Rumo a um novo internacionalismo numa era de guerra. Artigo de Michael Hardt e Sandro Mezzadra

Foto: Ali Jadallah | Anadolu

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26 Junho 2026

"A libertação é o que distingue o internacionalismo de uma compreensão meramente geopolítica do anti-imperialismo. O anti-imperialismo, por si só, não é uma política. As aventuras imperialistas devem ser combatidas, mas o que realmente importa é abrir espaços onde as táticas de resistência possam conduzir a horizontes estratégicos de libertação", escrevem Michael Hardt, professor de teoria literária e filosofia política na Duke University e autor, entre outros livros, com Antonio Negri, de Bem-estar comum (Record), e Sandro Mezzadra, professor de teoria política na Universidade de Bolonha e autor, entre outros livros, de A crise da economia global (Civilização Brasileira), na New Left Review. A tradução é de Augusto Jobim do Amaral.

Eis o artigo.

Mesmo em tempos tão sombrios como estes, é agora que precisamos falar de libertação. Os atuais conflitos militares iniciados pelos Estados Unidos e por Israel revelaram a força e a pressão contínuas das dinâmicas e dos processos globais, numa situação em que o mercado mundial se apresenta ao mesmo tempo fragmentado e efetivo. Perante a proliferação de guerras e de regimes de guerra, são necessárias novas teorias e práticas de internacionalismo para organizar a resistência a estas ameaças. Um novo internacionalismo deve, no entanto, criar também um projeto positivo, gerando as bases de uma luta comum pela libertação. Este artigo é dedicado a esta ligação necessária entre o internacionalismo e uma política de libertação. Antes de abordarmos o internacionalismo, porém, precisamos fazer um balanço dos perigos e limites das formas atuais de imperialismo e guerra, em parte porque as dinâmicas militares e econômicas globais persistentes confirmam a possibilidade e a necessidade de uma política internacionalista hoje em dia.

Ver o mundo no reflexo de Ormuz

Os ataques massivos contra o Irã, que tiveram início no final de fevereiro de 2026, revelaram, de facto, os limites do poder dos EUA e de Israel. A resistência do Irã e a sua sobrevivência aos ataques revelaram uma nova modalidade de guerra assimétrica, simbolizada pelo Estreito de Ormuz. A estratégia dos EUA e de Israel consistiu em atacar o que consideravam ser o centro do poder iraniano. Assassinatos direcionados de figuras-chave políticas, religiosas e militares, bem como ataques a instalações militares essenciais e infraestruturas estratégicas, deveriam precipitar a queda do regime e anular as suas capacidades militares. Em vez disso, apesar das enormes perdas, as estruturas descentralizadas e interligadas do poder político e militar do Irã revelaram-se resilientes. Isto se assemelha, mas também se difere em aspectos importantes, das concepções anteriores sobre a guerra assimétrica, que se baseava principalmente em táticas de guerrilha e milícias não-estatais enfrentando uma ocupação militar. O Irã desenvolveu uma estratégia estatal, que funciona mesmo na ausência de uma força de ocupação para atacar. A descentralização permitiu ao Irã resistir aos bombardeamentos extremos e manter algumas capacidades militares eficazes.      

O mais significativo foi a transformação do Estreito de Ormuz numa arma pelo Irã, tendo-se tornado o principal centro logístico cuja importância se estende muito para além do mercado petrolífero. Com pequenas embarcações de ataque e minas — ou mesmo simplesmente com a ameaça de as utilizar —, o Irã efetivamente atingiu não só o mercado energético global, mas também, como explica Adam Hanieh[1], o mercado alimentar global, que necessita de fertilizantes para os métodos atuais de produção agrícola. O Irã, dada a sua posição geográfica, transformou a dependência do transporte marítimo através do estreito numa arma que ameaça especialmente as economias e as estruturas de poder da região. O modelo de desenvolvimento econômico do Golfo, de enorme sucesso, com os seus aeroportos resplandecentes e os seus horizontes urbanos reluzentes, foi destruído no espaço de poucos dias, com o surgimento das tensões entre os Estados e, mais notavelmente, entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Estas divisões também lançaram no caos o projeto de Israel de alianças econômicas e de segurança regionais. Sem o apoio destas alianças, as guerras expansionistas de Israel, incluindo as atuais incursões militares do sul do Líbano até Beirute, passam subitamente a se assentar em terreno menos estável, acentuando mais ainda a lógica da ocupação militar, da limpeza étnica e da anexação territorial para justificar a sua continuação.

