15 Fevereiro 2026
“O neoliberalismo digital não apenas nos adoece; ele corrói as condições afetivas e simbólicas que sustentam a democracia. Sem laços, sem tempo e sem alteridade, o espaço público deixa de ser arena de deliberação e vira ringue de ressentimentos.”, escreve Chico Cavalcante, jornalista, escritor e consultor político, em artigo publicado por Revista Fórum, 08-02-2026.
Eis o artigo.
Nascido na Coreia do Sul em 1959 e radicado na Alemanha, Byung-Chul Han se tornou um dos intérpretes mais contundentes do nosso tempo. Seu percurso tem algo de parábola: para seguir a vocação filosófica, contou aos pais que estudaria metalurgia. O detalhe biográfico, porém, é menos folclórico do que parece — ele já anuncia uma época em que até a vida interior precisa se justificar em linguagem útil, técnica, “produtiva”. Entre aplausos e irritações tanto à esquerda quanto à direita, Han ganhou centralidade ao nomear aquilo que muita gente sente sem conseguir articular: a exaustão como forma de governo.
Seu pensamento ilumina um paradoxo do século XXI: como uma sociedade que se autoproclama livre, conectada e informada pode regredir a fantasias autoritárias, xenófobas e violentas. O diagnóstico é duro, mas necessário. O neoliberalismo digital não apenas nos adoece; ele corrói as condições afetivas e simbólicas que sustentam a democracia. Sem laços, sem tempo e sem alteridade, o espaço público deixa de ser arena de deliberação e vira ringue de ressentimentos.
O sujeito do desempenho e o desaparecimento do outro
A chave de Han é a passagem da antiga “sociedade disciplinar” para a sociedade do desempenho. Se antes a coerção vinha de fora (o supervisor, a norma, a punição), agora ela se instala por dentro: cada um deve ser “empreendedor de si”. A exploração ganha o rosto sedutor da autonomia. E, quando os padrões irreais de sucesso, beleza e produtividade — amplificados pelas redes — não são alcançados, o fracasso não é lido como sintoma estrutural, mas como culpa íntima. Não se acusa o sistema; acusa-se a própria insuficiência.
Daí emerge uma população deprimida, isolada, ansiosa. E o cansaço tem efeitos políticos: ele reduz a capacidade de escuta e empatia. Amar e fazer política exigem a presença do outro como outro — não como vitrine, produto ou adversário a esmagar. Só que a cultura digital tende a transformar o diferente em ruído e o semelhante em espelho. Sem alteridade, o debate público vira uma sucessão de colisões narcísicas.
Há quem critique Han por supostamente deslocar a exploração do capitalismo para o indivíduo, como se tudo fosse “psicológico”. Essa objeção é insuficiente. Quando ele fala em autoexploração, não absolve o capital; descreve sua forma mais eficiente: aquela que nos faz participar da própria servidão, com entusiasmo e culpa. E o neoliberalismo, afinal, é precisamente isso: a radicalização do capitalismo até penetrar a subjetividade.
É errado ver em Han um defensor da exploração capitalista, posto que parte da sua obra se insurge abertamente contra o sistema de exploração vigente. Ao descrever o debate com Antonio Negri, afirmou que naquela ocasião ocorreu “um embate entre duas críticas do capitalismo”.
Do mesmo modo que é incorreto ver em Han um defensor do capitalismo, é inegável que o filósofo não é um revolucionário. Para ele a revolução não é mais possível, porque não existe nenhuma multidão cooperativa, interconectada, capaz de se transformar em uma massa revolucionária global. Pelo contrário, “a solidão do autoempregado isolado, separado, constituiu o modo de produção presente” e impossibilita a constituição do proletariado como “classe para si”, ou seja, potencialmente revolucionário.
Engajamento, medo e enxames
A psicopolítica — isto é, o uso de dados para prever e influenciar condutas — substituiu os velhos modelos de controle. Nesse contexto, algoritmos não recompensam verdade; recompensam atenção. E pouca coisa captura atenção como a indignação, o medo e o escândalo. Nesse moto-contínuo, o medo é o motor, a tecnologia é o acelerador.
