A Igreja precisa da liderança das mulheres e não há nada que a impeça, nem o fato de não poderem ser ordenadas

Foto: Manuel Torres Garcia/Pexels

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12 Março 2026

Não é por não poderem ser ordenadas que as mulheres estão impedidas de assumir posições de liderança e de governo no interior da Igreja. De fato, não só não existe qualquer impedimento ao exercício dessa liderança, como ela é provida de autoridade. E é necessária à Igreja Católica, na qual “é preciso reconhecer, com franqueza e confiança, que ainda há muito trabalho a ser feito” no que diz respeito à promoção da mulher. Quem o afirma é o relatório sobre “a participação das mulheres na vida e no governo da Igreja” agora divulgado pelo Vaticano.

A reportagem é de Jorge Wemans, publicada por 7 Margens, 10-03-2026.

Temos de “fazer da Igreja uma força que encarna o Evangelho nas culturas, promove o respeito pelos direitos de todos e a corresponsabilidade de acordo com a vocação de cada um, afirmou o cardeal Mario Grech, Secretário-Geral do Sínodo, ao apresentar esta terça-feira, 10 de março, o documento final do Grupo 5 [1].

“Isso requer coragem – continuou Grech –, acompanhamento e paciência para introduzir mudanças graduais a fim de preservar a comunhão eclesial, eliminar as discriminações e construir comunidades nas quais os dons e carismas de cada pessoa, homens e mulheres, sejam valorizados”.

Contudo, o longuíssimo documento de 80 páginas de letra muito miudinha não debate a questão da ordenação das mulheres, nem responde de forma positiva às questões mais profundas que sobre a sua ação no interior da Igreja Católica têm sido levantadas nas últimas décadas. Ainda que concorde “que ‘as mulheres continuam a encontrar obstáculos para obter um reconhecimento mais pleno dos seus carismas, da sua vocação e do seu lugar nas diversas áreas da vida da Igreja’”.

Esses numerosos obstáculos criam em muitas mulheres “um desconforto em relação à participação na vida das comunidades a que pertencem, especialmente quando comparam a realidade eclesial com a sociedade civil de muitos dos países em que vivem”. Desse desconforto resulta, entre outros, “o apelo cada vez mais forte, por parte de muitas mulheres que atuam ativamente na pastoral, ou que são especialistas em teologia e direito canônico, para que as formas de liderança eclesial existentes sejam revistas, tornando-as mais acessíveis às mulheres”.

Apelo que passa pelo “acesso ao Sacramento da Ordem, na possibilidade de criar novos ministérios com características específicas para o serviço ao Povo de Deus, na pregação durante as celebrações comunitárias e, finalmente, na delicada questão relativa à natureza específica de confiar a governança de uma comunidade, ou de determinados cargos diocesanos, a mulheres devidamente qualificadas”. Sem responder taxativamente a cada um destes apelos, o relatório do Grupo 5 mostra que a resposta a todos eles pode e deve ser positiva, à exceção do acesso à ordenação – tema que não estava na sua ordem de trabalhos.

Uma história atribulada

Recorde-se que este grupo 5, um dos dez grupos criados pelo Papa Francisco, em março de 2024, entre as duas assembleias gerais do Sínodo sobre a Sinodalidade, com o objetivo de retirar dos debates do Sínodo algumas das questões mais controversas ou polémicas que ameaçavam minar o ambiente, foi protagonista de um choque frontal com os participantes na última assembleia geral (outubro de 2024).

Tendo os trabalhos do grupo sido confiados ao Dicastério para a Doutrina da , os membros do Sínodo esperavam ter uma apresentação cuidada e circunstanciada do labor dos membros do grupo. Mas depararam-se com a ausência do cardeal argentino Víctor Manuel Fernández, prefeito do dicastério e primeiro responsável pelo andamento dos trabalhos, e com um ponto de situação atrapalhado feito por uma figura menor e pouco conhecedora do processo até ali desenvolvido. A indignação dos pais e, sobretudo, das madres sinodais presentes, originou uma segunda reunião em que o cardeal esteve presente e deu conta do desenvolvimento da reflexão.

