Do porão do navio negreiro ao painel do aplicativo. Entrevista com Ruy Braga

Foto: Agência Brasil

04 Julho 2026

Ruy Braga  — professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), livre-docente pela mesma casa, doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, pós-doutor por Berkeley, coordenador do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania e autor de A política do precariado, finalista do Jabuti, e de A rebeldia do precariado — é talvez o sociólogo brasileiro que com mais método mapeou a acumulação do capital e a cor de quem trabalha.

A entrevista que segue parte de uma pergunta aparentemente escolástica — o racismo é necessidade ou contingência do capitalismo? — para desembocar numa tese que não admite meio-termo: não há livro-razão da acumulação que não tenha, no rodapé, um corpo que ele se recusa a contar.

Há um lugar no mundo onde essa frase deixa de ser metáfora — Cartagena das Índias, primeira metade do século XVII: o maior mercado de escravos do Novo Mundo, o porto em que a população negra era seis vezes maior que a branca, a dobradiça atlântica onde — como o próprio professor Braga costuma dizer — a conquista da terra se punha a serviço da conquista do trabalho.

Os navios atracavam e, nos porões, vinham, em vez de pessoas, fileiras de “carga avariada”: corpos que a travessia havia reduzido a número, a frete, a saldo. Foi ali que Pedro Claver, jesuíta catalão de Verdú, fez descer aos conveses imundos não uma doutrina, mas o próprio corpo — alimento, água, o manto com que cobria os que já não conseguiam mover-se, as mãos que limpavam as feridas deixadas pelas correntes.

Assinou, pelo resto da vida, com uma fórmula que talvez seja a mais exata definição de kenosis jamais estampada num voto: Petrus Claver, aethiopum semper servus. “Escravo dos escravos. Para sempre.”

O que Claver enxergou foi precisamente aquilo que o comércio fazia questão de não ver. Onde os mercadores liam carga e os teólogos do lucro discutiam se aqueles seres possuíam alma, ele restituía um rosto: punha os negros à frente das filas da confissão, antes dos pobres, antes das crianças, antes dos brancos, invertendo no átrio da igreja a hierarquia que o cais impunha.

Não foram os traficantes que o aplaudiram — foram eles que o hostilizaram, suspeitando, com razão, que aquele homem corroía por dentro um negócio próspero. É essa a lição que atravessa quatro séculos e meio e reaparece, intacta, nas páginas que o leitor tem diante de si: o capital não inventa a diferença; ele a encontra pronta, herda-a do escravismo e do colonialismo, e a converte em regime de acumulação. A cor não é acidente da exploração. É seu rodapé contábil.

Mude o século, conserve a operação. O que outrora se inscrevia no livro de bordo hoje se inscreve no algoritmo. As antigas formas de expropriação associadas à racialização — diz o professor Ruy Braga, e os microdados lhe dão razão — são traduzidas em métricas de desempenho, sistemas de reputação, dispositivos automáticos de vigilância.

O entregador negro da periferia que pedala sob a gestão de uma plataforma é avaliado, ranqueado, bloqueado e descartado por uma contabilidade que se anuncia neutra e que, no entanto, opera sobre um mercado de trabalho esculpido por séculos de desigualdade. O porão virou aplicativo; a carga avariada virou população “permanentemente substituível”; o negreiro, que ao menos tinha rosto, virou interface. Muda a técnica da espoliação, não muda a sua vítima preferencial.

Diante disso, Ruy Braga recusa tanto o conforto da nostalgia — não há hegemonia lulista a ser restaurada — quanto a ilusão de que o consumo cura a insegurança existencial. Quando a esquerda abandonou os territórios da precariedade, foram as igrejas neopentecostais que organizaram materialmente a vida das famílias trabalhadoras e foi a extrema direita que lhes ofereceu pertencimento; quando o algoritmo apertou, foram os próprios entregadores que, nos breques, reinventaram por conta uma economia moral da subsistência. Há, nos dois movimentos, a mesma intuição antiga: a de que ninguém se deixa reduzir a saldo sem reagir.

Aqui o jesuíta de Cartagena e o sociólogo de São Paulo dão as mãos sem que nenhum dos dois precise abdicar de si. Pois o gesto decisivo de Claver não foi a caridade — foi a recusa de olhar de longe.

