“As empresas de tecnologia utilizam uma linguagem enganosa sobre a censura”. Entrevista com Anne Applebaum

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26 Mai 2026

Historiadora, escritora e jornalista, Anne Applebaum é uma intelectual influente, reconhecida por sua lucidez ao olhar para a história e para o presente, em meio a um mapa geopolítico em permanente transformação. Agraciada com o Prêmio Pulitzer, entre outras honrarias, também é pesquisadora principal na Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins e no SNF Agora Institute.

A entrevista é de Paula Escobar, publicada por La Tercera, 23-05-2026. 

Redatora da revista The Atlantic, foi colunista do jornal The Washington Post por mais de 15 anos e membro de seu conselho editorial. Escreveu livros que já se tornaram canônicos, como Autocracia S.A.: Os ditadores que querem governar o mundo; Gulag: Uma história dos campos de concentração soviéticos; O crepúsculo da democracia, entre outros.

Via Zoom, ela conversa com o jornal La Tercera sobre esta era de disrupção tecnológica, como descreveu em seus escritos, e sobre a ascensão do autoritarismo, unindo os pontos e projetando futuros possíveis.

Eis a entrevista.

Você disse que é possível comparar esta época que vivemos com a da revolução da imprensa. Considera que quando forem estudar o momento atual no futuro, verão mais sinais de esperança, e não apenas de pessimismo, que é o que predomina hoje?

A revolução da imprensa teve um impacto enorme, tanto positivo quanto negativo. Difundiu a alfabetização por todo o mundo. Tornou possível, com o tempo, a criação do romance como forma de entretenimento e educação. Difundiu o conhecimento etc. Contudo, também mudou drasticamente a política da época. E embora não tenha sido diretamente responsável pelo início das guerras religiosas, contribuiu para que o conflito e a divisão religiosa se tornassem possíveis.

Penso que, de fato, na (era da) internet já é possível observar os dois aspectos. A combinação da internet com as redes sociais possibilitou conexões, novos tipos de negócios, um grande crescimento econômico e a possibilidade de se conectar com outras pessoas. Agora, é possível viver longe da família e continuar em contato com ela; é possível trabalhar em lugares diferentes.

Há muitíssimas mudanças positivas graças à comunicação on-line, mas também considero que fraturou a nossa política de forma permanente. Com a imprensa, foram estabelecidas regras e normas que ajudaram a mudar alguns dos efeitos negativos da escrita e da impressão. Existiam leis contra a difamação, por exemplo, e normas sobre o que era permitido ou não dizer na imprensa.

E no caso da internet?

No caso da internet, ainda não temos nada disso. Estamos em uma etapa em que a maioria dos efeitos negativos está completamente sem controle. Um aspecto crucial da internet é que quando as redes sociais foram criadas, existia nos Estados Unidos a Seção 230, uma lei que estabelecia que as plataformas de redes sociais não eram responsáveis, nem legalmente, nem de qualquer outra forma, pelo material publicado on-line sob o seu nome. E o resto do mundo, com efeito, adotou esta mesma lei, apesar de ser estadunidense e de ter sido criada para os fins dos Estados Unidos e em benefício das empresas estadunidenses.

Agora, vemos em todo o mundo que muitos países se perguntam: se algo é ilegal no mundo real, por que não pode ser também no mundo digital? Isto é particularmente dramático no caso da pornografia infantil, do terrorismo e dos diferentes tipos de crimes financeiros que se tornaram possíveis on-line. E, cada vez mais, penso que também aparece a questão sobre as eleições e o financiamento de campanhas eleitorais, que são bem reguladas em muitos países (e com razão), se vão permitir que a internet também escape dessa regulação.

Portanto, considero que estamos em uma etapa crítica na qual as pessoas de muitos países, na América do Sul, bem como na Europa, precisam se perguntar se as normas para o mundo digital estão sendo aplicadas ou se sequer existem, e se não deveriam estar alinhadas com outros tipos de normas.

Vários países estão tentando mudanças e regulações para as empresas de tecnologia, mas elas têm um poder enorme. Por outro lado, estamos em um momento muito frágil da cooperação multilateral. Você vê mudanças?

Ainda está mudando muito lentamente. A grande questão é se a Europa finalmente decidirá que é de seu interesse regular as empresas de tecnologia, pois a União Europeia tem poder e capacidade para isso. É uma organização multilateral que ainda funciona. Então, é possível imaginar que isso aconteça.

Vimos um ou dois países fazerem esforços. Por exemplo, os brasileiros multaram o Twitter e o desconectaram temporariamente ao descobrirem que infringia a lei brasileira. De fato, ninguém fala muito sobre isso, mas a Índia proibiu o TikTok porque considerou que era uma operação de influência chinesa, algo que ninguém discute. Simplesmente o desconectaram. Houve um certo alvoroço por um tempo, mas depois todos se acostumaram e passaram para outra coisa.

Em resumo, penso que algumas dessas coisas podem ser feitas, caso a liderança de um determinado país assim o desejar. É importante que todos compreendam o raciocínio por trás disso.

Qual é esse raciocínio?

As empresas de tecnologia utilizam uma linguagem enganosa, mas muito poderosa, sobre a censura: qualquer regulação governamental sobre o que aparece on-line é censura. Os governos devem encontrar uma resposta: o que fazemos não é censurar, o que fazemos é aplicar as leis do mundo real ao mundo digital. Em muitos casos, o que se exige é transparência.

