Combate ao terrorismo ou intervenção à soberania do Brasil e das eleições

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01 Junho 2026

O que dizem especialistas sobre a decisão dos EUA de enquadrar PCC e CV como organizações terroristas; milicias ficam de fora da medida.

A reportagem é de Marcelo Menna Barreto, publicada por Extra Classe, 29-05-2026.

A decisão do governo de Donald Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras provocou forte repercussão no Brasil e abriu um debate que vai muito além da segurança pública. Embora a medida encontre apoio em setores da opinião pública cansados do avanço do crime organizado, especialistas em segurança, relações internacionais e direito internacional alertam que seus efeitos podem ser contraproducentes para o próprio combate às facções, além de criar riscos à soberania nacional e à economia brasileira.

O anúncio foi feito poucos dias depois de encontros do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o presidente norte-americano Donald Trump e com o secretário de Estado, Marco Rubio, em Washington. Após as reuniões, o parlamentar afirmou ter solicitado ao governo dos Estados Unidos que enquadrasse as duas maiores facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.

A repercussão no governo Lula e sua base no Congresso foi imediata. O ministro chefe da Casa Civil, Guilherme Boulos (Psol), ironizou: “Será que os Estados Unidos também vão classificar como terrorista a milícia do Rio de Janeiro ligada aos Bolsonaro?”.

Já a bancada do PT na Câmara foi mais incisiva. No encerramento de uma nota emitida pelo líder da bancada na casa, Pedro Uczai, foi registrado: A família Bolsonaro presta mais um desserviço ao Brasil. Depois de reivindicar sanções, tarifas e pressões estrangeiras contra a economia brasileira, de oferecer as nossas riquezas como os minerais críticos, Flávio e Eduardo avançam agora sobre a segurança pública nacional, usando o crime organizado como pretexto para entregar o país ao comando de Trump. A mesma família que acumula relações com o crime organizado no Brasil tenta posar de defensora da segurança enquanto conspira contra o povo brasileiro”.

Durante evento em Sergipe, nesta sexta-feira, 29, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) classificou Flávio Bolsonaro como “traidor” por buscar apoio estrangeiro para pressionar o Brasil. Ele acusou o senador de defender uma forma de intervenção norte-americana em assuntos internos do país. O presidente também voltou a defender a aprovação da PEC da Segurança Pública e afirmou que o enfrentamento ao crime organizado deve ocorrer por meio do fortalecimento das instituições nacionais.

Quem trabalha com segurança vê tiro no pé

Embora a proposta de enquadramento das facções como grupos terroristas possa parecer, à primeira vista, uma demonstração de rigor contra o crime, ela encontra resistência justamente entre profissionais que há décadas atuam no enfrentamento ao PCC e ao crime organizado.

É o caso do promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo, considerado uma das maiores autoridades brasileiras no combate ao PCC. Há mais de vinte anos investigando a facção, Gakiya avalia que a medida norte-americana pode dificultar, e não facilitar, o trabalho das autoridades.

Segundo ele, ao transformar o tema em questão de terrorismo, o combate às facções deixa de estar prioritariamente no campo da segurança pública e da cooperação policial para ingressar na esfera militar e de inteligência estratégica. Isso tende a aumentar o grau de sigilo das informações e reduzir a fluidez da cooperação entre Polícia Federal, Ministérios Públicos e órgãos de investigação internacionais.

Na avaliação do promotor, informações atualmente compartilhadas entre autoridades brasileiras e agências norte-americanas, como FBI e DEA, podem passar a ser tratadas como material classificado, dificultando investigações e ações coordenadas contra o crime organizado. Além disso, a mudança abre espaço para operações conduzidas por estruturas militares e de inteligência dos Estados Unidos, ampliando preocupações relacionadas à soberania nacional.

Simbolismo x caminho certo

A mesma preocupação aparece na análise de Alberto Kopittke, diretor executivo do Instituto Cidade Segura e ex-diretor da Secretaria Nacional de Segurança Pública. Para ele, a iniciativa possui muito mais conteúdo político e geopolítico do que efetiva contribuição para a segurança pública brasileira.

Kopittke sustenta que o Brasil não precisa de mecanismos paralelos de atuação nem de intervenções externas, mas de fortalecimento institucional. Em sua avaliação, Polícia Federal, Ministério Público e órgãos de inteligência já vêm ampliando sua capacidade de atuação contra o crime organizado, embora ainda enfrentem limitações estruturais e falta de recursos.