Descer ao porão, contemplar agindo, reconhecer um sujeito onde o sistema havia carimbado uma mercadoria. É exatamente o que Ruy Braga reivindica para a sociologia pública no fecho desta conversa: que os trabalhadores não sejam apenas objetos de governo ou de pesquisa, mas sujeitos ativos da transformação.

Mais de quatrocentos anos, num cais que agora se chama plataforma, a tarefa permanece a mesma — devolver o rosto a quem a contabilidade do mundo ainda insiste em contar como carga.

O professor Ruy Braga concedeu esta entrevista, por e-mail, ao mestre e doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Comparada (PPGHC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Thiago Gama.

Ruy Braga. (Foto: Arquivo Pessoal)

Eis a entrevista.

Em sua recente palestra “Capital Accumulation and Racial Oppression: Contingency or Necessity?”, o senhor abordou a relação estrutural entre racismo e acumulação capitalista. Poderia desenvolver essa tese? O racismo é uma necessidade funcional do capitalismo ou uma contingência histórica que poderia ser eliminada sem superar o próprio capital?

Ruy Braga – A meu juízo, o racismo não é uma invenção do capitalismo. No entanto, o capitalismo historicamente existente jamais prescindiu de formas de racialização, isto é, de mecanismos de expropriação política dirigidos a populações submetidas ao escravismo, ao colonialismo e ao imperialismo, por meio dos quais se organizou a exploração do trabalho.

Nesse sentido, a questão não pode ser respondida em termos abstratos. Quando examinamos historicamente a expansão capitalista desde o século XVI, percebemos com clareza que a acumulação de capital esteve profundamente associada à produção e à reprodução de hierarquias raciais. Como costumo dizer, no capitalismo, a conquista da terra está a serviço da conquista do trabalho.

A escravidão atlântica, o colonialismo, a expropriação de populações indígenas, os regimes de trabalho migrante segregado e o apartheid constituíram formas históricas de acumulação decisivas para a expansão do capitalismo em escala global.

A opressão racial, a divisão racializada do trabalho e os distintos regimes racializados de acumulação permitiram reduzir os custos de reprodução da força de trabalho, legitimar formas extremas de exploração e fragmentar a solidariedade entre os trabalhadores. É precisamente nesse sentido que sustento o caráter necessário da relação entre acumulação capitalista e racismo.

Minha abordagem dialoga com a tradição do capitalismo racial desenvolvida por autores como Harold Wolpe, Clóvis Moura e W. E. B. Du Bois, enfatizando o desenvolvimento desigual e combinado das relações entre capitalismo e racismo, bem como a centralidade da luta de classes enquanto processo que se constitui no âmbito nacional, mas se desenvolve em escala internacional.

O capital não produz diretamente o racismo; ele se apropria, reconfigura e instrumentaliza diferenças sociais historicamente construídas para convertê-las em regimes de acumulação.

Para tanto, depende da alienação do trabalho, da concorrência entre os trabalhadores, da formação de uma superpopulação relativa, da expansão colonial, do imperialismo e da divisão racializada do trabalho.

Em outras palavras, depende da articulação entre expropriação política e exploração econômica em escala global. Por essa razão, o combate ao racismo exige não apenas políticas antirracistas, mas também transformações mais profundas das relações sociais de produção que sustentam a exploração capitalista e reproduzem, em novas condições históricas, as hierarquias raciais.

Seu conceito de “precariado global” ganhou enorme repercussão internacional. Em 2026, o senhor tem enfatizado a dimensão racial da precarização. Como a racialização do trabalho se articula com as novas formas de exploração plataformizada, e de que maneira essa articulação se manifesta de forma distinta no Brasil e em outras formações sociais?

Ruy Braga – Nos anos 2000, quando comecei a estudar a formação do precariado global, meu objetivo era destacar a emergência de uma vasta camada de trabalhadores submetidos à insegurança permanente, à alta rotatividade ocupacional e à erosão progressiva dos direitos sociais, um processo que se aprofundou significativamente após a crise da globalização neoliberal deflagrada em 2008.

Eu procurava compreender a condição de uma parcela crescente da população trabalhadora aprisionada entre o aprofundamento da exploração econômica e a ameaça permanente da expropriação política.

Desde minhas pesquisas etnográficas sobre a indústria paulistana de call centers, tornou-se cada vez mais evidente para mim que esse fenômeno não pode ser adequadamente compreendido sem incorporar a questão racial como uma dimensão constitutiva da precarização contemporânea. A formação do precariado global é inseparável dos processos históricos de racialização do trabalho.

