06 Agosto 2026
Leão XIV retornou a Roma mês passado justamente quando um dos conflitos mais duradouros da Igreja voltou aos holofotes.
A informação é de Claire Giangravé, publicado por America, 04-08-2026.
O Papa Leão XIV retornou a Roma no fim de julho, após suas férias de verão, justamente quando um dos conflitos internos mais duradouros da Igreja Católica voltou aos holofotes.
Prelados de destaque se enfrentaram na televisão católica e nas redes sociais sobre como lidar com os católicos apegados à tradicional Missa em Latim, que havia sido fortemente restringida pelo Papa Francisco em 2021.
As guerras litúrgicas, como são chamadas nos círculos católicos, dizem respeito a como a Missa expressa a teologia, a autoridade e a tradição da Igreja. Depois que a Igreja introduziu o novo rito, ou Novus Ordo, em 1969, alguns fiéis permaneceram apegados à Missa tradicional, celebrada em latim e com o padre de costas para a congregação.
O Papa Bento XVI tentou sanar essa ruptura com um decreto de 2007, a Summorum Pontificum, que permitia aos fiéis assistir à Missa em Latim sem a aprovação do bispo e possibilitava que grupos estáveis de paroquianos solicitassem o rito antigo.
Bento esperava que o decreto promovesse a reconciliação, particularmente com a tradicionalista Fraternidade Sacerdotal São Pio X (SSPX), que defendia a Missa em Latim e rejeitava as reformas do Concílio Vaticano II destinadas a reconciliar a Igreja com a sociedade moderna.
O Papa Francisco reverteu a abertura de seu predecessor em relação à Missa em Latim em 2021, ao emitir a Traditionis Custodes, restabelecendo o controle episcopal e vaticano sobre onde e por quem o rito antigo poderia ser celebrado. Francisco acreditava que as Missas tradicionais em Latim eram um terreno fértil para a oposição às reformas do Vaticano II e à autoridade papal.
Agora o Papa Leão, que fez da unidade o tema central de seu pontificado, herdou um tenso campo de batalha litúrgico que já dividiu a Igreja. Bispos da SSPX incorreram em excomunhão automática em 1º de julho, quando a SSPX consagrou quatro bispos sem aprovação papal; e, embora a liturgia não tenha sido o único motivo para a ruptura oficial, a SSPX é indissociável da Missa tradicional em Latim.
Dom Salvatore Cordileone, de São Francisco, que se opõe às restrições à Missa em Latim, pediu em uma publicação no X, em 10 de julho, "mais acesso à Missa tradicional em Latim para os fiéis, mas também Missas Novus Ordo mais reverentes, inspiradas na tradição".
O Cardeal Arthur Roche, chefe da liturgia do Vaticano e principal defensor institucional das restrições do Papa Francisco ao rito antigo, em entrevista de 29 de julho ao The Tablet, aparentemente desmentiu as esperanças de que Leão pudesse revogar a Traditionis Custodes.
"É uma área muito complexa. E é uma área muito importante, porque a Eucaristia é o sacramento da unidade", reconheceu. "Mas não, o Papa Leão não vai mudar a Traditionis Custodes, e ele não vai voltar à Summorum Pontificum."
O comentário provocou debate entre os católicos nas redes sociais e além. Cordileone respondeu a Roche durante uma entrevista à rede de televisão católica EWTN. Ele argumentou que, se as restrições de Francisco não forem levantadas, alguns fiéis "vão então para esses outros grupos que não estão em plena comunhão com a Sé de Roma", em referência a grupos como a SSPX.
Apenas 2% dos católicos dos Estados Unidos, cerca de 1 milhão de pessoas, afirmaram frequentar semanalmente a Missa em Latim, segundo um estudo de 2025 do Pew Research Center.
Mas os sociólogos Stephen Cranney e Stephen Bullivant, autores do livro em breve a ser lançado "Trads: Latin Mass Catholics in the United States" (Tradicionalistas: católicos da missa latina nos EUA, em tradução livre), estimam que apenas entre 100 mil e 110 mil católicos assistem à Missa tradicional em Latim em um domingo típico nos Estados Unidos. Estudos mostram que muitos desses fiéis do rito antigo não se identificam com a SSPX e reconhecem a autoridade papal. Esses achados corroboram pesquisas semelhantes realizadas ao longo dos anos.
