Postais de uma Copa do Mundo pós-nacional. Artigo de Luís Madrigal

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14 Julho 2026

A atual Copa do Mundo dilui as fronteiras tradicionais: jogadores recrutados pelo LinkedIn, seleções nacionais sem jogadores nascidos no país que representam e torcedores da diáspora reafirmando suas identidades à distância, em um torneio onde o nacionalismo parece cada vez mais disperso e fluido.

O artigo é de Luís Madrigal, publicado por Nueva Sociedad, em julho de 2026. 

Luís Madrigal possui doutorado em Línguas e Literaturas Românicas pela Universidade de Chicago. É autor de Always an Ephemeral Place (Literal, 2025). Leciona no Departamento de Cinema da Universidade da Califórnia, Berkeley.

Eis o artigo.

Quinze ou vinte anos atrás, o que a televisão — o meio de comunicação por excelência para o futebol — noticiava sobre os jogadores das seleções nacionais de pequenos países como Curaçao ou Trinidad e Tobago era que, durante o dia, esses homens eram carpinteiros, professores ou bombeiros, e à noite jogavam futebol. Jogar pela seleção nacional era uma espécie de trabalho voluntário, algo a mais que faziam pela comunidade; não recebiam nem um centavo sequer, não eram profissionais. Mas todos os conheciam em São Cristóvão e Névis ou São Vicente e Granadinas, e por isso era fácil — imagino — convidá-los a vestir a camisa e entrar em campo por algumas horas.

Hoje, a televisão noticiou que a federação cabo-verdiana usou o LinkedIn para recrutar um jogador para a seleção nacional. Antes da Copa do Mundo deste ano, Roberto Lopes recebeu uma mensagem em português. Pensando ser um golpe, ele a ignorou. Meses depois, entraram em contato com ele em inglês: "Você considerou nossa oferta?" Lopes, que nasceu na Irlanda, onde viveu a vida toda e joga pelo Shamrock Rovers, então usou o Google Tradutor para ler a mensagem inicial e descobriu que era genuína. Ele aceitou a oferta.

Então, a televisão noticiou que nenhum dos 11 jogadores titulares do Marrocos havia nascido no país, algo inédito na história da Copa do Mundo. O torneio de 2026 também será a primeira Copa do Mundo a ser disputada entre três países. Em 2030, pelo menos uma partida será realizada em seis (Argentina, Paraguai, Uruguai, Espanha, Marrocos e Portugal). Esses podem parecer meros detalhes, mas, juntos, são sinais de um fenômeno de desterritorialização em torno da maior competição esportiva entre nações do mundo.

A palavra "sede" perdeu o seu significado, assim como a palavra "nacional", quando se refere às seleções nacionais. Não digo isso com nostalgia; estou simplesmente tentando descrever a situação.

Essa falta de gravidade, essa sensação de um navio à deriva (em relação à matéria, ao concreto), também permeia outros aspectos do torneio. O preço exorbitante dos ingressos, que todos discutem como uma inevitabilidade atmosférica, é talvez a prova mais flagrante disso. A participação da seleção iraniana sem muita controvérsia em meio a uma guerra (jogaram nos Estados Unidos, mas tiveram que ficar no México); a presença fantasmagórica do presidente da FIFA nos camarotes VIP (Guadalajara pela manhã, Nova York à tarde); os rumores sobre a "falsa" Shakira na cerimônia de abertura (uma cerimônia que aconteceu três vezes: uma em cada país); as pausas para hidratação em estádios com ar-condicionado; os closes em bebês flutuando nas arquibancadas. Antes mesmo do início do torneio, já se presumia que haveria enormes problemas com o controle de imigração para jogadores e torcedores entrando nos Estados Unidos, possíveis batidas policiais para deportação em massa, protestos contra a guerra, a inflação ou o presidente. Em vez disso, a norma foi a tranquilidade, a ausência de obstáculos visíveis.