“Se os Estados Unidos realmente querem ajudar, existem muitas formas de cooperação possíveis”, argumenta. Entre elas, cita o compartilhamento de inteligência, apoio tecnológico, rastreamento de fluxos financeiros internacionais e maior controle sobre o tráfico de armas. O especialista lembra que parte significativa dos fuzis apreendidos no Rio de Janeiro tem origem em território norte-americano.

Kopittke também chama atenção para o fato de que os Estados Unidos poderiam colaborar de maneira mais efetiva no combate à lavagem de dinheiro internacional, área considerada estratégica para enfraquecer financeiramente as organizações criminosas. Segundo ele, a simples classificação das facções como terroristas cria um simbolismo político forte, mas não enfrenta os mecanismos econômicos que sustentam essas organizações.

O desbaratamento de quem estaria lavando dinheiro para o crime organizado, na Operação Carbono Oculto da Polícia Federal, é, para Kopittke, a demonstração de que o Brasil está no caminho certo.

Interferência de Trump nas eleições do Brasil

O professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, Gilberto Maringoni, vai além e interpreta a decisão como um movimento de caráter eleitoral. Para ele, a medida representa a primeira interferência direta do governo Trump na disputa presidencial brasileira de 2026.

Na sua avaliação, a iniciativa fortalece o discurso de Flávio Bolsonaro ao permitir que o senador apresente a decisão como uma demonstração da incapacidade do governo brasileiro de enfrentar sozinho o crime organizado. Maringoni observa que o anúncio ocorreu em um momento politicamente favorável para o parlamentar, que vinha enfrentando desgaste político após revelações envolvendo sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.

Mas as preocupações do professor não se limitam ao cenário eleitoral. Para ele, a classificação amplia significativamente a capacidade de intervenção dos Estados Unidos sobre outros países. Isso porque o enquadramento como organização terrorista permite a aplicação de instrumentos jurídicos e financeiros que extrapolam o âmbito tradicional da cooperação policial.

Segundo Maringoni, a experiência recente com cartéis mexicanos demonstra como a designação de grupos criminosos como terroristas pode servir de justificativa para ações unilaterais norte-americanas envolvendo monitoramento financeiro, sanções econômicas e operações conduzidas por agências de inteligência.

Riscos para a economia

Os impactos econômicos também preocupam especialistas. O jurista Welber Barral, doutor em Direito Internacional pela USP, alerta que a medida possui efeitos que vão muito além do universo criminal.

Pela legislação norte-americana, prestar qualquer tipo de apoio material a organizações classificadas como terroristas pode configurar crime federal. A interpretação do conceito é ampla e inclui operações financeiras, prestação de serviços, logística e atividades empresariais que possam, mesmo indiretamente, manter algum vínculo com organizações designadas.

Na prática, afirma Barral, bancos, seguradoras, fundos de investimento e grandes empresas tendem a elevar seus mecanismos de controle e compliance. O resultado pode ser o aumento dos custos de operação no Brasil, maior cautela dos investidores internacionais e até retração de investimentos estrangeiros.

A preocupação não é apenas teórica. O especialista lembra que, após medida semelhante adotada contra cartéis mexicanos, empresas multinacionais passaram a revisar cadeias produtivas inteiras e ampliar exigências de auditoria e monitoramento. Em cenários de insegurança jurídica, observa, o capital costuma buscar ambientes considerados menos arriscados.

Esses riscos também são destacados por Gakiya. Segundo o promotor, a classificação pode abrir caminho para sanções financeiras contra empresas, cidadãos e instituições brasileiras que eventualmente mantenham relações comerciais ou financeiras com pessoas investigadas por vínculos com as facções. Em casos extremos, haveria risco de restrições ao acesso ao sistema financeiro internacional.

Apesar das divergências políticas em torno do tema, chama atenção o fato de que especialistas de áreas distintas — segurança pública, Ministério Público, relações internacionais e direito internacional — convergem em um ponto central: a classificação das facções como organizações terroristas dificilmente resolverá os problemas estruturais que permitiram a expansão do PCC e do Comando Vermelho.

Ao contrário, argumentam, o enfrentamento efetivo passa pelo fortalecimento da Polícia Federal, pela integração entre União e estados, pela ampliação da inteligência financeira, pelo combate à lavagem de dinheiro, pelo controle do tráfico internacional de armas e pela recuperação da capacidade do Estado em territórios dominados pelo crime organizado.

Em um país onde milhões de pessoas vivem sob influência direta de facções criminosas, a demanda social por respostas rápidas é compreensível. O desafio, segundo os especialistas, é distinguir medidas de forte impacto simbólico e eleitoral de políticas efetivamente capazes de enfraquecer as estruturas econômicas, territoriais e financeiras que sustentam o crime organizado.

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