A glória de Maria na desumanidade de hoje. Artigo de Gilberto Borghi

Imagem de Maria feita por inteligência artificial | Foto: IA Gemini/Reprodução

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15 Agosto 2026

A celebração de amanhã não é uma fuga dos acontecimentos atuais para nos consolarmos com a glória que nos aguarda, mas sim nos força a olhar mais profundamente para o nosso tempo.

O artigo é de Gilberto Borghi, teólogo leigo, publicado por Vino Nuovo, 14-08-2026.

Eis o artigo.

Há algo surpreendente na liturgia de amanhã. Celebramos Maria na glória do céu, e, no entanto, a primeira leitura nos apresenta uma mulher que não está simplesmente no céu: ela é uma mulher que sofre, que foge, que atravessa o deserto, que é perseguida. Ela é gloriosa e perseguida. Ela é coroada e está em fuga. A ela é prometida a vitória e, simultaneamente, exposta à ameaça do dragão.

Esta imagem contém talvez uma das chaves mais profundas para a compreensão da Assunção. Maria já está na glória, mas a Igreja, da qual ela é um ícone, percorre a história e ainda não alcançou a glória. Maria já está onde esperamos chegar. E precisamente porque ela já está na plenitude, compreendemos melhor o que significa ainda estarmos a caminho. A festa de amanhã não é uma fuga do presente para nos consolarmos com a glória que nos aguarda, mas sim nos força a olhar mais profundamente para o nosso tempo.

Esta é a condição cristã: viver entre um "já" e um "ainda não". Cristo ressuscitou; a morte não é a última palavra; o Espírito foi dado; a vida eterna, de alguma forma, já começou em nós: este é o "já". Mas a humanidade ainda é frágil. Em Gaza, na Ucrânia e em aproximadamente outras 100 regiões do mundo, a morte, a destruição e a dor parecem dominar. E aqui, vivemos dentro de um sistema cultural e de mercado que nos força a clamar: "Sejamos humanos!". A Igreja ainda luta contra pecados graves e desumanidade. Muitas vezes vivemos com uma ansiedade latente, o medo de deixar o lar, de sermos "explorados" por aqueles que deveriam nos amar. Este é o "ainda não".

Não devemos eliminar uma das duas imagens para preservar a outra. A mulher é simultaneamente um sinal de glória e uma figura de trabalho. E o esforço do crente e da Igreja reside precisamente em manter unidos esses dois lados da fé. Às vezes, desejamos que a fé elimine imediatamente a incompletude da nossa existência. Desejamos que, se Deus nos salvou, a nossa vida esteja agora livre de toda contradição, toda fragilidade, toda escuridão.

E quando alguém tenta forçar os tempos e antecipar a solução para o mal por meio de estratégias humanas e com o apoio de poderes mundanos, talvez esteja prestando o pior serviço possível ao Evangelho. Porque o Evangelho não nos promete isso. Ele nos promete algo mais profundo: que Deus nos acompanhará no tempo da incompletude. O deserto do Apocalipse não é um lugar de abandono. É o lugar que Deus preparou para que a mulher fosse nutrida.

O deserto, portanto, não é prova da ausência de Deus. Nem mesmo o deserto da desumanidade, nem mesmo o da violência sem sentido, da guerra como um estado endêmico que favorece o mercado. É o lugar da Sua presença na forma de promessa, proteção e sustento. Esta é talvez uma das coisas mais difíceis de aceitar na vida cristã: quando deixamos de compreender o significado da presença de Deus na história, imaginamos que ela nos escapou ao Seu alcance. Mas se não compreendemos a realidade, não é a realidade que está errada, mas sim a nossa atitude em relação a ela. Deus pode estar verdadeiramente presente mesmo quando a Sua salvação ainda não é plenamente visível, mesmo no deserto da desumanidade. Desejamos a glória; Deus nos dá o caminho para a glória. Desejamos a plenitude; Deus nos dá a promessa. Desejamos ver; Deus nos pede que tenhamos esperança.

Este é o significado do Magnificat. Maria diz: "Minha alma engrandece ao Senhor". Mas Maria canta sobre a salvação enquanto a história ainda não está completa. Ela ainda não viu tudo o que Deus fará. Ela ainda não tem a Páscoa diante de seus olhos. Ela ainda não viu a ressurreição de seu Filho. Mesmo assim, ela canta. O Magnificat é, portanto, o cântico de uma salvação já iniciada, mas ainda não completa. Ela também canta sobre o que ainda está por vir: "Depôs os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes". Seu cântico é memória, presença e profecia, tudo ao mesmo tempo. É por isso que o Magnificat é o cântico da esperança.

A esperança cristã não consiste em dizer: "Talvez um dia Deus nos salve". É algo muito mais forte. Consiste em dizer: Deus já começou a nos salvar, e precisamente por isso podemos aguardar o que ainda não vemos. É por isso que a Assunção não nos distancia da terra: ela nos ensina a vivê-la. E como? O Evangelho de hoje não apresenta Maria congelada na contemplação de sua própria grandeza. Assim que recebeu a promessa, Maria "levantou-se e foi apressadamente" ao encontro de Isabel. É extraordinário: a mulher que Deus destinou à glória atravessa a história indo ao encontro de outra pessoa. Esta é a lógica cristã da espera.

Aqueles que têm fé em seu destino final não fogem do presente, não o temem, não procuram mudá-lo por impaciência ou escapar de seus medos: vivem-no com mais intensidade, apoiados na certeza da fé, em uma relação amorosa com seus irmãos e irmãs. Maria sabe que Deus está realizando algo imenso nela, mas essa consciência não a afasta da concretude da história. Nossa esperança deve ser a mesma. A esperança cristã não é uma fuga do mundo. É a capacidade de viver o presente sem fingir que o presente já está realizado.

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