Este incidente explica, talvez, as páginas que o atual relatório dedica à explicitação do método de trabalho seguido pelo grupo, muito apoiado na auscultação de leigas católicas exteriores ao dicastério e na abertura a todas as contribuições que lhe fizeram chegar. Contudo, “considerando, conforme afirmado pelo próprio Papa Francisco, que a questão do acesso das mulheres ao diaconato não parecia ainda suficientemente madura”, permanecia aberta “a oportunidade de continuar o trabalho de estudo mais aprofundado sobre o papel das mulheres na liderança das comunidades e sobre outras possíveis vias de participação”.

Neste contexto, a reflexão do Grupo 5 acabou por se centrar em temas como: “a relação entre o poder sacramental e os ministérios leigos; as origens dos ministérios; a dimensão carismática da vida da Igreja; as funções e ministérios eclesiais que não requerem o Sacramento da Ordem; a compreensão da Ordem como um serviço à riqueza dos carismas; e os problemas suscitados por conceções erróneas da autoridade eclesial.”

O relatório final agora divulgado apresenta-se dividido em três grandes partes. Na primeira faz uma breve resenha “da história do Grupo de Estudos 5 e do seu método de trabalho”; apresenta depois uma “síntese detalhada das principais descobertas e convergências sobre o tema, extraídas da escuta dos vários componentes do dicastério, da leitura dos textos recebidos e dos testemunhos reunidos a pedido do próprio dicastério; e termina com “um extenso apêndice que cataloga pelo menos uma parte significativa do grande conjunto de material que o Dicastério recebeu”.

O apêndice está organizado em seis seções: figuras femininas na Bíblia; figuras femininas significativas na história da Igreja – testemunhos contemporâneos de mulheres que participam da liderança da Igreja; o Princípio Mariano e o Princípio Petrino: uma perspetiva crítica; autoridade eclesial; e as contribuições do Papa Francisco e do Papa Leão XIV sobre o papel da mulher na Igreja.

Uma resposta insuficiente

Na sequência do ensinamento do Papa Francisco, o Grupo 5 aponta o clericalismo (a que adiciona o machismo) como uma das explicações para a redução das leigas católicas a uma posição subalterna: “o clericalismo é a tendência de transferir automaticamente a autoridade e o papel único que pertencem ao sacerdote na celebração da Eucaristia para todas as outras áreas da vida comunitária. A presidência da Eucaristia é, desta forma, entendida por alguns como justificativa de um estilo de liderança que é fundamentalmente autoritário e autorreferencial”.

Mas é precisamente na presidência da Eucaristia que várias teólogas e teólogos e diversos movimentos de mulheres têm focado a desigualdade que a Igreja Católica não só admite como desenvolve entre homens e mulheres. E por aqui seguirá o dissenso, que não é uma reivindicação das mulheres, mas sim uma visão diferente do papel dos padres (e das futuras mulheres ordenadas) na Igreja, assente numa distinta compreensão da salvação da humanidade operada por Jesus Cristo.

Antes de entrar na descrição dos múltiplos papéis de governança e liderança que hoje as mulheres assumem nas Igrejas locais de todos os continentes, o relatório chama a atenção para uma visão errónea do que se pode esperar da liderança feminina, ultrapassando “uma visão limitada a certas características — como maternidade, ternura ou cuidado — que pode deixar pouco espaço para outras qualidades femininas igualmente importantes, como liderança, aconselhamento, capacidade de ensinar, escuta e discernimento”.

O texto hoje divulgado segue o documento final do Sínodo sobre a Sinodalidade, apelando “a que se aproveite ao máximo todas as possibilidades já presentes no atual quadro canónico, incluindo a possibilidade de introduzir, quando apropriado, novas funções instituídas, ligadas não só à liderança das comunidades, mas também aos ministérios de escuta, consolação e acompanhamento”.

Nessa linha de orientação solicita que “a teologia e o direito canónico explorem novas formas de exercício da autoridade, fundamentadas no Sacramento do Batismo e distintas daquelas derivadas das Ordens Sacras, para que se encontrem formas canónicas adequadas que tornem efetiva a participação das mulheres em funções de liderança na Igreja”. Trabalhos de casa muito dependentes das iniciativas que os bispos forem tomando em cada diocese para conferir às mulheres maiores responsabilidades e maior papel na governança das igrejas locais, das paróquias e das outras numerosas instâncias diocesanas.

Nota

[1] O documento em inglês pode ser acessado aqui.

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