A sociedade do cansaço e a tirania das telas. Artigo de Robson Ribeiro

Foto: Pexels/Canva

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01 Outubro 2025

"Desconectar-se, em uma sociedade que exige disponibilidade ilimitada, é um gesto político, uma afirmação da vida contra a máquina da autoexploração", escreve Robson Ribeiro de Oliveira Castro Chaves.

Robson R. de O. C. Chaves é teólogo, filósofo e historiador, especialista em Ética e em Projetos e Inovação na Educação. Leciona Teologia, Ensino Religioso, Filosofia e Projeto de Vida.

Eis o artigo.

A experiência contemporânea está marcada por uma constante sensação de exaustão. Nunca o ser humano esteve tão conectado, estimulado e, paradoxalmente, esgotado. A advertência feita pela neurocientista Elisa Kozasa, no programa Opinião (26 de setembro de 2024), sobre a influência das telas na falta de sono e no cansaço mental, pode ser compreendida de forma mais profunda quando analisada à luz da crítica filosófica de Byung-Chul Han àquilo que ele denomina “sociedade do cansaço”.

Segundo Kozasa, os dispositivos digitais, celulares, tablets e computadores, prolongam artificialmente o estado de atenção, comprometendo a qualidade do descanso noturno. Ao manter o cérebro em estado contínuo de vigilância, as telas impedem o desligamento fisiológico necessário para o sono profundo. Isso gera um ciclo de desgaste mental, com impacto direto na saúde e no desempenho cognitivo. O que a neurociência identifica como “falta de higiene do sono” revela-se como sintoma de algo maior: uma sociedade inteira que perdeu a capacidade de repousar.

Byung-Chul Han em A Sociedade do Cansaço, descreve essa condição como a transição de um regime disciplinar para um regime da autoexploração: “A sociedade do século XXI não é mais uma sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Seus habitantes não se chamam mais ‘sujeitos da obediência’, mas ‘sujeitos de desempenho e produção’. Eles são empresários de si mesmos. A sociedade do desempenho conduz a um cansaço excessivo”.

As telas funcionam, nesse sentido, como dispositivos perfeitos desse regime. Ao contrário das antigas instituições repressoras, que impunham limites claros, os dispositivos digitais operam pela lógica da ilimitada possibilidade: sempre há mais uma mensagem para responder, mais um conteúdo para consumir, mais uma atualização para verificar. O resultado é o que Han denomina de cansaço da positividade, no qual não somos esmagados pela proibição, mas pelo excesso de opções e exigências.

A proposta de Kozasa de proteger o sono como compromisso inviolável da agenda é pertinente, mas, como observa Han, não basta enfrentar o problema no nível individual. A autoexploração é resultado de uma estrutura social que confunde liberdade com obrigação de desempenho. Em Psicopolítica, Han afirma: “A liberdade paradoxal da sociedade neoliberal se transforma em coerção. O sujeito do desempenho se crê livre, mas, na verdade, é um escravo de si mesmo”.

Nessa perspectiva, a dificuldade em desligar o celular antes de dormir não é apenas um mau hábito, mas uma expressão dessa servidão disfarçada de autonomia. Dormir, descansar e desconectar-se tornam-se atos contraintuitivos em uma cultura que idolatra a produtividade e a visibilidade permanente.

Além disso, o cansaço contemporâneo não é apenas físico. Trata-se, como destaca Han, de uma fadiga existencial: “O cansaço da sociedade do desempenho não é o cansaço da superação, mas da exaustão. Não é um cansaço que liberta, mas que paralisa”.

Esse tipo de esgotamento, agravado pelo uso excessivo de telas, não apenas prejudica a saúde, mas fragiliza a capacidade de atenção, de contemplação e até mesmo de vida comunitária. O sujeito cansado não encontra forças para resistir à lógica que o consome, tornando-se cada vez mais vulnerável ao ciclo de desempenho infinito.

Dessa forma, compreender o alerta da neurociência à luz da filosofia amplia o horizonte da reflexão. O problema não se reduz ao indivíduo que não dorme o suficiente, mas a uma sociedade que converte até o repouso em tempo perdido. O sono, a pausa e o silêncio precisam ser resgatados como espaços de resistência à hiperatividade. Como defende Byung-Chul Han ao afirmar que é apenas um “cansaço contemplativo” pode abrir caminhos para novas formas de vida, diferentes da lógica produtivista que hoje domina: “Um cansaço especial, um cansaço que não é a mera fadiga, mas que possibilita um outro olhar sobre o mundo. Esse cansaço não paralisa, mas libera”.

Assim, repensar a influência das telas no sono não significa apenas educar para hábitos saudáveis, mas também reconfigurar culturalmente a noção de descanso. Desconectar-se, em uma sociedade que exige disponibilidade ilimitada, é um gesto político, uma afirmação da vida contra a máquina da autoexploração.

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