“Dizer que somos ambientalistas, sem fazer nada, é também um tipo de negacionismo climático”. Entrevista com Alberto Garzón

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09 Fevereiro 2026

Alberto Garzón (Logroño, 9 de outubro de 1985) deixou a linha de frente da política em 2023, após protagonizar um dos debates mais incômodos dos últimos anos: o impacto ambiental da alimentação e o papel das fazendas industriais na crise ecológica. Hoje, livre das amarras institucionais, pesquisa economia biofísica no Instituto de Ciência e Tecnologia Ambiental da Universidade Autônoma de Barcelona (ICTA-UAB).

Em seu novo livro, La guerra por la energía (Península), percorre a história para demonstrar como a luta pelo controle da energia moldou as sociedades, impulsionou impérios e alimentou conflitos, até culminar na crise climática atual. Longe de ser um exercício acadêmico, o ensaio é também um chamado à ação política para estimular uma transição ecossocial e defender a democracia. “Nossa sobrevivência coletiva depende da nossa capacidade de conter a expansão material e reorganizar nossas sociedades dentro dos limites do planeta”, alerta.

A entrevista é de Elisenda Pallarés, publicada por La Marea-Climática, 29-01-2026. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Seu livro destaca que a Terra possui limites biofísicos que já foram ultrapassados. Fala da necessidade de fechar a caixa de Pandora, especificamente no que diz respeito aos limites energéticos. Por que continuamos agindo politicamente como se esses limites não existissem?

Porque não temos consciência de que vivemos em uma anomalia histórica. O livro tem a pretensão, talvez excessivamente ambiciosa, de realizar um percurso histórico desde as sociedades de caçadores-coletores. Essa perspectiva nos permite localizar a anomalia histórica que as sociedades industriais representam e o uso intensivo de combustíveis fósseis que nos possibilitou viver em condições materiais impensáveis em épocas anteriores.

Estamos falando dos últimos 250 anos, em um marco de 200.000 a 300.000 anos da história do Homo sapiens. Essa caixa de Pandora, que permitiu experimentar uma potência extra na execução de trabalhos, uma produtividade espetacular com o desenvolvimento tecnológico, tem um outro lado. Os cientistas já expuseram que uma dessas consequências é o desequilíbrio dos parâmetros do sistema Terra e, entre eles, a mudança climática.

A análise que proponho é: como podemos imaginar uma sociedade que, sem o uso de combustíveis fósseis, não represente uma volta ao passado? Ou seja, uma sociedade que possa ter uma base energética diferente, necessariamente limpa, mas preservando todos os avanços em bem-estar. Esse é o grande desafio. Vivemos uma anomalia da qual não temos consciência, pois temos uma visão geracional. É o que explica o desinteresse político por um pensamento de médio e longo prazo, porque o pensamento político está muito mais focado nas eleições seguintes. Há uma contradição entre o ciclo curto da política e o ciclo médio-longo necessário para a humanidade se repensar.

Seu ensaio começa destacando como Fritz Haber conseguiu aumentar a produção de alimentos em larga escala, graças ao uso de fertilizantes químicos. Atualmente, há quem anseie esse tipo de milagre e espere que a produção de hidrogênio verde ou a captura de carbono nos permitam manter o consumo de energia. Qual a sua opinião sobre essas posições?

Penso que as posições tecno-otimistas não são ingênuas. O ser humano foi capaz de desenvolver grandes tecnologias e tem um potencial de inovação muito alto. O problema é que não há garantia de que serão encontradas soluções tecnológicas para os problemas urgentes que temos e, portanto, assume-se riscos muito altos. Se os sistemas de captura de carbono, que estão sendo pouco úteis, não funcionarem a médio prazo, o que acontecerá é a aniquilação da espécie humana. O risco é elevadíssimo.

É mais razoável entender que devemos usar a tecnologia, sem parar a pesquisa, de modo que aceleremos toda a transição energética, mas em compatibilidade com algo que podemos fazer hoje: decrescer o consumo de recursos materiais e de energia. Decrescer o consumo de energia não implica uma redução do bem-estar material; implica simplesmente priorizar ao que se dedica a energia e os recursos materiais. É um debate político, como decidir se queremos destinar recursos para a guerra ou para a educação e a saúde.

O IPCC aponta que a alimentação é responsável por um terço das emissões de gases do efeito estufa. Indica que uma quilocaloria de carne de cordeiro pode exigir até 57 de energia fóssil. O que isso nos diz sobre o nosso modelo de alimentação?

