Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

Luiz Inácio Lula da Silva | Foto: Foto: Ricardo Stuckert/PR/Flickr

29 Abril 2026

Ao final de 2025, após uma arrancada surpreendente, o quarto mandato parecia ao alcance da mão. Um velho cacoete – a busca eterna de conciliação entre desiguais – pode pôr tudo a perder. Análise de uma eleição decisiva, a cinco meses das urnas.

O artigo é de Antonio Martins, editor de Outras Palavras, publicado por Outras Palavras, 28-04-2026.

Eis o artigo.

O homem à minha frente, no caixa de supermercado, aceita constrangido que a funcionária tire da balança quase a metade dos tomates que pretendia levar. Ficam os que pode pagar com a cédula rosada que traz em suas mãos. Feita a transação, ele exibe à fila o pacote minguado que restou e exclama, entre lamento e revolta: “Seis tomates por dez reais!”.

Dezenas de milhões de brasileiros viveram sufoco semelhante nas últimas semanas – e é provável que o drama persista. A agressão de Trump ao Irã provocou, numa economia mundial já em desarranjo, um novo surto de tremores financeiros, ruptura das cadeias produtivas (em especial de petróleo, gás e fertilizantes) e inflação, particularmente de alimentos. Em março, os preços dispararam no Brasil. Em algumas regiões, a cesta básica subiu 7,12% em 30 dias, chegando próxima ao patamar recorde de abril de 2025.

O impacto eleitoral da alta é evidente. Num governo que não ousou reformas estruturais, e colocou em si mesmo a camisa-de-força do “ajuste fiscal”, a popularidade depende de melhoras no padrão de vida e de consumo (a proverbial “picanha com cerveja”). Se não for detida, a alta da comida corroerá rapidamente a pequena elevação dos salários e os ganhos obtidos por parte dos trabalhadores com a isenção do Imposto de Renda. Mas os ordenados sobem uma vez por ano e o benefício fiscal ocorre uma vez na vida. Já o espinho da carestia espeta todos os dias. Além disso, há 74 milhões de inadimplentes (45% da população adulta) e os juros consomem 29,3% da renda das famílias. A fila na concessão de aposentadorias ultrapassou 3 milhões de prejudicados e o repasse básico do Bolsa-Família está congelado em R$ 600 há mais de três anos.

A pouco mais de cinco meses do pleito, Lula parece estar numa enrascada. O plano de assegurar o quarto mandato sem estabelecer choque de projetos, confiando apenas no impulso de aprovação pós-junho de 2025, vacila. Flávio Bolsonaro avança. O governo ainda tem em mãos trunfos poderosos, como a luta contra a jornada 6×1, uma possível (porém ainda desconhecida) salvação dos endividados e a campanha pela tarifa zero nos transportes públicos. Mas não está sendo capaz de costurá-los num discurso claro e mobilizador. Ainda poderá fazê-lo?

I. Das cordas ao contra-ataque
É possível reverter uma derrocada?

Para compreender o contrapé de Lula e os possíveis caminhos para revertê-lo é útil examinar, abaixo, o gráfico de aprovação do presidente – em especial, as duas reviravoltas notáveis verificadas num curto período de seis meses. Os dados são da pesquisa Genial/Quaest. Lula3 atinge o ápice da popularidade por volta de setembro de 2023, ao final do intervalo 1. Nove meses depois de iniciar seu mandato, ele havia sido capaz até mesmo de dissipar, em parte, a polarização áspera que marca a política institucional brasileira desde a segunda eleição de Dilma, em 2014. É possível que o desgaste da ultradireita após o golpe de 8 de janeiro tenha contribuído. Seja como for, Lula tinha 60% de aprovação contra 25% de rejeição, uma margem folgada de 35 pontos positivos. Para comparação, Donald Trump tinha, à mesma altura de seu atual período, 16 e o alemão Friedrich Merz tem hoje, 69.

Gráfico da aprovação do governo Lula (Fonte: Genial/Quaest).