Uma das coisas estranhas da internet e das redes sociais é que, ao usá-las (Twitter, Facebook ou Instagram), tem-se a impressão de estar participando de uma conversa livre. Você publica algo, as pessoas respondem, gera-se uma conversa. Mas, na realidade, o que você escreveu é manipulado, porque o algoritmo, projetado para beneficiar as empresas da Califórnia, decide quem vê o que você escreveu, quantas pessoas podem responder e até mesmo se você vê todas as respostas. Então, parece uma conversa livre, mas, na verdade, é uma conversa manipulada.

Como eu já disse, os governos precisam compreender a questão e começar a explicar às pessoas. Na verdade, não só os governos, mas qualquer pessoa na vida pública tem a obrigação com os leitores, consumidores e eleitores de explicar que o mundo digital não foi criado para construir uma esfera pública, nem para criar um espaço melhor para o debate ou para a tomada de decisões.

Para que foi criado?

Foi criado para gerar lucros para as pessoas da Califórnia. E isto significa que, às vezes, convém para eles semear a discórdia. Como as pessoas tendem a ler publicações emotivas e cheias de ira, e se sentem intrigadas por teorias da conspiração, as empresas são muito mais propensas a oferecer esse tipo de conteúdo, já que é o que mantém o usuário conectado e impulsionado a comprar publicidade. Seria útil que as pessoas compreendessem o que é realmente o mundo on-line. Aliás, acredito que muitos jovens já o entendem. Entendem que o que veem não é necessariamente real.

Essa disrupção ou revolução digital criou, ou permitiu, a ascensão de ideias e líderes iliberais, fenômeno que você estudou em profundidade. Em sua avaliação, hoje, o iliberalismo está se tornando mainstream?

Penso que o iliberalismo está muito difundido, já que os argumentos contra a democracia, que agora são bastante claros e escutados com frequência tanto por pessoas do Vale do Silício quanto de Washington e de outros lugares, são fortes e constantes. Às vezes, as pessoas os ocultam atrás de outras coisas.

Como eu disse, existe esse jogo da liberdade de expressão, que muitas vezes serve de fachada para aqueles que querem reprimir ou manipular a liberdade de expressão. Alguns ocultam seus objetivos, mas estão cada vez mais abertos.

Certamente, tudo se tornou possível graças ao mundo digital, que não apenas facilitou que as pessoas com ideias iliberais tenham visibilidade, mas, em alguns casos, as promove. O Twitter, ou X, está projetado para promover ideias antidemocráticas. Não é nenhum segredo; esse é um dos seus propósitos. Tem um propósito político: promover ideias iliberais, sobretudo vindo do proprietário da plataforma.

Sobre a derrota de Viktor Orbán, na Hungria, ficou demonstrado que o iliberalismo não é inevitável, como você dizia, mas que é necessária uma coalizão diversa e ampla para derrotá-lo. Por que foi tão difícil para a Hungria, e outros países, alcançar esse objetivo?

Houve dois ou três elementos. Um deles foi que, durante muito tempo, os húngaros pensaram que continuavam no antigo sistema político, com a centro-esquerda e a centro-direita, e com os partidos políticos históricos podendo seguir discordando entre si e que, finalmente, a roda giraria e um deles voltaria a decidir as eleições. Levou muito tempo para compreenderem que isto não voltaria a acontecer.

Em segundo lugar, a propaganda de Orbán funcionou por muito tempo. Ele disse aos húngaros que estava defendendo a nação contra, primeiro, a ameaça existencial dos imigrantes, depois, contra a ameaça existencial da sexualidade degenerada ou da ideologia de gênero do Ocidente. E depois, de forma bastante absurda, disse que os defendia contra a Ucrânia, pois havia criado essa falsa ameaça da Ucrânia.

E penso que as pessoas estavam assustadas no início. Ele criou essa atmosfera de medo e ansiedade, mas, com o tempo, as ameaças pararam de surtir efeito. E, sobretudo, nas últimas eleições, as pessoas perceberam que não eram verdadeiras.

Finalmente, uma das coisas que inevitavelmente ocorre quando há um populismo autoritário é que surgem pobreza e corrupção, pois uma vez que há pessoas no poder que acreditam que nunca perderão as eleições, então, começam a roubar. Não ficam mais realmente interessadas no bem-estar das pessoas comuns; sua política é feita em benefício próprio e não em benefício do país.

Em relação a Trump, as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos são em novembro. O que está em jogo?

Minha principal preocupação nas eleições de meio de mandato é que, ao menos, deem o controle da Câmara dos Representantes aos democratas, caso contrário, pode não haver eleições presidenciais justas daqui a três anos. Já vimos que Trump é capaz de tentar mudar um resultado eleitoral. Ele fez isto em 2021. E tentará de novo. Se não conseguir, outros já aprenderam os mesmos truques.

Não acredito que ele será candidato, mas para garantir que o sistema democrático estadunidense continue e que as próximas eleições presidenciais não sejam abertamente roubadas, penso que é fundamental que os democratas vençam (as midterms). E, claro, há muitos outros temas que também serão afetados, da política imigratória à política externa e todos os tipos de financiamento de programas governamentais. No entanto, a questão central é que devemos garantir que nossa democracia possa continuar.

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