Esta é, portanto, o tipo de Copa do Mundo em que você ganha ingressos sem esforço, ali mesmo, no campo. Vinte anos atrás, eu tive que ficar em uma fila enorme do lado de fora de um supermercado na Cidade do México para bater um pênalti em frente a um gol de papelão com três buracos. Se eu acertasse a bola em todos, ganharia um ingresso para a Alemanha. Perdi por um, e quem sabe se era verdade mesmo. Agora, dois meses atrás, recebi um e-mail não solicitado de uma operadora de telefonia perguntando, com a simplicidade de um cartão de Natal (ou seja, um golpe): Você quer ir à Copa do Mundo? Eu tive que clicar. Cliquei. Eles me agradeceram e nada aconteceu. Um mês depois, me disseram que eu tinha ganhado e perguntaram sobre minhas restrições alimentares. O remetente do e-mail era algo como "events78.com". Claro, achei que não era real, mas eles não estavam pedindo nada em troca. "Os ingressos aparecerão no seu celular 72 horas antes da partida", garantiram. E apareceram.

Precisei pegar dois voos para chegar a Houston, que não estavam incluídos no prêmio. Quem sabe que uso perverso fizeram do meu perfil alimentar, porque ninguém sequer me ofereceu água. Meu irmão foi entrevistado em uma rádio portuguesa (completamente sem relação com o sorteio), e depois aparecemos na televisão. Quando me perguntaram o que eu achava da "recepção que Houston nos deu", minha resposta analítica foi bastante modesta: "Dizem que o estádio tem teto."

Antigamente, era difícil obter sinal de celular em shows ou estádios. Geralmente se presumia que a concentração de ondas causaria algum tipo de colapso. Essa suposição parece ter sido refutada. Todos no jogo entre Portugal e República Democrática do Congo que assisti em Houston estavam usando seus celulares, em parte porque agora é possível obter um chip SIM eletrônico invisível, que permite nunca ficar sem dados, não importa onde você esteja.

Dentro do estádio, vi muitas pessoas ao telefone, quase sempre em videochamadas. Ao meu redor, vi pessoas em frente às telas de outras pessoas — pessoas na cama, no sofá, na cozinha — assistindo a transmissões ao vivo do campo onde Bon Jovi estava tocando. Vi a mesma coisa quando os jogadores saíram de campo, quando os gols foram marcados: pessoas em seus telefones transmitindo ao vivo ou gravando para mostrar a alguém mais tarde o que tinha acontecido, onde estavam, como era estar na Copa do Mundo.

Essas experiências tardias se repetiram no chamado Fan Fest: o espaço ao ar livre que a cidade organizou como um festival de música ou festa junina (participe e ganhe uma toalha!) para assistir aos jogos em telões gigantes. Durante o intervalo, um DJ entrava em cena e as pessoas dançavam, cantavam, formavam enormes filas de conga, e tudo era gravado ou enviado para alguém que não estava presente.

A presença constante dos celulares em nossas vidas já não nos assusta. Aliás, talvez tenhamos superado o receio de que o telefone nos "tire" do momento, nos aliene, nos impeça de aproveitar, e por aí vai. Muitas das pessoas que vi gravando estavam completamente absortas em sua própria diversão. Se é que houve alguma mudança, foi para um nível superior em nossa relação com o aparelho, que agora nos sussurra: o vídeo ficará melhor se você comemorar o gol com mais entusiasmo, se entrar na roda, se dançar de mãos dadas, se abraçar aquela outra pessoa. Como as pessoas que leem no metrô em busca de um parceiro: a justificativa importa menos do que o ato em si.

A acusação de fingimento persiste desde tempos imemoriais: "Ele fez isso para aparecer na TV, fez isso para sair no jornal, fez isso porque queria que Holbein o pintasse." É como dizer: "Ele arrumou o cabelo para a foto." Bem, mas ele arrumou sim. Estar diante da câmera nos leva a sorrir, a beijar, a brincar com o fotógrafo. O simples ato de tirar uma fotografia é reconfortante, como disse Susan Sontag. Às vezes, o momento do abraço, dois ou três segundos, vale mais do que a própria fotografia, que ninguém jamais vê novamente.