Além disso, no Estreito de Ormuz, o Irã também conseguiu virar o mercado mundial contra os Estados Unidos, demonstrando a interdependência persistente do sistema capitalista global. Os Estados Unidos há muito procuravam a independência energética e pensavam tê-la alcançado através do aumento da produção interna de petróleo e gás. Mas a reação do mercado mundial ao fechamento do Estreito de Ormuz provou que tal autonomia não é possível. Algumas regiões sofrem as consequências das perturbações logísticas e do aumento dos preços da energia mais do que outras, mas mesmo as economias supostamente independentes são profundamente afetadas. O mundo não é plano, mas o mercado mundial continua a impor o seu poder e as suas condições, precisamente através das fraturas que cada vez mais o atravessam. É irônico que o Irã, relativamente isolado no sistema internacional, seja a nação a demonstrar a persistência das dinâmicas globais e a inevitabilidade das suas pressões.

Nos primeiros dias desta onda de bombardeamentos norte-americanos e israelitas com os seus armamentos militares, reforçados por inteligência artificial e sistemas de vigilância, pareciam invencível, mas, neste momento, a situação revelou, pelo contrário, os verdadeiros limites do seu poder. A força destrutiva destes arsenais mortíferos é inegável, tal como o sofrimento que causam. No entanto, todo esse poder de fogo revelou-se incapaz de atingir os objetivos declarados e de derrotar um inimigo com capacidades militares muito inferiores. Mais uma vez, a guerra assimétrica virou tais suposições de cabeça para baixo.

O memorando de entendimento assinado pelos Estados Unidos e pelo Irã em 17 de junho não alterou substancialmente a situação. Limita-se a confirmar o impasse, que não conduzirá a uma paz verdadeira, mas sim à continuação do regime de guerra, ou seja, uma racionalidade governamental que inclui uma generalização de confrontos militares de baixa e alta intensidades contígua a uma militarização das relações económicas e sociais. A guerra deixa de ser uma condição excepcional e torna-se um mecanismo permanente de governo num mundo fragmentado. Este regime de guerra desenvolve-se no contexto da persistente presença e pressão das dinâmicas de processos globais que são tão evidentes no Estreito de Ormuz.

Estas dinâmicas e processos globais, embora muitas vezes invisíveis, estão no cerne do regime de guerra global em desenvolvimento. Como podemos intervir nestes processos e traçar novos caminhos para destruir e ultrapassar um estado perpétuo de perturbação e destruição? Que tipo de internacionalismo pode enfrentar a atual conjuntura de guerra?

Um internacionalismo multinível

Embora muitos acadêmicos e ativistas sintam que os apelos ao internacionalismo estão longe das nossas vidas cotidianas e das lutas concretas nas quais investimos as nossas paixões, deve ficar claro que o que está em jogo no internacionalismo hoje está longe de ser abstrato. Não devemos ficar presos aos velhos debates entre o global e o local, como se estas fossem escolhas e terrenos excludentes.

Por um lado, as pressões e forças globais são muito reais e ativas nas situações locais do dia a dia, de uma forma diferente daquelas do Estreito de Ormuz, mas não menos eficazes. Por outro lado, inúmeras ligações concretas e ressonâncias poderosas entre as lutas locais já podem ser vislumbradas, mas precisam de ser enfatizadas e desenvolvidas.

Um dos sucessos do movimento antiglobalização no início do milénio foi traçar as ligações entre produção e consumo. Por exemplo, os "Students against Sweatshops" [Estudantes contra as fábricas de exploração] demonstraram como a roupa e as mercadorias vendidas nas grandes cadeias de lojas em São Francisco e Londres dependem de condições de trabalho abomináveis no Camboja e no Vietnã. Estas ligações podem não ser imediatamente visíveis, mas estão logo abaixo da superfície.