Na entrevista, Cordileone questionou o quanto Roche realmente "conhece a mente" do papa. Na estrutura hierárquica da Igreja, o modo como Leão se posiciona em relação à Missa em Latim determinará o rumo atual das guerras litúrgicas.
Em março, Leão escreveu uma mensagem aos bispos da França, país que, assim como os Estados Unidos, tem vivido tensões em torno da Missa em Latim e um aumento de jovens convertidos em busca de espiritualidade em rituais antigos. O papa pediu "soluções concretas" que permitam a "inclusão generosa" dos católicos sinceramente apegados ao rito antigo.
"É preocupante que uma ferida dolorosa continue se abrindo dentro da Igreja no que diz respeito à celebração da Missa, o próprio sacramento da unidade", dizia a mensagem de Leão, transmitida pelo Cardeal Pietro Parolin.
A carta foi interpretada como um sinal de que Leão poderia ao menos suavizar as restrições, incentivando os bispos a permitir a celebração da Missa em Latim em suas dioceses, mas não indicou qualquer intenção de revogar a Traditionis Custodes.
Até o momento, Leão tem permitido celebrações da Missa em Latim de forma seletiva. Em outubro de 2025, ele autorizou o conservador Cardeal Raymond Burke a celebrar a Missa no rito antigo na Basílica de São Pedro, e o Vaticano recentemente concedeu ou manteve isenções temporárias para algumas dioceses.
Mais recentemente, em 25 de julho, Leão nomeou Cordileone como um dos sete novos membros do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, a mais alta corte do Vaticano, que analisa disputas sobre governança eclesiástica e supervisiona a administração da justiça. Leão também nomeou o veterano canonista Dom Juan Ignacio Arrieta, que, poucos dias antes, havia levantado questionamentos sobre algumas das consequências jurídicas mais amplas atribuídas às excomunhões da SSPX.
Como canonista, é provável que Leão tenha ponderado essas nomeações com cuidado. Elas podem conferir credibilidade conservadora a qualquer futura ação jurídica do Vaticano envolvendo a SSPX.
Nossa maior janela para "a mente do Santo Padre" a respeito da Missa em Latim está na entrevista que ele concedeu em 2025 a Elise Ann Allen, do Crux, na qual refletiu sobre as inúmeras cartas e pedidos que recebeu relacionados à celebração do rito antigo.
Embora admitisse que a situação é "obviamente muito complicada", Leão demonstrou compreensão profunda do que afastou muitos fiéis da liturgia reformada. Ele apontou um "abuso" em algumas das Missas pós-Concílio Vaticano II que levou católicos a buscar uma oração mais profunda e o contato com o mistério da fé.
Mas ele também pareceu compartilhar as preocupações de seu antecessor, Francisco, ao afirmar que, para alguns, a liturgia se tornou "uma ferramenta política" e alimentou uma polarização ideológica tão intensa que "as pessoas não estão dispostas a se ouvir umas às outras".
Se a excomunhão da SSPX nos ensinou algo sobre este papa, é que Leão está disposto a buscar uma opção unificadora, desde que haja possibilidade de diálogo. Ele escreveu um apelo pessoal à SSPX, pedindo que "por favor, voltassem atrás", apelo que foi prontamente ignorado. Na entrevista, Leão relatou que bispos haviam convidado grupos tradicionalistas para conversar sobre a Missa em Latim, mas o convite foi recusado. A forma como o papa vai lidar com essas tensões pode depender da disposição dos fiéis da Missa em Latim para o diálogo e para a busca de um meio-termo.
Uma oportunidade para esse diálogo pode surgir entre os dias 25 e 28 de setembro, quando Leão visita a França, país que abriga uma das comunidades de católicos apegados à liturgia antiga maiores e que mais crescem no mundo.
Uma peregrinação tradicionalista anual de Paris a Chartres cresceu de cerca de 12 mil participantes em 2022 para cerca de 20 mil neste ano, composta majoritariamente por jovens. A Notre-Dame de Chrétienté, associação responsável pela peregrinação, também foi convidada a ajudar a mobilizar voluntários para a visita do papa — um reconhecimento de um movimento que é difícil para a Igreja francesa ou para Roma descartar como marginal ou em declínio.
Leão chegará, portanto, à França diante da pergunta que ele mesmo colocou aos bispos do país em março: se os católicos apegados ao rito antigo podem ser "generosamente incluídos" sem que a liturgia se torne um instrumento de rejeição ao Concílio Vaticano II ou à autoridade papal.
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