24 Setembro 2024
Todos os dias, um genocídio de proporções colossais é perpetrado na fronteira que separa o sul do norte do mundo.
O artigo é de Franco Berardi, publicado por El salto, e reproduzido por Outras Palavras, 23-09-2024. A tradução é de Glauco Faria.
Franco Berardi, mais conhecido por Bifo, é um filósofo, escritor e agitador cultural italiano. Oriundo do movimento operaísta, foi professor secundário em Bolonha e sempre se interessou sobre a relação entre o movimento social anticapitalista e a comunicação independente.
Eis o artigo.
Genocídio palestino leva o Estado israelense ao isolamento internacional, desenhando cenário que pode resultar em colapso interno. Um reflexo das profundas desigualdades entre o Norte e o Sul globais, onde os interesses de poucos podem levar à desgraça de todos.
Moshe Feiglin, líder do partido sionista libertário Zehut [Identidade] e membro do partido Likud de Netanyahu, declarou que o genocídio não deve parar até que não reste um único palestino vivo. Alguns objetarão que se trata de um sujeito desequilibrado que não representa o povo israelense. O fato de ele ser desequilibrado é absolutamente óbvio, mas infelizmente a maioria dos israelenses é tão desequilibrada quanto ele e pensa o que ele diz, mesmo que nem todos o afirmem explicitamente. O status de colono, o hábito de discriminar milhões de mulheres e homens que vivem a um passo de sua casa e o cinismo interesseiro em que a população israelense vive há décadas são as causas desse desarranjo mental.
O dia 7 de outubro desencadeou o surto de loucura assassina: a crueldade e o horror não podem mais ser relegados a um espaço marginal, pois chegaram ao centro da história. A sensatez e os sentimentos humanos são um resíduo que somente os desertores podem cultivar. Com a chegada da estação quente em Gaza, o problema da falta de água assume proporções catastróficas. Israel encheu deliberadamente centenas de poços de água com concreto e destruiu as unidades de água potável existentes no norte da Faixa. Em Jabalia, foram registradas as primeiras mortes por sede entre crianças e idosos. Nem mesmo os nazistas usaram a fome e a sede como armas de guerra contra a população civil. Isso é um crime segundo os padrões internacionais: um crime horrendo, um extermínio em massa cruel, cientificamente estudado e premeditado.
Mas agora, após oito meses de genocídio, acredito que Israel está prestes a cair em um caos sangrento de guerra civil e violência suicida, porque essas pessoas não são mais capazes de raciocinar. O Jerusalem Post publicou um artigo em 17 de junho declarando explicitamente que a guerra de Netanyahu está perdida, porque o Hamas não pode ser eliminado: sendo o produto (simetricamente insano e cruel) da violência e do ódio, o Hamas cresce a cada dia que passa. E Thomas Friedman, um colunista pró-Israel do The New York Times, escreveu nesse jornal em 18 de junho: “Israel como conhecíamos não existe mais […]. Israel de hoje está em perigo existencial”.
Não sou estrategista, mas meu palpite é que a verdadeira guerra para Israel ainda não tenha começado. Até agora, tem sido um genocídio, um ato unilateral de extermínio, semelhante ao que as tropas de Hitler realizaram contra a população judaica indefesa. Até o momento, as tropas do Hezbollah estão apenas observando. Friedman escreve: “Ao contrário do Hamas, o Hezbollah tem mísseis de precisão que podem destruir seções inteiras da infraestrutura de Israel, seus aeroportos, suas universidades, suas bases militares e suas usinas de energia. Consequentemente, é provável que, em um futuro próximo, testemunhemos o ataque que empurrará Israel para o abismo no qual merece afundar. Friedman conclui seu artigo com um apelo para que se reconheça que o Hamas venceu a guerra:
Ouço críticas dos partidários da linha dura que me dizem: Friedman, você vai permitir que Yahya Sinwar saia de seu túnel e declare vitória? Eu respondo: sim, vou. Mas depois eu gostaria de ir à coletiva de imprensa de Sinwar e perguntar a ele: “Caro Sinwar, você está dizendo que esta é uma grande vitória para o Hamas: a retirada total de Israel e um cessar-fogo estável. Como você pode explicar aos cidadãos de Gaza que você provocou oito meses de guerra, que resultaram na destruição de 70% dos edifícios de Gaza e causaram 37 mil mortes, muitas delas de mulheres e crianças, para se encontrar exatamente onde estava em 6 de outubro?
Tudo o que Friedman escreveu é verdadeiro, exceto a última frase. O enorme preço que os palestinos pagaram, a meu ver, não melhorou a vida deles, apenas piorou, e nisso concordamos. Mas conseguiu algo que era inimaginável há oito meses: colocou Israel no rumo da derrota, da mais infame desgraça, do isolamento internacional e da guerra civil e dissolução. A um preço terrível, a vingança do Hamas foi consumada. Mas até agora estamos apenas nos prolegômenos; que cenário se abre após essa derrota de Israel, após a imensa crueldade infligida e sofrida pelo Hamas e pelo povo de Gaza? Logo descobriremos que nessa pequena parte do mundo ocorreu a antecipação da guerra que está sendo preparada globalmente em todos os lugares. O povo racista, colonialista, excessivamente armado e senescente de Israel é a guarda avançada do Ocidente. E o povo da Palestina, endurecido por décadas de violência e humilhação, é a guarda avançada do mundo colonizado que está se preparando para a vingança.
Todos os dias, um genocídio de proporções colossais é perpetrado na fronteira que separa o sul do norte do mundo. A guarda costeira grega, que joga ao mar migrantes africanos ou afegãos, e os governantes italianos, que impedem o resgate no mar e entregam os migrantes em fuga à guarda costeira líbia, são os guardiões de uma fortaleza sitiada: alvos miseráveis, que perderam todo o senso de humanidade, porque percebem a proximidade de um acerto de contas, cuja única linguagem será a crueldade e o horror.
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