15 Agosto 2026
"A partir dos relatos dos Evangelhos, emerge um detalhe que se revelará crucial para as interpretações subsequentes do significado da morte de Jesus: ele se expressa e se comporta diante das interpretações da Lei de tal maneira que dá a impressão de querer confrontar as autoridades, pronto para sofrer as consequências; suas atitudes, em alguns casos, são claramente provocativas".
O artigo é de Severino Dianich, doutor em teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, publicado por Settimana News, 14-08-2026.
Eis o artigo.
O Escândalo da Cruz
Quando, em Roma, aquele jovem, um escravo de alta classe, desenhou as feições de um burro que estava bizarramente em pé, com as patas dianteiras abertas, sobre o braço horizontal de uma cruz na parede da escola imperial para pajens, ele estava apenas tentando se divertir às custas de Alexamenos, um colega cristão. Quem diria, então, que essa brincadeira estava destinada a fazer história? Era uma resposta clara à questão de quanta estima seus concidadãos tinham pelos cristãos de Roma no século II.
Entre a vasta e variada mercadoria religiosa, originária de diversas regiões do império, oferecida na praça pública, a oferta cristã certamente parecia a mais bizarra, senão absurda. Mas, apesar disso, ou talvez precisamente por causa disso, era particularmente evocativa.
Paulo lembra aos seus cristãos em Corinto com quanta hesitação ele se apresentou a eles, ciente de que sua mensagem lhes pareceria completamente inaceitável:
"Irmãos, quando fui ter convosco, não o fiz com eloquência ou sabedoria humana, anunciando-vos o mistério de Deus. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e Cristo crucificado. E fui ter convosco em fraqueza, temor e grande tremor" (1 Coríntios 2,1-3).
Os cristãos estavam bem cientes de quão mal sua proposta seria julgada pela opinião comum: "Mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios" (1 Coríntios 1,23). O mundo fora de Israel a teria rejeitado como um absurdo. Para Israel, o povo que aguardava o cumprimento da promessa de salvação do Senhor, dizer que a promessa havia sido cumprida com a morte de seu Messias, condenado como um criminoso, era um insulto.
O apóstolo não apenas confessou sem hesitar a natureza paradoxal do evento, mas também se preocupou em que os fiéis deixassem esse lado obscuro de sua fé nas sombras, para não serem ridicularizados e, assim, "o escândalo da cruz" fosse "apagado" (Gl 5,11). Paulo, de fato, confiou sua credibilidade não à lucidez do raciocínio, mas somente às extraordinárias manifestações do Espírito, com as quais esperava que sua mensagem fosse credenciada.
"A minha palavra e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e de poder" (1 Coríntios 2,4).
No entanto, o próprio fato de que, apesar de sua fragilidade intrínseca, a mensagem se mostrou capaz de penetrar as consciências teria demonstrado que a pregação da fé não era uma obra humana, mas sim a verdadeira ação de Deus no mundo.
"…pelos pecados"
No capítulo 15 de sua primeira carta aos Coríntios, Paulo afirma sua convicção a respeito da morte de Jesus: "Cristo morreu pelos nossos pecados" (1 Coríntios 15,3-5), atestando, ao mesmo tempo, que essa era a crença comum entre os primeiros discípulos. Desde a primeira geração cristã, portanto, os cristãos têm estado convencidos de que Jesus não morreu simplesmente por causa de uma infeliz convergência de eventos hostis, mas para cumprir um plano divino: "segundo as Escrituras". Sua morte resultaria na reconciliação da humanidade com Deus.
Que "Cristo morreu pelos nossos pecados" é afirmado repetidamente no Novo Testamento, mais de vinte vezes. É uma declaração lacônica, direta e objetiva, longe de ser óbvia: que conexão, pergunta o crente, poderia haver entre meus pecados e aquele infeliz evento de dois mil anos atrás? Não é de se surpreender, portanto, que tenha se seguido um trabalho de interpretação apaixonado e complexo, que, com suas variações ao longo do tempo e de um contexto cultural para outro, tenha se tornado a espinha dorsal de todo o pensamento cristão. Toda a teologia cristã, em última análise, nada mais é do que isso.
