11 Março 2026
"Peter Thiel, negacionista das mudanças climáticas, gênio da matemática, libertário de direita, admirador de Tolkien, cofundador do PayPal, considerado o "coração das trevas" do mundo digital, não persegue a riqueza como fazem todos os outros [...] Sua visão apocalíptica da modernidade [...] contempla um retorno à visão absolutista da política", escreve Giorgio Ferrari, jornalista italiano, correspondente internacional de Avvenire, em artigo publicado por Avvenire, 08-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Negacionista das mudanças climáticas, gênio da matemática, libertário de direita, cofundador do PayPal, não está em busca de riqueza como todos os outros. Eis o seu perfil.
Cuidado com esse homem. Seu nome é Peter Thiel. Ele vem do arrogante viveiro democrata (outrora o orgulho da intelectualidade liberal do Vale do Silício), mas desembarcou na margem oposta. É incrivelmente rico (embora ocupe apenas a 40ª posição na lista da Forbes, com um patrimônio líquido de US$ 27 bilhões), anarquista-libertário, formado em filosofia e direito pela Universidade Stanford, um dos principais financiadores do mundo MAGA e de Donald Trump desde sua primeira candidatura em 2016, ex-amigo e compadre de Elon Musk, e posteriormente grande eleitor e financiador de JD Vance, outrora paladino dos "disfuncionais" descritos em seu livro "Hillbilly Elegy" (Era Uma Vez Um Sonho), e mais tarde tecnocrata extremista e porta-estandarte de uma intransigência nacionalista e anti-imigratória, quase uma cópia exata do cão de rinha de Putin, Dmitry Medvedev. Não é coincidência que Vance seja uma figura política literalmente criada por Thiel, que o financiou e o elegeu em Ohio, para depois essencialmente o impor a Donald Trump como seu companheiro de chapa, até que o alçou ao pódio da vice-presidência.
Mas quem é Peter Thiel, o articulador político de Vance e de outros membros do governo, figura obscura e esquiva, porém crucial na lenta conversão da democracia liberal estadunidense em uma espécie de autocracia light construída sob medida?
Em primeiro lugar, ele é o fundador da Palantir, fundada em 2003 após a venda do PayPal como uma empresa de tecnologia do Vale do Silício e que rapidamente se tornou — como Luca Ciarrocca relata em seu ensaio "A Alma Negra do Vale do Silício: A Verdadeira História de Peter Thiel" (Fuori Scena, 2026) — uma das empresas mais influentes na área de análise de dados para governos, agências de inteligência como a CIA, a NSA e o FBI, e grandes corporações. Além da agregação de dados biométricos, o software da Palantir também foi usado pelo ICE para analisar redes migratórias e identificar imigrantes irregulares, bem como pelas forças armadas dos EUA para estudar a guerra híbrida que se desenrola no embate entre as grandes potências.
Visto de fora, a Palantir pode até parecer um caso de sucesso, apesar da quantidade, agora constrangedora, de bilhões de dados processados e reorganizados por um banco de dados que — escreve Ciarrocca — "digere todo tipo de dado, das declarações do imposto de renda ao status imigratório, das informações sobre o trabalho ao número de filhos", sem mencionar os posts nas redes sociais.
Essa é a Palantir, um Grande Irmão que faz empalidecer as profecias de George Orwell, uma entidade onipotente que evoca as previsões filosóficas mais sugestivas de Isaac Azimov e Arthur C. Clarke.
E aqui precisamos fazer uma distinção importante. Há um abismo enorme entre Peter Thiel e a plêiade de bilionários do Vale do Silício que, depois de rondarem a esquerda democrata, rapidamente se aninharam junto ao trono de Donald Trump — estamos falando de figuras como Jeff Bezos, Marc Zuckerberg, Larry Page, Tim Cook, Reid Hofmann, também conhecidos como Amazon, Meta, Google, Apple, LinkedIn.
Peter Thiel, negacionista das mudanças climáticas, gênio da matemática, libertário de direita, admirador de Tolkien, cofundador do PayPal, considerado o "coração das trevas" do mundo digital, não persegue a riqueza como fazem todos os outros, não se envolve numa corrida até a morte como fazem os oligarcas do dólar na corte de Trump, de Elon Musk para baixo. Thiel quer algo diferente. Sua visão apocalíptica da modernidade (sobre a qual ele falará daqui a alguns dias num seminário fechado em Roma) contempla um retorno à visão absolutista da política, aquela do bellum omnium contra omnes, delineada por Thomas Hobbes no De Cive e no Leviatã. Thiel não gosta de competição ("uma perda de tempo e de recursos") nem do livre mercado, mas quer um poder absoluto gerido por tecnocratas apoiados pela inteligência artificial, sem a qual, segundo ele, o Estado jamais funcionará.
Misturando sugestões de Tolkien, Carl Schmitt e do antropólogo René Girard, ele profetiza um Armagedom que em breve testemunhará o confronto supremo entre o Bem e o Mal. "É por isso", diz ele, "que a Palantir existe", com sua miríade de empresas associadas. Uma espécie de Linha Maginot — faz questão de salientar — para a proteção da humanidade.
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