, mas deve ser analisada à luz das transformações culturais, sociais e econômicas que marcaram a modernidade e a pós-modernidade ou hipermodernidade (Gilles Lipovetsky) [3]. O individualismo, fruto de uma sociedade cada vez mais centrada na autonomia pessoal e na busca de status, penetrou também na vivência religiosa, transformando a fé em experiência privada e, muitas vezes, em símbolo de distinção social. O Papa Francisco, na Fratelli Tutti, denuncia que ‘o individualismo radical é o vírus mais difícil de vencer’, diz ele:

O individualismo não nos torna mais livres, mais iguais, mais irmãos. A mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade. Nem pode sequer preservar-nos de tantos males, que se tornam cada vez mais globais. Mas o individualismo radical é o vírus mais difícil de vencer. Ilude. Faz-nos crer que tudo se reduz a deixar à rédea solta as próprias ambições, como se, acumulando ambições e seguranças individuais, pudéssemos construir o bem comum (Fratelli Tutti, n. 105).

O perigo do individualismo, segundo o pensamento do Papa Francisco, está no fato de que este, mina os vínculos comunitários e enfraquece a solidariedade. Essa crítica é fundamental para compreender como a fé cristã, que nasceu como experiência de comunhão, corre o risco de se dissolver em práticas fragmentadas e superficiais.

A crise das comunidades eclesiais hoje é reflexo direto da crise da fé comunitária. O individualismo, o intimismo espiritual e a fé devocionista, quando vividos sem ligação com a vida eclesial, geram uma religião fragmentada, incapaz de sustentar vínculos duradouros e de responder aos desafios sociais.

Do ponto de vista teológico, a fé não pode ser reduzida a uma relação intimista entre o indivíduo e Deus, desvinculada da comunidade. O Concílio Vaticano II, em Lumen Gentium, afirma que “Deus não santifica e salva os homens individualmente e sem qualquer ligação entre si, mas quer constituí-los em povo” (n. 9). Isso significa que a fé cristã é essencialmente comunitária, pois se realiza no Corpo de Cristo, que é a Igreja. Quando a fé é vivida de forma individualista, perde-se a dimensão sacramental da Igreja como “sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (Lumen Gentium, n. 1). A privatização da fé, portanto, não apenas empobrece a experiência religiosa, mas também compromete a missão evangelizadora da Igreja, que é testemunho público de comunhão e solidariedade.

Além disso, a fé individualista gera consequências pastorais graves. Os sacramentos, que são sinais da graça e da vida comunitária, tornam-se eventos sociais restritos  à família, esvaziados de sua dimensão eclesial. Quando os sacramentos são reduzidos a cerimônias particulares, perdem sua força de comunhão e se transformam em ritos de status. Essa distorção revela uma crise de identidade: a fé deixa de ser convicção profunda e se torna vaidade religiosa, incapaz de iluminar os problemas coletivos e de gerar compromisso social. 

Do ponto de vista pastoral, é urgente recuperar a dimensão comunitária da fé. A fé autêntica exige testemunho público e compromisso com os irmãos, especialmente os mais pobres e marginalizados. O Papa Francisco, reforça que ‘a fé genuína sempre implica um profundo desejo de mudar o mundo’. Portanto, a análise crítica mostra que a fé individualista não apenas enfraquece a vida espiritual, mas também compromete a missão social da Igreja, que é ser luz e sal no mundo. Acompanhemos, nas palavras do próprio Francisco:

Ninguém pode exigir-nos que releguemos a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos. Quem ousaria encerrar num templo e silenciar a mensagem de São Francisco de Assis e da Beata Teresa de Calcutá? Eles não o poderiam aceitar. Uma fé autêntica – que nunca é cómoda nem individualista – comporta sempre um profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um pouco melhor depois da nossa passagem por ela. (...). Embora "a justa ordem da sociedade e do Estado seja dever central da política", a Igreja ‘não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça’. Todos os cristãos, incluindo os Pastores, são chamados a preocupar-se com a construção dum mundo melhor (Evangelii Gaudium, n. 183).