Muitas vezes isso tem sido feito, concentrando a reflexão exclusivamente no ato final de obediência de Jesus ao Pai, que foi "Não seja feita a minha vontade, mas a tua" (Lucas 22,42), proferido, suando sangue, no Getsêmani, mas não sem chegar ao resultado paradoxal de ter que imaginar o Pai pedindo ao Filho que vá para a morte; e o Filho que, ao se entregar aos seus assassinos, pretende realizar um ato de obediência ao Pai.
É inútil questionar aquele momento sem considerar todos os eventos precedentes que levaram àquela situação dramática. Sua obediência, aliás, naquele momento final, registrado nos quatro Evangelhos, é na verdade um momento emblemático de sua obediência ao longo de toda a vida.
De fato, é preciso enfatizar que foi somente por obedecer ao Pai, cumprindo fielmente a missão para a qual o Pai o enviara, que ele se viu na dramática situação de ter que aguardar a prisão, sem abrir mão da fuga, embora sempre possível, ou da resistência armada, como sugeriu um de seus discípulos (Mt 26,51-53). Bastaria, na verdade, que ele se abstivesse de denunciar a hipocrisia dos escribas e fariseus e, em geral, dos líderes de seu país, daqueles que se vangloriavam da devoção de suas intermináveis orações, enquanto, em seus negócios, eram capazes de explorar até mesmo uma pobre viúva (Mc 12,40).
A partir dos relatos dos Evangelhos, emerge um detalhe que se revelará crucial para as interpretações subsequentes do significado da morte de Jesus: ele se expressa e se comporta diante das interpretações da Lei de tal maneira que dá a impressão de querer confrontar as autoridades, pronto para sofrer as consequências; suas atitudes, em alguns casos, são claramente provocativas. Tudo isso, em última análise, incluindo ter que sofrer as consequências, até o trágico desfecho de sua condenação e morte, parece constituir a essência de sua missão.
A expressão necessita, "é necessário que o Filho do Homem sofra grande sofrimento", em Marcos 8,31, é um padrão que se repete mais de vinte vezes e reaparece nos quatro Evangelhos. Sua morte, portanto, não poderia ser relegada à memória da fé como se fosse um desfecho infeliz de sua vida, devido às adversidades do contexto. Ela constituiu o cumprimento de sua missão de salvar a humanidade do pecado e da morte: "Cristo morreu pelos nossos pecados" é uma afirmação fundamental que, segundo o testemunho de Paulo, era essencial ao testemunho da fé desde o princípio (1 Coríntios 15,1-5).
A ideia de que Ele morreu pelos nossos pecados foi a interpretação original e fundamental com que a comunidade cristã interpretou os eventos da morte de Cristo, dentro do contexto do tão aguardado cumprimento de um plano divino de salvação. No Novo Testamento, aliás, a afirmação de que "Cristo morreu pelos nossos pecados" é uma espécie de refrão, que acompanha todas as estrofes do hino da fé.
Somente o hábito de repeti-lo inúmeras vezes, ao longo dos séculos, fez com que uma afirmação que, na realidade, não é nada óbvia, parecesse óbvia: quão plausível pode ser a ideia de que a história sombria e triste da condenação à morte de um homem inocente possa levar a uma perspectiva de salvação do pecado e da morte para toda a humanidade?
Se, portanto, compreender o fruto da morte de Jesus na salvação do homem do pecado e da morte foi a primeira e fundamental interpretação dos acontecimentos, essa mesma concepção, longe de ser óbvia, precisou, por sua vez, ser interpretada.
As imagens da salvação
As categorias tradicionais da hermenêutica cristã da salvação são bem conhecidas: redenção, resgate, expiação e sacrifício são as mais utilizadas. Ao longo da história da teologia, que no Ocidente se desenvolveu principalmente por meio da conceitualização e da argumentação, essas categorias foram consideradas veículos de ideias, conceitos claros e distintos, resultando em um emaranhado de pensamentos em intermináveis paralogismos.
