Como a guerra no Irã está afetando as principais economias da América Latina

Foto: L'Odyssée Belle/Unsplash

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04 Março 2026

A região está analisando com cautela a situação no Oriente Médio, especialmente devido aos riscos de aumento da inflação e consequente deterioração da taxa de câmbio.

A reportagem é publicada por El País, 04-03-2026.

As principais economias da América Latina observam com cautela como serão afetadas pela guerra no Irã e pelas consequências da alta dos preços do petróleo e do gás. Países produtores de petróleo, como a Venezuela, podem se beneficiar da situação, enquanto outros, como o México, possuem mecanismos de compensação para evitar que o aumento dos preços impacte os consumidores. No entanto, o risco de inflação e sua consequência — a desvalorização das moedas locais em relação ao dólar — representam os principais desafios.

Venezuela e o antigo aliado iraniano

Durante o regime chavista, o Irã consolidou sua posição como um dos aliados mais próximos da Venezuela, empreendendo projetos agrícolas e industriais que, em última análise, fracassaram devido à ineficiência e à corrupção. Mais recentemente, Teerã desempenhou um papel fundamental no fornecimento de combustíveis refinados em meio às sanções internacionais e ao colapso operacional da PDVSA, quando filas intermináveis ​​em postos de gasolina se tornaram uma realidade diária na Venezuela. O Irã também começou a usar uma frota de navios "fantasmas" para transportar petróleo bruto venezuelano e burlar as restrições.

Após a intervenção militar dos EUA em 3 de janeiro, o cenário geopolítico da Venezuela foi remodelado. Durante o fim de semana dos ataques no Oriente Médio, o Ministério das Relações Exteriores emitiu um comunicado "lamentando" o ataque contra o Irã, sem nomear os responsáveis, e condenando a resposta do país atacado. A mensagem foi apagada horas depois.

Desde então, o principal aliado do Irã na América Latina tem mantido um perfil discreto em relação a um conflito que, como produtor de petróleo, poderia beneficiá-lo devido à alta dos preços do petróleo bruto. Somente nesta terça-feira a presidente interina Delcy Rodríguez fez uma alusão tangencial ao assunto ao relatar uma conversa telefônica com o emir do Catar, Tamim bin Hamad Al Thani. "Transmiti nossa solidariedade diante da grave situação de instabilidade e violência que eclodiu no Oriente Médio, a qual colocou toda a região à beira de uma perigosa escalada de guerra", afirmou.

O governo interino, agora sob a tutela de Washington, enfrenta um dilema diante da nova escalada instigada por Donald Trump. A operação que culminou na captura de Nicolás Maduro e sua transferência para uma prisão em Nova York levou ao escrutínio direto da Casa Branca sobre as atividades petrolíferas venezuelanas. Duas semanas atrás, Rodríguez visitou campos de petróleo acompanhado pelo Secretário de Energia dos EUA, Chris Wright. As licenças concedidas por Washington a empresas americanas incluem proibições explícitas de negociações com entidades e indivíduos de países sancionados, incluindo o Irã.

O impacto imediato do conflito no Oriente Médio seria sentido nas receitas. Analistas como Alejandro Grisanti, diretor da Ecoanalítica, alertam que ataques à infraestrutura energética, o bloqueio do Estreito de Ormuz — por onde passa um terço do petróleo bruto mundial — e danos às refinarias pressionariam o abastecimento global. A Venezuela produz atualmente cerca de 1,2 milhão de barris por dia, uma parcela modesta, mas estratégica, no contexto de uma crise energética. Segundo Grisanti, para cada dólar adicional no preço médio do petróleo bruto em 2026, o país receberia cerca de US$ 400 milhões a mais; se o recente aumento de preço continuar, esse valor poderia chegar a cerca de US$ 2,4 bilhões.

O México tenta amenizar o potencial aumento de preços

O México é o quarto maior produtor de petróleo das Américas, com 1,6 milhão de barris por dia. O governo mexicano alterou sua política energética nos últimos anos para fortalecer o mercado interno e incentivar o refino no país. Essa mudança se reflete na queda de 44% nas exportações em janeiro deste ano. O último relatório da Pemex, a petrolífera estatal mexicana, indica que o México não exportou nenhum barril para países do Oriente Médio e concentrou seus embarques na Europa e nas Américas. Além disso, o México importa quase metade da gasolina que consome, principalmente do sul dos Estados Unidos. Os ataques no Irã tornaram o petróleo bruto mexicano vulnerável aos preços do WTI, devido à sua proximidade com o Texas, e do Brent. O petróleo bruto mexicano era cotado a US$ 63,46 por barril na sexta-feira, 27 de fevereiro, e fechou a US$ 66,63 na segunda-feira, em linha com os aumentos das principais referências do mercado. “Não estimamos nenhum impacto para o México, uma vez que o país não depende do petróleo iraniano nem de rotas críticas como o Estreito de Ormuz”, afirmou o Banamex em um relatório.

A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, tranquilizou a população em relação a um possível aumento nos preços da gasolina e do gás natural devido ao aumento das tensões no Golfo Pérsico. Ela lembrou que, durante a guerra na Ucrânia, seu antecessor criou um mecanismo de compensação para ajustar o Imposto Especial sobre Produção e Serviços (IEPS) a fim de mitigar o impacto da alta dos preços dos combustíveis, evitando que os consumidores arcassem com o peso do aumento. “E, no caso de uma queda [nos preços do petróleo e seu impacto na Pemex], temos apólices de seguro que oferecem cobertura”, observou ela na terça-feira. Sheinbaum afirmou que o México não se beneficiará do aumento do preço do petróleo Brent em suas próprias exportações, uma vez que esses aumentos são compensados ​​pelas altas nos preços da gasolina, do querosene de aviação e do gás liquefeito de petróleo (GLP), que ainda são importados.