Em síntese, a crise atual da fé cristã é marcada pela tensão entre a dimensão comunitária, que constitui sua essência, e a tendência individualista, que a fragmenta e a esvazia. A Igreja é chamada a enfrentar esse desafio com coragem, resgatando o espírito das primeiras comunidades cristãs, em que a fé era vivida como partilha, solidariedade e compromisso com os problemas coletivos. Somente assim será possível recuperar a autenticidade da fé e sua força transformadora, capaz de iluminar não apenas os indivíduos, mas toda a sociedade.

Considerações Finais e Indicativos Pastorais

A transição da fé comunitária para a individualista revela não apenas uma mudança de costumes, mas uma crise profunda na identidade cristã. A fé, que nasceu como experiência de comunhão e solidariedade, corre o risco de se reduzir a ritual privado ou a símbolo de status social. O Papa Francisco, ao afirmar que ‘o individualismo radical é o vírus mais difícil de vencer’, leva-nos a refletir e lança-nos, ao mesmo tempo, uma pergunta inevitável: pode a fé cristã sobreviver se for vivida apenas como experiência intimista e isolada?

Os riscos de uma fé individualista são graves tanto para a Igreja quanto para a sociedade. Para a Igreja, significa perder sua identidade como “povo de Deus” (Lumen Gentium, n. 9) e sua missão evangelizadora, tornando-se irrelevante diante dos desafios coletivos. Para a sociedade, significa perder uma força ética e espiritual capaz de promover justiça e fraternidade. Uma fé privatizada gera indiferença, superficialidade e vaidade, tornando-se incapaz de iluminar os problemas sociais e de oferecer respostas às angústias humanas.

Diante desse cenário, a Igreja é chamada a recuperar a dimensão comunitária da fé. O Papa João Paulo II, exorta os cristãos a ‘redescobrir a espiritualidade da comunhão’ como caminho para enfrentar os desafios da modernidade. Isso implica revalorizar a liturgia como celebração da comunidade, fortalecer a formação bíblica e catequética, promover a pastoral da solidariedade e incentivar pequenas comunidades eclesiais. São medidas concretas que podem devolver à fé sua força transformadora e sua autenticidade. Deixemos que o próprio São João Paulo II, explique-nos ‘a espiritualidade de comunhão’, pois, conforme ele mesmo nos diz, ‘fazer da Igreja casa e escola de comunhão, eis o grande desafio que nos espera no novo milênio, se quisermos ser fieis a Deus e as exigências do mundo de atual’:

Fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão: eis o grande desafio que nos espera no milénio que começa, se quisermos ser fiéis ao desígnio de Deus e corresponder às expectativas mais profundas do mundo. Que significa isto em concreto? (...). Antes de programar iniciativas concretas, é preciso promover uma espiritualidade da comunhão, elevando-a ao nível de princípio educativo em todos os lugares onde se plasma o homem e o cristão, onde se educam os ministros do altar, os consagrados, os agentes pastorais, onde se constroem as famílias e as comunidades. Espiritualidade da comunhão significa em primeiro lugar ter o olhar do coração voltado para o mistério da Trindade, que habita em nós e cuja luz há de ser percebida também no rosto dos irmãos que estão ao nosso redor. Espiritualidade da comunhão significa também a capacidade de sentir o irmão de fé na unidade profunda do Corpo místico, isto é, como um que faz parte de mim, para saber partilhar as suas alegrias e os seus sofrimentos, para intuir os seus anseios e dar remédio às suas necessidades, para oferecer-lhe uma verdadeira e profunda amizade. Espiritualidade da comunhão é ainda a capacidade de ver antes de mais nada o que há de positivo no outro, para acolhê-lo e valorizá-lo como dom de Deus: um dom para mim, como o é para o irmão que diretamente o recebeu. Por fim, espiritualidade da comunhão é saber ‘criar espaço’ para o irmão, levando ‘os fardos uns dos outros’ (Gal 6,2) e rejeitando as tentações egoístas que sempre nos insidiam e geram competição, arrivismo, suspeitas, ciúmes. Não nos iludamos! Sem esta caminhada espiritual, de pouco servirão os instrumentos exteriores da comunhão. Revelar-se-iam mais como estruturas sem alma, máscaras de comunhão, do que como vias para a sua expressão e crescimento (Novo Millennio Ineunte, n. 43, grifo nosso).