Para evitar se enredar em questões insolúveis, a teologia deve abandonar o caminho da conceitualização e da argumentação e trilhar o da imaginação. A comunidade cristã primitiva não parece ter sido um lugar de elaborações altamente especulativas, mas era rica em imaginação e criava imagens para traduzir sua autoconsciência da fé, extraindo-as do imaginário coletivo de sua época nas diversas esferas da vida cotidiana. Além disso, era muito mais natural para os editores dos textos do Novo Testamento, que não eram filósofos especulativos, usar imagens e falar em metáforas do que elaborar conceitos refinados.
Ora, as imagens são, por sua própria natureza, polissêmicas e exuberantes, sempre vagas e mutáveis, ricas em detalhes atraentes, mas nem todos pertinentes ao objeto interpretado, de modo que seria absurdo buscar uma correspondência, para todas elas, na realidade interpretada. Elas afetam a emoção em vez de servir ao intelecto. Produzem prática antes e mais do que conhecimento.
Na literatura, isso corresponde às metáforas, que expressam coisas que não são verdadeiras, mas, justamente por chocarem com sua falsidade, despertam um salto de inteligência rumo à intuição de algo fascinante, novo e que aponta para uma verdade superior. As metáforas, como diria Paul Ricoeur, são uma "verdade tensa". Somente lendo as imagens que o Novo Testamento emprega para interpretar o poder salvador da morte de Jesus, partindo da dinâmica típica da linguagem metafórica, seremos capazes de apreender sua riqueza hermenêutica.
Redenção
Na era do cristianismo nascente, presenciar um ato de redenção — isto é, a compra de um escravo para restaurar sua liberdade — era uma experiência observável na prática social. Hoje, em uma sociedade civilizada e avançada, para ouvir falar disso é preciso abrir um livro de história ou ir ao cinema assistir a um filme. É por isso que ouvir a palavra redenção não evoca mais a imagem de eventos relacionados ao tráfico de escravos, nem de qualquer evento comercial: no entanto, ela deriva do latim redimere e, portanto, de emere, que significa comprar.
O significado é melhor explicado no grego do Novo Testamento, que, para dizer redenção, escreve apolýtrōsis, trazendo a ideia de redenção para o primeiro plano: lytróō provavelmente vem de λύω, “afrouxar”, como em desatar as correntes e, portanto, libertar.
O objeto da transação é a pessoa humana, sua liberdade e sua dignidade. Quando ouvimos que Cristo nos redimiu, somos preenchidos por uma renovada consciência e alegria por Cristo nos ter libertado da miséria de uma condição humana dominada pelo pecado e pela injustiça. Surge um profundo sentimento de gratidão, ao lembrarmos que sua obra lhe custou o esforço de sua missão e, por fim, a condenação e a morte.
Ao situar o termo "redimir" no contexto mercantil de sua origem, o significado do preço que ele pagou por nossa redenção se destaca: "Sabendo que vocês não foram resgatados com coisas perecíveis, como prata ou ouro..., mas com o precioso sangue de Cristo" (Pe 1,18-19).
Na verdade, também não é pertinente a questão frequentemente levantada sobre a quem Cristo teria que pagar o preço trágico de sua morte na cruz para redimir a humanidade da escravidão. A própria imagem não reivindica a adequação e a univocidade do conceito.
A imagem não foi criada para construir uma teologia da redenção, mas sim para fazer os crentes sentirem a emoção e a gratidão por aquele Deus que amou tanto o mundo, "que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (João 3,16). Ela está ali, entrelaçada com nossos sentimentos, para nos fazer experimentar a alegria de uma liberdade redescoberta no perdão e nos frutos da conversão.
Expiação
Do ambiente da praça pública, pronunciar a palavra "expiação" transporta nossa imaginação para os espaços pomposos do tribunal. De fato, para aqueles que leem a Bíblia, a figura da expiação conduz a mente, com sua imaginação, a dois lugares distintos e muito diferentes. O primeiro é o do tribunal, com o juiz, que profere a sentença e define os termos da punição. O segundo, para nós hoje, só é imaginável através dos textos das Escrituras, que descrevem a antiga liturgia do Êxodo que mais tarde seria celebrada no Templo:
"(Aarão) tomará um pouco do sangue do novilho e o aspergirá com o dedo sobre o propiciatório, do lado oriental; e aspergirá sete vezes com o dedo sobre o propiciatório"(Levítico 16,4).