Segue-se, porém, um período de corrosão lenta e constante do apoio ao presidente, que se prolonga por 21 meses. Ocorre por etapas. Lula desgasta-se primeiro entre os homens, os brancos, as faixas de maior renda, os sulistas e sudestinos. Mas a desilusão é contínua. Por volta de maio de 2025, está em minoria entre as mulheres, os negros e em todas as faixas de renda – exceto a dos que ganham até 1 salário mínimo. Das regiões, só o Nordeste ainda o apoia majoritariamente. A conclusão é óbvia. A frustração com o descumprimento das promessas de mudança vai se espalhando em ondas, até chegar ao coração do lulismo. Mas deve-se considerar um fator adicional, que pode estar se repetindo agora. Entre outubro de 2024 e maio de 2025, há um surto inflacionário. A cesta básica dispara: 12,8% em São Paulo, segundo o Dieese. A partir de janeiro de 2025, o apoio ao presidente entra em território negativo e cai com maior velocidade. Chega a – 17 pontos em maio – mês que fecha, no gráfico, o intervalo 2.

Mas a partir de junho ocorre a primeira reviravolta, que impressiona pela rapidez com que se desenrola. Em 25/6, sem apoio também no Congresso, o presidente é emparedado pelo Centrão, que questiona até mesmo seu direito legal a alterar as alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Lula reage, aceita o confronto e parte para a ofensiva. O mote é a injustiça fiscal. Confrontado no campo tributário, o presidente denuncia as leis que praticamente isentam os mais ricos de pagar impostos. Uma campanha vibrante de memes, que viraliza e forma uma rede espontânea de criadores e difusores em todo o país, acrescenta novo elemento à disputa: aponta a cumplicidade do Legislativo com a mamata. Na avenida aberta por sua investida, o governo pressiona pelo Projeto de Lei 1087/25, que isenta de IR as rendas até R$ 5 mil e estabelece alguma tributação sobre os mais ricos.

Em julho, a escalada prossegue. O Brasil é confrontado por um “tarifaço” de Trump, que tenta impor sobretaxa aduaneira de 50% sobre as exportações nacionais, Lula não recua, ao contrário do que fizeram dirigentes de países e blocos mais poderosos – União Europeia, Japão e Coreia, por exemplo. Aponta “chantagem inaceitável”, recorre à OMC e, mais importante, ameaça retaliar por meio da Lei de Reciprocidade Econômica. Ficam expostos os enormes interesses das “big techs” norte-americanas no país

A contraofensiva se amplia em 21 de setembro. Um passo em falso do Centrão, que tenta aprovar a “PEC da Blindagem”, leva multidões às ruas, em protestos que se espalham pelo país. São convocados essencialmente por movimentos sociais (com alguma participação dos partidos de esquerda). Abrem a perspectiva de um enfrentamento popular e politizado à ultradireita e às maiorias conservadoras do Congresso. Lula recupera sua popularidade. Já no início de outubro, pouco mais de três meses depois de reagir, explicitar diferenças políticas e aceitar o confronto, o presidente vê a mudança de postura aprovada pela população. O saldo de aprovação sobe dos 17 negativos a neutro, como se vê, em óbvia tendência de alta, como se vê, no gráfico, ao final do intervalo 3. Os setores mais fiéis ao lulismo são os que retornam mais rapidamente, o que amplia as possibilidades de mobilização. Nas sondagens sobre a intenção de voto em 2026, o presidente lidera com ampla folga. Tem doze pontos à frente do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que àquele momento é seu adversário melhor posicionado. A primeira reviravolta político-eleitoral está completa.