Argentina, entre exportações favoráveis ​​e o fantasma da inflação

Na Argentina, a alta dos preços do petróleo está tornando as exportações de energia mais lucrativas, e essas exportações estão crescendo no país graças ao aumento da produção em Vaca Muerta, um campo de petróleo não convencional na Patagônia que alimenta o sonho de Javier Milei de transformar o país em uma potência petrolífera. Além disso, o aumento dos preços torna os investimentos no desenvolvimento dessa bacia mais atrativos, já que são necessárias infraestruturas para aumentar a capacidade de extração por meio do fraturamento hidráulico e para transportar a produção.

Segundo Marcelo Elizondo, economista especializado em comércio internacional, o conflito armado também pode pressionar os preços dos produtos agrícolas, outro setor de forte exportação da Argentina, que representa cerca de 60% do total das exportações. O aumento do custo dos fertilizantes — a região iraniana produz 15% da ureia mundial — e o maior custo do combustível para máquinas agrícolas, além do aumento dos custos de frete para o transporte internacional de grãos, são fatores que exercerão pressão sobre os preços.

Mas nem todo o impacto será positivo. O aumento desses bens básicos pode ser repassado aos preços internos em um país extremamente sensível à inflação. Isso poderia complicar ainda mais o projeto de Milei de estabilizar a situação que a Argentina vem enfrentando há décadas e que levou a aumentos violentos de preços, como a alta anual de 210% em 2023. "Há forças conflitantes em jogo, mas parece haver mais fatores a favor da economia argentina, embora uma crise nunca seja uma boa notícia", destaca Elizondo.

A instabilidade global é frequentemente um motivo para que investidores migrem de mercados emergentes para mercados mais seguros, o que pode afetar o mercado cambial local e impulsionar a valorização do dólar devido à saída de investidores estrangeiros. "Países com baixas reservas cambiais, como Argentina, Sri Lanka, Paquistão e Turquia, enfrentam maiores riscos de saídas repentinas de capital e depreciação cambial", afirmou um relatório global do Citibank.

Brasil, de olho no campo

Para o Brasil, o momento exige cautela, pois o país pode enfrentar duas consequências opostas. Por um lado, como grande produtor de petróleo (cerca de 3,7 milhões de barris por dia), a alta dos preços poderia beneficiar o setor e posicionar o Brasil como um fornecedor estratégico fora da zona de conflito. As ações da Petrobras, estatal petrolífera, subiram acentuadamente na manhã de segunda-feira. Com o aumento da receita no setor energético, o governo também deverá registrar um aumento na arrecadação de impostos.

No entanto, especialistas estimam que o aumento dos preços do petróleo no mercado internacional acabará por pressionar os preços dos combustíveis no mercado interno. O transporte no Brasil é feito principalmente por caminhão, portanto, o aumento dos preços do diesel acaba elevando os preços dos alimentos e disseminando a inflação por todos os setores da economia.

Outra área de preocupação para o Brasil é a agricultura. O país se orgulha de ser um dos maiores produtores de alimentos do mundo, mas seu setor agrícola é altamente dependente da importação de fertilizantes, que, por sua vez, dependem do gás natural. Se o conflito impactar significativamente os preços do gás e elevar os custos globais, o Brasil poderá ver seus valiosos insumos agrícolas ficarem mais caros.

Chile e a desvalorização do peso

O Chile possui uma matriz diversificada de importações de petróleo bruto, o que reduz o risco de escassez, levando analistas a pedirem calma. O dólar, por sua vez, reagiu à escalada do conflito com uma forte alta de 14,8 pesos chilenos, atingindo 886,8 pesos (preço de venda) nas primeiras horas. Espera-se um aumento na demanda pelo dólar americano — um ativo considerado porto seguro —, portanto, o peso chileno pode continuar a se desvalorizar nos próximos dias ou semanas.

Colômbia e o risco de pressão cambial

A Colômbia é um caso singular na América Latina: não é uma gigante petrolífera nem uma importadora líquida. Essa posição intermediária significa que as perturbações causadas pela guerra não podem ser interpretadas de uma única maneira, e os efeitos líquidos são particularmente incertos, mesmo que a guerra continue. Por um lado, o país se beneficia em sua balança comercial com um preço mais alto por barril, já que o petróleo bruto representa cerca de 25% de suas exportações. Além disso, cada dólar a mais no preço adiciona cerca de US$ 100 milhões em receita tributária, muito bem-vindos em uma economia cuja principal preocupação é um déficit fiscal crescente. No entanto, por outro lado, o país enfrenta os riscos de pressão cambial. De fato, entre terça e quarta-feira, o peso desvalorizou 0,7% em relação ao dólar, que ultrapassou a barreira dos 3.800 pesos pela primeira vez neste ano. Há também alguns sinais de fuga de capitais, como é comum em mercados emergentes, em direção a investimentos mais consolidados durante esse tipo de crise geopolítica. O índice Colcap, que acompanha as principais ações da bolsa de valores colombiana, caiu 4,42% nos dois pregões desde o início dos ataques.

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