Vida consagrada: “reparar” após os abusos. Artigo de Joseph Famerée

Foto: Viktor Mogilat | Pexels

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11 Novembro 2025

É necessário “reparar” a vida consagrada? Ao menos, é urgente garantir que a esperança seja protegida contra a mentira, a violência e a confusão.

O artigo é de Joseph Famerée, superior provincial da Europa francófona dos Sacerdotes do Sagrado Coração, professor emérito da Université catholique de Louvain e copresidente do Groupe des Dombes, publicado por Settimana News, 07-11-2025. 

Eis o artigo.

O congresso pelos 100 anos da revista Vies Consacrées foi realizado nas Faculdades Loyola de Paris, nos dias 24 e 25 de outubro de 2025, e se perguntou, com audácia e sem tabus, se era necessário reparar a vida consagrada, considerada agora danificada, “quebrada”…

O que reparar na vida consagrada

Após a apresentação do tema pela irmã Noëlle Hausman, s.c.m., diretora de Vies Consacrées, toda a manhã — além da Eucaristia presidida pelo cardeal Ángel Fernández Artime, s.d.b., pró-prefeito do Dicastério para a Vida Consagrada — foi dedicada a uma reflexão sobre a “reparação”.

A irmã Isabelle Le Bourgeois, s.a., psicanalista, explorou o que é irreparável e o que ainda não foi reparado. Na vida consagrada, é preciso antes de tudo reparar os corpos e as almas feridas, mas também o que impede essa vida de florescer. Reparar exige reconhecer o que precisa de reparo e verificar se isso ocorre. É necessário compreender e afirmar claramente que, nas vidas martirizadas das vítimas, há muito de irreparável (todo retorno ao passado é impossível).

Esse trabalho ajuda a definir como se manifesta hoje o que foi danificado por esse irreparável: o “não reparado”, tudo o que ainda pode ser restaurado. Mas com que finalidade? Para o maior bem-estar das vítimas, mas também para uma melhor compreensão do que é a vida consagrada e do que permitiu que tudo isso acontecesse.

Qual é o propósito da vida consagrada, senão a consagração à Boa Nova anunciada por Jesus Cristo? Como não perdê-la de vista? Será necessário repensar o modo de viver em comunidade (relação autoridade-obediência, vida fraterna), refletir com maturidade sobre o corpo, sobre a relação homem-mulher, e buscar um modo de viver os votos em verdadeira liberdade.

O professor Didier Luciani, teólogo e biblista emérito da UCLouvain, analisou o conceito judaico de Tikkun olam (“reparar o mundo”), especialmente na cabala do século XVI: reparar/aperfeiçoar através da realeza do Onipotente. Originalmente jurídico, o Tikkun olam tornou-se uma categoria mística e, no século XX, um programa de ação e justiça social.

Aspectos críticos

A tarde do primeiro dia foi dedicada a uma denúncia vigorosa do que não funciona na vida consagrada e na vida eclesial. A professora Marie-Jo Thiel, leiga consagrada, médica e teóloga da Universidade de Estrasburgo, denunciou as disfunções eclesiológicas e éticas expostas pela “crise dos abusos”.

Por que alguns consagrados chegam a cometer agressões sexuais? Esperava-se que um estilo de vida evangélico fosse protetivo, especialmente em relação aos mais vulneráveis — aqueles pelos quais Jesus demonstrava predileção. No entanto, muitos responsáveis institucionais não denunciaram os crimes nem escutaram as vítimas.

Essa crise se deve a disfunções institucionais ligadas a uma eclesiologia hierárquica e fechada — ausência de separação de poderes episcopais, sacralização do poder clerical, marginalização da mulher — além de distorções teológicas e éticas. O mais grave: o clericalismo autoritário, com seus abusos de poder e de consciência.