Mais do que uma constatação crítica, este artigo é um convite à reflexão e à ação. Se a fé cristã nasceu como comunhão, não pode se esvaziar em individualismos e vaidades. O desafio pastoral é provocar os fiéis a viverem a fé como convicção e testemunho, e não como status social. A pergunta que se impõe é: queremos uma Igreja que seja apenas espaço de ritos privados ou uma comunidade viva que ilumina e transforma a sociedade? A resposta a essa provocação determinará o futuro da fé cristã em nosso tempo.

Do ponto de vista pastoral, a Igreja é chamada a enfrentar o desafio do individualismo com propostas concretas que devolvam à fé sua força comunitária. Em primeiro lugar, é essencial revalorizar a liturgia como celebração da comunidade. Os sacramentos não podem ser reduzidos a eventos privados, mas devem ser vividos como momentos de comunhão eclesial, portanto, considerando que ‘a Eucaristia é o sacramento da unidade’ (Bento XVI), por isso mesmo, ela deve ser celebrada de modo que todos se sintam parte do Corpo de Cristo.

Em segundo lugar, é urgente fortalecer a formação bíblica e catequética, promovendo grupos de reflexão e círculos bíblicos que retomem a prática das primeiras comunidades cristãs. O Concílio Vaticano II, sublinha que “a Palavra de Deus deve ser a alma da pastoral” (Dei Verbum, n. 24). A redescoberta da centralidade da Escritura pode ajudar os fiéis a compreender que a fé não é vaidade social, mas convicção profunda que transforma a vida.

Outro indicativo pastoral é promover a pastoral da solidariedade, fortalecendo ações sociais da Igreja e mostrando que a fé autêntica se traduz em compromisso com os pobres e marginalizados. O Papa Francisco, afirma que ‘a verdadeira fé não pode ser indiferente ao sofrimento dos irmãos’:

A solidariedade manifesta-se concretamente no serviço, que pode assumir formas muito variadas de cuidar dos outros. O serviço é, em grande parte, cuidar da fragilidade. Servir significa cuidar dos frágeis das nossas famílias, da nossa sociedade, do nosso povo. Nesta tarefa, cada um é capaz de pôr de lado as suas exigências, expetativas, desejos de omnipotência, à vista concreta dos mais frágeis (…). O serviço fixa sempre o rosto do irmão, toca a sua carne, sente a sua proximidade e, em alguns casos, até “padece” com ela e procura a promoção do irmão. Por isso, o serviço nunca é ideológico, dado que não servimos ideias, mas pessoas (Fratelli Tutti, n. 115).

A Igreja deve ser sinal de esperança e de justiça, combatendo a tentação de reduzir a religião a mero ritual.

Além disso, é necessário valorizar pequenas comunidades eclesiais e grupos de base, que favorecem a vivência da fé em fraternidade. O Documento de Aparecida (2007) destaca que as pequenas comunidades são lugar privilegiado para viver a fé como discipulado e missão, dizendo:

As Comunidades Eclesiais de Base têm sido escolas que têm ajudado a formar cristãos comprometidos com sua fé, discípulos e missionários do Senhor. (...). Elas abraçam a experiência das primeiras comunidades, como estão descritas nos Atos dos Apóstolos (At 2,42-47). (...). São células inicial de estruturação eclesial e foco de fé e evangelização. (...). Elas permitiram ao povo chegar a um conhecimento maior da Palavra de Deus, ao compromisso social em nome do Evangelho, ao surgimento de novos serviços leigos e à educação da fé dos adultos. (...). As Comunidades Eclesiais de Base, no seguimento missionário de Jesus, têm a Palavra de Deus como fonte de sua espiritualidade e a orientação de seus pastores como guia que assegura a comunhão eclesial. Demonstram seu compromisso evangelizador e missionário entre os mais simples e afastados, e são expressão visível da opção preferencial pelos pobres. São fonte e semente de variados serviços e ministérios a favor da vida na sociedade e na Igreja (Documento de Aparecida, n. 178).

