A reação latino-americana desunida e tardia

Foto: Leon Overweel/Unplash

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07 Janeiro 2026

Com a América Latina dividida entre esquerda e direita, a região foi incapaz de reagir à crescente intervenção dos EUA na Venezuela.

A reportagem é de Rafael Rojas, publicada por El País, 07-01-2026.

Nos dias que se seguiram à operação militar dos EUA na Venezuela, em 3 de janeiro de 2026, que resultou na prisão de Nicolás Maduro e Cilia Flores e sua transferência para Nova York para enfrentar um longo processo judicial, os governos do Brasil, México, Colômbia, Chile e Uruguai, juntamente com a Espanha, emitiram uma declaração conjunta. Apesar da gravidade da incursão armada em Caracas, os líderes do movimento progressista ibero-americano limitaram-se a expressar “preocupação e rejeição” ao unilateralismo de Washington e apelaram ao retorno ao direito internacional e às normas da ONU.

Os presidentes também reiteraram seu compromisso com um dos princípios básicos da tradição diplomática latino-americana: o respeito à soberania nacional e à autodeterminação dos povos. Por fim, endossaram outra premissa da legislação social e econômica latino-americana do século XX, uma reivindicação que decorre das longas lutas revolucionárias e pela soberania na região ao longo do século XX: o controle nacional dos recursos naturais e energéticos.

Dada a tensão do momento, é provável que muitos tenham interpretado o documento como um endosso a Maduro. No entanto, a verdade é que vários desses governos, como Espanha, Chile, Brasil e Colômbia, não reconheceram, em diferentes graus, a reeleição de Nicolás Maduro no verão de 2024. Uma frase no segundo ponto da declaração afirmava que a crise venezuelana “deve ser resolvida pacificamente, por meio do diálogo, da negociação e do respeito à vontade do povo venezuelano, em todas as suas expressões”, e acrescentava que esses governos apoiavam “um processo inclusivo, liderado por venezuelanos, que possa levar a uma solução democrática”.

Essas palavras, "solução democrática" ou "transição democrática", não foram proferidas na coletiva de imprensa realizada por Donald Trump, Marco Rubio e Pete Hegseth em Palm Beach, em 3 de janeiro. Nos dias seguintes, tanto Trump quanto Rubio descartaram explicitamente um processo de mudança de regime ou transição democrática na Venezuela, questionaram a liderança de Edmundo González Urrutia e María Corina Machado, os vencedores das eleições de 2024, e designaram Delcy Rodríguez como sucessora de Maduro.

Os resultados das eleições de 2024 não só foram ignorados na reconstrução da Venezuela, como a própria realização de eleições, conforme previsto na Constituição venezuelana, também foi descartada. Segundo Trump e Rubio, uma sucessão liderada pela presidente interina, Delcy Rodríguez, era a melhor opção para garantir a principal prioridade de Washington: o acesso privilegiado aos vastos recursos petrolíferos do país sul-americano e, por meio do controle energético, a reestruturação da rede geopolítica de Caracas.

O progressismo latino-americano finalmente assumiu uma clara diferenciação das outras duas agendas fortemente envolvidas no processo venezuelano desde a época de Hugo Chávez: a agenda estadunidense, que tende à tutela da mudança ou à política de apaziguamento com o regime de Maduro, e a agenda bolivariana, gerida principalmente por Caracas e Havana, que busca envolver os interesses dos rivais de Washington, como a China, a Rússia e o Irã, no Caribe, para contrabalançar a hegemonia americana.

Desde as eleições de 2024, esse caminho vinha sendo delineado intelectualmente, mas não se materializou em um plano de ação para rejeitar a reeleição de Maduro. Três fatores intervieram: o retorno de Trump à Casa Branca e sua oferta inicial de diálogo com Maduro, a ascensão de novos movimentos de direita na América Latina alinhados ao trumpismo e a hesitação dentro do próprio movimento progressista. O México de Andrés Manuel López Obrador desempenhou um papel crucial nessa paralisia.

Durante a segunda metade do mandato de seis anos de López Obrador, especialmente após sua viagem a Havana em 2022, a diplomacia mexicana se viu, como tantas vezes no passado, dividida entre Cuba e os Estados Unidos. Andrés Manuel López Obrador, aliado de Trump, defendeu veementemente a integração norte-americana, mas contrabalançou essa posição com uma diplomacia latino-americanista, cuja principal ligação sempre foi Cuba. De Havana e do Grupo Puebla, um lobby pró-bolivariano com sede no México, foi concebida a diplomacia partidária mexicana na Bolívia, no Peru e no Equador, assim como a abordagem protetora e paternalista de Andrés Manuel López Obrador em relação a Cuba e à Nicarágua.

Com a América Latina fragmentada entre esquerda e direita e seus principais fóruns multilaterais em colapso (OEA, CELAC, Cúpulas Ibero-Americanas…), a região não conseguiu reagir a tempo à escalada da intervenção dos EUA na Venezuela, que, em sua fase militar, teve início em setembro de 2015 com ataques a navios no Caribe. Até dezembro daquele ano, apenas dois governos da região, o de Lula da Silva no Brasil e o de Gustavo Petro na Colômbia, se opuseram firmemente a esse longo prelúdio da operação de 3 de janeiro, que incluiu um bloqueio de petróleo e diversas apreensões de embarcações venezuelanas.

A falta de contenção por parte dos Estados Unidos também ficou evidente na reação cada vez mais tímida da Rússia e da China, que optaram por concentrar suas prioridades na Ucrânia e em Taiwan. Esse recuo é crucial para explicar o que aconteceu, bem como a deterioração da relação da América Latina com a Europa, provocada pela convergência das duas linhas antitéticas mencionadas anteriormente: uma inclinada ao alinhamento com Trump e outra relutante em se engajar com a Espanha e a União Europeia.

A posição adotada pelos seis governos ibero-americanos é tardia, mas chega com uma ênfase que poderá fazer toda a diferença nos próximos meses: uma transição para a democracia na Venezuela, resultante de um novo processo eleitoral e não de uma sucessão autoritária supervisionada pelos Estados Unidos. Parece não haver outra forma de estabelecer uma legitimidade verdadeiramente soberana naquele país sul-americano. Os esforços diplomáticos de todos os governos da região devem ser direcionados para esse objetivo, não apenas por instinto defensivo, mas também como um apelo à diversificação internacional da América Latina.

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