Magnifica Humanitas e a crise antropológica do nosso tempo. Artigo de Robson Ribeiro

Foto: A Chosen Soul/Unsplash

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26 Mai 2026

"A grande força da Magnifica Humanitas está justamente em afirmar que a crise contemporânea não é tecnológica, mas antropológica. A inteligência artificial apenas torna mais evidente uma pergunta que nossa época evita enfrentar: ainda sabemos o que significa ser humano?", escreve Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e professor. É formado em História, Filosofia e Teologia, áreas nas quais trabalha como professor em Juiz de Fora (MG).

Eis o artigo.

A publicação da encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, surge em um dos momentos mais decisivos da história contemporânea. Em meio ao entusiasmo tecnológico, à aceleração informacional e à crença quase dogmática de que a inteligência artificial representa a solução inevitável para os dilemas humanos, o novo documento desloca o debate para um horizonte mais profundo e incômodo: afinal, que humanidade estamos construindo? Mais do que um texto sobre tecnologia, a encíclica apresenta-se como um diagnóstico severo sobre a crise antropológica do nosso tempo, questionando a ilusão de progresso que frequentemente confunde capacidade técnica com maturidade moral.

A força da Magnifica Humanitas reside precisamente no fato de não demonizar a tecnologia, mas recolocá-la em seu devido lugar. A inteligência artificial, recorda o Papa, é fruto da inteligência humana e, por isso mesmo, pode constituir uma poderosa ferramenta para o bem comum. Contudo, essa potência só encontra legitimidade quando permanece submetida a critérios éticos claros, orientados pela dignidade da pessoa humana, pela justiça, pela fraternidade e pela responsabilidade coletiva. O problema contemporâneo não é a existência da tecnologia, mas a tentação de convertê-la em novo critério absoluto de verdade, eficiência e organização da vida humana.

Em plena era da hiperconectividade, da automação e da abundância informacional, a principal preocupação da encíclica não é a máquina em si, mas o empobrecimento progressivo da própria compreensão do humano. A técnica jamais foi, por essência, uma ameaça. O perigo emerge quando a velocidade substitui a reflexão, quando o cálculo ocupa o espaço do discernimento e quando a automação seduz a consciência humana com a promessa de aliviar a responsabilidade moral, já não estamos diante de um problema técnico, mas de uma crise de civilização.

Nesse horizonte, Leão XIV propõe princípios fundamentais que funcionam como verdadeiro marco ético para o debate contemporâneo. O primeiro deles é a dignidade humana, afirmando categoricamente que a pessoa está acima de qualquer tecnologia e jamais pode ser reduzida a dado, estatística ou perfil algorítmico. Essa afirmação torna-se especialmente urgente numa cultura em que indivíduos são constantemente transformados em métricas, relevância digital e capital informacional. Ao lado disso, a encíclica recupera a centralidade do bem comum, insistindo que a inovação tecnológica não pode beneficiar apenas centros de poder econômico, mas deve servir ao desenvolvimento integral de todos, sobretudo dos mais pobres, vulneráveis e excluídos. Em um mundo marcado pela desigualdade estrutural, a tecnologia corre o risco de ampliar ainda mais abismos sociais se não for orientada por justiça distributiva.

A encíclica também chama atenção para a justiça e a inclusão, denunciando vieses discriminatórios que podem ser reproduzidos ou amplificados por sistemas automatizados. A inteligência artificial, sem orientação, pode automatizar preconceitos, reforçar desigualdades e consolidar novas formas de segregação social sob aparência de objetividade técnica.

Leão XIV é igualmente enfático ao afirmar a responsabilidade compartilhada entre desenvolvedores, empresas, governos e usuários. Trata-se de um ponto crucial, pois desmonta a narrativa conveniente de que a tecnologia seria fenômeno autônomo, inevitável e autorregulado. Toda ferramenta carrega escolhas humanas. Toda inovação envolve decisões políticas, econômicas e morais. “A inovação tecnológica pode ser, em certo sentido, uma forma humana de participar no ato divino da criação. Portanto, os programadores assumem um particular peso ético e espiritual, pois cada escolha feita no projeto expressa uma visão da humanidade.” (n. 111).

No campo dos desafios concretos, a encíclica apresenta preocupações contundentes. A primeira delas é a desumanização, isto é, o risco de reduzir a pessoa a números, dados e padrões de comportamento, enfraquecendo vínculos reais e empobrecendo a experiência relacional. Em seguida, emerge a ameaça do desemprego e da exclusão, sobretudo quando a automação transforma eficiência em justificativa para a precarização do trabalho humano. A tradição social da Igreja reaparece aqui com vigor: trabalho não é mera produção econômica, mas expressão de dignidade, pertencimento e sentido existencial.

O documento também denuncia a vigilância e a manipulação, reconhecendo que o uso indevido de dados compromete privacidade, liberdade individual e instituições democráticas. Nunca foi tão evidente que controlar informação significa influenciar desejos, narrativas e comportamentos coletivos. A chamada colonização digital não se realiza pela ocupação territorial, mas pela captura silenciosa da consciência.

Talvez uma das observações mais profundas do documento seja a percepção da perda de sentido. O excesso tecnológico, longe de ampliar necessariamente a humanidade, pode produzir isolamento, individualismo e esvaziamento existencial. Quanto mais conectados digitalmente, mais frágeis podem se tornar os vínculos humanos concretos. A promessa de comunicação ilimitada frequentemente esconde o aprofundamento da solidão.

Diante disso, Leão XIV propõe caminhos concretos. Insiste na necessidade de recolocar a pessoa no centro de toda inovação. Defende uma educação ética capaz de formar consciências críticas, aptas a usar a inteligência artificial com responsabilidade e discernimento. Propõe governança global que estabeleça regulações éticas internacionais capazes de proteger direitos humanos, segurança e justiça. Reivindica diálogo entre ciência, filosofia, teologia, direito e política, reconhecendo que a crise tecnológica não pode ser enfrentada por uma única racionalidade isolada. E, de modo particularmente significativo, reafirma a espiritualidade e a sabedoria como dimensões irredutíveis da experiência humana, impossíveis de serem automatizadas.

A grande força da Magnifica Humanitas está justamente em afirmar que a crise contemporânea não é tecnológica, mas antropológica. A inteligência artificial apenas torna mais evidente uma pergunta que nossa época evita enfrentar: ainda sabemos o que significa ser humano? Se a pessoa for reduzida à lógica da performance, da eficiência e da previsibilidade, então a técnica apenas amplificará essa deformação. Se, porém, a humanidade recuperar o sentido da dignidade, da responsabilidade moral, da fraternidade e da transcendência, a tecnologia poderá efetivamente servir ao bem comum.

Sendo assim o futuro não pertence às máquinas, mas à qualidade moral dos seres humanos que as criam e utilizam. A tecnologia avança, mas é o coração humano que deve guiar esse avanço.

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