As plataformas digitais oferecem um exemplo particularmente interessante dessa dinâmica. Elas não inventaram a racialização do trabalho; antes, a reorganizaram sob novas bases tecnológicas.

Os algoritmos distribuem riscos, custos e incertezas de forma aparentemente neutra, mas operam sobre mercados de trabalho previamente estruturados por desigualdades raciais, territoriais e educacionais. Quando analisamos os microdados da PNAD contínua, observamos que indicadores como renda, cobertura previdenciária e escolaridade, revelam diferenças persistentes entre trabalhadores brancos e negros inseridos nas atividades plataformizadas, especialmente entre motoristas e entregadores.

Não se trata de uma coincidência. No Brasil, entregadores, trabalhadores da logística, terceirizados e empregados dos serviços urbanos são desproporcionalmente recrutados entre a população negra e periférica.

A plataformização não elimina essas desigualdades; ao contrário, tende a reconfigurá-las. Antigas formas de expropriação política associadas à racialização são traduzidas em métricas de desempenho, sistemas de reputação, mecanismos automatizados de vigilância e dispositivos de gestão algorítmica que intensificam a exploração do trabalho, especialmente, dos trabalhadores negros.

Em outras formações sociais, essa dinâmica assume configurações específicas. Na Europa Ocidental, a racialização do trabalho está frequentemente associada à incorporação subordinada de trabalhadores migrantes provenientes da África, do Oriente Médio e de diferentes regiões do Sul Global.

Na África do Sul, ela permanece profundamente marcada pelas heranças institucionais e espaciais do apartheid. Já nos Estados Unidos, a precarização contemporânea se articula a uma longa história de segregação racial, discriminação no mercado de trabalho e encarceramento em massa.

Apesar dessas diferenças, existe um denominador comum. A acumulação capitalista contemporânea depende crescentemente da produção e da gestão de populações trabalhadoras consideradas permanentemente substituíveis, socialmente vulneráveis e sistematicamente expropriáveis.

É precisamente nesse ponto que a questão racial assume uma dimensão central da compreensão das novas formas de exploração do trabalho no século XXI.

Em The Politics of the Precariat, o senhor analisou a hegemonia lulista e sua crise. Com a ascensão do bolsonarismo e sua persistente capilaridade social, como o senhor avalia a recomposição — ou a impossibilidade de recomposição — de um bloco popular capaz de enfrentar o neofascismo, especialmente entre os trabalhadores precarizados que foram capturados pelo discurso da extrema direita?

Ruy Braga – A hegemonia lulista foi construída a partir de uma combinação singular entre crescimento econômico, ampliação do consumo popular, relativa eficácia das políticas públicas redistributivas e incorporação institucional dos movimentos sociais.

Enquanto persistiu o ciclo de expansão econômica, esse arranjo foi capaz de produzir aquilo que denominei de hegemonia lulista: uma forma de direção política assentada na melhoria gradual das condições de vida das classes populares sem confrontar os interesses associados à globalização neoliberal.

O problema é que a crise da globalização neoliberal iniciada em 2008 e, posteriormente, a recessão brasileira de 2015-2016 revelaram os limites históricos desse modelo de integração da classe trabalhadora pelo consumo e pelas políticas redistributivas.

Uma parcela expressiva dos trabalhadores precarizados experimentou a mobilidade social dos anos 2000 de maneira instável, parcial e reversível. A partir de meados da década de 2010, muitos desses trabalhadores foram rapidamente devolvidos à insegurança social e laboral, em um contexto agravado pelas escolhas econômicas desastrosas adotadas durante o segundo governo Dilma Rousseff que, sem dúvidas, aprofundaram no país as contradições abertas pela crise da globalização neoliberal.

Quando a crise se generalizou, o sentimento predominante deixou de ser a expectativa de ascensão social para dar lugar ao colapso da hegemonia lulista.

O bolsonarismo soube capturar politicamente esse mal-estar social associado, evidentemente, ao segundo governo de Dilma Rousseff, mas também a um mercado de trabalho que oferece péssimos empregos formais para a imensa maioria dos trabalhadores.