Que ele é absolutamente irracional e não faz sentido em termos históricos. Previamente à utilização em massa de combustíveis fósseis, nenhum ser humano dedicava tanta energia à tarefa de obter alimentos. Quando se tem um presente, um stock aparentemente gratuito, como são os combustíveis fósseis, pode-se pular essa lógica. Agora, como se diz popularmente, estamos cultivando batatas com petróleo. Fomos capazes de aumentar muito a fertilidade da terra, mas à custa do uso intensivo de fertilizantes, que requer uma quantidade brutal de gás natural para a sua produção. Mas também precisamos de tratores, máquinas pesadas, precisamos de transporte desses produtos…

Para obter alimentos, entendidos como energia, estamos gastando mais energia do que obtemos. Isto não é sustentável ao longo do tempo. Observe, ao longo tempo não significa nossa geração, mas que a médio prazo isto é insustentável. Isto nos obriga a repensar como nos alimentamos e a ter uma produção que seja menos intensiva no consumo de combustíveis fósseis. Além disso, dessa forma, em termos de alimentação, reduzimos o impacto de todas as consequências que podem surgir com a seca, as inundações e os impactos de diferentes naturezas à terra e à capacidade de cultivar.

Você foi ministro dos Assuntos do Consumidor por três anos (2020-2023). Quais medidas gostaria de ter tomado, mas que não foram possíveis?

Há muitas. Éramos nós, porque assim me empenhei, que levávamos o consenso científico para a esfera pública. Isto levou a uma série de conflitos que tinha a ver com a ideologia, não com a ciência. Um deles era falar sobre o modo como nos alimentamos, sobre a redução do consumo de carne. Em última instância, abrir um debate para que ficasse bem entendido que nossas decisões de consumo não são neutras. Que quando você vai ao supermercado e pega algo na prateleira, mesmo que pareça invisível, há relações sociais e ecológicas por trás. Existe uma cadeia de valor que, em muitos casos, envolve exploração do trabalho, de recursos naturais, perda de biodiversidade.

A melhor representação de tudo isso eram as famosas fazendas industriais, porque eram, e continuam sendo, uma condensação de todas as contradições do sistema. As fazendas industriais expulsam socialmente a pecuária tradicional, que não é competitiva frente a esses modelos altamente intensivos. Sua produção polui o solo e a água, polui através dos gases do efeito estufa como o metano e agrava a mudança climática. Além disso, com a própria alimentação dos animais se produz o desmatamento em lugares de onde a soja é importada.

Esse debate ocorreu em um contexto muito complexo; a pandemia tinha acabado de surgir. A polarização política na Espanha impede um debate racional sobre essas questões. Mas, sim, acredito que conseguimos fazer muitas pessoas refletirem sobre esses elementos invisíveis por trás de um ato de consumo. Estou falando da carne, mas podemos falar dos smartphones ou de qualquer tipo de produto de uso cotidiano que por trás envolvem relações de exploração, degradação ambiental e desigualdades internacionais.

E, a partir de um ministério humilde, tentamos implementar outras medidas de natureza modesta, como fomentar o consumo mais próximo. Mas o maior impacto foi abrirmos a fenda. Na Espanha, esse debate sobre as fazendas industriais não tinha acontecido na esfera pública. Tinha acontecido na ciência, entre os médicos, entre os pesquisadores… Mas, de repente, apareceu nos telejornais, chegando a muitas pessoas que nunca leram um ‘paper’, mas que querem participar desses debates.

O que deveria ser feito na área de transportes? O Governo propôs suprimir voos que tenham uma alternativa de trem, com duração de duas horas e meia. Considera que isto se tornará realidade, em curto prazo?

É necessário. Cedo ou tarde, o ajuste acontecerá. A questão é se queremos que seja forçado, em que de repente você tenha que parar de fazer as coisas porque não há combustível ou porque a mudança climática impede a sua relação social como era antes. Ou se você prefere fazer isso paulatinamente, permitindo que a sociedade vá se adaptando. É necessário reduzir ao máximo as atividades que são prejudiciais ao planeta.

Isso implica falar de coisas que estão muito inseridas em nosso cotidiano e que, como cidadãos, inclusive identificamos como parte do nosso bem-estar, como algo que sempre estará presente. No caso do setor de turismo, isto fica muito evidente. O turismo de longa distância tem uma pegada de carbono brutal, é uma anomalia histórica, nunca existiu antes e, provavelmente, não existirá para sempre, porque é impossível sustentar esse modelo com a tecnologia atual.