A totalidade do capital global resiste à representação, como muitos, entre os quais Fred Jameson[2], têm observado. O projeto cinematográfico incompleto de Eisenstein sobre O Capital pode servir de emblema desta dificuldade[3]. Mas podemos, ainda assim, revelar algumas das suas trajetórias e instâncias, bem como as estruturas de poder concretas e os atores em que se baseia. Além disso, o mundo que o capital cria — ou, para ser mais preciso, o mundo que resulta das múltiplas formas de exploração capitalista e desapropriação do trabalho vivo e das populações subalternas — está longe de ser homogêneo. É, antes, definido por vetores tanto homogeneizantes como heterogeneizantes, composto por diversos regimes políticos, econômicos e sociais. Embora a totalidade não possa ser apreendida, podemos alcançar compreensões parciais e funcionais dos contornos e do funcionamento do capital global.

Tal como o mundo capitalista é heterogéneo, também o são as lutas que o confrontam em todo o mundo. A multiplicidade e a diversidade destas lutas constituem a base e a referência inevitáveis para qualquer projeto internacionalista hoje em dia. Assim, tal projeto deve ter uma constituição mista e ser levado a cabo em vários níveis que funcionem em conjunto.

Embora o internacionalismo deva ser um projeto de insurgência que combata a ordem existente, até mesmo os Estados-nação e as instituições supranacionais podem dar contributos valiosos em algum nível. Em alguns aspectos, isto dá continuidade às tradições internacionalistas do século XX de colaborações entre Estados e movimentos, desde a Comintern[4] até Bandung[5]. Nos últimos anos, por exemplo, os projetos de aliança regional entre governos progressistas na América Latina apontaram para, e funcionaram como — de forma limitada e apesar das suas contradições —, uma alternativa ao neoliberalismo e ao Consenso de Washington. Mais recentemente, o processo de genocídio interposto pela África do Sul contra Israel no Tribunal Internacional de Justiça demonstrou outro caminho institucional. A África do Sul usou efetivamente a infraestrutura institucional supranacional para abrir um novo espaço para os movimentos de apoio à Palestina em diversos contextos nacionais. O processo fortaleceu os movimentos, em parte, ao validar a acusação de genocídio em termos jurídicos.

Os Estados e as instituições supranacionais, no entanto, embora possam desempenhar papéis significativos, não podem ser a única, nem mesmo a principal força do internacionalismo hoje em dia. Os movimentos sociais e os projetos ativistas são a fonte da inovação política e os componentes necessários de qualquer projeto internacionalista. Temos de considerar os movimentos sociais para além da simples imagem de faixas e marchas, bem como das interpretações restritivas proporcionadas pelos modelos sociológicos. Os movimentos incluem uma panóplia de práticas e comportamentos coletivos que confrontam ativamente e coexistem em tensão com as estruturas de poder institucionais. Além disso, temos de libertar a nossa concepção de movimentos sociais das antigas divisões entre teoria e prática. Os movimentos são também incubadoras conceituais que desenvolvem coletivamente conceitos e compreensões funcionais do mundo.

É importante ressaltar que o internacionalismo deve ser um projeto multinível também em termos espaciais. Um dos obstáculos enfrentados pelo movimento antiglobalização foi o pressuposto de que, para intervir nos processos globais, era necessário deslocar-se aos centros de poder e às cúpulas, de Seattle a Gotemburgo e Gênova. Isto criou uma espécie de divisão de tarefas entre os ativistas que podiam viajar para o estrangeiro e aqueles que permaneciam a trabalhar em contextos locais e enraizados, resultando num tipo de impasse que acabou por enfraquecer os movimentos. O que uma concepção multinível defende é que existem muitos caminhos ou modos de intervir nos processos de poder globais, e que as lutas internacionalistas podem começar no bairro ou na cidade, na nação ou na região e, a partir daí, confrontar estruturas mais amplas. Um dos desafios, então, é como ligar estes diferentes níveis e geografias variadas, reconhecendo simultaneamente a sua natureza instável e mutável no presente.

Internacionalismo de resistência

Os movimentos e redes de resistência e solidariedade constituem o contexto em que o internacionalismo é mais concreto e presente na mente de muitos ativistas. Nos últimos anos, o apoio à Palestina e a oposição ao genocídio israelense têm animado os mais intensos e generalizados movimentos de resistência internacionalistas. Desde acampamentos de estudantes até bloqueios portuários e manifestações de rua, a Palestina tem servido como ponto de ligação e síntese. As várias tentativas da Global Sumud Flotilla de chegar a Gaza por mar e entregar ajuda humanitária têm sido tanto exemplos notáveis como catalisadores da ação internacionalista. Além disso, o apoio à Palestina tem dinamizado e enraizado-se no ativismo voltado às questões políticas locais e nacionais. O protesto contra o genocídio tem ajudado as pessoas a reconhecer o panorama mais amplo do regime de guerra.

