Sinodalidade e reforma. Um longo caminho para mudar a mentalidade. Entrevista com Mario Grech

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18 Abril 2026

Cardeal Mario Grech, originário de Malta, após uma formação em direito litúrgico pela Universidade Lateranense e um doutorado em direito canônico pelo Angelicum, foi bispo de Gozo (Malta) e presidente da Conferência Episcopal Maltesa. Em 2020, foi nomeado secretário-geral do Sínodo dos Bispos.

A entrevista com o Cardeal Mario Grech é de Franco Ferrari, publicada pela revista Missione Oggi, edição n. 1, jan-fev 2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista. 

O Papa Francisco conferiu ao Documento Final do Sínodo a dignidade de magistério da Igreja. Que significado assume essa escolha no percurso rumo a uma Igreja sinodal?

Ao implementar pela primeira vez o Art. 18 da Constituição Apostólica Episcopalis Communio, o Papa Francisco optou por não mais considerar o Documento Final como um documento "semifinal", ou seja, destinado a ser substituído por um pronunciamento individual do Bispo de Roma (como foi, por muito tempo, a Exortação apostólica pós-sinodal). Isso traz implicações eclesiológicas promissoras, especialmente no que diz respeito ao nexo entre sinodalidade e primazia, tão caro às Igrejas do Oriente. De fato, o Papa demonstrou seu respeito pelo valor da consulta às Igrejas e do debate em assembleia, e seu reconhecimento da validade das conclusões do processo sinodal, incorporando-as ao seu magistério para que ganhem autoridade para toda a Igreja.

As Assembleias continentais foram a novidade do caminho sinodal. Que futuro podem ter?

O nível continental (ou subcontinental) deve ser melhor explorado como uma forma "intermediária" de exercício da sinodalidade, ao lado do nível nacional das Conferências Episcopais e dos Concílios Plenários. Isso também nos é exigido pelos nossos tempos, em que sentimos cada vez mais a necessidade de convergências que transcendam os interesses de cada país. Por essa razão, a questão está entre aquelas que foram confiadas ao novo Grupo de Estudos 12, atualmente em formação, e que será incumbido de uma reflexão teológica e jurídica não abstrata, mas baseada na experiência concreta das sete Assembleias continentais celebradas em 2023, sem esquecer os aportes daqueles continentes que têm algo a ensinar às outras Igrejas (por exemplo, a América Latina).

Podem ser um instrumento para garantir a unidade na diversidade?

Certamente, as Assembleias continentais podem — em consonância com uma instância eclesiológica que emergiu com força no processo sinodal (cf. FD 126) — favorecer a unidade na diversidade, isto é, uma comunhão que não seja uniformidade, mas capaz de reconhecer e integrar as diferenças, segundo o princípio fundamental da inculturação do Evangelho. Pode-se dizer que o nível continental pode ajudar a Igreja a expressar melhor a sua catolicidade constitutiva.

Os Grupos de Estudo, aos quais foram atribuídas todas as questões importantes, não apresentaram conclusões em dezembro de 2025, mas sim Relatórios preliminares que, basicamente, delineiam aspectos metodológicos e cronologia dos trabalhos. O que explica tal lentidão na realização?

Embora vários Relatórios preliminares já apontem alguns conteúdos relevantes, é verdade que o trabalho dos Grupos de Estudo está requerendo, em muitos casos, um tempo superior ao previsto. Isso depende da complexidade das temáticas em exame, da necessidade de abordá-las de forma circunstanciada e sem pressa, da composição internacional dos Grupos, mas também — e sobretudo — da opção dos próprios Grupos de envolver uma pluralidade de sujeitos, a começar pelas Conferências Episcopais. Isso inevitavelmente prolonga os prazos, mas enriquece consideravelmente a qualidade sinodal do trabalho.

Quando se prevê que as conclusões estejam disponíveis e o que será feito com os seus resultados?