Sontag também afirmou que o ritual de tirar fotografias se estabeleceu num momento histórico em que a industrialização ameaçava a unidade da família, em seu duplo sentido. Não se tratava apenas de as crianças estarem indo para a cidade e talvez se perdendo na multidão, mas sim de que a forma de organização social, o componente básico para a ordem e o reconhecimento, era agora o bairro, o sindicato, o partido político. A fotografia de família, então, representava um esforço claustrofóbico de restituição simbólica, de ordem diante da dispersão. Hoje, por telefone, ocorre um fenômeno semelhante, sem precedentes em sua escala: muitos de nós não vemos nossos melhores amigos, nossos pais ou nossos irmãos há anos porque acabamos vivendo em diferentes cantos do planeta. Essas chamadas de vídeo durante um jogo no estádio tentam uma restituição análoga, um fio de nostalgia. São a reconstrução efêmera de um universo familiar radicalmente transformado pela migração em massa e pela aparente obsolescência do que antes se chamava de ligações de longa distância.

A questão da diáspora é exacerbada nos Estados Unidos, um país moldado por ela. O Iraque está jogando contra a França, e vejo jovens, homens e mulheres, na torcida do Houston Fan Fest vestindo camisas da seleção iraquiana e agitando bandeiras do Iraque em meio aos aplausos. Não é preciso muito para perceber o quão improvável é essa cena, apenas 20 anos após a invasão de Bagdá e a completa demonização da palavra Iraque. A Noruega está jogando contra o Senegal, e vejo uma família senegalesa chegando ao festival como se estivesse indo à missa: banhados, bem vestidos e emocionados por poderem dizer que são de lá, que o time que vemos nas telas é o seu país. O mesmo acontece com os uzbeques que encontro em Houston, ou com os haitianos em Miami, os marroquinos em Nova York e os mexicanos por todos os Estados Unidos. Os mexicanos, para surpresa dos jogadores uzbeques e portugueses, se organizam espontaneamente por volta dos 80 minutos da partida e começam a gritar: "México, México, México!" Uma seleção fantasma e uma comunidade real que, de repente, dentro da massa, se reconhece, se autoidentifica e se reafirma.

Todas essas pessoas registram, fotografam, enviam mensagens pelo WhatsApp; publicam a documentação da experiência em torno da partida para que outros possam ver; aqueles que não estão aqui, aqueles que ficaram, ou aqueles que foram embora, quem sabe para onde. Quem sabe onde nasceram os jogadores da seleção, e o mesmo pode ser dito dos torcedores. Quem sabe onde acabaram morando, mas por um instante (algumas semanas para alguns, um mês para poucos) o que flutua, o que está disperso, se organiza por cores.

Essa organização já parecia ameaçada durante a última Copa do Mundo. No Catar, houve até suspeitas de que o governo estivesse pagando grupos de imigrantes do sul da Ásia para vestirem as camisas de diferentes países e saírem às ruas para comemorar diante das câmeras. Mas agora é a própria ordem mundial que reafirma ou acelera a condição contextual de um fanatismo intercambiável e sem raízes. O deslocamento em massa de pessoas, o movimento frenético de capital, sementes e barris pelo planeta (a palavra "Hormuz"), a atual situação de soberania questionada na Venezuela, Cuba, Ucrânia, Irã, Gaza, o aumento constante das reivindicações territoriais ou de autonomia étnica: é o Estado-nação que tenta, com certa ansiedade, reunir todos para uma última foto de grupo onde os perfis de cada indivíduo ainda sejam discerníveis.

A tensão é óbvia, palpável; basta ver o que um aluno medíocre da Escola de Frankfurt veria: os comerciais de TV. Nos Estados Unidos, onde são disputados 75% dos jogos da Copa do Mundo, onde foi introduzido um intervalo obrigatório para inserir mais publicidade nas transmissões, onde são produzidos anúncios multimilionários que as pessoas assistem voluntariamente no YouTube, há um comercial de batata frita que se repete incessantemente durante todas as partidas. Nele, o comediante Will Ferrell interpreta um motorista de ônibus que busca um grupo de pessoas que não planejavam assistir à Copa do Mundo neste verão. Will Ferrell os convence. Ele os coloca no ônibus, que tem uma tela gigante no fundo. Na verdade, não é um ônibus: é um trailer de comercial. Esses torcedores casuais agora gesticulam com paixão. Eles já estão vestindo a camisa de seus times. De repente, o time sofre um gol que parece eliminá-lo da competição. "Quem se importa?", pergunta Will Ferrell com um toque de exasperação, "Escolham outro time!" O caminhão avança sem motorista (para onde?) e as pessoas dentro arrancam as camisas. Estão usando outra por baixo. Estavam chorando e agora estão rindo.

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