01 Julho 2026
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) provocará excomunhão automática em 1º de julho de 2026 ao ordenar quatro bispos sem mandato papal, consolidando um cisma permanente e uma rejeição total do Concílio Vaticano II.
O artigo é de Massimo Faggioli, publicado por Global Catholic, 30-06-2026.
Massimo Faggioli é professor no Instituto Loyola do Trinity College Dublin. Seu livro mais recente é Teologia e ensino superior católico: além da nossa crise de identidade (Orbis Books).
Eis o artigo.
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), fundada em Écône, na Suíça, em 1970, pelo arcebispo francês Dom Marcel Lefebvre em oposição às reformas do Concílio Vaticano II, é um pequeno grupo que afirma ter cerca de 600 mil membros e 700 sacerdotes em 77 países.
Mas a FSSPX é a mais importante na galáxia do ultratradicionalismo católico, e sua decisão de ordenar, sem mandato pontifício, quatro novos bispos em 1º de julho (a segunda vez, depois dos primeiros quatro em 1988) constitui um momento importante na história da Igreja Católica pós-Vaticano II.
A pena para a ordenação de bispos sem a permissão do papa é a excomunhão latae sententiae (automática).
Na Igreja Católica, nenhum bispo pode ordenar outro bispo sem o consentimento do Bispo de Roma (Código de Direito Canônico de 1983, cân. 1013). Aqueles que o fazem deixam a comunhão e se excomungam por ato cismático (Código de Direito Canônico de 1983, cân. 1387).
Veremos como o Papa Leão XIV, canonista de formação, abordará a questão de como essa comunidade de católicos fervorosamente contrários ao Vaticano II e os católicos em comunhão com Roma manterão algum tipo de relacionamento, como membros da grande e diversa família cristã.
Certamente, trata-se agora de um ecumenismo muito peculiar, algo que os bispos do Vaticano II não imaginaram quando aprovaram a Unitatis Redintegratio, o decreto de 1964 sobre as relações com as Igrejas e tradições não católicas.
As tentativas frustradas do Vaticano de convencer a FSSPX
As tentativas do Vaticano de convencer a FSSPX a evitar esse passo traumático fracassaram. As negociações das últimas décadas, especialmente durante o pontificado de Bento XVI, foram um fracasso diplomático, mas um sucesso doutrinal para Roma, na medida em que deixaram claro que a aceitação dos ensinamentos do Vaticano II não é uma questão negociável.
A concessão feita por Bento XVI em 2007 sobre a liturgia (motu proprio Summorum Pontificum) não surtiu efeito no sentido de uma reconciliação da FSSPX com Roma, ao mesmo tempo que causou outros efeitos colaterais entre os católicos em comunhão com Roma.
A suspensão da excomunhão, decidido unilateralmente por Bento XIV em 2009, não resultou em reconciliação.
O reconhecimento por Francisco da validade dos sacramentos da confissão (2015) e do matrimônio (2017) administrados pela FSSPX também não surtiu efeito. A abolição por Francisco, em 2019, da Comissão Vaticana “Ecclesia Dei” (criada por João Paulo II após o ato cismático de 1988) representou provavelmente um ponto de não retorno na história das relações entre Roma e Écône, uma virada para o realismo, abandonando o idealismo da fase anterior.
O Papa Leão XIV e o prefeito do Dicastério para a Fé, Cardeal Víctor Manuel Fernández, apelaram à FSSPX nas últimas semanas, sem sucesso. Em uma conversa informal com jornalistas em 16 de junho, Leão XIV disse: “Certamente, a divisão entre os cristãos é sempre um ponto doloroso. Mas eles se recusam a aceitar certos elementos fundamentais da Igreja, a começar por vários pontos do Concílio Vaticano II. Se fazem essa escolha, lamento, mas devemos seguir em frente.”
De fato. Ficou claro que a única passagem possível para uma reconciliação formal implicaria, para Roma e aqueles em comunhão com Roma, algo como uma rejeição do Vaticano II – e não apenas da reforma litúrgica, mas de todo o seu conteúdo: da constituição Dei Verbum sobre a interpretação da Bíblia à declaração Dignitatis Humanae e sua rejeição do antissemitismo pela Igreja Católica.
Isso fica claro na Profissão de Fé Católica da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, de 28 páginas, para iluminar as almas diante dos erros modernos, de 24 de junho, documento acompanhado de uma carta assinada pelo superior geral Davide Pagliarani, juntamente com os superiores principais e ex-superiores gerais da Fraternidade.
Este documento afirma, entre outras coisas, que as religiões não cristãs são “obra do diabo” (parágrafo 62) e que os chefes de Estado têm o dever de não reconhecer organizações religiosas que não sejam a Igreja Católica, rejeitando o princípio falso e herético da liberdade religiosa, que dá a todos o direito de agir publicamente de acordo com a sua própria consciência, sem serem impedidos de o fazer pela autoridade civil.
Uma passagem da carta afirma que “os erros modernos representam uma ameaça terrível para toda a ordem católica e que a sua penetração na vida da Igreja, sob a influência do Concílio Vaticano II e das reformas pós-conciliares, provocou uma crise de excepcional gravidade” (parágrafo 145).
