31 Março 2025
O que “desmoronou” sob os golpes do devastador terremoto de magnitude 7,7, é um país já esmagado por anos de ditadura militar, minado pela pobreza e curvado por desigualdades cada vez mais acentuadas, varrido por uma guerra civil que continua a fazer vítimas e ameaça pulverizar sua unidade. Os dados de Mianmar mostram uma situação dramática, exacerbada pela tomada de poder pelos militares em fevereiro de 2021. Setenta e seis por cento da população birmanesa está vivendo abaixo ou perigosamente perto de uma existência de subsistência. A taxa de pobreza disparou, quase dobrando em um punhado de anos: de 24,8% em 2017 para 49% em 2023. A miséria agora está agredindo até mesmo áreas urbanas antes consideradas ricas, como Yangon e Mandalay.
A reportagem é de Luca Miele, publicada por Avvenire, 29-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
A classe média do país encolheu 50% nos últimos três anos. Como aponta um relatório do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, o país está registrando “uma crescente feminização da pobreza, com famílias chefiadas por mulheres que têm 1,2 vezes mais probabilidade de viver na pobreza em comparação com aquelas chefiadas por homens”.
Há dois dias, o chefe da junta no poder em Mianmar, General Min Aung Hlaing, prometeu “eleições livres e justas”, indicando até mesmo um prazo para a eleição: o próximo dezembro. Uma “pressa” que muitos analistas associam à situação cada vez mais precária no local. Um estudo da BBC estimou que o exército - acusado “de bombardear repetidamente locais civis, incluindo escolas e hospitais, incendiar aldeias, realizar assassinatos em massa e torturar seus opositores em uma tentativa desesperada de permanecer no poder” - controla apenas 21% do território.
Paradoxalmente, o drama do terremoto poderia fortalecer os militares graças a uma gestão centralizada das ajudas internacionais, que a junta imediatamente reivindicou. Outro drama dentro do drama: a situação dos Rohingyas, pegos no fogo cruzado entre o exército birmanês e seu inimigo no Estado de Rakhine, a milícia de Arakan, que assumiu o controle de grande parte do território. Os Rohingyas denunciam que foram submetidos a recrutamento forçado pela junta, bem como a ataques mortais da milícia, que os acusa de estarem do lado do exército.
#MyanmarEarthquake2025 “With bare hands, we have saved one”
— Hnin Zaw (@hninyadanazaw) March 29, 2025
Civilians in #Mandalay are rescuing earthquake victims under the rubbles without any equipments, and are in dire need of dead body bags, water, phone charging stations and assistance.
Video: Su San pic.twitter.com/TkmPv0Fxa5
A situação não é melhor para aqueles que se abrigam em Bangladesh para escapar dos violentos expurgos sofridos em Mianmar: cerca de um milhão de pessoas amontoadas em gigantescos campos de refugiados. “Nossos sistemas de alimentação, saúde e educação estão desmoronando”, disse Mohammad Jubair, um proeminente líder da comunidade Rohingya, à Reuters. “Se a situação sair do controle, não será apenas um problema para o Bangladesh, mas se tornará uma questão global”, disse ele.
Uma preocupação especial é o esgotamento dos fundos da Usaid. Os EUA têm sido o maior fornecedor de ajudas aos refugiados Rohingya, contribuindo com quase US$ 2,4 bilhões desde 2017. O congelamento dos fundos forçou cinco hospitais financiados pelos EUA a reduzir os serviços, disse Mohammed Mizanur Rahman, a principal autoridade de Bangladesh que supervisiona os campos de refugiados, no mês passado. Cerca de 48 instalações de saúde, incluindo 11 centros de atendimento primário, foram atingidas, deixando muitos refugiados sem acesso a cuidados essenciais.