23 Abril 2026
Talvez, antes de oferecerem recomendações, prescrições ou avaliações a qualquer outro país, os estadunidenses - dentro e fora do governo - devessem se olhar no espelho e se perguntar se estão prestes a se tornarem um Estado falido”, escreve David Brooks, jornalista, em artigo publicado por La Jornada, 20-04-2026. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
Os sintomas da deterioração do país mais poderoso do mundo, nos últimos anos, manifestam-se na mais extrema concentração de riqueza, desde antes da Grande Depressão, com todas as suas consequências: o enfraquecimento das instituições e organizações sociais, sobretudo os sindicatos; o rompimento do pacto social inerente ao neoliberalismo, culminando na tomada do poder pela extrema-direita, com uma agenda explícita para desmantelar o que resta da democracia liberal.
Essa deterioração expressa é a erosão, senão o colapso da credibilidade e da confiança nas instituições e processos democráticos. As pesquisas mais recentes registram a continuidade de uma tendência de desaprovação e desencanto com o sistema democrático estadunidense.
Sete em cada dez estadunidenses estão insatisfeitos com a forma como funciona sua democracia, segundo o Pew Research Center, que também relata que a maioria considera que o seu país já foi um bom exemplo para outros no mundo, mas não é mais.
Diversas avaliações da “saúde” das democracias registram uma deterioração acentuada dos Estados Unidos, na última década. O relatório anual da Freedom House mostra que a avaliação da democracia estadunidense despencou mais do que a de qualquer outro país definido pela organização como “livre”, com exceção da Bulgária e de Nauru. O Índice de Democracia da Economist Intelligence Unit registra a pior avaliação dos Estados Unidos, desde que iniciou esta estimativa anual, em 2006, e, de fato, define o país como uma “democracia defeituosa”.
Só 16% da população estadunidense aprova a gestão do Congresso federal; 79% desaprovam, de acordo com a pesquisa Gallup mais recente, realizada em março. O ocupante da Casa Branca registrou seu pior nível de aprovação, desde o início de seu segundo mandato, com 38%, enquanto 56% reprovam seu trabalho.
De fato, nada mais do que 17% dos estadunidenses confiam que seu governo fará a coisa certa sempre ou na maioria das vezes, um dos níveis mais baixos em cerca de 70 anos de pesquisas sobre o tema, aponta o Pew Research Center.
Fica claro que a liderança política do país se importa pouco com as avaliações. Sabem que precisam apenas do voto de uma minoria para vencer (Trump venceu com apenas 30% do eleitorado; os parlamentares de ambos os partidos fazem algo semelhante). E apostam que aproximadamente metade das pessoas com direito ao voto não o exercem. Afinal, diversas pesquisas registram que as maiorias consideram que o governo não os representa, mas, ao contrário, está a serviço dos ricos e poderosos.
Agora, com iniciativas direitistas em nível federal e em vários estados para obstruir e manipular o voto, com táticas de supressão do voto ou redesenhando mapas eleitorais, está sendo semeada uma desconfiança ainda maior sobre se cada voto conta e se o sistema funciona para as maiorias.
Quase todos, segundo as pesquisas, sabem que esse sistema não funciona para expressar a vontade e os interesses das maiorias. Contudo, o jogo segue, inclusive, com arrogância cada vez maior, como quando Washington julga sistemas políticos de outros países e insiste que, gostem ou não, os Estados Unidos são o exemplo a ser seguido.
Isso com um presidente que, diferente de seus antecessores, que cumpriram a tradição de construir uma biblioteca presidencial pública no nome deles ao deixarem o cargo, declarou que seu monumento provavelmente será um hotel de luxo em Miami, destacando: “eu não acredito em construir bibliotecas ou museus”. A maquete inclui uma torre de 47 andares, com uma estátua gigante do presidente com o punho erguido, tudo em ouro, of course.
(É um alívio que ele também tenha acabado de aprovar a aceleração dos esforços para o uso de drogas psicodélicas para fins medicinais - ajudará jornalistas e outros que precisam noticiar sobre tudo isso).
Talvez, antes de oferecerem recomendações, prescrições ou avaliações a qualquer outro país, os estadunidenses - dentro e fora do governo - devessem se olhar no espelho e se perguntar se estão prestes a se tornarem um Estado falido.
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