II. Ressurge o Conciliador
A ofensiva popular frustrada a meio-caminho

Mas, tal como ocorreu desde 2003, os planos de Lula não incluíam um estímulo a mais mobilização social, ou a sustentar o choque de projetos. Todos os gestos do presidente sugerem que ele concebeu, entre outubro e novembro, a estratégia que orienta até aqui sua campanha ao quarto mandato. Significa arrancar pequenos espaços fiscais, recusando-se, ao mesmo tempo, a questionar a “austeridade” e a destinação prioritária do dinheiro público aos rentistas. O Estado brasileiro continuará pagando R$ 1 trilhão ao ano (3,5 vezes o orçamento do SUS) ao 0,1% que se beneficia com a maior taxa de juros do planeta. O país permanecerá regredido. Mas o recuo do Centrão rendeu ao governo algum espaço. Além de abandonar a PEC da Blindagem, o Congresso aprovou medidas que representaram um pequeno alívio no Orçamento de 2026. O presidente pensa que contará, no ano eleitoral, com “programas sociais” como o “Vale-gás”, o “-de-meia” e algum reforço ao “Minha Casa, Minha Vida”.

Satisfeito, Lula prepara um acomodamento. No plano interno, as tensões com o Centrão são esquecidas pouco a pouco. Na primeira semana de novembro, Câmara e Senado aprovam, ambos por unanimidade, o projeto que altera o Imposto de Renda. Pouco mais de uma semana antes, o presidente havia se encontrado com Trump na Malásia. Obtivera a promessa de revisão do “tarifaço” contra o Brasil. Em contrapartida, imaginara o fim das tensões entre os dois países: “O Brasil tem interesse de ter uma relação extraordinária com os Estados Unidos. Não há nenhuma razão para qualquer desavença entre Brasil e Estados Unidos”, dissera.

O breve tempo de luta havia se encerrado com vitória. Era hora de assumir de novo o figurino do Lula conciliador, o que governa para todos. A reeleição viria naturalmente – não a partir da disputa de visões de país e de projetos de futuro, mas de uma política de alianças ainda mais ampla. No plano externo, uma relação “normalizada” com a Casa Branca supostamente ajudaria a minar as forças dos Bolsonaro. Neste ponto, o presidente cometeu seu grande engano. Passados cinco meses, não dá mostras de tê-lo compreendido.

Há um claro abismo entre a formação de Lula e as características da política no século XXI. É útil explorá-lo, para entender por que se dá, a partir de novembro de 2025, uma segunda reviravolta na curva de apoio popular ao presidente – desta vez, francamente desfavorável e ele e até o momento não contida.

Examinado a fundo por pensadores como Wolfgang Streek, Chantal Mouffe e Ernesto Laclau, o colapso do antigo centro (não confundir com o Centrão, que expressa a direita fisiológica) é um dos fenômenos cruciais de nossa época. As respostas das elites à crise iniciada em 2008 acirraram como nunca a desigualdade e resultaram em desencanto disseminado com a democracia liberal. Produziram-se mudanças dramáticas e inesperadas. A convergência do eleitorado para posições tidas como “moderadas”, que havia marcado o Ocidente desde o pós-II Guerra, dissipou-se. Abriu-se um vácuo propício a alternativas de sentido oposto.

À direita, emergiu uma vasta constelação de (pós-)fascismos de várias estirpes – as mais recentes, como de Elon Musk, Milei, Bukele e, no Brasil, Renan Santos e o Missão, ultraliberais. Professam, em essência, a descrença na política (e em especial, na redistribuição da riqueza), o salve-se-quem-puder e a revalorização do patriarcado e da branquitude. À esquerda, surgiu um populismo progressista, que já não busca enxergar os conflitos sociais apenas a partir do trabalho e procura constituir novos sujeitos políticos, capazes de enfrentar a radicalização do capital. Sua força política não se compara à da ultradireita, mas sua existência indica a possibilidade de novos caminhos. Expressa-se em Lopez Obrador e Cláudia Sheinbaum (México), Gustavo Petro (Colômbia), Bernie Sanders, Alexandra Ocasio e Zohran Mamdani (EUA). Na África, produz apoio popular aos militares que tomaram o poder pelas armas, com discurso anticolonial.