O propiciatório era a tampa dourada da Arca da Aliança, que nos ritos de expiação era aspergida com o sangue da vítima. Paulo nunca tinha visto a Arca sagrada porque, roubada pelos babilônios durante a conquista de Jerusalém, ela não estava no templo naquele momento. Mesmo que estivesse lá, ele não teria podido vê-la, pois estava trancada no recinto reservado aos sacerdotes.
Ao ler Levítico, porém, ele formou uma imagem vívida disso, que lhe vem à mente quando imagina o corpo ferido de Jesus descendo da cruz. Ele sublima essa cena angustiante imaginando-a como a solene liturgia de Yom Kippur, quando o sumo sacerdote, entrando no Santo dos Santos, aspergiu o sangue das vítimas sobre o hilasterion, isto é, a tampa dourada da Arca: "Deus estabeleceu isto como o hilasterion, pela fé, no seu sangue..." (Romanos 3,25).
O termo hilast ḗ rion carrega consigo toda a complexa semântica cultual de kappṓret: lugar da presença divina, lugar de encontro com Deus e lugar de expiação pelo sangue. Tudo isso hoje é o corpo de Cristo, morto e manchado de sangue: a imagem nos leva a contemplá-lo, despertando em nós as emoções de recordar a paixão e a morte do Senhor em gratidão.
Sacrifício
Da praça do mercado ao tribunal. E agora, do tribunal ao templo. A linguagem torna-se a do ritual, que, paradoxalmente, é rejeitada na Carta aos Hebreus apenas para ser reabilitada em um plano diferente, o da vida vivida. O apóstolo anônimo, aliás, não teme declarar explicitamente que Cristo na cruz "abole o primeiro sacrifício para estabelecer um novo".
O destino deste magnífico texto do apóstolo ao longo da história da interpretação é curioso. Trata-se, na realidade, de uma declaração de uma morte ocorrida, o fim decretado do ritual, e é frequentemente usado para demonstrar que o sacerdócio e o ritual sacrificial ainda existem na Igreja.
A razão para isso reside na interpretação que a tradição católica deu à Missa como uma renovação do sacrifício de Cristo na cruz, interpretação essa que a teologia protestante rejeita por não ser adequadamente atestada pelas Sagradas Escrituras. O Catecismo da Igreja Católica, contudo, reitera: "Como memorial da Páscoa de Cristo, a Eucaristia é também um sacrifício", e apresenta a razão: "porque representa (torna presente) o sacrifício da cruz, porque é seu memorial e porque aplica seus frutos" (itálicos e parênteses são do texto: 1365-1366).
Se a Eucaristia, na doutrina católica, é um sacrifício, seu ritual não conserva sua forma, exceto no gesto da oferta, permanecendo inexpressivo, a não ser em palavras, e vagamente evocado no gesto de partir o pão, forma de imolação.
O fato de os tradutores italianos do Missale Romanum de Paulo VI terem usado o termo "sacrifício" 433 vezes, ou seja, o dobro das 213 vezes em que o termo latino "sacrificium" aparece no original, traduzindo como sacrificio também devotio, oblatio, servitium, revela uma posição ideológica de pouca simpatia, para dizer o mínimo, pela reforma litúrgica desejada pelo Concílio.
Eu jamais imaginaria que os tradutores italianos do Missal ousariam modificar a fórmula, definida por Paulo VI para a Igreja universal, para a consagração do pão, "Hoc est enim Corpus meum quod pro vobis tradetur", apenas para repetir mais uma vez o termo tão apreciado. Na verdade, negligenciaram a linguagem bíblica de tradetur, que deriva do "quod pro vobis datur" da Vulgata Lucas e do "Filius hominis tradetur" das profecias da Paixão, e retornaram, com pouco senso ecumênico, à linguagem da controvérsia pós-Tridentina, acrescentando "oferecido em sacrifício por vós".
