Juventude, vida digital e o cansaço de um tempo acelerado. Artigo de Robson Ribeiro

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11 Fevereiro 2026

"Para a juventude, isso significa redescobrir que a vida não se reduz àquilo que aparece na tela, e que o sentido não nasce da velocidade, mas da profundidade dos encontros e da capacidade de permanecer, refletir e cuidar", escreve Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e professor, formado em História, Filosofia e Teologia, áreas nas quais trabalha como professor em Juiz de Fora (MG).

Eis o artigo.

A juventude de hoje habita um tempo comprimido, no qual tudo acontece rápido demais para ser plenamente vivido. A vida digital não apenas reorganizou a comunicação, mas redefiniu o modo como o tempo é experimentado, como as relações são construídas e como o sentido da própria existência é percebido. Não se trata apenas de uma geração conectada, mas de sujeitos constantemente expostos à exigência de presença, resposta e desempenho. Nesse cenário, cresce um cansaço que não é apenas físico, mas existencial: o cansaço de quem nunca pode parar, de quem precisa estar disponível, visível e produtivo o tempo todo.

É precisamente essa condição que o Papa Leão XIV tocou com lucidez ao encontrar os jovens em Roma. Sua fala não partiu de uma condenação da tecnologia, mas de uma leitura profundamente humana do nosso tempo. O Papa reconhece que nunca estivemos tão conectados e, paradoxalmente, nunca tão sós. Ao alertar para o risco de uma “vida de links sem relação e de curtidas sem afeto”, ele nomeia uma das feridas centrais da juventude contemporânea: a substituição do encontro real por interações rápidas, mensuráveis e emocionalmente frágeis. A promessa de proximidade oferecida pelo digital, quando absolutizada, revela-se incapaz de sustentar vínculos duradouros e significativos.

Essa análise converge diretamente com aquilo que você vem desenvolvendo ao tratar da aceleração social e da sociedade do cansaço. A lógica digital intensifica a pressão por desempenho contínuo: o jovem não é mais apenas alguém que aprende, amadurece e erra, mas alguém que precisa se autopromover, se comparar e se reinventar constantemente. A aceleração não permite maturação; exige respostas imediatas. Como consequência, cresce uma fadiga silenciosa, marcada pela ansiedade, pela dificuldade de concentração e por um esvaziamento do sentido de futuro.

O Papa Leão XIV insiste que fomos feitos para a verdade, para o bem e para relações que não se esgotam no superficial. Essa afirmação é profundamente contracultural em um mundo orientado por métricas, visibilidade e performance. Ela recoloca o ser humano no centro, não como produtor de resultados ou consumidor de experiências, mas como alguém chamado ao encontro, à escuta e à comunhão. Ao afirmar que as relações virtuais, quando isoladas do contato real, decepcionam, o Papa não rejeita a tecnologia, mas denuncia sua absolutização como substituta da presença.

Há, nesse ponto, uma crítica implícita à sociedade do cansaço: quando tudo depende do esforço individual, da autoexploração e da exposição constante, o sujeito se esgota. O descanso deixa de ser direito e passa a ser culpa. O silêncio é visto como improdutivo. A interioridade, como perda de tempo. Contra essa lógica, a fala do Papa recupera a necessidade de desaceleração interior, de tempo qualitativo e de vínculos que não se medem pela utilidade ou pela visibilidade, mas pela capacidade de gerar sentido e pertencimento.

A juventude, portanto, não precisa de mais estímulos, mas de espaços de respiração. Não precisa apenas de orientação técnica, mas de testemunhos que mostrem que é possível viver de outro modo. Quando o Papa fala da importância da memória, da oração e da compaixão, ele aponta para uma resistência silenciosa à aceleração: cultivar o interior, reconhecer a própria fragilidade e reaprender a estar com o outro sem pressa. Isso não é fuga do mundo, mas uma forma de habitar o mundo com maior densidade humana.

Em síntese, a mensagem de Leão XIV aos jovens ilumina com força o diagnóstico contemporâneo: a sociedade acelerada produz sujeitos cansados, e a vida digital, quando absolutizada, empobrece as relações. O desafio que se coloca não é abandonar a tecnologia, mas resgatar a centralidade do humano. Para a juventude, isso significa redescobrir que a vida não se reduz àquilo que aparece na tela, e que o sentido não nasce da velocidade, mas da profundidade dos encontros e da capacidade de permanecer, refletir e cuidar.

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