O bolsonarismo não apenas logrou projetar uma imagem de maior assertividade em temas relacionados à segurança pública, grosseiramente associado à proteção social desejada pelas famílias trabalhadoras, como soube fornecer pertencimento moral, reconhecimento simbólico e uma poderosa narrativa de guerra simbólica a uma parte substantiva desses grupos de trabalhadores que foram sendo abandonados durante a crise dos anos 2010.

A extrema direita compreendeu algo que parte da esquerda demorou a perceber: a precarização do trabalho e das condições de reprodução da vida produz não apenas carências materiais, mas também uma profunda insegurança existencial, que não pode ser compensada apenas pela ampliação do consumo.

É nesse contexto que devemos interpretar a importância crescente das igrejas, especialmente das correntes pentecostais e neopentecostais, embora fenômenos semelhantes possam ser observados em diversos segmentos das denominações protestantes históricas.

Essas instituições desempenham um papel decisivo não apenas na produção de pertencimento simbólico, mas também na organização material da vida cotidiana das famílias trabalhadoras.

Por meio delas são construídas redes de sociabilidade que difundem oportunidades de emprego, facilitam a contratação de serviços, estimulam pequenos negócios e oferecem formas concretas de apoio comunitário.

Ao mesmo tempo, promovem padrões de racionalização dos gastos familiares, disciplinamento da juventude, incremento educacional, acolhimento espiritual, proteção contra a violência social, além de valorização moral do trabalho, contribuindo para estabilizar trajetórias familiares marcadas pela insegurança social.

Por essa razão, a reconstrução de uma nova hegemonia popular de caráter progressista não depende apenas da implementação de políticas redistributivas concebidas “de cima para baixo”. Ela exige a criação de formas coletivas de pertencimento “de baixo para cima”, solidariedade e organização capazes de responder aos medos, às incertezas e às angústias produzidos pela precarização do trabalho e da vida social.

Não acredito na simples restauração da hegemonia lulista que caracterizou os anos 2000. O desafio consiste em construir novas coalizões entre trabalhadores e setores médios empobrecidos, enraizadas nos territórios periféricos, no trabalho informal, nas juventudes negras e nas formas emergentes de organização dos trabalhadores dos serviços. Somente a partir dessa reconstrução será possível enfrentar de maneira duradoura a influência social e política da extrema direita no interior das classes trabalhadoras.

O senhor dedicou atenção às greves e à “rebeldia do precariado”. No entanto, o trabalho controlado por plataformas parece atomizar ainda mais os trabalhadores. Existem formas embrionárias de resistência coletiva entre motoristas de aplicativo e entregadores que indiquem um novo ciclo de lutas, ou o algoritmo tende a bloquear estruturalmente a ação sindical?

Ruy Braga – As plataformas digitais foram concebidas precisamente para dificultar a ação coletiva dos trabalhadores. Elas individualizam as relações de trabalho, fragmentam os espaços de sociabilidade, intensificam a concorrência entre os próprios trabalhadores e transformam a gestão do processo produtivo em uma dinâmica profundamente alienada, submetida ao que poderíamos chamar de despotismo algorítmico.

Sob a aparência da neutralidade tecnológica, os algoritmos assumem funções tradicionalmente exercidas pela gerência, controlando ritmos, remunerações, avaliações e até mesmo a permanência dos trabalhadores na plataforma.

No entanto, a história do capitalismo ensina que toda inovação destinada a disciplinar o trabalho acaba produzindo novas formas de resistência. Ou, para lembrar uma formulação de Toni Negri, toda estruturação gera o seu próprio antagonista.

Os entregadores brasileiros ofereceram um exemplo notável desse processo durante os chamados “breques dos aplicativos”. O que observamos foi o surgimento de formas híbridas de organização coletiva, articuladas por meio das redes sociais, apoiadas em lideranças fluidas, pautadas por reivindicações concretas e dotadas de uma surpreendente capacidade de coordenação em escala nacional.

Apesar das enormes dificuldades para consolidar organizações permanentes e acumular forças de maneira continuada, esse ciclo de mobilização produziu efeitos políticos relevantes.

As reivindicações dos trabalhadores de plataforma passaram a ocupar a agenda pública, influenciaram debates regulatórios e abriram canais de negociação com o Estado, contribuindo para redefinir as relações entre o lulismo e essa nova fração da classe trabalhadora.