Quando você começa a pensar em como pode reduzir sua pegada de consumo em nível social, precisa ser capaz de identificar quais tipos de atividades consomem mais energia. E é evidente que existem algumas, como saúde e educação, que têm uma pegada de carbono residual em comparação a setores como o turismo. Em especial, é evidente que os deslocamentos em jatos particulares ou voos comerciais de curta distância, de alguma forma, precisam ser abordados. No entanto, não há coragem para isso, porque significaria reconhecer que um modelo que foi vendido durante décadas como um avanço para a sociedade desenvolvida não é sustentável.

Não é complicado convencer os cidadãos sobre a conveniência de parar de voar, sem exigir um corte nos privilégios dos milionários, que têm uma pegada de carbono muito maior?

Claro. Além disso, há um elemento cínico no greenwashing, em todo o discurso ambientalista empregado por grandes multinacionais, por grandes patrimônios, cuja pegada de carbono ultrapassa muito a da maioria dos cidadãos comuns. Então, evidentemente, há hipocrisia quando se pede esforços de uma parte da população e não da parte com maior capacidade de agir.

No entanto, isso não deve nos levar à paralisia. Muitas vezes, isto é usado como um ‘então, não faço nada’. Então, ‘até que a China não pare de poluir, até que os milionários não parem de utilizar aviões, eu também não vou mudar meus hábitos de consumo’. Isto é um erro. Embora esteja mais ou menos claro que não vamos conseguir atingir a meta de 1,5 grau acima dos níveis pré-industriais, o objetivo do Acordo de Paris, as consequências, sem saber ao certo quais podem ser, sem dúvida, serão menores com 1,6 grau do que com 1,7 grau. Não podemos cair no cinismo de dizer que somos ambientalistas e não fazer nada. Isto também é um tipo de negacionismo climático.

A Espanha precisa de um transporte público robusto em suas cidades. No entanto, na Catalunha, há muitos problemas com o serviço ferroviário Rodalies. Você considera que houve falta de investimento? Como este tema estava sendo abordado quando você estava no Governo?

Os déficits vêm se acumulando há muito tempo. A situação em 2026 decorre da falta de tê-lo pensado de um modo holístico ou global. Se o que queremos é reduzir o impacto da frota de veículos movidos a combustíveis fósseis, e estamos conscientes de que é praticamente impossível substituir toda esta frota por veículos elétricos, a única maneira de alcançar esses objetivos é ter uma rede de transporte público muito mais forte, eficaz e eficiente. Isto implica, em muitos casos, um redesenho das cidades, pois foram construídas pensando no transporte individual.

O planejamento dos transportes públicos deveria ser uma prioridade, mas não está sendo. Evidentemente, é uma rubrica orçamentária que exige um investimento muito grande, mas é uma urgência. Não só implicaria uma redução da pegada de carbono, como também melhoraria a vida das pessoas. Uma parte importante dos problemas ocidentais é o tempo que se perde no deslocamento, em veículos particulares, da casa até o local de trabalho.

No entanto, infelizmente, ainda não encontramos - e eu já discuti isto no Governo - uma perspectiva sobre o transporte que seja multidisciplinar. É o que explica por que o transporte ferroviário de mercadorias está tão subdesenvolvido em nosso país, embora devesse ser uma opção fundamental para retirar os caminhões das estradas, reduzindo um impacto de carbono tremendo.

Evidentemente, há outros problemas, de natureza política, com ganhadores e perdedores. Mas se houvesse uma dotação orçamentária, se a Comissão Europeia realmente acreditasse que isto é uma prioridade, poderia dedicar muitos recursos. Enquanto isso, nossa população está crescendo, nossas infraestruturas vão se desgastando e as pessoas não têm incentivos para usar o transporte público.

Outra medida que você menciona para melhorar a vida das pessoas é a redução da jornada de trabalho, mantendo os salários. Que impacto poderia ter no consumo de energia?

É preciso reformular a concepção tradicional do que é a economia e o sucesso econômico. Fomos educados nessa visão de mundo de que o crescimento econômico se traduz em produzir mais, no menor tempo possível. Os ganhos de produtividade são dedicados a crescer mais rápido. Somos como um hamster em uma roda. Tudo o que fazemos serve para crescer cada vez mais, quando, na realidade, temos outra opção como sociedade.