O padre Patrick Goujon, s.j., editor da revista Recherches de Science Religieuse, denunciou com veemência o impasse atual da vida consagrada, incapaz de enfrentar as violências que ela mesma gerou. Perguntou-se também sobre os recursos da espiritualidade para sair dessa contradição ao Evangelho. Se os abusos são fruto de um mau funcionamento estrutural, é a própria concepção da vida espiritual que precisa ser revista.

O dom de si exige submissão para dar fruto evangélico? O corpo está excluído da exigência do amor a Deus, a si e ao próximo? Enquanto as Escrituras foram manipuladas para justificar o injustificável, que recursos espirituais podem ajudar a vida consagrada a ser realmente um caminho de salvação?

Segundo Goujon, o problema dos abusos é que o batismo é negado na prática. É preciso combater o mal à maneira de Cristo, enfrentando as tentações, inclusive a de calar-se para manter o poder. Para Inácio de Loyola, a graça consiste em conhecer interiormente Jesus Cristo e também em discernir as artimanhas do inimigo.

A irmã Agata Zielinski, x.m.c.j., filósofa e especialista em ética médica nas Faculdades Loyola, refletiu sobre o papel das emoções em uma vida consagrada abalada. O contexto dos abusos nos deixa desorientados — é momento de dar voz à raiva, tristeza, indignação e desolação.

As emoções, longe de serem estranhas à vida espiritual, podem ajudar no discernimento e alimentar o agir ético (ao contrário do formalismo de Kant). A admiração, por exemplo, pode ser tanto uma fascinação alienante quanto um espaço de alegria realista e crítica.

O padre Benoît Carniaux, o.praem., da Abadia de Leffe, encerrou o primeiro dia com um contraponto reflexivo.

Novas esperanças

O segundo dia do congresso abriu caminho para a esperança.

O padre Bruno Cadoré, o.p., médico, teólogo e ex-Mestre da Ordem Dominicana, falou sobre “uma esperança sem evidências, ou o consolo da esperança”. Esperar é testemunhar o invisível (cf. Rm 8,24), com perseverança.

A vida consagrada busca manifestar essa esperança no mundo, renunciando a certezas fáceis. As crises, disse ele, decorrem do fato de que as autoridades humanas substituíram a Palavra da Verdade, traindo a confiança depositada nelas. Instituições em busca de prestígio silenciaram violências e confundiram emoção religiosa com busca sincera da verdade.

É necessário “reparar” a vida consagrada? Ao menos, é urgente garantir que a esperança seja protegida contra a mentira, a violência e a confusão.

A manhã seguiu com oficinas temáticas, entre elas: “Reparar os sobreviventes?”, “Reparar a vida comunitária?”, “Reparar os votos?”, “Reparar o acompanhamento espiritual?”, “Reparar a liberdade nas relações?”, “Reparar o vínculo com as Escrituras?”, “Reparar nossas imagens de Deus?”, “Reparar as instituições?”, “Reparar a Igreja?”, “Reparar o planeta?”.

Fraternidade diferenciada e ecumenismo

Na tarde final, o irmão Éric Bidot, novo bispo de Tulle e ex-ministro provincial dos Capuchinhos, abordou o tema da obediência em uma fraternidade diferenciada: uma relação entre adultos responsáveis, onde a autoridade é serviço e o dissenso tem espaço legítimo.

O padre Joseph Famerée, provincial dos Sacerdotes do Sagrado Coração da Europa francófona, tratou da experiência ecumênica como fonte de renovação para a vida consagrada — o “paradigma ecumênico”: diversos, mas conectados.

O ecumenismo busca restaurar a comunhão entre as Igrejas em sua legítima diversidade — espiritual, doutrinal e prática — com base em um consenso diferenciado, que sustenta diferenças legítimas.

Não é também esse o chamado da vida consagrada — viver a unidade na diversidade de pessoas que não se escolheram, mas que partilham um mesmo ideal do Reino?

A mesa-redonda final concluiu com um apelo: buscar a verdade na vida consagrada, crescer em maturidade para deixar emergir o desejo de Deus e viver juntos na liberdade da fé.

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