A Copa do Mundo da desintegração americana. Artigo de Efraín Navarro Granado

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12 Junho 2026

Por trás da Copa do Mundo da FIFA de 2026, esconde-se uma história de poder: a ascensão dos Estados Unidos no futebol, superando o domínio histórico do México. O país que antes era o "gigante da CONCACAF" agora participa como parceiro júnior. Com o acordo comercial USMCA em crise, o torneio pode se tornar o epitáfio de uma América do Norte integrada.

O artigo é de Efraín Navarro Granado, publicado por Nueva Sociedad, junho de 2026.

Efraín Navarro Granado tem doutorado em História pelo El Colegio de México, atualmente é pesquisador de pós-doutorado na Escola Nacional de Estudos Superiores, campus Morelia, da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Desenvolveu diversos projetos de pesquisa sobre a história do futebol mexicano.

Eis o artigo.

A cada quatro anos, o futebol — normalmente domínio exclusivo do jornalismo esportivo — torna-se terreno fértil para a reflexão política. Constantemente surge a ideia de que o jogo reflete a realidade social e, em particular, o estado das relações internacionais. A Copa do Mundo de 2026, coorganizada pelos Estados Unidos, México e Canadá, não é exceção.

É natural sentir-se tentado a interpretar um torneio que aspira representar o planeta inteiro como uma metáfora geopolítica. A partida de 1986 entre Inglaterra e Argentina é frequentemente invocada como a Guerra das Malvinas sendo travada nos campos de futebol. Da mesma forma, a chamada Guerra do Futebol entre Honduras e El Salvador — como Ryszard Kapuściński a denominou — é citada, precedida por uma série de jogos de qualificação que exacerbaram as tensões entre os dois países. Mas, embora esse tipo de interpretação seja inevitável quando duas equipes se enfrentam vestindo suas cores e símbolos nacionais, usar o esporte como metáfora política tem limitações óbvias.

Dessa perspectiva, a próxima Copa do Mundo é vista como um projeto de Donald Trump, inserido em sua política externa disruptiva; um empreendimento no qual México e Canadá são parceiros minoritários. A atenção também se volta para a possibilidade de agitação social nos Estados Unidos, no contexto das brutais políticas de imigração implementadas pelo governo Trump, mas a participação da seleção iraniana no torneio também está causando tensões diplomáticas que alimentam o complexo conflito no Oriente Médio.

Do ponto de vista mexicano, o evento representa um desafio político para a presidência de Claudia Sheinbaum, não apenas pelas dificuldades organizacionais envolvidas, mas também porque complica uma relação com os Estados Unidos já tensa devido às repetidas acusações de Trump contra o México em relação à sua atuação no combate ao crime organizado. Soma-se a isso uma complexa situação interna em que diversos movimentos sociais, como sindicatos de professores e grupos de busca por pessoas desaparecidas, estão preparando protestos para aproveitar a atenção global que a Copa do Mundo proporciona.

Todas essas análises sobre a importância do torneio têm seus méritos, mas proponho considerar a relação entre México e Estados Unidos no futebol para além da atual perspectiva geopolítica. Estou particularmente interessado em explicar como a reorganização da cultura futebolística nos Estados Unidos, no contexto da crise do grande projeto de integração econômica da região, contribui para a subordinação do México aos interesses de seu vizinho do norte. E isso ocorre após uma longa história de domínio mexicano no futebol mundial.

O domínio histórico do México no futebol

Historicamente, a relação entre os Estados Unidos e o México tem sido desigual. No entanto, durante o século XX, o futebol foi uma das poucas áreas em que os mexicanos puderam afirmar sua superioridade. Essa dominância não se limitava aos campos de jogo. Embora a seleção mexicana não tenha conquistado grandes vitórias internacionais, o país desempenhou um papel significativo na organização global do futebol a partir da década de 1960, ocupando posições importantes na FIFA e sediando as Copas do Mundo de 1970 e 1986.

A proeminência do México no futebol internacional foi resultado de um empreendimento comercial bem-sucedido. Durante a década de 1960, Emilio Azcárraga Milmo, filho de um dos maiores magnatas do rádio e da televisão do México, cujo império incluía o antecessor do atual Grupo Televisa, interessou-se pelo potencial comercial do futebol. O jovem empresário não apenas se aventurou no esporte; ele o dominou: adquiriu um clube de futebol, aperfeiçoou a transmissão televisiva das partidas, impulsionou a venda de espaços publicitários durante as transmissões, empreendeu a construção de um dos maiores estádios do mundo — o Estádio Azteca (1966) — e, em 1960, assumiu o controle da Federação Mexicana de Futebol (Femexfut) por meio de Guillermo Cañedo.