A trajetória de Lula é, ao contrário, marcada pela busca de convergências entre os desiguais e pelo esforço de evitar ao máximo os conflitos. Esta natureza acompanha-o desde os tempos de sindicalista, como notou há poucas semanas seu biógrafo. “O Lula já era paz e amor antes de isso virar slogan (…) Talvez tenha emergido [na presidência] um personagem que já era. O Lula já era um negociador, um homem capaz de fazer conciliações”, disse Fernando Moraes a Carta Capital, no início de abril. Partindo desta perspectiva, é provável que ele não tenha compreendido a necessidade de manter a denúncia do parasitismo das elites e a disputa com o Centrão, após os primeiros êxitos. Pode ter julgado, ao contrário, que o sucesso se deu graças a sua inteligência e habilidade políticas incomuns; e que o eterno exercício de alternar acenos à direita e à esquerda poderia ser mantido até o pleito.

Os eleitores não parecem ter pensado da mesma forma. Quando Lula abandonou a tensão com as institucionalidade conservadora, sua recuperação não se sustentou. Um outro fator passou a pesar: o desgaste a que estão submetidos os governos, em tempos de crise. Há governantes que denunciam as elites e a desigualdade (como Gustavo Petro), ou que se comunicam permanentemente com o país, para ditar a pauta política (como Cláudia Sheinbaum). Ambos constroem vínculos de solidariedade. Mas os que não agem, quando as condições de vida se deterioram, correm o risco de ser vistos como cúmplices das circunstâncias que infernizam o cotidiano das maiorias. A carestia aprofunda esta erosão. O que pensará de Lula o trabalhador humilhado por deixar seus tomates no caixa do supermercado? Ou o que deixa quase um terço de sua renda minguada com os bancos? Que ressentimentos serão disparados pelo gatilho da frustração?

Ente outubro e dezembro de 2025, o saldo da aprovação de Lula manteve-se neutro. A partir de então, cai com velocidade semelhante à da alta anterior. Em meados de abril, bateu em – 9, com viés claro de baixa. Nesse cenário, Flávio Bolsonaro deu-se ao luxo de “jogar parado”. O filho mais frágil e vulnerável do ex-capitão não se preocupa em criar fatos novos. Aposta no desgaste contínuo do presidente e na possibilidade de captar, em meio à polarização, os votos dos que se desencantam com Lula.

III. De como se perdem oportunidades
Em 2023, o governo vestiu camisa-de-força. Agora sentem-se os efeitos

O mais preocupante é que, perdida a dinâmica do confronto com as injustiças, o governo parece incapaz de lançar uma ação coordenada, que projete à maioria dos brasileiros um futuro melhor. Sem orientação clara da presidência, os ministros adequam as prioridades do Palácio do Planalto a seus próprios interesses e relações com o mundo privado e a política institucional.

Lula prometeu medidas de alívio ao hiperendividamento da população, provocado por taxas de juros indecentes. Em 2/4, o ministro Dario Durigan, que substitui Haddad na Fazenda, prometeu um programa “em dez dias”. Em 27/4, seguia em longas negociações com a Febraban. Num claro desvirtuamento da ideia original, aventava a hipótese de “liberar” os endividados a queimar seus depósitos no FGTS, para satisfazer o apetite dos banqueiros. Se a fórmula prosperasse, equivaleria a desfinanciar o BNDES e a quebrar a poupança dos assalariados para alimentar a fornalha dos rentistas – sem obrigá-los a rever a agiotagem e os abusos.

Na luta contra a escala 6×1, que assumiu tardiamente, o governo está às voltas com dois percalços. Como mostrou o sociólogo Rudá Ricci, a campanha – que começou em ação espontânea de Rick Azevedo do movimento Vida Além do Trabalho (VAT) e da deputa Érika Hilton, repercutiu rapidamente e poderia ter enorme efeito mobilizador. Mas assumiu, depois de encampada pelo Planalto, ares de chapa branca. Despreza o apelo à mobilização social. Pode terminar identificada (e nesse caso, neutralizada) como mera bandeira eleitoral.