As conclusões dos Grupos chegarão nos próximos meses, ou seja, durante 2026, com exceção dos dois Grupos recém-criados (11 e 12). Em coerência com o que sempre se buscou ao longo do processo sinodal, os resultados dos Grupos serão comunicados ao Povo de Deus. As conclusões serão, simultaneamente, assumidas pelos Dicastérios Vaticanos envolvidos, que, em diálogo com a Secretaria Geral do Sínodo, discernirão como implementá-las, tendo o cuidado de explicar as suas decisões. Por fim, tudo será apresentado ao Santo Padre.

No Relatório preliminar, o Grupo de Estudos 5, encarregado de "dar continuidade à investigação sobre o acesso das mulheres ao diaconato", informa que "enviou as contribuições resultantes dos trabalhos sinodais" para a Segunda Comissão de Estudos criada em 2020. Esta enviou (18/09/2025) uma Síntese ao Papa Leão, na qual sugere uma "linha prudencial" e maiores aprofundamentos. Deve ser considerada como sendo também a resposta do Grupo 5 ou haverá um pronunciamento independente?

Como se pode depreender do Relatório preliminar do Grupo 5, o Grupo (criado junto ao Dicastério para a Doutrina da Fé) e a nova Comissão de Estudos sobre o Diaconato Feminino são dois órgãos distintos. Por essa razão, o Dicastério, bem como o Secretariado do Sínodo, sempre encaminharam prontamente à Comissão todas as contribuições referentes ao possível acesso das mulheres ao ministério ordenado. É, portanto, incorreto associar ao Grupo 5 os resultados a que a Comissão chegou de forma independente ao longo de cinco anos. Quanto ao Relatório Final do Grupo 5, não posso afirmar se também abordará o Diaconato Feminino, mas, em todo o caso, parece-me razoável pensar que não poderá deixar de levar em consideração as conclusões da Comissão.

O Papa Leão aprovou um novo Grupo (11) que tratará da liturgia. A consulta sinodal havia revelado muitas críticas e pontos fracos. A que aspectos esse Grupo prestará atenção?

O Grupo foi formado durante o último verão europeu e está trabalhando em subgrupos. Como se pode ver no mandato, publicado em novembro, os aspectos aos quais pretende dar atenção são: a relação entre liturgia-Eucaristia e a dimensão sinodal-missionária da Igreja, o fortalecimento da actuosa participatio dos batizados — e em particular das batizadas — em consonância com o Concílio Vaticano II, o significado da pregação litúrgica, a saudável descentralização da autoridade litúrgica, a formação litúrgica do Povo de Deus.

Ao apresentar o Documento Final à imprensa, em outubro de 2024, o senhor afirmou que o Sínodo continuava. Como e onde o Sínodo continua agora?

Como especificam as Pistas para a fase de implementação do Sínodo, publicadas em julho de 2025, o Sínodo continua onde começou, ou seja, nas Igrejas locais, pois é ali e somente ali que o Povo de Deus vive concretamente. O Secretariado Geral do Sínodo e as Conferências Episcopais podem e devem oferecer orientação e ferramentas às Igrejas locais, colocando-se a seu serviço, mas não podem tomar o seu lugar. O trabalho continuará ao longo de 2026, enquanto entre 2027 e 2028 ocorrerão, nessa ordem, assembleias de avaliação diocesanas, nacionais e continentais, até a assembleia eclesial em Roma, em outubro de 2028. A recepção do processo sinodal é um caminho lento que consiste na mudança de mentalidades mais que das estruturas. Não pode ser conduzido por um único órgão, pois sua força motriz secreta é o Espírito Santo.

As equipes sinodais continuarão a desempenhar um papel?

As Pistas para a Fase de Implementação nos convidam a "apostar" nas equipes sinodais, eventualmente reativando-as caso tenham sido dissolvidas. Elas são pensadas como instrumento de animação da vida sinodal da Igreja local, não substituindo os órgãos de participação previstos pelo direito, mas sim apoiando-os e se colocando a seu serviço.

A "Nota de acompanhamento" pede que as Igrejas implementem as "indicações autorizadas" do Documento Final. Que intervenções já podem ser consideradas para garantir que tudo não permaneça como está?