Após assumir o controle do futebol local, Cañedo tornou-se o braço direito de Azcárraga na FIFA e ascendeu ao cargo de vice-presidente da organização em 1962. Dois anos depois, o México venceu a candidatura para sediar a Copa do Mundo de 1970. A edição foi um estrondoso sucesso comercial e a primeira vez que o evento foi transmitido ao vivo e em cores para o mundo todo via satélite.

O sucesso do torneio consolidou a posição de Azcárraga Milmo dentro do grupo de mídia, que assumiu o controle do império após a morte de seu pai em 1972. Nos anos seguintes, os interesses do futebol mexicano na FIFA só aumentaram. Por exemplo, o apoio mexicano foi crucial para a ascensão do brasileiro João Havelange à presidência em 1974, enquanto Cañedo ocupou vários cargos dentro da organização até 1997.

A disputa pela Copa de 1986 e a virada americana

A situação nos Estados Unidos não poderia ser mais diferente. Historicamente, o futebol tinha pouca importância econômica, pois competia com esportes mais populares socialmente, como beisebol, futebol americano e basquete. Em 1968, as duas principais ligas de futebol se fundiram numa tentativa de criar um torneio nacional transmitido pela televisão, dando origem à North American Soccer League (NASL). Durante a década de 1970, apesar de algumas dificuldades financeiras, o torneio gozou de certa popularidade, atraindo estrelas internacionais como Pelé e Franz Beckenbauer.

Nesse contexto, a estrutura organizacional do futebol mexicano confrontou o projeto americano nascente na disputa pela sede da Copa do Mundo de 1986. Em 1982, o presidente colombiano Belisario Betancur rejeitou a realização do torneio em seu país devido à difícil situação econômica regional e às exigências excessivas da FIFA. Com a vaga de sede declarada indefinida, três nações disputaram o local: México, Estados Unidos e Canadá. Enquanto a candidatura canadense não obteve grande apoio, a candidatura americana contou com forte suporte político e empresarial, incluindo a Warner Communications e o ex-secretário de Estado Henry Kissinger, líder do comitê organizador da candidatura. Mas, apesar da pressão de Washington sobre diversas federações europeias e caribenhas, não conseguiu superar a máquina mexicana, que tinha o apoio do presidente Havelange.

Autoridades mexicanas também recorreram a subterfúgios quase inacreditáveis para obstruir a candidatura rival. Como relata o jornalista Francisco Javier González em El 86. El año en que México cambió al mundo (2022), durante o congresso de Estocolmo, o presidente da federação mexicana indicou a entrada do prédio a um grupo de manifestantes que protestavam contra Kissinger. Esse bloqueio atrasou a delegação americana e reduziu o tempo de sua apresentação perante o Comitê Executivo da FIFA. Os Estados Unidos foram derrotados na política institucional do futebol pelo "gigante da CONCACAF", como o México era conhecido. A derrota foi tão retumbante que os investidores da NASL abandonaram o projeto, prejudicando o desenvolvimento do futebol profissional no país.

Contudo, alguns anos depois, em 1988, a FIFA concedeu aos Estados Unidos o direito de sediar a Copa do Mundo, atribuindo-lhes o torneio de 1994. Cabe ressaltar que, enquanto os Estados Unidos se preparavam para sediar sua primeira Copa do Mundo, também iniciavam um processo de integração econômica com o México e o Canadá com a assinatura do NAFTA. Por meio desse acordo, o México vinculou seu desenvolvimento econômico ao de seu poderoso vizinho, sacrificando a já limitada autonomia que tentara manter durante a Guerra Fria e subordinando seu crescimento às flutuações econômicas ao norte do Rio Grande.

A atribuição da Copa do Mundo aos Estados Unidos significou o reconhecimento do potencial de crescimento do futebol no país, que, devido às suas características econômicas e demográficas, representava um mercado atraente. Uma das condições impostas pela FIFA à Federação de Futebol dos Estados Unidos (USSF) foi o estabelecimento de uma liga profissional competitiva, o que levou à criação da Major League Soccer (MLS). Mas, embora a Copa do Mundo tenha impulsionado o crescimento do futebol americano, não conseguiu captar imediatamente a atenção do público majoritário do país. Isso fica evidente pelo fato de que, enquanto a Univision transmitiu todos os jogos da Copa do Mundo de 1994, a ABC exibiu apenas 11 das 52 partidas.

O "FIFA Gate" e a hegemonia americana

No início do século XXI, tanto os Estados Unidos quanto o México manifestaram interesse em sediar a próxima Copa do Mundo. Ambos tentaram garantir a candidatura para 2022, mas o México retirou sua candidatura antes da votação final, e os Estados Unidos perderam para o Catar na última rodada. Nesse contexto, diversas agências do governo Barack Obama iniciaram investigações contra dirigentes da FIFA por práticas corruptas na concessão dos direitos de sede da Copa do Mundo e na venda dos direitos de transmissão televisiva. O chamado escândalo "FIFA Gate" eclodiu em 2015, levando à renúncia de seu presidente, Joseph Blatter, bem como de outros altos funcionários e líderes do futebol regional. O golpe contra a FIFA resultou na eleição de um presidente da associação subserviente aos interesses dos EUA: Gianni Infantino.