A constelação de forças pró-Palestina inclui também atores estatais e supranacionais. Para além da África do Sul, como mencionámos anteriormente, a Irlanda, a Espanha e outros Estados, bem como a Assembleia Geral das Nações Unidas, denunciaram os massacres israelitas. Embora as posições políticas destas instituições possam ser ambíguas, as suas manifestações continuam a ser válidas, pelo menos ao ajudar a deslegitimar as ações genocidas de Israel.

Além disso, o direito internacional está hoje passando por um duplo processo. Por um lado, tem-se revelado totalmente incapaz de lidar até com as violações mais flagrantes, mas, por outro, está surgindo uma série de novos apelos ao direito internacional e tentativas de reformular o seu funcionamento. Como argumenta Giso Amendola, o ataque violento ao direito internacional por parte de potências como os Estados Unidos, que historicamente aplicaram o direito internacional de forma diferenciada para servir os seus interesses e legitimar a sua hegemonia, não deve ser interpretado simplesmente como um sinal do seu esgotamento.[6] Embora a tradicional ordem internacional liberal "baseada em regras" possa ter chegado ao fim, está emergindo, em vez disso, um terreno contestado no qual as ferramentas jurídicas e os discursos podem forjar novos projetos constituintes através de iniciativas estatais e movimentos sociais, abrindo novos horizontes para a luta internacionalista.

Nestes diferentes níveis, o nome Gaza tornou-se um ponto de condensação através do qual diversas experiências de dominação, desapropriação, militarização e resistência se cruzam, criando condições para o reconhecimento mútuo e a tradução política entre diferentes lutas. A tradução política não apaga as diferenças, mas cria a possibilidade de reconhecer lógicas comuns de dominação e horizontes partilhados de resistência em distintos contextos históricos e geográficos.

Visto desta perspectiva, as Américas tornaram-se outro terreno crucial no qual o regime de guerra é vivido e contestado. A ressonância generalizada da solidariedade com a Palestina em todo o hemisfério é uma indicação disso. Gaza tornou-se um ponto de referência não apenas para os movimentos de resistência, mas também, cada vez mais, para os alinhamentos políticos que atravessam a região, como a relação próxima de Javier Milei com Netanyahu torna particularmente claro.

Como devemos, então, abordar um internacionalismo de resistência nas Américas, que voltaram a se tornar palco de agressão imperialista e de coligações reacionárias? Podemos reconhecer, para começar, o recurso à violência contra os migrantes e as populações que resistem nas cidades dos EUA como espelho das tentativas imperialistas do governo norte-americano de controlar outros Estados no hemisfério através da violência e de outros métodos de coação, incluindo o sequestro de Nicolás Maduro e a "tomada de poder" do governo venezuelano, rapidamente seguida pela tentativa dos EUA de estrangular e submeter Cuba à fome. As recentes declarações do governo dos EUA no sentido de renovar e reforçar a Doutrina Monroe prenunciam a transformação das Américas num bloco coerente sob controle dos EUA, oposto à intervenção "estrangeira", incluindo, acima de tudo, os projetos de infraestruturas chineses.[7]

A criação de um bloco hemisférico, que ultrapassa as conotações estritamente militares do termo, estende-se ao nível governamental. A onda de governos reacionários na América Latina surgiu em paralelo com os Estados Unidos e foi facilitada por este. Como argumenta Rodrigo Nunes[8], existe uma interação complexa entre o bolsonarismo no Brasil e o trumpismo nos Estados Unidos. Não é possível compreender a ascensão e o funcionamento de outros governos de extrema-direita, incluindo os de Milei, Bukele e Noboa, sem os situar num contexto hemisférico. As ressonâncias entre estes regimes reacionários e as suas políticas são evidentes, como salienta, entre outros, Pablo Stefanoni[9], mas existem também ligações materiais e financeiras diretas. Existe um nexo claro entre o projeto de criação de um bloco político e o autoritarismo de governos e forças políticas individuais. Os regimes de guerra dessas forças de extrema-direita também configuram guerras internas contra segmentos das suas próprias populações, desde imigrantes e indígenas até comunidades feministas e queer.