Além disso, o governo está no momento impedido de assumir seu protagonismo no próprio plano institucional, devido a hesitações. O ministro Guilherme Boulos insistiu, por muito tempo, que Lula enviasse um projeto próprio ao Congresso, reduzindo a jornada de trabalho. Estava claro que o Centrão, aliado às confederações empresariais, protelava a tramitação de proposta de emenda constitucional (PEC) sobre o tema, postergando-a ao máximo – se possível, até depois das eleições. As alas institucionalistas do governo, porém, adiaram a decisão, buscando acordo com o presidente da Câmara, Hugo Motta, Em 14/4, quando o projeto do governo foi finalmente apresentado, Motta já havia levado a PEC a um ponto em que ela passará a concentrar as atenções do noticiário político, escanteando e obscurecendo a iniciativa governamental.

Em 28/4, não há também sinais de redução da fila das aposentadorias, porque o “arcabouço” de Fernando Haddad continua retendo os parcos recursos necessários a contratar mais servidores e honrar as obrigações do Estado junto aos trabalhadores. O governo também parecia ter desistido de apresentar a tarifa zero com proposta legislativa em 2025. Até mesmo os R$ 20 bilhões que reforçariam o Minha Casa Minha vida foram liberados apenas em 15/4, tarde demais para produzir efeito eleitoral relevante. O subprograma volta à reforma de residências saiu com intermediação dos bancos privados, e juros tão abusivos (1,99% ao mês, ou 26,7% ao ano) que, em meio aos baixos salários e à carestia, menos de 10% dos recursos disponíveis foram solicitados.

A mesma aversão à disputa repete-se na arena externa. Aqui, as oportunidades político-eleitorais desperdiçadas são tão óbvias que sugerem um Lula, de algum modo, alheio aos fatos. Estão em pauta as terras raras e os minerais críticos, essenciais às tecnologias do século 21. O Brasil tem a segunda maior reserva do planeta. A US Rare Earth avança sobre ela, adquirindo a Serra Verde, única mina brasileira em atividade. Dois expoentes da ultradireita – Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado – assumem [1 2] posição claramente entreguista.

O governo tem um cardápio de alternativas à mão; das mais políticas e ousadas (estabelecer por Medida Provisória a Terrabrás e propor por lei o monopólio estatal) às mobilizadoras (expor, com a capacidade comunicativa de Lula, a importância da riqueza e os riscos de sua perda) e às meramente defensivas (questionar judicialmente a operação). Bem ao contrário de sua reação altiva ao “tarifaço”, há poucos meses, Lula opta agora pelo silêncio. E o governo adota a conivência: nem criar a estatal, nem judicializar, “para manter comunicação de alto nível com a Casa Branca”, segundo teriam dito funcionários graduados à mídia. Em meio a uma disputa acirrada, a ousadia de Flávio e Caiado pode passar impune. Haverá maior sinal da impotência política a que o recuo de outubro-novembro conduz?

IV. Voo em céu de tempestade
Alternativas para cinco meses turbulentos

É possível superar a maré desfavorável? A resposta, evidentemente, é sim! Os contrapés do goleiro e do político igualam-se no desenho, mas diferem no tempo. No futebol, o atleta calcula mal a trajetória do chute e escolhe o pé de apoio errado, para constatar tarde demais o engano e assistir em desconsolo à impossibilidade de correção e defesa. A agonia dura as frações de segundo do deslocamento da bola. Na política, em especial nos dias acelerados e na memória curta era digital, os erros se esquecem rápido e as recuperações improváveis são possíveis. Exercendo o governo, e prestes a uma derrota certa nas eleições parlamentares de abril de 2025, o Partido Liberal do Canadá inverteu o resultado em três meses, entre janeiro e abril de 2024. Embora de centro-direita, Mark Carney, seu líder, soube denunciar a submissão do Partido Conservador (seu adversário) à Casa Branca, que também ameaçava o país com um tarifaço. Em poucas semanas, uma desvantagem de 25 pontos (20% x 45%) converteu-se numa liderança estreita porém vitoriosa (43,7% x 41,3%). Mesmo em viés de baixa, Lula parte de uma posição muito menos desconfortável que a de Mark Carney.

