Comunicação, cansaço e alteridade: a Geração Z à luz de Byung-Chul Han. Artigo de Robson Ribeiro

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03 Março 2026

"A Geração Z não rejeita o vínculo, ela o reinventa dentro das condições que lhe foram dadas. Suas formas de comunicação valorizam o cuidado, o consentimento e o respeito aos próprios limites emocionais. Ao preferir interações mediadas, muitos jovens buscam preservar a saúde psíquica em um ambiente que raramente oferece pausas, segurança ou previsibilidade", escreve Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e professor, formado em História, Filosofia e Teologia, áreas nas quais trabalha como professor em Juiz de Fora (MG).

Eis o artigo.

A dificuldade da Geração Z em lidar com chamadas telefônicas inesperadas não pode ser compreendida apenas como um fenômeno comportamental ou geracional. Ela se insere em uma transformação mais profunda da experiência subjetiva, que Byung-Chul Han descreve como a passagem de uma sociedade disciplinar para uma sociedade do desempenho. Se antes o sujeito era oprimido por normas externas, hoje ele se explora voluntariamente em nome da eficiência, da disponibilidade constante e da otimização de si.

Nesse cenário, o telefone encarna uma ruptura intolerável. Ele não pede permissão, não pode ser editado, não respeita o tempo do desempenho. Ao tocar, impõe a presença do outro e exige atenção imediata, algo cada vez mais raro em uma cultura marcada pela fragmentação da experiência. Para Han, a atenção profunda é incompatível com a lógica da aceleração, por isso, o diálogo por voz se torna um peso psíquico.

Outro eixo fundamental do autor é a erosão da negatividade. O silêncio, a espera, o tédio e a contemplação, foram expulsos da vida cotidiana. A comunicação digital privilegia a positividade: respostas rápidas, reações instantâneas, emojis, curtidas. A ligação telefônica, ao contrário, introduz o risco, o conflito e o imprevisível.

Essa dinâmica se aprofunda com aquilo que Han chama de expulsão do outro. A comunicação mediada por texto reduz a alteridade: o outro aparece filtrado, controlável, muitas vezes reduzido a uma notificação. Já a voz carrega hesitação, emoção, silêncio e falha, elementos que escapam ao controle do sujeito do desempenho. Atender uma chamada é, portanto, confrontar-se com uma alteridade real, algo que a cultura digital tenta continuamente neutralizar.

A perda dos espaços contemplativos aparece, então, como elemento central. Sem tempo para o recolhimento, o sujeito perde a capacidade de sustentar a presença. Han alerta que a contemplação não é improdutividade, mas condição para a formação do pensamento, da escuta e do vínculo. A Geração Z, privada desse tempo, aprende a existir em estado de resposta contínua, mas não de encontro.

Além disso, Byung-Chul Han identifica uma sociedade do cansaço, marcada não pela repressão, mas pela exaustão. A aversão às ligações pode ser lida como um sintoma desse esgotamento psíquico: não se trata de incapacidade de falar, mas de não haver mais energia para sustentar a intensidade de uma conversa viva. A voz do outro exige presença total, algo incompatível com sujeitos já saturados de estímulos e tarefas.

É fundamental, contudo, que essa análise não derive para leituras simplistas ou moralizantes sobre a Geração Z. Evitar chamadas telefônicas, preferir mensagens ou demonstrar ansiedade diante de interações inesperadas não é sinal de apatia, fragilidade ou empobrecimento humano. Trata-se, antes, de uma geração que aprendeu a se relacionar em um mundo estruturalmente diferente, marcado pela instabilidade, pela exposição constante a crises globais e por uma aceleração inédita da vida social.

A Geração Z não rejeita o vínculo, ela o reinventa dentro das condições que lhe foram dadas. Suas formas de comunicação valorizam o cuidado, o consentimento e o respeito aos próprios limites emocionais. Ao preferir interações mediadas, muitos jovens buscam preservar a saúde psíquica em um ambiente que raramente oferece pausas, segurança ou previsibilidade. Longe de indicar ausência de compromisso, essa escolha pode revelar uma ética relacional mais consciente e menos invasiva.

Além disso, é preciso reconhecer que essa geração tem sido chamada a lidar precocemente com temas que outras enfrentaram mais tarde: crises climáticas, colapsos políticos, precarização do trabalho e um fluxo contínuo de más notícias. Nesse contexto, o telefone não é apenas um dispositivo técnico, mas um símbolo de urgência e instabilidade.

Se, como aponta Byung-Chul Han, vivemos uma crise da contemplação e da escuta, essa crise não é responsabilidade exclusiva dos jovens, mas de um modelo social que lhes antecede e os molda. A Geração Z não é a causa do esgotamento contemporâneo, ela é, em muitos aspectos, seu espelho mais honesto. Sua recusa a certas formas de interação pode ser lida também como um gesto silencioso de resistência a uma cultura que exige disponibilidade total e presença constante.

Assim, a telefobia não é uma patologia individual, mas um sinal cultural. Ela revela uma geração formada em um ambiente que elimina o silêncio, evita o conflito e transforma toda interação em performance. Retomar espaços contemplativos não significa rejeitar a tecnologia, mas reintroduzir o tempo da escuta, da demora e da alteridade. Somente nesse intervalo será possível restituir à comunicação por voz seu sentido mais humano: o de encontro e não de ameaça.

Portanto, é preciso ouvir a Geração Z, observar suas formas de comunicação, pois suas práticas revelam limites que o mundo adulto muitas vezes ignora. Reconhecer essas novas formas de relação, sem idealização, mas também sem desprezo, é um passo necessário para reconstruir espaços de encontro mais humanos, onde a voz, o silêncio e a presença possam novamente coexistir.

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