A coerência das forças reacionárias em todas as Américas torna agora possível e necessário estabelecer ligações internacionalistas entre os movimentos de resistência. A oposição ao ICE em Minneapolis e os protestos contra Milei na Argentina devem ser concebidos e organizados com vista às lutas internacionalistas do hemisfério. Na América Latina, para serem internacionalistas, os movimentos de resistência e de solidariedade também devem tomar forma ao nível regional, em consonância com uma longa história de luta sob a bandeira de "nuestra América", um nome mais uma vez invocado pela caravana marítima humanitária para Cuba[10].

Tal como os exemplos de resistência internacionalista orientados à Palestina que esboçámos acima, as lutas internacionalistas nas Américas (assim como as do Sul da Ásia, da África Ocidental e noutros locais) caracterizam-se por situações políticas e histórias específicas e concretas. No entanto, existem ligações potenciais entre elas, para além das localidades e regiões, que, com organização, podem ser concretizadas. E a necessidade de organização é ainda mais urgente, uma vez que as forças contra as quais lutamos estão cada vez mais consolidadas à escala transnacional.

Em muitos contextos por todo o mundo atualmente, a lógica do nacionalismo e o processo de constituição de blocos estão, de facto, diretamente ligados a práticas de guerra. Em alguns casos, projetos nacionalistas reacionários, quando as próprias nações são subcontinentes, como a Índia ou a Rússia, já atingem o nível de bloco. Israel tentou, como referimos anteriormente, associar o seu impulso nacionalista à criação de algo semelhante a um bloco, através de alianças com os Estados do Golfo e do apoio ainda fiel dos Estados Unidos. O caso europeu é diferente, mas as pressões no sentido do rearmamento e o peso crescente das potências nacionais e nacionalistas no seio da UE podem acabar por ter um resultado semelhante, especialmente tendo em conta a possibilidade de governos cada vez mais de extrema-direita. Em todos esses casos, a resistência a estas potências, que fundem nação e bloco com uma lógica de guerra, é um primeiro passo rumo tanto a uma política antibélica como a um projeto internacionalista.

Internacionalismo de libertação

As práticas de resistência são essenciais e a resistência, como já dissemos, é a postura política que muitas vezes pode ser mais facilmente compreendida, mas precisamos também dar mais um passo e iniciar um processo de transformação coletiva. É aqui que o quadro da libertação deve assumir um papel central. Alguns poderão acreditar que, diante de tempos tão sombrios como os que vivemos hoje, em que o horizonte de tantos se reduz à mera sobrevivência, os nossos objetivos deveriam ser mais modestos. Defendemos, pelo contrário, que agora, mais do que nunca, é o momento de falar de libertação. Precisamos de um quadro positivo – que expresse não só aquilo a que nos opomos, mas também aquilo pelo qual lutamos. Nas condições contemporâneas, perante as dinâmicas e os processos globais de controle capitalista e autoritário, só uma política internacionalista pode proporcionar um horizonte realista para a libertação.

A libertação é o que distingue o internacionalismo de uma compreensão meramente geopolítica do anti-imperialismo. O anti-imperialismo, por si só, não é uma política. As aventuras imperialistas devem ser combatidas, mas o que realmente importa é abrir espaços onde as táticas de resistência possam conduzir a horizontes estratégicos de libertação.

Mas o que significa libertação a este nível de análise? Que critérios a distinguem? Não há respostas simples para estas questões. Podemos tentar uma definição geral: a libertação é um projeto para transformar, através de lutas, tanto as condições materiais de vida como as formas de subjetividade, ao mesmo tempo que se descobrem e desenvolvem novas formas democráticas de viver em conjunto e formas de cooperação social que nos libertam do individualismo e que nos empoderem. Mas as definições gerais têm os seus limites. A nossa compreensão da libertação pode ser melhor fundamentada, em primeiro lugar, pela longa e variada história dos movimentos de libertação, que deve, no entanto, ser reativada de forma criativa, sem qualquer nostalgia, uma vez que o contexto político mudou drasticamente e o mesmo aconteceu com as subjetividades dos ativistas em luta. Em segundo lugar, devemos olhar para o interior dos movimentos: mesmo nas condições mais adversas, os movimentos de resistência e solidariedade são sempre permeados e sustentados por novas relações que podem servir de base para a libertação. A libertação não é alcançada de uma vez por todas com um evento, mas é uma luta constante, que constitui o horizonte positivo dos nossos desejos políticos.