Falta corrigir os rumos, rápido. Mas qual o escopo de uma possível nova virada?

Não se deve esperar do presidente que, aos 80 anos, lidere a reconstrução do Brasil em novas bases – pós-capitalistas e decoloniais. Esta é uma trama histórica, a ser tecida no médio e longo prazos (embora precise começar já). Vai requerer reconexão com as bases populares, consciência política, formulação teórica, mobilização social e mesmo alianças internacionais inéditas. Não pode depender de um só homem – menos ainda de quem jamais abandonou a lógica sindicalista que leva a lutar por um quinhão maior da riqueza produzida, e não por um novo modo de produzir.

O que se espera de Lula (e o que só ele pode oferecer, a pouco mais de cinco meses das eleições) são ações e narrativas que permitam à maioria dos brasileiros compreender o que se passa à sua volta num mundo em transe – sem sucumbir, em desespero, ao ressentimento e à rejeição da política. Há caminhos claros e viáveis para isso, que talvez possa ser resumido em quatro pontos.

A luta contra a Escala 6×1 precisa ser resgatada das mãos traiçoeiras de Hugo Motta e do Centrão. Há uma fórmula certeira para isso. O núcleo da batalha deve ser deslocado do Parlamento para as ruas e locais de trabalho. Instrumentos simples, que fazem parte há muito do repertório dos movimentos sociais, podem ser úteis novamente – turbinados, agora, pela comunicação em rede. Imagine, como ferramenta básica, um abaixo-assinado difundido em todo o país, dirigido ao Parlamento, reivindicando a aprovação, anterior às eleições, da redução da jornada e do direito a dois dias de descanso semanal. Imagine também oferecer, a milhões de brasileiros que se sentem oprimidos pela 6×1, a oportunidade de criar um comitê em sua seção de fábrica, loja ou escritório; coletar assinaturas; gravar vídeos ou postar textos relatando experiências pessoais e coletivas relacionadas à campanha; vê-los compartilhados e comentados. Imagine, por fim que, uma vez por mês, estes comitês articulem-se em cada cidade, em manifestações públicas. Ao abraçar – com recursos infinitamente menores – esta bandeira, Rick Azevedo passou do anonimato absoluto a um dos vereadores mais votados do Rio. Por que seria impossível alcançar agora dimensão nacional?

Livrar os brasileiros do hiper-endividamento não pode, por motivos escancaradamente óbvios, ser uma agenda subordinada a um acerto com a Febraban. A federação dos banqueiros representa o núcleo do problema, não a solução. Enquanto insistir nessa grotesca “parceria”, a ação do governo resultará em medidas tímidas, precárias e fugazes – quando não contraproducentes, como a transferência dos saldos de FGTS para os credores. A aposta errada do acordo com os rentistas foi feita no programa Desenrola, de 2023, apenas para que as dívidas saltassem a novo patamar, três anos depois. A alternativa óbvia, por produzir resultados e consciência, é acionar os bancos públicos (BB e Caixa, especialmente), permitindo-lhes assumir os créditos das instituições privadas, oferecer descontos e reduzir drasticamente as taxas. Colocará a agiotagem em xeque e significará um desafio a um setor muito poderoso – mas como governar sem correr riscos? Revelará pedagogicamente, a captura da riqueza social pelo rentismo e a possibilidade real de revertê-la. Do ponto de vista prático e imediato, reduzirá a parcela da renda das famílias sequestrada pelo pagamento dos juros e as colocará diante de um presidente que age para aliviar seus dramas.