Trata-se de uma oposição total a um concílio que é um marco (não o único, nem o último) na tradição católica, convocado por São João XXIII, promulgado por São Paulo VI e confirmado por todos os seus sucessores.
Nunca houve qualquer intenção real da FSSPX de negociar com Roma no sentido de abrir espaço para o Concílio Vaticano II, pois a rejeição do Vaticano II é a razão de sua existência. É muito significativo que essa ruptura esteja ocorrendo no mesmo ano em que o Papa Leão XIV dedica todas as catequeses das audiências gerais de 2026 ao Vaticano II (e, nestas últimas semanas, à constituição litúrgica Sacrosanctum Concilium).
A interpretação da tradição pela FSSPX é que não há interpretação: apenas a letra dos documentos da tradição pré-Vaticano II que eles optam por seguir – uma ideia fundamentalista de religião. Nas notas de rodapé, a já mencionada Profissão de Fé Católica da Fraternidade Sacerdotal São Pio X cita 26 vezes o Concílio de Trento (1545-1563), que não foi uma mera repetição do passado, mas um momento de reinterpretação da tradição católica.
Para a FSSPX, existe o problema de manter sua participação de mercado.
Apesar de a FSSPX afirmar defender a continuidade absoluta, existem também diferenças significativas em relação ao momento da ruptura anterior, em 1988.
O primeiro ponto é o efeito da internet na religião. Este pequeno grupo demonstra a típica adaptabilidade dos movimentos religiosos fundamentalistas contemporâneos à modernidade. A FSSPX não é um desses grupos que rejeitam a internet como demoníaca. Há um site dedicado ao evento de 1º de julho. Há também uma página de merchandising cuidadosamente elaborada para a venda de souvenirs. Essa preocupação com a comunicação online não é apenas uma operação para gerar lucro, mas faz parte integrante da cultura da nova geração de ultratradicionalistas. É o uso da tecnologia moderna contra a cultura moderna – algo que também observamos em outras tradições religiosas.
A segunda grande diferença é que a FSSPX também foi afetada pela fragmentação das identidades religiosas. A internet ofereceu aos católicos antimodernos e anti-Vaticano II muito mais opções. A primeira geração do tradicionalismo cismático, nas décadas de 1970 e 1980, se posicionava em um quadro preto e branco – com Roma ou conosco. Agora, a relação entre Roma e a galáxia de pequenos grupos tradicionalistas é composta por muitos tons de cinza.
Para a FSSPX, existe o problema de manter sua participação de mercado. As ordenações de 1988 foram como a oferta pública inicial (ou IPO) dessa nova marca. Agora, intencionalmente ou não, as ordenações episcopais de 1º de julho equivalem a uma empresa vendendo novas ações para captar mais capital.
Terceiro: a história multigeneracional da FSSPX torna muito mais difícil a perspectiva de uma reconciliação. Essas ordenações episcopais são um passo rumo à consolidação não apenas de uma estrutura eclesiástica paralela, mas também de uma tradição teológica paralela cada vez mais distante da católica, tal como articulada pelos papas, pelos sínodos, pelo Vaticano e pela vida da Igreja Católica universal.
Esse fator geracional também afeta Roma: ao contrário de Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI, o Papa Leão XIV, nascido em 1955, nunca esteve presente no Concílio Vaticano II com Dom Marcel Lefebvre. Resta saber se haverá novas medidas formais – além daquelas já tomadas por todos os papas desde Paulo VI – em direção aos membros da FSSPX que estão abertos a um retorno à plena comunhão com Roma.
Quarto: veremos como esse ato cismático reposicionará os católicos que nutrem uma retórica simpatizante da FSSPX, embora não tão secreta. Diferentes lealdades se sobrepõem aqui. Isso fica claro entre aqueles que defendem mais concessões de Roma para a "Missa Latina" pré-Vaticano II, a fim de continuarem a fundamentar seus argumentos contra o Vaticano II.
A verdadeira questão reside nos efeitos dessa ruptura com os tradicionalistas sobre os católicos em comunhão com Roma que nutrem simpatia pela FSSPX: não apenas aqueles que se solidarizam, em nível humano, com uma comunidade de cristãos equivocados (como eu), mas também aqueles que têm afinidade teológica com a maneira como a FSSPX encara o Vaticano II.
Em última análise, o tradicionalismo da FSSPX não é uma questão que será resolvida pela lei – a excomunhão latae sententiae – e não é apenas um problema externo à Igreja. Leão XIV sabe disso. A decisão de proferir uma série de catequeses sobre o Concílio Vaticano II durante as audiências gerais de quarta-feira ao longo do ano interpreta a recepção do Concílio como uma questão eclesial, e não meramente teológica ou jurídica.
Leão XIV está substituindo a batalha sobre a hermenêutica conciliar dos pontificados anteriores por um retorno aos textos conciliares e seus autores. Este momento é um apelo a todos aqueles que têm voz na Igreja Católica – a começar pelos bispos – para que apoiem o esforço do Papa Leão XIV em ampliar o alcance da Igreja do Vaticano II.
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