09 Fevereiro 2026
“A crise climática não é só mais um fator, mas um acelerador que reordena prioridades, alianças e conflitos em escala global. Condiciona a concorrência pelos recursos, redefine o valor estratégico de territórios antes periféricos e abre novas rotas comerciais, ao mesmo tempo em que intensifica desigualdades e tensões geopolíticas”, escreve Diego Ferraz Castiñeiras, especialista em temas ambientais, sustentabilidade, mudanças climáticas, transição ecológica e transição energética, em artigo publicado por La Marea-Climática, 25-01-2026. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
O interesse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pela Groenlândia não é novo. Já havia mencionado o assunto no início de seu segundo mandato (em janeiro de 2025), também durante o primeiro (em 2019). Tampouco o interesse dos Estados Unidos. Em 1946, o presidente Harry Truman ofereceu à Dinamarca 100 milhões de dólares pela ilha (o que equivaleria a 1,622 bilhão de dólares ajustados pela inflação), muito distante dos 700 bilhões de dólares oferecidos por Trump. Mas por quê? O que a Groenlândia tem de tão valioso, agora, que não tinha antes? Ou, melhor dito, o que não tem agora que tinha antes? Por que ela é tão estratégica hoje?
Comecemos pelo que ela tem
A Groenlândia possui um subsolo rico em recursos geológicos: petróleo, minerais e terras raras. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) estimou, em 2023, que a maior ilha do mundo pode ter reservas equivalentes a 16,7 bilhões de barris de petróleo bruto e 2,6 bilhões de metros cúbicos de gás fóssil.
No entanto, em 2021, a Groenlândia proibiu novas explorações de petróleo e gás em alto-mar, algo que se Trump assumisse o controle da ilha, certamente, reverteria.
As reservas minerais da Groenlândia também são de interesse especial para a União Europeia. A ilha possui entre 25 e 27 dos 34 minerais críticos identificados pela Comissão Europeia, entre os quais se destacam as terras raras.
Tanto esses minerais críticos quanto as terras raras são essenciais para a fabricação de tecnologias renováveis, baterias, componentes eletrônicos e outros setores industriais cruciais. Além disso, a Groenlândia também possui urânio, lítio, grafite e outros minerais essenciais para a indústria aeroespacial. Concretamente, o USGS estima que a ilha possa ter aproximadamente 36 milhões de toneladas de terras raras e 235.000 toneladas de lítio.
Com esses recursos, Donald Trump poderia tentar enfrentar a China, líder no mercado de produção, processamento e exportação de terras raras.
No entanto, a disputa geopolítica por esses minerais não é o único fator de interesse para o presidente dos Estados Unidos; as novas rotas marítimas no Ártico são outro motivo importante.
O que a Groenlândia não tem ou cada vez tem menos: gelo
Trump pode negar o aquecimento global, mas não pode negar suas consequências: o Ártico está aquecendo muito mais rápido do que o resto do planeta e a Groenlândia é um dos principais epicentros do derretimento. Atualmente, devido ao aquecimento global, perde cinco vezes mais gelo do que há 20 anos, a um ritmo de 30 milhões de toneladas de gelo por hora.
Isso torna as rotas do Ártico cada vez mais importantes no comércio marítimo mundial. Em 2023, o tráfego marítimo no Ártico aumentou 37% em comparação com a década anterior.
O que é verdadeiramente disruptivo é a futura rota transpolar do Ártico, que diminuiria ainda mais o tempo de transporte e, portanto, os custos de logística e combustível. Hoje, existem duas rotas pelo Ártico: a do Noroeste e a do Norte. A primeira foi aberta ao tráfego marítimo, pela primeira vez sem quebra-gelos, em 2007; e a segunda, junto à costa siberiana, em 2017. No entanto, espera-se que a rota transpolar, ou seja, a que cruzaria o Ártico pelo meio, torne-se navegável antes de 2060, tanto no verão quanto no outono. Mais uma vez, assim como as outras rotas, em consequência direta do derretimento provocado pelo aquecimento global.
Nova ordem mundial e o Fórum de Davos
Pode parecer que a relação entre a crise climática e a geopolítica atual esteja sendo forçada, mas tudo o que foi exposto até agora corresponde a dinâmicas muito concretas: a busca por recursos fósseis que perpetuam uma economia responsável pelas mudanças climáticas; a corrida por minerais críticos necessários para a transição energética e tecnológica; e o aproveitamento de novas rotas comerciais abertas pelo próprio aquecimento global. A análise do Fórum Econômico Mundial sobre os principais riscos globais de curto e longo prazo reforça esta leitura: conflitos geopolíticos, desinformação, eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade e escassez de recursos aparecem estreitamente interligados.
Esses espaços costumam ser um momento em que os participantes aproveitam para definir a agenda e enviar mensagens sobre como a humanidade deve enfrentar esses problemas. Uma oportunidade que o presidente Trump não pôde deixar escapar e que, como era de se esperar, utilizou para desinformar sobre as energias renováveis. Concretamente, sobre a China e a energia eólica, dizendo que o país asiático exporta muitas turbinas eólicas, mas não possui esta energia. Mentira que foi rapidamente verificada pelos meios de comunicação.
A China não só lidera a energia eólica em nível mundial, como também possui mais capacidade instalada do que os 18 países seguintes juntos. Além disso, as tarifas estadunidenses não detiveram o crescimento do país asiático nas exportações, nem os Estados Unidos conseguiram competir no mercado global: 70% dos países comercializam mais com a China do que com os Estados Unidos, e mais da metade comercializa pelo menos o dobro. Uma hegemonia que também se estende ao mercado da chamada cleantech, “tecnologia limpa”: veículos elétricos, baterias, painéis solares e turbinas eólicas, hoje, claramente dominado pelo país asiático.
A crise climática não é só mais um fator, mas um acelerador que reordena prioridades, alianças e conflitos em escala global. Condiciona a concorrência pelos recursos, redefine o valor estratégico de territórios antes periféricos e abre novas rotas comerciais, ao mesmo tempo em que intensifica desigualdades e tensões geopolíticas. Nesse contexto, a chamada “nova ordem mundial” não está sendo construída à margem do clima, mas a partir dele: sobre um planeta cada vez mais limitado, mais instável e determinante para as decisões políticas e econômicas do presente.
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