O Documento Final, que demonstra claramente como o processo sinodal foi concebido e realizado como ato adicional de recepção do Concílio Vaticano II, acima de tudo demanda, a meu ver, uma conversão da mente (ou do coração), da qual deverão resultar, de forma coerente, mudanças disciplinares e pastorais. Isso inclui, por exemplo, o crescimento na espiritualidade sinodal e a educação no discernimento eclesial, a formação conjunta com o exercício dos ministérios eclesiais (ordenados e não ordenados) e um reconhecimento mais generoso dos carismas, a valorização dos órgãos participativos diocesanos e a redefinição dos processos de deliberação eclesial, além de maior transparência e prestação de contas. Nas paróquias, pouco ou nada se sabe sobre o Sínodo e as mudanças que deveria proporcionar.

A opinião predominante é "afinal, nada muda". Não acha que a falta de informação, ainda mais do que a formação, poderia ser um sério obstáculo à aquisição de uma mentalidade sinodal?

Ao lado de comunidades onde o processo sinodal despertou entusiasmo, esperança e desde já mudanças concretas, existem outras — não excluídas várias dioceses — onde a informação não chegou, ou talvez tenha sido mal interpretada ou filtrada. A opinião de que "afinal, nada vai mudar" deriva, na minha opinião, de uma mentalidade centralista e de esperar para ver, segundo a qual as mudanças devem sempre e somente ser impostas de cima. É verdade que algumas reformas só podem vir do "centro", mas também é verdade que muitas das mudanças previstas pelo processo sinodal já são agora realizáveis nas dioceses, paróquias e outras realidades eclesiais "de base".

Até que ponto está se manifestando a real tentação do imobilismo da qual havia falado o Papa Francisco?

Eu não saberia como "medir" o imobilismo, e evito cuidadosamente o pessimismo. De qualquer forma, o imobilismo é uma tentação sempre presente na Igreja; é, no fundo, uma forma de resistência ao Espírito Santo, que é, ao contrário, o divino inspirador da renovação eclesial.

A Secretaria Geral considerou oportuno enviar uma carta, que foi tornada pública, ao Papa Leão, logo após sua eleição, defendendo a causa da sinodalidade. Que preocupações levaram a tomar essa iniciativa incomum?

Não se tratou de uma carta de "defesa", também porque o envolvimento do então Cardeal Robert Francis Prevost no processo sinodal era amplo e comprometido, como evidencia seu trabalho em dois dos Grupos de Estudo. Em termos mais simples, a carta visava expressar a disposição da Secretaria Geral do Sínodo em colaborar ativamente com o sucessor de Pedro, que também é o próprio Presidente do Sínodo.

Uma parcela consistente de padres e bispos tem se mostrado refratária ao caminho sinodal, sem mencionar alguns cardeais que se opuseram abertamente a ele. Quais são os pontos de maior resistência?

As hostilidades surgem dos mal-entendidos. Talvez devêssemos reconhecer que o Sínodo nem sempre foi apresentado e explicado corretamente, e que alguns se apropriaram dele por reivindicações ideológicas. O que alguns temem — o enfraquecimento da autoridade dos pastores, a democratização ou protestantização das instituições eclesiásticas, o sacerdócio feminino, e assim por diante — não é o Sínodo em si, mas a sua falsificação.

Mas a oposição é ampla e transversal, abrangendo desde a hierarquia até os leigos. Se as posições contrárias fossem ouvidas, tudo pararia. Qual estratégia de persuasão moral a Secretaria Geral está considerando?

Se há algo que o processo sinodal nos ensina, é que o consenso é fruto de um caminho de discernimento em que todas as vozes devem ser ouvidas e integradas, e no qual cada um é chamado a reconhecer o fragmento de verdade do qual o outro é portador. Não se trata, portanto, de persuasão moral, mas de discernimento eclesial. É uma obra que o Espírito Santo realiza em nós e conosco, como demonstra a história paradigmática do "Concílio" de Jerusalém, levando-nos, em última instância, à convergência, não pela concessão de um ao outro, mas pelo reconhecimento comum da vontade de Deus pela sua Igreja.

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