A libertação assumirá claramente formas diferentes, dependendo dos contextos geográficos e culturais, e até mesmo entre grupos no mesmo local. Não devemos esperar que os projetos de libertação feminista sejam iguais aos de libertação racial ou operária — e cada um destes varia de acordo com as condições materiais e geográficas. A dominação e a exploração nunca são idênticas de um lugar para outro, mesmo quando são impulsionadas por forças e lógicas comuns. Em parte por essa razão, as histórias, as composições sociais, as necessidades e os desejos das lutas que surgem contra elas também diferem. O desafio não é apagar essas diferenças, mas construir práticas de tradução através das quais possam integrar-se em projetos comuns de libertação.

A tradução, neste contexto, não é a busca de uma medida comum ou de uma identidade partilhada. É uma prática política através da qual lutas heterogêneas estabelecem ligações entre diferentes histórias, condições e vocabulários, produzindo novas possibilidades de agir em comum enquanto se transformam nesse processo. Neste sentido, o horizonte de libertação que estamos pensando é atravessado e habitado por uma multiplicidade de experiências, reivindicações e imaginários – que, no entanto, podem ser organizados para produzir um novo poder coletivo.

Um internacionalismo de libertação, então, não constitui uma solução, mas sim a problemática no seio da qual as questões políticas devem ser abordadas. Não é o reconhecimento de que, na base, somos todos iguais. O internacionalismo requer uma decisão estratégica e dedicação à organização política, estabelecendo redes e multiplicando ligações tanto geograficamente, através de países, regiões e continentes, como politicamente entre setores do movimento. O internacionalismo proporciona, assim, um ponto de vista, ou mesmo um método para orientar a ação política e a teoria política. Tomar o mundo, a sua unidade e as suas fraturas, como referência principal para abordar até mesmo as questões mais localizadas é a base para desenvolver o internacionalismo como um projeto político. Ao trabalhar e desenvolver as ressonâncias entre lutas e experiências distantes, podem ser descobertos novos continentes políticos.

Notas

[1] "The coming global food crisis", disponível aqui.

[2] Fredric Jameson. Representing 'Capital': A Reading of Volume One. Verso Books: London/New York, 2011.

[3] Cf. Pietro Bianchi; Joshua H. Wiebe (eds.). Filming Capital, The South Atlantic Quarterly, 124:4, October 2025. Duke University Press. DOI: 10.1215/00382876-11963136.

[4] Referência à Internacional Comunista, também conhecida como a III Internacional, de março de 1919, realizada por iniciativa de Lenin e do Partido Comunista Russo (bolchevique), que agrupava os partidos comunistas de diversos países, com o objetivo de lutar pela supressão do sistema capitalista. (N.T.)

[5] Referência à Conferência de Bandung, realizada na Indonésia em 1955, entre Estados asiáticos e africanos que, na maioria dos casos, haviam conquistado a independência e que pretendiam promover a cooperação cultural e econômica afroasiática, em oposição ao (neo)colonialismo das antigas metrópoles e dos Estados Unidos. (N.T.)

[6] Giso Amendola: "Distinguere tra crisi e trasformazione del diritto internazionale", Dinamo Press, pubblicato il 17 Dicembre 2025. Disponível aqui.

[7] Cf. National Security Strategy of the United States of America, November 2025. Disponível aqui.

[8] Rodrigo Nunes. Anatomy of Desintegration: what Brazil reveals about the global far right. Chicago: HaymarketBooks, 2026.

[9] Pablo Stefanoni. Un Fantasma Recorre el Mundo: cómo funciona la máquina de guerra reaccionaria. Madrid: Siglo XXI, 2026.

[10] Referência à Caravana "Nuestra América", uma iniciativa marítima internacional derivada de um movimento de organizações não-governamentais cuja missão é entregar ajuda a Cuba em resposta à grave crise humanitária e econômica de princípios deste ano. O nome dá-se em homenagem ao ensaio de José Martí. (N.T.)

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