Papa Leão nos mostra o caminho: vamos redescobrir o mistério do coração. Artigo de Susanna Tamaro

Foto: Wikimedia Commons | Cecioka

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06 Mai 2026

"Mas será que ainda persiste hoje a ideia de que o coração é o centro do ser humano? Será que a percepção dessa realidade misteriosa, outrora intuitivamente presente em cada ser humano, não foi apagada pela marcha triunfal da tecnologia e pelo seu poder, que continua a nos dizer que não há nenhum aspecto da vida que não possa ser dominado? Somos máquinas e, como todas as máquinas, temos um manual de instruções. Tudo pode ser consertado", escreve Susanna Tamaro, escritora italiana, em artigo publicado por Corriere della Sera, 04-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

"A paz esteja convosco!" foram as primeiras palavras proferidas pelo Papa Leão XIV da sacada da Basílica de São Pedro no dia de sua eleição. E a paz da qual ele falava não era a ausência de guerras, mas a saudação do Cristo ressuscitado. Quem, mesmo entre os fiéis, se lembra dessa realidade? Nosso mundo, voltado para a horizontalidade, hoje já pode ser considerado praticamente descristianizado. Muitas vezes me pergunto como uma civilização de dois mil anos pôde ter desaparecido em pouco mais de trinta anos. Cada vez menos crianças são batizadas porque os pais acreditam que cabe a elas decidir se o serão ou não. A Primeira Comunhão ainda é feita, mas se trata principalmente de um evento social, e qualquer criança questionada sobre os fundamentos da fé dará apenas respostas vagas e confusas. A percepção comum entre crentes e não crentes é que o cristianismo é uma espécie de organização sem fins lucrativos que cumpre serviços e bondade acriticamente, esquecendo-se da força e da dureza de muitas das palavras do Evangelho.

O caminho cristão sempre foi um caminho contínuo rumo à perfeição, um caminho exigente, feito de sacrifícios e fracassos, de força de espírito, de escolhas impopulares e da certeza de que a Providência sempre vela por nossos passos. Pensando no que restou de toda essa riqueza, me vem à mente a imagem de uma bela concha, uma daquelas que costumávamos levar ao ouvido quando crianças, maravilhados por ainda ouvir o som do mar. A estrutura da Igreja ainda existe, e fragmentos do eco evangélico sobrevivem na memória inconsciente de muitos, mas a parte mais verdadeira, mais viva, aquela transcendente — que para a concha era representada pela criatura que, com paciência e sabedoria, havia construído suas maravilhosas espirais para habitá-la — parece ter se dissolvido. A eliminação da verticalidade foi também a eliminação da beleza. Aquela beleza que outrora falava a todos, fazendo-nos sentir parte de uma harmonia universal. Liberi sotto la grazia fala precisamente da necessidade de retornar ao coração como sede do mistério que nos habita. O livro (lançado na última segunda-feira pela Editora do Vaticano) reúne uma série de discursos no ambiente agostiniano proferidos de 2001 a 2013 pelo Papa Leão XIV, quando ele ainda era apenas o padre Robert Francis Prevost, Prior Geral da ordem. São, principalmente, reflexões e cartas dirigidas a seus coirmãos, buscando emcontrar novas palavras para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo.

Livro "Livres sob a graça. Na escola de Santo Agostinho, enfrentando os desafios da história", de Robert Francis Prevost (Libreria Editrice Vaticana, 2026).

Que anos são? Aqueles em que a Igreja ainda questiona a modernidade e não percebe a pós-modernidade que avança. Passaram-se vários anos desde então, a pós-modernidade deu lugar ao transumano, e a palavra de Deus parece ter perdido força num mundo anestesiado pela tecnologia, que consegue silenciar toda inquietação interior. Contudo, as questões levantadas por essas reflexões revelam-se mais atuais do que nunca e podem ser úteis a todos aqueles que percebem a desorientação contemporânea e anseiam por redescobrir em si mesmos aquela sede de verdade e de transcendência que desde sempre está presente no coração humano.

"As pessoas sofrem por falta de pão, mas também pela tentativa de viver só de pão. A solidão e a manipulação das massas são a ameaça contemporânea. "Palavras escritas há vinte anos, mas ainda dramaticamente atuais. Mas como, então, incutir esperança e confiança num mundo cada vez mais distraído e desorientado? Como transformar palavras vazias numa mensagem que dê esperança ao homem de hoje? Começando, na opinião do futuro Papa, sobretudo de uma autocrítica construtiva.

Em seu comentário sobre o Sermão da Montanha, Santo Agostinho nos lembra que a impossibilidade de seguir dois senhores não leva a odiar aquele a que não servimos, mas sim a nos entregar à indiferença. E a responsabilidade dessa indiferença, segundo a análise de Prevost, é também da Igreja, que não soube "realizar uma mudança substancial dos conceitos, para nos ajudar a renovar nosso vocabulário e nossas expressões", e por isso convida os irmãos consagrados a seguirem o exemplo de Santo Agostinho, que "em seu tempo soube se fazer entender e criar uma linguagem capaz de falar ao coração ainda hoje".