Uma candidatura conjunta entre México, Estados Unidos e Canadá foi imediatamente posta em prática e anunciada poucos meses após o início do primeiro mandato presidencial de Donald Trump, em 2017. O envolvimento dos dois parceiros regionais pode ser explicado como uma manobra política para angariar votos, mas também como uma forma de disfarçar o fato de que a Copa do Mundo estava, na prática, nas mãos dos Estados Unidos. Contudo, é inegável que a candidatura tripartite foi aprovada em 2018 por uma FIFA abalada pelos escândalos de corrupção revelados nos Estados Unidos e com uma presidência favorável a Trump. Embora o Catar tenha vencido em 2022 por uma margem estreita, a candidatura conjunta para 2026 triunfou decisivamente.

Paradoxalmente, a aliança entre os mesmos três países que disputaram o direito de sediar os Jogos de 1986 ocorreu num contexto em que o próprio Trump começava a questionar o projeto de integração regional consagrado no NAFTA. Embora o acordo comercial tenha sido reformulado pouco depois, sob a liderança do presidente americano, como o USMCA, a relação ficou tensa a partir de então. Além disso, a inclusão das federações mexicana e canadense na candidatura foi mais uma submissão do que um acordo entre iguais. A distribuição final dos jogos entre os três países reflete o peso de cada um: 78 para os Estados Unidos, 13 para o México e 13 para o Canadá.

O projeto da Copa do Mundo envolvendo três entidades antecedeu o sucesso político de Trump, mas seu apoio foi crucial. A iniciativa comercial da MLS já contava com diversos canais de comunicação com o governo Trump. O empresário esportivo Robert Kraft, dono do New England Revolution, tinha um relacionamento de longa data com o próprio magnata nova-iorquino, assim como com os irmãos Jorge e José Mas, magnatas da construção civil e donos do Inter Miami, que se opunham a Castro. Somando-se a essas conexões está o magnata da mídia Rupert Murdoch, cuja rede de televisão transmitiu jogos da MLS e fará o mesmo com as partidas da Copa do Mundo.

A crise do futebol mexicano e o ocaso de uma era

Entretanto, nas últimas duas décadas, o futebol mexicano deixou de ser a máquina política bem azeitada que era em 1986. A partir de 2015, um ator-chave como o Grupo Televisa, agora controlado pela próxima geração da família Azcárraga, começou a mostrar sinais de crise financeira, resultado da ascensão de novas plataformas digitais originárias dos Estados Unidos. Além disso, o conglomerado de mídia foi politicamente prejudicado por suas ligações com o regime do Partido Revolucionário Institucional (PRI), particularmente pelo apoio à campanha e ao governo de Enrique Peña Nieto (2012-2018), que terminou seu mandato em desgraça.

Nesse contexto, para o governo de Claudia Sheinbaum, o torneio representou mais um legado oneroso do que uma oportunidade política. As extensas isenções fiscais que Peña Nieto havia garantido à FIFA até 2028 entraram em conflito com a reforma constitucional promovida por Andrés Manuel López Obrador contra privilégios fiscais, e Sheinbaum teve que renegociá-las para baixo e obter sua aprovação no Congresso. Isso também ocorreu em meio a um conflito entre o governo mexicano e Ricardo Salinas Pliego, outro magnata da mídia, sobre o pagamento de impostos atrasados. Embora a Copa do Mundo prometa benefícios econômicos para o país, tornou-se uma oportunidade para opositores tanto da esquerda quanto da direita do governo atacá-la politicamente.

Esta Copa do Mundo, fruto do escândalo "FIFA Gate", representa o triunfo da influência americana no futebol internacional. Para o México, esse realinhamento da geopolítica esportiva é mais um exemplo de sua subordinação aos interesses de seu vizinho do norte. Acabaram-se os anos de domínio esportivo mexicano e a era em que a Federação Mexicana de Futebol (Femexfut) exercia grande influência sobre a FIFA. Nas circunstâncias atuais, o torneio agrava os problemas enfrentados pelos veículos de mídia tradicionais no México, cada vez mais pressionados por grandes conglomerados americanos.

O USMCA — herdeiro do grandioso projeto de integração regional da década de 1990 — encontra-se atualmente em um momento crucial de renegociação entre o México e os Estados Unidos. Se o seu fracasso for confirmado nos próximos anos, esse processo poderá muito bem ter sido o canto do cisne do sonho de uma América do Norte unida.

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