Se temos ganhos de produtividade, isso pode se traduzir em produzir a mesma quantidade e trabalhar menos tempo, em vez de produzir mais no mesmo tempo. Para dizer de forma um pouco simplista, significa colocar a economia a serviço da vida, e não a vida a serviço da economia. Porque hoje, apesar dos avanços tecnológicos, nossas jornadas de trabalho seguem as mesmas, ou até piores, e nossas condições de trabalho também.

Nossos ganhos de produtividade não são dedicados às coisas que nos trazem felicidade na vida, como ter mais tempo de lazer, para desfrutar, gastar a vida de outras maneiras. Este tem sido um debate interditado, mas quando se incorpora a dimensão ecológica e se entende que esse aumento infinito da produção é impossível, levantar este debate é uma obrigação. A redução da jornada de trabalho faz parte de uma dinâmica social em que o objetivo deve ser produzir para satisfazer necessidades e para viver melhor dentro dos limites do planeta. E penso que a sociedade como um todo, mas sobretudo os economistas, ainda não estão preparados para este debate.

Você afirma que precisamos de uma transição ecossocial e que, se não formos capazes de articulá-la, caminharemos para um cenário de barbárie. Também ressalta que “Trump não é um louco”, mas, ao contrário, está tentando obter o máximo possível de recursos para o seu país. Como podemos nos defender desta tendência tão autoritária liderada pelos Estados Unidos?

A primeira coisa é entender que a psicologia dos personagens influencia, mas não é o que explica as grandes tendências. A política dos Estados Unidos deve ser entendida com o uso do que eu tento explicar no livro, que é a interface entre ecologia, economia e geopolítica. Os Estados Unidos utilizaram o livre mercado enquanto eram a economia mais forte. A partir do momento em que a China rivaliza tecnológica e economicamente com eles, mudam sua orientação estratégica e retornam às políticas protecionistas. Portanto, por trás de suas políticas há uma estratégia e não um mero capricho.

O crescimento da extrema-direita, embora não explicitamente, sim, está respondendo ao novo contexto da crise ecossocial em que há o reconhecimento da escassez de determinados recursos, como os minerais críticos. Assumem que a única maneira de preservar seus privilégios na divisão internacional do trabalho é retornar às práticas de coerção, violência e intimidação contra outras nações.

É isso que os Estados Unidos estão fazendo de forma bastante clara, quando querem a Groenlândia por causa das rotas estratégicas, pelos minerais críticos, quando querem a Venezuela por causa do petróleo ou quando disputam com a China toda a parte de recursos minerais. O acordo de paz de 4 de dezembro, entre o Congo e Ruanda, foi assinado por Donald Trump e incluía uma cláusula de privilégio às multinacionais estadunidenses na extração de minerais críticos como o cobalto, necessário para a transição energética e para os produtos eletrônicos.

A dinâmica de fundo desses movimentos é que se a energia e sobretudo os recursos naturais são escassos, não querem compartilhá-los. Eles não estão pensando em uma Sociedade de Nações Unidas, onde os recursos são compartilhados e a energia é distribuída de forma mais justa. Eles estão pensando em se apropriarem deles, se necessário, pela força, em benefício de uma população menor, que nesses projetos costuma coincidir com a população branca, uma população nacionalista étnica. É isto que está por trás de toda a extrema-direita.

Apenas se entendermos isso, seremos capazes de abordar a extrema-direita como ela merece, não como um acidente, mas como um desenvolvimento com interesses materiais por trás. O que proponho tem a ver com a forma como nós, que não concordamos com esse caminho, somos capazes de nos organizarmos. Precisamos propor uma alternativa onde todos os bens, recursos e energia do planeta possam ser compartilhados dentro dos limites que o planeta impõe.

Portanto, são necessárias políticas corajosas.

Com certeza! Políticas corajosas e políticas que são novas. O livro também pretende expor as próprias contradições da esquerda tradicional, que foi produtivista, educada e criada nesta anomalia histórica dos combustíveis fósseis. Agora, precisamos de uma esquerda capaz de abordar outros problemas que não foram identificados em pensadores clássicos como Marx. E, para mim, uma parte importante disso tudo é não cair no fatalismo. É muito fácil cair no fatalismo; basta assistir aos telejornais ou ler notícias sobre as mudanças climáticas para que entrarmos nessa ecoansiedade que nos paralisa.