Mas será que ainda persiste hoje a ideia de que o coração é o centro do ser humano? Será que a percepção dessa realidade misteriosa, outrora intuitivamente presente em cada ser humano, não foi apagada pela marcha triunfal da tecnologia e pelo seu poder, que continua a nos dizer que não há nenhum aspecto da vida que não possa ser dominado? Somos máquinas e, como todas as máquinas, temos um manual de instruções. Tudo pode ser consertado.

A sociedade atual, que está indo a passos largos para um abismo de confusão desesperada, não seria justamente uma sociedade construída sobre a ablação do coração? Toda inquietação é considerada um mero mal-estar a ser suprimido por medicamentos, quando, na realidade, segundo Santo Agostinho, ela é o fermento maravilhoso que nos permite ter acesso a outra dimensão. O mundo do invisível, aquele mundo que desde sempre alimentou as questões dos seres humanos, foi agora substituído pelo mundo invisível da internet. Acredita-se em tudo que a internet propõe como se fosse a única resposta para os nossos medos e dúvidas, e se renega a única realidade invisível que nos torna realmente completos: o coração. É a realidade do coração, como sempre nos lembra Santo Agostinho, que permite aos seres humanos crescerem espiritualmente e buscarem a verdade no silêncio interior.

Existiria acaso livro mais adequado ao nosso tempo do que as Confissões de Santo Agostinho? Sua época foi marcada por convulsões históricas, como a nossa, e sua inteligência ardente o levou a aprimorar a arte da retórica numa tentativa de analisar as complexidades da existência. A sua não foi a conversão de uma alma simples, como a daqueles santos afortunados que, desde a infância, trilham um caminho guiado por uma luz que jamais os abandona, mas a jornada atormentada de um intelectual que, em certo ponto, percebe o vazio dentro de si que nenhum conhecimento humano jamais será capaz de preencher.

"As mulheres e os homens de hoje têm a mesma sede de Deus, senão maior, do que nas épocas passadas", testemunha Prevost nessas páginas. “Questões sobre o significado de ser humano, o destino da história e a transcendência crescem no mundo contemporâneo. Ao mesmo tempo, quase em proporção geométrica, cresce o voluntariado, a disponibilidade de pessoas que se importam com os outros e se dedicam com generosidade a empenhos humanitários, muitas vezes pioneiros. Esse empenho amadurece justamente no mundo ocidental, onde parece que Deus tem cada vez menos espaço. Será realmente assim?”, ele pergunta a si mesmo e a nós. “Deus está morto, ou nós, os crentes, o deixamos morrer? Qual é a causa do processo de secularização e descristianização da sociedade ocidental? Teria sido causada pela pouca autenticidade de nossa vida cristã? Não é justamente isso, de certa forma, o que o Evangelho anuncia: ‘Mas quando o Filho do Homem vier, encontrará ainda fé na terra?’” Uma pergunta extraordinariamente atual. Não justamente pelo contágio de uma vida plena, de uma vida capaz de iluminar os lugares mais escuros que passa a transmissão da fé? Só a fé, de fato, é capaz de proporcionar a máxima participação na realidade e, ao mesmo tempo, o máximo estranhamento; e essas duas condições aparentemente opostas constituem a plenitude do coração: a única plenitude que, com seu brilho, pode apontar o caminho.

Lendo "Lugares onde ninguém quer ir", uma das contribuições presentes no livro, lembrei-me do rosto sorridente do Padre Ettore Salimbeni. O Padre Ettore era um missionário agostiniano que trabalhava em Purimac, uma região carente do Peru. Ele me escreveu uma carta em meados da década de 1990 perguntando se eu poderia comprar um cavalo novo para ele, pois o seu havia morrido. Graças ao meu presente, ele pôde, apesar da idade avançada, retomar sua incansável atividade de missionário nas áreas mais isoladas dos Andes; como agradecimento, enviou-me um suéter feito à mão que ainda guardo com carinho. Em uma carta, tempo depois, ele me contou que um dia havia se deparado com um puma. A situação parecia desesperadora: a trilha era estreita, um precipício se abria abaixo dele, à frente havia um predador e, no meio, duas presas: ele próprio e o cavalo. Ele conseguira sobreviver a tal situação arriscada permanecendo imóvel e mergulhando em oração; depois de algum tempo, o felino se afastou. Para mim, o Padre Ettore foi o emblema da mensagem agostiniana. Homem de ação e de oração, ele usava a palavra de Deus para levar luz aonde quer que fosse, tornando-se assim um exemplo a ser seguido por muitos consagrados que ainda hoje enfrentam a difícil tarefa de difundir o Evangelho em um mundo agora completamente descristianizado. Lugares onde ninguém quer ir, palavras que ninguém quer dizer, o mundo nas mãos de um punhado de tiranos: eis a grande força da fé, capaz de transformar momentos de crise em momentos de extraordinária oportunidade, como demonstra com serena firmeza o Papa Leão XIV.

Gostaria de concluir este texto com uma invocação dos Solilóquios de Santo Agostinho. "Dá-me, Senhor, um coração que te ame, uma alma que te reconheça, uma mente que te pense e contemple, um intelecto que te entenda, uma razão que sempre e fortemente admire a Ti, que és dulcíssimo, porque sem ti morro, porque pensando em ti reanimo-me."

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