O ambiente é, todo ele, o caldo de cultura onde proliferam os “enxames digitais”: agregados barulhentos, instantâneos, sem projeto comum, mais próximos do ruído do que de uma voz coletiva. Eles se expressam em ondas de linchamento reputacional, cuja função é intimidar, silenciar, impor custo social ao dissenso. A extrema-direita entendeu cedo essa arquitetura: simplificações agressivas para problemas complexos, inimigos facilmente identificáveis (imigrantes, minorias, universidades, imprensa, “o sistema”), e uma catarse que devolve ao sujeito exausto uma sensação ilusória de potência e pertencimento. A política vira descarga emocional.
Quando a visibilidade vira grilhão
A obsessão contemporânea pela transparência — a exposição contínua do eu — destrói a fronteira entre público e privado, diz Han. Onde tudo se mostra, nada amadurece. Pensar exige silêncio, tempo, ambivalência; mas a economia da atenção devora exatamente esses recursos.
O resultado é uma vigilância horizontal: não é apenas o Estado que observa; nós nos observamos, nos julgamos, nos punimos. Um ambiente assim favorece o desejo por “ordem”, por figuras fortes que prometem segurança em troca de liberdade. A promessa autoritária se alimenta da vulnerabilidade produzida pela própria tirania da visibilidade.
A violência do igual e a nostalgia identitária
Ao dissolver diferenças em mercadorias intercambiáveis, o neoliberalismo promove uma uniformização paradoxal: tudo parece plural, mas tudo tende ao mesmo formato — consumível, calculável, performático. Han chama isso de “expulsão do outro”. Só que seres humanos não vivem apenas de circulação; precisam de pertencimento, de sentido, de limites.
Quando a globalização mercantil parece apagar contornos culturais e comunitários, cresce a reação. A extrema-direita ocupa esse vazio oferecendo identidades rígidas, nacionalismos ressentidos e tradições convertidas em arma. A violência, aí, é tentativa desesperada de reinstalar fronteiras num mundo percebido como sem forma.
O comum: derrota definitiva ou tarefa política?
Aqui Han diverge de outro filósofo, o italiano Antonio Negri, para quem o “comum” — linguagem, afetos, conhecimento partilhado — ainda é a potência capaz de promover a emancipação. Han suspeita desse otimismo: sem alteridade, sem encontro real, não haveria multidão cooperativa, apenas conexões superficiais e bolhas de iguais curadas por algoritmos.
Mas tomar essa impossibilidade como destino seria capitular ao capital. A democracia não é um estado de espírito; é uma prática cansativa: mobilizar, ouvir, negociar, suportar o peso da diferença. Justamente por isso, o cansaço crônico do cotidiano neoliberal — somado à fragmentação digital — abre caminho à polarização e ao autoritarismo. O sujeito do desempenho, solitário, vira presa fácil de discursos que oferecem ódio como remédio para a impotência e salvação como mercadoria.
A ascensão autoritária, então, não é acidente: é subproduto lógico de uma sociedade que premia o “curtir” em vez do compreender, a produtividade em vez da humanidade. Ainda assim, reduzir tudo à derrota seria outro tipo de conforto — o conforto do niilismo elegante. O “sujeito do desempenho” não é a última palavra: é uma forma histórica, e formas históricas podem ser enfrentadas.
O comum não morreu; ele foi cercado. A questão, portanto, não é abandonar o mundo para preservar a pureza do eu, mas disputar as condições materiais e simbólicas do encontro: reconstruir instituições, revalorizar o tempo não produtivo, mobilizar por direitos e recolocar o outro no centro da vida pública. Se a era digital fabrica enxames, a política — quando merece esse nome — deve voltar a produzir multidão: não como uniformidade, mas como convivência conflitiva e solidária. Tomar o mundo nas mãos, hoje, é reaprender a olhar para além do próprio espelho.
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