O mistério da Páscoa: a alma e a face do cristão. Artigo de José Florio

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27 Março 2026

"A liturgia inclui leituras muito significativas e, em particular, proclamamos a narrativa da Paixão encontrada nos quatro Evangelhos. Podemos estar acostumados a ouvi-la proclamada, mas há dois mil anos, não era assim. Ninguém escreveria nada em um crucifixo! Era impensável! Em vez disso, em Jerusalém, os primeiros cristãos acreditavam que o escândalo sofrido por Jesus não poderia ser esquecido", escreve José Florio, teólogo e estudioso bíblico, em artigo publicado por Viandanti, 26-03-2026.

Eis o artigo.

Há um ditado popular que todos conhecem: Natal com a família. Páscoa com quem quiser.

Não, isso já não se verifica na nossa sociedade profundamente secularizada. Quando chega o Tríduo Pascal, os cristãos "param", não saem de férias e, se possível, nem sequer vão trabalhar. Dedicam-se à profunda contemplação. Em comunhão com toda a Igreja e, sobretudo, com todas as vítimas inocentes... inocentes como Jesus de Nazaré.

Vejamos três pontos que são a alma do "Mistério Pascal" e, portanto, da nossa fé e das nossas vidas.

Podemos começar com a noite do Sábado Santo, quando a assembleia proclama e confessa que Jesus crucificado ressuscitou e renova o batismo.

Na liturgia dessa noite, sempre lemos alguns versículos decisivos que Paulo escreveu em sua carta aos Romanos, no capítulo 6. Consideremos com muita atenção o versículo 5: "Porque, se fomos enxertados nele na semelhança da sua morte, certamente o seremos na semelhança da sua ressurreição".

Uma intuição brilhante. Este é o significado do batismo. A pessoa batizada é chamada a viver em simbiose com Cristo. Inserida nele. Aprenderá a morrer e a viver como Jesus nos ensinou. E se somos uma videira "brava", uma vez enxertada, seremos capazes de produzir boas uvas!

É por isso que não somos, antes de tudo, a "religião" do pecado, mas da graça. Nossa humanidade, por mais condicionada que esteja pela fragilidade e pelo "pecado", recebeu a graça de viver uma relação existencial e insubstituível com a Sua morte e ressurreição. "Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim" (Gálatas 2,20). Por essa razão, confessamos Cristo como nosso único e insubstituível Senhor.

A conexão entre o batismo e o pecado original não é de Paulo, mas de Agostinho, e essa teologia foi revisada nas últimas décadas. Como cristãos, não estamos lidando primordialmente com uma "doutrina", mas com Cristo que "me amou e se entregou por mim" (Gálatas 2,20). Podemos viver como Ele e dar nossas vidas como Ele. Uma nova vitalidade.

E agora, vamos nos concentrar na Sexta-feira Santa. É o dia da grande "kenosis", do esvaziamento de si.

A liturgia inclui leituras muito significativas e, em particular, proclamamos a narrativa da Paixão encontrada nos quatro Evangelhos. Podemos estar acostumados a ouvi-la proclamada, mas há dois mil anos, não era assim. Ninguém escreveria nada em um crucifixo! Era impensável! Em vez disso, em Jerusalém, os primeiros cristãos acreditavam que o escândalo sofrido por Jesus não poderia ser esquecido. Se Jesus tivesse ressuscitado, sua humilhante crucificação talvez pudesse ser esquecida. Não, sua morte representava precisamente todos os justos sacrificados e abandonados por Deus e pelos homens. Somos chamados a ser as pessoas que primeiro olham para as vítimas do nosso mundo.

E então, confessamos que todos fomos redimidos. Gratuitamente. Somos reconciliados com o Pai que é ágape — amor absoluto. Sua verdadeira face foi revelada de uma vez por todas naquele crucifixo. É por isso que vamos adorar a cruz. Um gesto inimaginável, que só um cristão convicto pode fazer. Não somos chamados a celebrar o Deus da glória!

A partir da Sexta-feira Santa, nasce uma "espiritualidade" da cruz. Todos podem ter que enfrentar situações dolorosas e inaceitáveis. E se estivermos no fundo de um "abismo"? Seguimos em frente por dever? Ou por desespero? Não podemos aceitar a realidade por amor, isto é, em comunhão com Ele. Este foi o caminho dos mártires que celebramos hoje.

Agora entendemos por que Paulo, escrevendo aos Coríntios, afirma que estamos diante de um "escândalo", tanto para a racionalidade quanto para a "religião". Na história de Jesus de Nazaré, Deus trilhou um caminho inimaginável e impensável, um caminho por onde ninguém se aventuraria a procurá-Lo. No cristianismo, não há espaço para técnicas de persuasão. É preciso o Espírito para entrar no "mistério".

E agora chegamos à Quinta-feira Santa. É o dia em que os cristãos são lembrados de que são chamados a ser 'servos' e a viver o amor gratuito, o ágape. Jesus lava os pés de seus discípulos. Nenhum 'mestre' fez tal coisa! É para aqui que o caminho concreto da Kenosis nos conduz. Para sermos servos, para vivermos o amor gratuito, precisamos saber como nos 'esvaziar'.

O ágape só pode ser verdadeiro na humildade. Aqui também, o Espírito é necessário; não podemos fazer isso sozinhos. A fé não tem fim em si mesma. Nossa fé se 'vê' se soubermos amar gratuitamente, para além de toda a lógica deste mundo.

Eis, em termos simples, o "mistério pascal", que é a alma e a face do cristão. Nosso teólogo, Karl Rahner, escreveu em 1966, poucos meses após o Concílio: "O cristão de amanhã será ou um 'místico', alguém que 'vivenciou' algo, ou não será nenhum místico."

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