A oração na parede. Artigo de Gilberto Borghi

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09 Mai 2026

Se reconhecêssemos que também carregamos essa pergunta escrita dentro de nós...

O artigo é de Gilberto Borghi, teólogo leigo, publicado por Vino Nuovo, 08-05-2026.

Eis o artigo.

Meu amigo Sergio di Benedetto me enviou este link. Cliquei nele e me deparei com a imagem mostrada nesta postagem. Uma inscrição na fachada lateral da Igreja Matriz de San Donaci, na diocese de Brindisi e Ostuni. Ao lado, está a carta em que o bispo, D. Giovanni Intini, comenta o episódio. Ao começar a ler o comentário, esperava uma resposta de indignação, consternação e desaprovação por um ato que poderia beirar o "sacrílego".

Em vez disso, encontrei uma reflexão que, embora comece reconhecendo a indignação da câmara municipal, rapidamente se encaminha para uma resposta à pergunta, a resposta atualmente mais próxima da imagem de um Deus que sofre com a humanidade. E isso leva o Bispo a dirigir uma pergunta à sua comunidade e a toda a Igreja: "Que Deus proclamamos ao mundo em que vivemos?" Ele conclui, então, oferecendo algumas sugestões sobre como um tipo diferente de evangelização é possível hoje.

Minha primeira reação foi de surpresa: de vez em quando, alguém consegue não se sentir ofendido quando outra pessoa expressa seus sentimentos plenos de raiva e rejeição a Deus. Mas minha segunda reação foi a percepção de uma nota dissonante, um comentário que não se encaixava bem com o contexto. E depois de alguma reflexão e conversa com Sergio, algo ficou mais claro para mim.

1) O comentário do Bispo Giovanni parte da hipótese de que a pergunta escrita na parede foi realmente formulada como a intenção central de quem a escreveu, como se a motivação do autor fosse verdadeiramente conceitual. Tenho sérias dúvidas de que seja esse o caso. Não se trata de uma pergunta que exige uma resposta conceitual, mas sim de uma pergunta que, acima de tudo, expressa um sentimento. Portanto, oferecer uma resposta conceitual como primeiro passo é inadequado, pois não é isso que a pergunta realmente pede. Em termos comunicativos, diante da expressão de uma emoção, mesmo que forte e intensa, uma resposta conceitual é inútil e prejudicial, pois dá aos nossos ouvintes a impressão de que não estamos realmente "sentindo", "vendo" ou "ouvindo" o que eles têm a dizer; não estamos nos importando com eles de uma forma humana.

2) Essa resposta revela uma pressa excessiva e reativa diante da inscrição. Mais uma vez, não nos damos tempo para parar e realmente ouvir essa emoção, para sentir toda a sua carga de dor. Evitamos-a muito rapidamente, porque presumimos que essa emoção não está dentro de nós, nem mesmo faz parte da experiência daqueles que creem. Ou, talvez, porque, mesmo sabendo que essa pergunta também reside dentro de nós, não temos a coragem de realmente abraçá-la e torná-la nossa, colocando-a no centro de nosso relacionamento com Deus. Assim, demonstramos sutilmente que somos os primeiros a não acreditar que toda a humanidade, especialmente em seus aspectos mais dolorosos, dramáticos e violentos, possa realmente ser "mantida dentro" de nosso relacionamento com Deus e não deixada de fora. Se reconhecêssemos que também carregamos essa pergunta dentro de nós, então a inscrição poderia até nos parecer uma oração poderosa e desesperada, remetendo dramaticamente ao Gólgota: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?"

3) Em todo caso, essa resposta pressupõe que o primeiro passo na evangelização é oferecer respostas onde o mundo não as tem, enquanto nós pensamos tê-las porque Deus as revelou para nós. Como se a hipótese subjacente fosse a de que existe um "nós", os crentes tocados pelo amor de Deus, e um "eles", os não crentes e não amados. Bastaria prestar um pouco mais de atenção às passagens bíblicas para descobrir que Jesus Cristo nunca faz essa distinção. Ele está "no mesmo barco" com todos e pede que aqueles que creem nele façam o mesmo. Ser crente não nos tira do "barco do mundo" para nos transportar para a "barca de Pedro"; pelo contrário, garante que o barco de Pedro seja aquele que compartilha plenamente todo o drama dos outros barcos.

4) Se assim for, então essa possível resposta conceitual só faz sentido, torna-se passível de ser ouvida e recebida, quando, em primeiro lugar, compartilhamos esse "massacre perene", o sentimos verdadeiramente em nossa pele e em nossa carne, e permitimos que as manchas de sangue contaminem nossas vestes imaculadas com a realidade. Além disso, trata-se de uma resposta composta por palavras que não se originam em nossos corpos, não se originam em nossos corações, mas apenas em nossas mentes cultas. E hoje, nada expõe com mais eficácia nosso "inautenticidade" evangelizadora do que quando usamos palavras como essas, provocando rejeição a priori em nossos ouvintes.

Uma teologia, mesmo que com conteúdo sólido, fruto unicamente do estudo, é de utilidade real para pouquíssimas pessoas hoje em dia, e talvez até completamente desnecessária. Uma teologia sólida, nascida sobretudo da vida, é, contudo, o que ainda faz muita falta.

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