Não sabemos como saborear a fé. Comentário de José Antonio Pagola

06 Março 2026

Como alguém pode ser um crente sem jamais experimentar o amor acolhedor de Deus?

O comentário é de José Antonio Pagola, teólogo espanhol, ao Evangelho de Jesus Cristo segundo João 4, 5-42, que corresponde ao 3º Domingo da Quaresma, ciclo A do Ano Litúrgico, publicado por Religión Digital, 08-03-2026.

Eis o comentário.

Talvez uma das maiores desgraças do cristianismo contemporâneo seja a falta de "experiência religiosa". Muitos se dizem cristãos, mas não sabem o que significa desfrutar da sua fé, sentir-se à vontade com Deus e viver saboreando a sua devoção a Jesus. Como alguém pode ser crente sem nunca ter experimentado o amor acolhedor de Deus?

O desenvolvimento de uma teologia marcadamente racional e a importância dada no Ocidente à formulação conceitual muitas vezes levaram à compreensão e à vivência da fé como uma "adesão doutrinal" a Jesus Cristo. Muitos cristãos "acreditam em coisas" sobre Jesus, mas não sabem como se comunicar com Ele de forma alegre.

Algo semelhante acontece, por vezes, nas celebrações litúrgicas. Os ritos externos são observados corretamente e belas palavras são proferidas, mas tudo parece ocorrer "fora" do povo. Cantam com os lábios, mas seus corações estão ausentes. Recebem o Corpo do Senhor, mas não há comunhão viva com Ele.

O que acontece com a leitura da Bíblia também é significativo. Os avanços na exegese moderna nos permitiram compreender a composição dos livros sagrados, os gêneros literários e a estrutura dos Evangelhos como nunca antes. No entanto, ainda não aprendemos a saborear o Evangelho de Jesus.

Tudo isso gera uma sensação estranha. Parece que estamos apenas arranhando a superfície da fé. A Igreja não carece de palavras ou sacramentos. Sermões são pregados todos os domingos. A Eucaristia é celebrada. Há também batismos, primeiras comunhões e crismas. Mas algo está faltando, e não é fácil dizer exatamente o quê. Não foi isso que os primeiros crentes experimentaram.

Não temos a capacidade de desfrutar verdadeiramente daquilo em que afirmamos acreditar; de saborear dentro de nós a presença silenciosa, porém real, de Deus.

Precisamos de uma nova experiência do Espírito que nos faça viver a partir de dentro e nos ensine a "sentir e saborear as coisas interiormente", como disse Inácio de Loyola. Falta-nos a capacidade de saborear aquilo em que professamos crer; de apreciar em nós mesmos a presença silenciosa, porém real, de Deus. Falta-nos espontaneidade com Ele, confiança alegre em Seu amor.

Essa experiência com Deus não é fruto de nossos esforços e trabalho. Precisamos abrir espaço para o Espírito em nossas vidas e corações, em nossas celebrações e na comunidade cristã. A Igreja de nossos dias também precisa ouvir as palavras de Jesus à mulher samaritana: "Se você conhecesse o dom de Deus...". Somente quando aberto à ação do Espírito é que o crente descobre a água prometida por Jesus, que se torna em nós "uma fonte de água a jorrar para a vida eterna".

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