10 Janeiro 2026
"Nas eleições gerais deste ano de 2026, provavelmente surgirá o fascismo que subsiste. Combate-se este fascismo com mais democracia e com o povo na rua. Devem-se enfrentar as razões dos fascistas com a razão sensata e com a coragem de reafirmar os riscos que todos corremos. Deve-se combater duramente quem usa da liberdade para eliminar a liberdade. Devemos unir-nos para preservar vidas e a democracia."
O artigo é de Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor. Escreveu A busca da justa medida (Vozes, 2023), Paixão de Cristo-paixão do mundo (Vozes, 1977), premiado como o livro religioso do ano nos EUA.
Eis o artigo.
Inegavelmente verifica-se um crescendo no mundo e também no Brasil de comportamentos políticos autoritários, da direita clássica e da extrema-direita com claros sinais de fascismo. O ícone desta ascensão autoritária e fascistoide é, sem dúvida, o presidente estadunidense Donald Trump, com seu ufanismo MAGA (Make America Great Again). Segue métodos violentos, como se viu em seu apoio à guerra genocida de Benjamin Netanyahu contra os palestinos da Faixa de Gaza, os bombardeios sobre o Irã e o ataque à Venezuela com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, pondo o país sob administração norte-americana, como se fosse um protetorado.
O fascismo nasceu e nasce dentro de um determinado contexto de anomia, desordem social e crise generalizada como vimos no Brasil no governo de Jair Bolsonaro e um pouco em todas as partes do mundo. É fato que a hegemonia dos Estados Unidos está se esfacelando (mundo unipolar), com o surgimento de outros centros fortes de poder (mundo multipolar). Desaparece o mundo com regras, as certezas estabelecidas se debilitam. Ninguém consegue viver em paz com tal situação.
Cientistas sociais e historiadores como Eric Vögelin (Order and History, 1956; L. Götz, Entstehung der Ordnung, 1954; Peter Berger, Rumor de Anjos: a sociedade moderna e redescoberta do sobrenatural, 1973) mostraram que os seres humanos possuem uma tendência natural para a ordem. Lá onde se assentam, criam logo uma ordem e o seu habitat. Exemplo claro nos dá o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST): lá onde ocupam terras, estabelecem, em primeiro lugar, certa ordem, preservar as fontes de água, conservar a floresta em pé, construir um centro comunitário e distribuir lotes para moradia e produção.
Quando desaparece a ordem, usa-se comumente a violência para impô-la. O Leviatã, de Thomas Hobbes, livro de 1651 (Vozes, 2020), elaborou o arcabouço teórico desta necessidade de ordem criada pelo uso da força. Todos os impérios, desde aquele dos romanos até o russo e o atual norte-americano, especialmente sob Donald Trump, não ocultam sua excepcionalidade e se acercam ao Estado descrito por Hobbes, sempre alegando razões de segurança.
O nicho do fascismo, portanto, encontra seu nascedouro nesta desordem. Assim o final da Primeira Guerra Mundial gerou um caos social, especialmente na Alemanha e na Itália. A saída foi a instauração de um sistema autoritário, de dominação que capturou a representação política, mediante um único partido de massa, hierarquicamente organizado, enquadrando todas as instâncias, a política, a economia e a cultura numa única direção. Isso só foi possível mediante um chefe (Führer na Alemanha e o Duce, na Itália) que organizaram um Estado corporativista autoritário e de terror.
Como legitimação simbólica cultuavam-se os mitos nacionais, os heróis do passado e as antigas tradições, geralmente num quadro de grandes liturgias políticas com a inculcação da ideia de uma regeneração nacional. Esta visão foi tão tentadora que capturou, por um curto tempo, o maior filósofo do século XX, Martin Heidegger, feito reitor da Universidade de Friburgo i. B. Especialmente na Alemanha, os seguidores de Adolf Hitler se investiram da convicção de que a raça alemã branca é “superior” às demais, com o direito de submeter e até de eliminar as inferiores.
Nos Estados Unidos, atualmente, o supremacismo da raça branca encontra nessa visão seu embasamento prático. No Brasil, a estratégia do governo de Jair Bolsonaro foi perversa: destruir todo um passado, seja na cultura, nas leis sociais e ambientais, seja nos costumes, e implantar um regime com nítidos indicadores do pré-iluminismo, inspirados pelo lado escuro do passado.
A palavra fascismo foi usada pela primeira vez por Benito Mussolini em 1915 ao criar o grupo “Fasci d’Azione Revolucionaria”. Fascismo deriva do feixe (fasci) de varas, fortemente amarradas, com um machado preso ao lado. Em 1922-1923 fundou o Partido Nacional Fascista, que perdurou até sua derrocada em 1945. Na Alemanha, estabeleceu-se a partir de 1933 com Adolf Hitler, que ao ser feito chanceler criou o Nacional Socialismo, o partido nazista que impôs ao país dura disciplina, vigilância e pavor.
O fascismo se apresentou como anticomunista, anticapitalista, como uma corporação que vai além das classes e cria uma totalidade social cerrada. A vigilância, a violência direta, o terror e o extermínio dos opositores são características do fascismo histórico de Benito Mussolini e de Adolf Hitler e, entre nós, de Augusto Pinochet no Chile, de Jorge Rafael Videla na Argentina e no governo de João Figueiredo e Emílio Garrastazu Médici no Brasil.
O fascismo nunca desapareceu totalmente, pois sempre há grupos que, movidos pelo arquétipo fundamental da ordem, querem impô-la até com violência. Em nome desta ordem, o governo de Jair Bolsonaro fez emergir o lado sombrio de nossa alma brasileira, usando a violência simbólica (fake news) e real, defendendo a tortura e torturadores, a homofobia e outras distorções sociais.
O fascismo sempre foi criminal. Criou a Shoah (eliminação de milhões de judeus e outros). Usou a violência como forma de se relacionar com a sociedade, por isso nunca pode nem poderá se consolidar por longo tempo. É a perversão maior da sociabilidade que pertence à essência do ser humano social. No Brasil, ganhou uma forma trágica: o governo de Jair Bolsonaro se opôs à vacina contra o Covid-19, estimulou as conglomerações de pessoas, ridicularizou o uso da máscara e não mostrou qualquer sentido de empatia pelos familiares, pois deixou morrer mais de 300 mil dentre os 716.626 vitimados.
Querendo se perpetuar no poder, Jair Bolsonaro forjou uma organização criminosa com militares de alta patente e outros, tentando dar um golpe de Estado com o eventual assassinato das mais altas autoridades, a fim de impor sua visão tosca do mundo. Mas foram denunciados, julgados e condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e assim nos livramos de um tempo de trevas e de crimes hediondos.
Nas eleições gerais deste ano de 2026, provavelmente surgirá o fascismo que subsiste. Combate-se este fascismo com mais democracia e com o povo na rua. Devem-se enfrentar as razões dos fascistas com a razão sensata e com a coragem de reafirmar os riscos que todos corremos. Deve-se combater duramente quem usa da liberdade para eliminar a liberdade. Devemos unir-nos para preservar vidas e a democracia.
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