Precisamos de uma transição energética ou ecológica e de decrescimento, ao mesmo tempo. Porque se realizarmos uma transição energética sem decrescimento, para mim, é uma quimera com muitos riscos. E se implementarmos o decrescimento sem uma transição energética, é um retorno aos parâmetros das sociedades prévias à revolução industrial, que são as sociedades agrárias. E penso que isto, embora às vezes seja retratado de forma romântica, tanto esse estado final quanto a transição são fundamentalmente violentos e prejudiciais para a vida como a conhecemos. Minha posição é acelerar a transição energética o máximo possível, para abordar essas urgências, como as mudanças climáticas, e sermos capazes de construir sociedades dentro dos limites do planeta. Isto é política pura.

Também reflete sobre como Gaza é um símbolo da degradação moral, da queda da ordem internacional liberal e uma ruptura com o mínimo respeito pelos direitos humanos, bem como pelos valores cristãos. E elogia como referências ambientalistas como Greta Thunberg deram visibilidade a esta questão. Caso não se promova uma transição ecossocial justa, a democracia estará em perigo?

A democracia é uma ideia magnífica e bela muito jovem. A democracia moderna - não me refiro à democracia ateniense, onde uma parte da população era excluída - é constituída a partir da própria ideia de direitos humanos. Esse conceito é relativamente novo e verdadeiramente frágil. E, de fato, penso que essa concepção está em retirada. Não apenas porque a maior parte da população mundial não vive sob modelos democráticos, mas porque está ameaçada em muitos lugares, como nos Estados Unidos, que estão à beira de perdê-la, e em muitos outros onde a extrema-direita normalizou coisas que antes eram impensáveis ou que estavam fora de debate, como o ódio ao imigrante, o ódio ao diferente. Isto entra em choque com a visão de mundo dos direitos humanos, mas também com a visão de mundo cristã, na qual somos todos filhos de Deus e não cabe o ódio ao imigrante.

Estamos vendo que, diante de uma crise ecossocial, impõe-se a fórmula do salve-se quem puder, a lei do mais forte. Isso vale para a geopolítica, mas também vale para o âmbito nacional, no qual todas as instituições que falam de solidariedade estão se deteriorando e começa a ganhar força um discurso que diz: “Se sobra pouco, é melhor que seja para mim”.

Não sejamos hipócritas com as barreiras à imigração. Há um muro entre os Estados Unidos e o México, e no próprio Mediterrâneo, entre a União Europeia. No fundo, a mensagem é a mesma: vocês não podem entrar, mas seus recursos sim. Precisamos ser capazes de opor uma alternativa a essa degradação moral, a essa degradação institucional, porque efetivamente coloca a própria democracia em risco.

Um exemplo disso é que séries como Years and Years ou O conto da Aia hoje parecem absolutamente verossímeis, pois se aproximaram mais de fenômenos históricos que agora estão sendo reproduzidos com suas variações, como a ascensão do fascismo e do nazismo. É que são processos graduais; não é uma catástrofe que acontece da noite para o dia. São processos nos quais os princípios e os valores de democracia e solidariedade, que pareciam eternos, vão se desgastando, vão caindo por terra.

E, de repente, um dia, você descobre que há alguns encapuzados que executam alguém que simplesmente protestava na rua, e o Governo justifica essa execução. Isto exige que a sociedade desperte para proteger a democracia, porque não é um bem que esteja com sua sobrevivência assegurada ao longo do tempo.

Olhando para as próximas eleições, você considera possível uma união da esquerda para enfrentar todos esses desafios?

Seria o ideal, mas estou cético. Penso que a esquerda precisa entender a urgência do problema, pois se assim proceder, será mais tolerante com as alianças que são necessárias para ganhar musculatura suficiente para implementar as políticas que planejamos. Caso contrário, triunfará essa versão mais cinza do ambientalismo, que é uma posição mais defensiva e derrotista. Não devemos ficar paralisados; ainda temos tempo para que os impactos ecológicos sejam menores do que poderão ser. Estamos a tempo de preservar o bem-estar material e a própria democracia do modo como a concebemos idealmente.

Em algum momento, planeja retornar à linha de frente da política?

Não. Isto cabe a outras pessoas. Parece-me legítimo que algumas pessoas continuem, e me parece que é um capital político que é necessário empregar bem, mas no meu caso específico, sigo na política em outras trincheiras. Agora, é a vez de outros.

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