Não foi isso que fez a Igreja Francesa ("Ceci est mon corps pour vous"), nem a Igreja Alemã ("der für euch hingegeben wird"), nem as muitas Igrejas de língua inglesa ("which will be gave up for you"). Por outro lado, na tradução do Cânon Romano, fomos felizmente dispensados de nos preocuparmos pagãmente em tornar nossa oferta "benedictam, adscriptam, ratam, rationabilem, acceptabilemque" por Deus, para a qual pedimos apenas que Deus se digne "aceitá-la em nosso favor, como um sacrifício espiritual e perfeito".
Contudo, o termo sacrifício não seria capaz de expressar a forma do rito realmente celebrado, que não é de modo algum a imolação de uma vítima, mas apenas a oferta da própria vida a Deus, no contexto da Última Ceia de Jesus, na qual ele traduz no gesto ritual de partir o pão e derramar o vinho a doação total de sua própria existência, em obediência à afirmação de Hebreus 10: "Em holocaustos e ofertas pelo pecado não te agradaste. Então eu disse: 'Eis que venho, porque no rolo do livro está escrito a meu respeito, para fazer a tua vontade, ó Deus'" (Hebreus 10,6-7).
O rito continuará a adornar-se com o termo, mas com a consciência de que se trata de uma metáfora, para a qual a Eucaristia é, e não é, um sacrifício. É a verdade da oferta da vida de Jesus ao Pai pela salvação da humanidade, não apenas no gesto de sua suprema obediência, pronunciada, suando sangue, no Getsêmani, mas ao longo de toda a sua existência. Se naquela noite lhe foi pedido que realizasse o ato supremo de sua consagração, o de entregar-se, sem se defender nem fugir, aos seus assassinos, foi apenas porque ele jamais poderia, naquele momento final, contradizer aquela que fora a motivação constante de toda a sua vida.
A teologia e a espiritualidade cristãs precisam, na verdade, tanto imaginar quanto conceituar as coisas em que acreditam e vivenciam: o conceito, com sua clareza e univocidade, estará lá para proteger a imaginação do poder arbitrário da fantasia, enquanto a imagem preservará o conceito da presunção de ser exaustivo da realidade.
O novo homem
A figura que melhor resume todo o significado da salvação cristã é a do fim do velho homem, com seu modo de experimentar e viver a vida, e o surgimento de um novo homem em seu modo de pensar e agir. A comovente comparação, tão apreciada no Novo Testamento, entre o velho homem e o novo homem levou Paulo a nos dar sua explicação sobre o Batismo:
"Fomos, pois, sepultados com ele na morte por meio do batismo, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova" (Romanos 6,3-4).
Todas as outras imagens da salvação cristã estão aqui resumidas na figura de Jesus que morre e ressuscita: ele é o modelo da vida cristã, que supera o antigo modo de vida para empreender um novo; indo mais a fundo, ele é o canal da graça por onde flui a nova vida do cristão.
Paulo escreveu aos fiéis em Roma: "Rogo-vos, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus." Loghikè latreìa, a adoração "razoável", a única digna de Deus e dos homens que nos foi dada para celebrar, não reside mais nos ritos, mas no modo de viver a vida, tornando-a uma oferta agradável a Deus. Eu preferiria traduzir "razoável" em vez de "espiritual" (Rm 12,1), como é geralmente traduzido, para não esvaziar sua corporeidade material de significado.
Aqui Paulo se refere, na verdade, à adoração que o cristão oferece a Deus com as obras de suas mãos, o ir e vir de seus pés, o olhar de seus olhos e as palavras de sua boca, as coisas que são feitas com amor, caso contrário ele não teria dito aos cristãos para oferecerem seus corpos.
Em certo momento de sua vida, Paulo confessa que percebe que não viverá muito tempo. Ele, que mais do que outros sancionou o fim da Antiga Lei, seu sacerdócio e seus ritos, agora, no fim da vida, imagina-se sacerdote, levando sua oferta ao altar. O que ele pode dar ao Pai é o fruto de seus trabalhos, a vida vivida pelas comunidades de fé que criou e protegeu.
Para coroar sua existência, ele derramará o sangue de seu martírio sobre esta oferenda como se fosse um rito de libação: "Ainda que eu deva ser derramado sobre o sacrifício e oferta da vossa fé, estou contente e me alegro com todos vós" (Filipenses 2,17).
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