É possível enfrentar a carestia questionando e começando a reverter o desmonte e a captura da Petrobras pelos grandes fundos internacionais. Os preços estão sendo pressionados, essencialmente, por dois itens: combustíveis e fertilizantes. No primeiro caso, os subsídios podem ser medida emergencial válida. Mas a recriação, mesmo que muito embrionária, de uma rede de postos de abastecimento estatal evidenciará os lucros extorsivos que as redes privadas obtêm, quando compram barato da Petrobras e vendem com margens de oligopólio. Permitirá falar em reestatização da BR Distribuidora. Pense no efeito de um pequeno número de postos por capital, vendendo combustíveis a preços substancialmente inferiores aos demais.

No segundo, abre-se a brecha para abordar dois temas cruciais: por um lado, o desmonte do setor de fertilizantes da Petrobras, e a dependência dos produtos importados, que se estabeleceu num setor essencial. Por outro, os potenciais de agroecologia, e do uso de adubos orgânicos. Também aqui, a eventual concessão de benefícios fiscais, para minorar o sofrimento atual, precisa ser acompanhada de ações sinalizadoras de que não se trata de “enxugar gelo”, mas construir um futuro mais justo e seguro.

A fila na concessão de aposentadorias, quase duas vezes maior que no fim do governo Bolsonaro, não é apenas uma brecha gigantesca nas pretensões eleitorais de Lula. É também um emblema das injustiças sociais produzidas pelo “arcabouço fiscal” e dos constrangimentos absurdos a que o governo se submeteu, sem que isso resultasse em benefício algum. O presidente tem meios para zerá-la nos próximos meses. Se necessário, pode, para cumprir a meta legal de “resultado primário” no Orçamento, propor ao Congresso que as despesas correspondentes sejam excluídas do arcabouço – como se já se fez, em novembro de 2025, para destinar R$ 30 bilhões ao reequipamento das Forças Armadas. Ainda que não se reverta, por enquanto, uma política de “austeridade” anacrônica e concentradora de renda ao extremo, o gesto sinalizará que gastos públicos essenciais não podem continuar submetidos à lógica do rentismo.

Se as eleições são normalmente complexas e imprevisíveis, em 2026 estas características serão mais agudas. As últimas pesquisas, divulgadas em 28/4, mantêm empate técnico, no segundo turno, entre Lula e Flávio Bolsonaro. A rejeição muito alta dos dois candidatos permite que outros – como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e até Ciro Gomes – mantenham esperanças.

Há, mais do que isso, fatores imponderáveis. Que rumos tomará a agressão dos EUA ao Irã? Os EUA, cujo poder bélico descomunal vê-se em apuros diante de um adversário muito menor, tentarão a invasão terrestre? Até quanto irão os preços do barril de petróleo, que se mantêm em torno de 100 dólares (mais de 50% acima do patamar pré-ataque), e podem subir? O Brasil seguirá com acesso reduzido aos fertilizantes? De que forma tudo isso pesará sobre a carestia e os tomates na balança?

Qual será a estratégia das big techs norte-americanas, que são atores centrais no espaço público brasileiro, têm ligações notórias e assumidas com a ultradireita global e sabotam abertamente as tentativas de regulação do Estado brasileiro? O bolsonarismo, que tem importante capacidade de mobilização popular e histórico de intentonas golpistas, tentará repeti-las? Como reagirão as Forças Armadas?

Diante de tantas eventualidades possíveis e potencialmente desestabilizadoras, a esquerda permanecerá desarmada politicamente? Confiará apenas na manutenção da normalidade e nos instrumentos “de mercado”? Em que momento lançará mão de seus trunfos históricos: a consciência popular e o poder de lançar, a partir do governo, ações que alteram o status quo e mobilizam as maiorias?

Os próximos cinco meses serão um voo em meio tempestade, contra inimigos ardilosos e com poder. O piloto, e os que esperam sua vitória, precisam conhecer as armas de que dispõem – e estar prontos a empregá-las.

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