Trata-se de experiências que não substituem os sindicatos, mas que tampouco podem ser interpretadas a partir dos modelos sindicais herdados do fordismo. Estamos diante de um verdadeiro laboratório de novas formas de ação coletiva, cujo desenvolvimento permanece aberto e repleto de possibilidades.

Em suma, os algoritmos certamente dificultam a organização dos trabalhadores, mas não eliminam o conflito social. Em muitos casos, tornam ainda mais visível a arbitrariedade do poder patronal exercido pelas grandes corporações globais de tecnologia.

Quando um trabalhador é bloqueado sem explicação, quando sua remuneração é reduzida unilateralmente ou quando as metas se tornam progressivamente mais inalcançáveis, cria-se um terreno fértil para aquilo que analisei em A rebeldia do precariado, a saber, a emergência de insurgências plebeias impulsionadas pela defesa das condições sociais de subsistência.

Essas mobilizações tendem a se enraizar em uma economia moral que articula expectativas compartilhadas de proteção social, mobilizando trabalhadores, suas famílias e suas comunidades contra a deterioração de suas condições de vida.

Em última instância, trata-se de uma reação coletiva à ameaça permanente da mercantilização da força de trabalho, da terra e do dinheiro — ou, para retomarmos Karl Polanyi, das chamadas “mercadorias fictícias” —, cuja expansão contínua corrói os fundamentos sociais necessários à reprodução da vida.

Politicamente, a questão decisiva consiste em saber se essas insurgências serão capazes de se converter em formas mais duradouras de representação, organização e poder coletivo.

Se conseguirão construir instituições capazes de articular a energia das mobilizações espontâneas com estratégias de longo prazo. Isso implica, inclusive, a renovação do próprio sindicalismo.

O desafio não é abandonar os sindicatos, mas reformá-los para que possam representar os trabalhadores do presente e do futuro, e não apenas atuar como guardiões das conquistas sociais herdadas do passado.

O senhor combina rigor acadêmico com intervenção pública. Em um momento em que a universidade é atacada e o pensamento crítico é deslegitimado, qual é o papel do sociólogo do trabalho como intelectual público na reconstrução democrática do Brasil?

Ruy Braga – A tarefa do sociólogo público consiste em produzir conhecimento socialmente relevante para públicos engajados sem abdicar da profundidade analítica, do rigor metodológico e do diálogo crítico com a evidência empírica.

Isso significa traduzir os resultados da pesquisa para o debate público, dialogar com sindicatos, movimentos sociais e organizações populares, mas também preservar a autonomia intelectual indispensável à compreensão sistemática da realidade social.

Vivemos um período histórico em que a democracia brasileira enfrenta desafios profundos: a persistência das desigualdades sociais, a fragmentação dos vínculos coletivos, o avanço de tendências autoritárias, em alguns casos abertamente neofascistas, e uma crise de representação política que se expressa na crescente desconfiança em relação aos partidos, aos sindicatos e às organizações tradicionais da esquerda.

 

Nessa conjuntura, o papel da universidade não é oferecer respostas prontas nem substituir os sujeitos da transformação social. Sua função consiste em ampliar a capacidade coletiva de formular perguntas relevantes, interpretar criticamente os conflitos de seu tempo e contribuir para a construção de alternativas capazes de transformar as condições de vida das classes subalternas.

A sociologia do trabalho possui uma contribuição específica a oferecer nesse debate. Ela nos permite compreender como as transformações do mundo do trabalho plasmam a política, a cultura e a vida cotidiana das classes sociais subalternas.

Sem compreender a experiência vivida dos trabalhadores, em especial, daqueles situados nas franjas mais precarizadas do mercado de trabalho, dificilmente seremos capazes de imaginar formas de reconstrução democrática à altura dos desafios do século XXI.

Como observou recentemente o filósofo Axel Honneth: “uma das principais limitações das teorias contemporâneas da democracia consiste em esquecer que os cidadãos celebrados como soberanos são, em sua esmagadora maioria, sujeitos trabalhadores”.

Em última instância, a superação da crise da democracia depende da democratização das condições de vida e de trabalho. Não há cidadania ativa onde predominam a insegurança social, a precarização do trabalho e a corrosão dos vínculos de solidariedade coletiva.

É justamente nesse terreno que as sociologias pública e crítica continuam encontrando sua principal razão de ser: contribuir para que os trabalhadores não sejam apenas objetos de governo ou de pesquisa, mas sujeitos ativos da transformação democrática da sociedade.

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