Neste aspecto, precisamos chamar a atenção pois infelizmente existe muito preconceito e desinformação por parte de alguns, que nem sabem o que são as CEBs, e por parte de outros maldade mesmo em criticá-las e condená-las. É preciso conhece-las e reconhecer que elas são experiências que ajudam a superar o individualismo e a redescobrir a dimensão comunitária da fé.

Por fim, é fundamental educar para uma espiritualidade autêntica, que não confunda religião com status social. A fé deve ser testemunho público de amor e de esperança, e não instrumento de vaidade. Neste sentido, aqui destaca-se a urgência da ‘redescoberta da espiritualidade da comunhão’ como caminho para enfrentar os desafios da modernidade, conforme já apresentamos anteriormente.

A Igreja, ao redescobrir a essência da fé cristã como experiência comunitária, é chamada a ser luz diante dos desafios sociais e fermento de transformação da realidade. Revalorizar a liturgia, fortalecer a formação bíblica, cultivar a solidariedade, incentivar pequenas comunidades e educar para uma espiritualidade autêntica são caminhos concretos para que a fé recupere sua vitalidade e se torne novamente sinal de esperança.

Superar a crise da fé comunitária implica enfrentar o individualismo e o intimismo espiritual que reduzem a religião a práticas isoladas. Mais do que nunca, é urgente educar para uma espiritualidade de comunhão, capaz de gerar participação, compromisso social e testemunho vivo do Evangelho. Assim, a fé cristã reencontra sua autenticidade e sua força transformadora, tornando-se não apenas refúgio, mas horizonte de vida e de esperança para um mundo marcado pela fragmentação.

Notas

[1] Recordemos que as periferias geográficas e existências, conforme o pensamento do Papa Francisco em Evangelli Gaudium, não são apenas lugares físicos, mas também situações humanas de exclusão e sofrimentos. São, portanto, lugares e situações onde a vida humana é mais ameaçada e onde a dignidade humana é negada. Dentre tantas outras realidades de ‘periferias geográficas’ podemos apresentar as seguintes: regiões rurais isoladas sem acesso a serviços básicos (saúde, educação, transporte); comunidades urbanas periféricas marcadas pela violência, pobreza e falta de oportunidades; migrantes e refugiados, que vivem em campos improvisados ou em condições precárias e povos indígenas e tradicionais, muitas vezes esquecidos ou desrespeitados em seus direitos. Nas ‘periferias existenciais’, destacamos: pobres materiais, pessoas sem trabalho digno, sem moradia, sem acesso à alimentação adequada; excluídos e excluídas, idosos abandonados, pessoas com deficiência invisibilizadas, dependentes químicos; feridos emocionais e espirituais, vítimas de violência doméstica, abusos, traumas, solidão extrema; casais e famílias, em situações sacramentais irregulares, vítimas da exclusão de muitas das nossas comunidades e paróquias; desempregados e jovens sem perspectivas, que se sentem descartados pela sociedade; doentes e fragilizados, especialmente os que não têm acesso a cuidados médicos e minorias discriminadas, migrantes, negros, mulheres em situação de vulnerabilidade, pessoas LGBTQIA+ que sofrem exclusão.

[2] É importante evidenciar que o Papa Francisco apresentou ‘o individualismo como enfraquecimento dos vínculos’. O Recente Sínodo, no seu Documento Final, nos apresenta a necessidade da ‘conversão dos vínculos’, conforme podemos acompanhar e aprofundar (Documento Final do Sínodo, n. 109-139), ou seja, toda a IV Parte do Documento Final.

[3] O filósofo francês Gilles Lipovetsky fala em hipermodernidade para designar uma fase posterior à pós-modernidade, destacando que a hipermodernidade de caracteriza pelos seguintes traços: hiperconsumismo (consumo não apenas de bens, mas de experiências, emoções e estilos de vida), hiperindividualismo (cada pessoa busca construir sua própria narrativa, muitas vezes isolada) hiperconexão (uso intensivo das tecnologias digitais, que cria vínculos superficiais e efêmeros) e aceleração do tempo (tudo é imediato, descartável e substituível).

Referências

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