Vozes de Emaús: Sobre a quaresma, desertos e teologias. Artigo de Edson Fernando de Almeida

Arte: Lauren Palma | IHU

04 Março 2026

"A quaresma nos convida a um jejum das nossas bonitas autoimagens que não poucas vezes sustentam relações de desigualdade, quando não viveres tristes, que desconhecem a graça de ser para além do aparecer, do aparentar, do exibir."

O artigo é de Edson Fernando de Almeida, teólogo, pastor, professor universitário e escritor brasileiro.

Edson Fernando de Almeida (Foto: Arquivo Pessoal).

O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui

Eis o artigo.

A quaresma aí está. Uma vez mais somos convidados e convidadas a dar-nos conta de que boa parte da nossa coexistência transcorre em paisagens que estão longe de serem belas e agradáveis. Pulsa, por trás dos sorrisos e likes da vida virtual, a vida real, e esta, no dizer do matuto... é doce, mas não é mole não. A quaresma é um clarão que se abre no emaranhado das nossas bonitezas, certezas e seguranças, das boas imagens que fazemos de nós memos, para revelar as nossas inteirezas e obscuridades. Clarão que não ajuíza a beleza do co-existir, mas escancara a finitude que nos é constitutiva, a ruidosa gravidade de queremos ser os únicos, os melhores. A quaresma manifesta a rediviva presença do velho pedido feito pelos discípulos a Jesus: permite-nos que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita, outro à tua esquerda. A quaresma é um abrir d’olhos e ouvidos ao principio profético, uma espécie de principio de qualidade do nosso viver no mundo, que nos martela a consciência, inquirindo sobre a verdade de nós mesmos, a verdade das nossas relações. Segundo os relatos da tentação de Jesus, o diabo é a imagem arquetípica desta figura encarregada de iluminar nossa vida real no amaranhado de nossas aparências.

A quaresma é essa voz profética portadora de angustiantes perguntas: O que nos escraviza? Quem nos escraviza? A serviço de quem e do que vivemos? Não estariam nossas melhores intenções e motivações, por mais piedosas que possam parecer, a serviço do nosso pequeno - e poderoso - eu? Quem governa nossas vidas? Tal pergunta só pode ser respondida naquele lugar onde, desnudados de perfumarias e likes, nos vemos expostos à crueza da nossa miséria: pó e cinza, no dizer abraâmico. A quaresma nos convida a um jejum das nossas bonitas autoimagens que não poucas vezes sustentam relações de desigualdade, quando não viveres tristes, que desconhecem a graça de ser para além do aparecer, do aparentar, do exibir.

Odeserto é uma metáfora dessa paisagem que surge quando a vida se apresenta despida de penduricalhos, para além da gravidade dos assessórios. Deserto como convite à nudes de nós mesmos. Segundo os sinóticos, o deserto foi a paisagem que possibilitou ao poeta da compaixão, Jesus de Nazaré, ter clareza de não estar usando a religião para satisfazer seus interesses egoístas. Não é por acaso que o relato registre que Jesus tenha sido levado, conduzido ao deserto... pela ruah. A quaresma é esse empurrão dos nossos corpos para um deserto que, a depender de nós, jamais habitaríamos. Não é fácil perguntar-se sobre quais poderes nos escravizam: se a gloria, o dinheiro ou quaisquer normatividades. Por isso dizia Dom Helder que o deserto é fértil, justamente porque paisagem que se avizinha como promessa de um encontro com aquilo que nos escraviza.

São infindas as possiblidades de sentir-pensar-acolher o sopro quaresmal que neste 2026 vem chacoalhar os varais das velhas roupagens do nosso viver. Que sacuda particularmente o varal das nossas teologias! Sim, nossas teologias tantas quantas. Também elas, se expostas ao sopro quaresmal, haverão de rever seus penduricalhos, deixando-se queimar pelo – no dizer de Karl Barth – fogo do amor divino, que consome tudo aquilo que nelas impede que a vida seja mais viva: tudo o que é fuga do Deus vivo e tudo o que as afasta da tarefa de anunciar a boa notícia e libertar a vida oprimida. No comovente opúsculo ‘Introdução à teologia evangélica’, em linguagem simples e cortante, Karl Barth faz uma síntese da sua compreensão do que seja a teologia. No pequeno livro, ele disserta sobre o lugar da teologia, sobre a existência teológica, sobre o labor teológico e sobre os perigos que a ameaçam.

Neste último tópico, Barth destaca uma espécie de tribulação que acomete o fazer teológico do começo ao fim. Não é uma tribulação sazonal, que à teologia adviria somente quando estivesse em crise, por exemplo. Trata-se de uma voz profética que a queima por dentro, o tempo todo, para que ela não se esqueça do seu chamado a ser uma ciência alegre. Eu acrescentaria: a ser libertadora, a não ser uma ciência triste de penduricalhos, domesticadora e alienadora. Para que recobre o seu núcleo estruturante - a inquietação constitutiva do estar diante Deus vivo e da vida oprimida, a teologia deverá ser sempre uma ciência atribulada, uma teologia atravessada pelo viés quaresmal. Não uma teologia que anuncia e reflita sobre a quaresma, Mas uma teologia atravessada pelo deserto quaresmal. Uma ciência alegre que anuncia a vida sem se colocar acima dela, como juíza dela. Uma teologia que não abandona a profecia, muito menos aquela a ela mesma dirigida.

Assim sendo imagina o profeta Amós dirigindo-se aos teólogos e teólogas do presente: “Odeio vossas preleções e seminários, vossos sermões, palestras e estudos bíblicos; não posso cheirar vossas discussões, congressos e retiros. Pois ao desdobrardes vossas sabedorias hermenêuticas, dogmáticas, éticas e pastorais uns perante os outros e perante mim – não tenho prazer nestes sacrifícios e não me agrada a oferta de vossos bezerros cevados”. E assim a ruah conduz a teologia ao deserto para que ela recobre seu núcleo estruturante: ser instrumento do agir libertador divino-humano no mundo. Ser meio, ser ponte... da libertação. Como disse sabiamente Leonardo Boff: o importante não é a teologia, o importante é a libertação.

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