O Irã pode se tornar o Vietnã de Trump?

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04 Março 2026

A guerra que Trump prometeu resolver em quatro semanas já tensiona o Golfo, o petrodólar e a economia digital global. O Irã pode se tornar o Vietnã de sua presidência?

A reportagem é de Guillem Pujol, publicada por Catalunya Plural, 03-03-2026. A tradução é do Cepat.

No terceiro dia de guerra aberta entre Estados Unidos, Israel e Irã, a escalada iniciada após os bombardeios conjuntos sobre o território iraniano ganhou uma dimensão regional de alto impacto estratégico. Após o assassinato do líder supremo iraniano e a destruição de múltiplas infraestruturas militares, Teerã respondeu com uma onda coordenada de ataques com drones e mísseis dirigidos contra bases estadunidenses no Golfo, infraestruturas israelenses e posições diplomáticas na Arábia Saudita e no Kuwait. Nesse sentido, o Irã não é a Venezuela. A rendição, até o momento, não acontece.

Organizações de direitos humanos estimam que mais de 700 civis morreram desde o início dos bombardeios conjuntos, com números que oscilam de 555 mortos reconhecidos pelo Crescente Vermelho iraniano a 742 civis mortos registrados pela agência Human Rights Activists, entre eles, ao menos 176 menores de idade, embora o apagão quase total da internet dentro do Irá dificulte a verificação independente e alimente a preocupação com um número ainda maior.

A resposta iraniana aponta para uma estratégia de resistência sustentada orientada a multiplicar frentes e elevar o custo político e econômico do conflito. Como parte dessa contraofensiva, a Guarda Revolucionária fechou o Estreito de Ormuz, passagem pela qual circula cerca de 20% do petróleo mundial. Os “mercados” já começaram a reagir à alta, como não poderia ser diferente. O preço do petróleo cru aumentou 10%, e o do gás natural aumentou mais de 40%.

A expansão bélica também se deslocou para o norte. Israel iniciou o destacamento de tropas no sul do Líbano em trocas de fogo com o Hezbollah, abrindo uma nova frente que reconfigura o mapa do conflito. No horizonte está o projeto político do sionismo religioso do “Grande Israel”, que abarcaria do rio Nilo no Egito ao rio Eufrates no Iraque, incluindo Jordânia, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Sinai e partes da Síria, Líbano e Turquia.

A promessa de uma guerra breve

Donald Trump começou declarando que a guerra duraria de quatro a cinco semanas. Pouco depois, admitiu que poderia durar mais tempo, afirmando que não está preocupado porque os Estados Unidos têm o maior exército do mundo e pode “relaxar e esperar”. Ou seja, Trump está fazendo exatamente o contrário do que disse na campanha eleitoral, quando prometeu acabar com o passado intervencionista recente e assumir uma política isolacionista internacional. O que está acabando, na verdade, são os últimos traços do direito internacional constituídos - com suas falhas e incapacidades - depois da Segunda Guerra Mundial.

No entanto, a confiança presidencial parece ancorada em precedentes recentes percebidos como vitórias rápidas, como a intervenção indireta na Venezuela. Este marco reforça a percepção de que a capacidade de projetar força e eliminar objetivos estratégicos pode produzir resultados imediatos, sem consequências estruturais. Uma análise que, segundo o professor sino-canadense Jiang Xueqin (que previu com acerto a vitória eleitoral de Trump e o posterior ataque estadunidense ao Irã), é errônea e pode fazer com que o Irã se torne o Vietnã de Trump.

Por que os Estados Unidos podem perder

Para Jiang Xueqin, a guerra contra o Irã não responde à lógica convencional de superioridade tecnológica e golpes rápidos de decapitação estratégica. Trata-se de uma guerra de desgaste, híbrida e economicamente assimétrica. Neste terreno, sustenta, os Estados Unidos partem em desvantagem estrutural. Sua análise é a que segue:

O primeiro elemento é a assimetria de custos. O sistema militar estadunidense foi projetado para a Guerra Fria: tecnologia sofisticada, sistemas complexos, plataformas de alto custo. Ao contrário, o Irã opera com uma lógica diferente. Drones de baixo custo, mísseis relativamente baratos e redes distribuídas forçam os Estados Unidos a ativar interceptores que multiplicam por dez ou por vinte o preço do ataque inicial. Cada interceptação exitosa supõe uma vitória tática, mas um desgaste financeiro estratégico. Em uma guerra prolongada, esta equação desgasta os recursos.

O segundo elemento é o tempo. O Irã está há duas décadas se preparando para esse cenário. Estudou as capacidades dos israelenses e dos estadunidenses, testou respostas, construiu uma rede de aliados e milícias na região. Os Estados Unidos, ao contrário, enfrentam um teatro fragmentado, sem uma frente clara, com vários pontos de pressão simultâneos. A guerra não se concentra em uma capital, nem em um exército regular que possa se render. Dispersa-se em bases, rotas marítimas, infraestruturas energéticas e nós logísticos.

O terceiro elemento é o Golfo. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Catar constituem o núcleo financeiro do sistema petrodólar. Vendem energia e reciclam esses ingredientes em ativos estadunidenses, alimentando mercados financeiros e, mais recentemente, a expansão da inteligência artificial e data centers. O Irã deslocou a pressão para esse espaço, e o fechamento do Estreito de Ormuz afeta diretamente o fluxo de energia mundial. Os ataques ou ameaças às infraestruturas críticas sauditas - incluindo as usinas de dessalinização que fornecem cerca de 60% da água potável do país - introduzem vulnerabilidade civil e política. Uma desestabilização prolongada do Golfo não altera apenas a segurança regional, mas também a arquitetura financeira que sustenta o dólar.

O quarto elemento é a economia digital. Os ataques contra infraestruturas logísticas vinculadas a grandes plataformas tecnológicas transferem a guerra ao coração da cadeia de abastecimento global. Centros associados a Amazon e outros atores tecnológicos nos Emirados Árabes Unidos e na Arábia Saudita fazem parte das redes que sustentam comércio, dados e serviços em nuvem. Quando esses nós se tornam alvos, o conflito deixa de ser exclusivamente militar. E se a capital do Golfo reduzir sua exposição a ativos estadunidenses por instabilidade prolongada, o impacto será projetado para o mercado de ações e para a bolha de investimento em inteligência artificial.

O quinto elemento é o dilema da escalada. A história recente mostra que raramente se conquista a mudança de regime exclusivamente via ar. Nesse sentido, se os objetivos estratégicos iniciais não se materializarem, a pressão para introduzir tropas terrestres poderá aumentar, especialmente se os aliados regionais exigirem proteção reforçada. Uma intervenção limitada pode se transformar em um compromisso ampliado sob a lógica da credibilidade e do prestígio. Nesse cenário, o custo humano e político se intensifica.

Agora, cabe também fazer outra pergunta, que introduz, caso prefiram, um cenário ainda mais turbulento: E se Trump não ver com maus olhos prolongar uma guerra que possa lhe servir para conduzir o país a um estado de semiexceção, que lhe permita perpetuar-se no poder por um terceiro mandato?

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